domingo, 12 de outubro de 2008

# meu chapa 9 x 3 los borrachos e.c.

Amigo leitor, sabe-se que os fatos da vida infanto-juvenil costumam não sair de nossas memórias e, por vezes, parecem querer se (re)materializarem, assim, de súbito, como à frente se constatará. Mas, antes, vamos ao contexto.
O placar final, 9 x 3, com seu ar de pelada de bola de meia, não chegou a constituir um banho, tamanha era a pressa e a sonolência -- sim, não se faziam antagônicas -- do MEU CHAPA FUTEBOL E REGATAS na sua segunda apresentação pela Copa OAB. Por sua vez, disposto a um 0 x 0 funesto, o adversário mostrava-se valente, entrosado e quase hermético, tamanha era a obediência orwelliana com que se dispunha nas quatro linhas.
Embora logo aos 2 minutos, em jogada individual, Sandroski tenha aberto o placar, em chute de fora da área -- um dos poucos do primeiro tempo, diga-se --, a inovação tática imposta pelos inimigos -- postados num bem ajustado 6-0-1 --, pareceu ter surpreendido os meuchapenses.
Era óbvio o domínio do meio-campo, mas isso não justificava a pressa e a afobação com que a dupla polaca e os alas insistiam em fazer a bola chegar à frente, sempre pelo meio, de qualquer maneira e com muito dribles, sem perceber que se devia fazer o jogo jogar, como se diz no rico e progressista município de Irati. Não obstante isso, o escrete alvi-rubro consegue marcar mais duas vezes -- com Sandroski, de novo, e Román --, enquanto que, num lance inaceitável de escanteio, Sautxuxa acaba por ter a sua meta penetrada. Era 3 x 1 no placar.
Ciente do seu plano de jogo e animados com o solitário gol, a equipa losborrachiana volta a se enclausurar e o MEU CHAPA, como se formado por britoneiras humanas, obstinava-se no cego caminho central, para desespero do back Oliva, do líbero russo Z. Samsa e do Mr. Roger Donald, que exortavam por uma nova postura construtiva e ofensiva. Mas, sem eco prático, parecia que tudo caminhava para um marasmo sem fim, até que, meus senhores, o grande momento dessa primeira metade de jogo acontece.
Entremos, agora, na mente de Z. Iljitsch Samsa e vejamos a cena que nela se passava, aos exatos 28 minutos do primeiro tempo, numa bola que vinha alta em sua direção, ao canto, prestes a sair: Guaratuba, 1986, numa área baldia da pequena cidade praieira, o pequeno (mas quase já de barba) infante russo e seu primo disputam uma tensa e decisiva partida de bete-ombro... eles estão sem os tacos... a partida já é quase perdida... uma só rebatida e uma só corrida eram suficientes para que perdessem o jogo... o menino Zède (como assim era conhecido) tem a bolinha nas mãos... afaga-a... concentra-se... mira a lata de Minuano posicionada e protegida na casinha pelo taco adversário... parte para o arremesso... arremessa... o movimento retilíneo uniforme da sua trajetória parece ser certeiro.... parece... mas não é... como um foguete, a bolinha é rebatida, na exata direção de Zède... e a dupla adversária começa a correr... Zède não tira os olhos da bolinha... ela vem chegando... e vem... e se aproxima... e quando quer passar por cima da sua cabeça... Zède pula, pula alto, alcança-a e, no toque, grita: “Vitória 1, 2, 3!!”... é o êxtase.... Zède e seu primo vencem um jogo quase perdido e são aclamados como heróis pelos vizinhos nativos... Bem, mas na verdade (e no plano real) o que se viu como resultado desse injustificável e estulto toque de mão foi um cartão amarelo para o líbero russo e uma cobrança perigosa de falta, a exigir a boa intervenção do ala Serginho, que finalmente aparece na história. É o fim desta etapa.
No intervalo, ao pé do banco e na ponta dos pés, Le Petit Roger, a citar Goethe com sua frase antes da morte, clamava aos berros para seus comandados: “Licht, licht, mehr licht”. E parece que todos entenderam, pois funcionou. Mexeu no time -- sacando o lesionado polaco Grabicoski e o pendurado Z. Samsa e fazendo entrar o meio-campo Capanêltima e o lateral Haríate -- e, pelo menos durante os 15 minutos iniciais, os olhos do distinto público voltaram a luzir, tamanha era a opulência técnica e tática da equipa alvi-rubra, já logo marcando três gol em seqüência -- Román e Sandroski, por mais uma vez cada, e Capanêltima, em belo e longo chute – e criando outras tantas chances perdidas, para depois, num contra-ataque, em repetido e injustificável vacilo defensivo, sofrer outro.
Levado o gol, voltou aquele jogo enfadonho, nauseabundo, sem criatividade e que, pior, colocava em risco a retaguarda meuchapense, exigindo nova intervenção de Mr. Roger Donald, que recoloca o líbero russo Z. Samsa -- já refeito do período de abdução -- e faz jogar Irräti de Camões e Juscelino DeNixon, este quase rebatizado pelo pouco sereno e bastante intranqüilo homem-de-preto, que, de melhor, se prestou apenas a literalmente ensinar os losborrachianos, de uma vez por todas -- inclusive oferecendo um vídeo educativo --, a cobrarem arremesso lateral, haja vista as quatorze reversões assinaladas.
Assim, o time volta a ganhar consistência e se impor, criando jogadas e marcando mais três vezes – Z. Samsa, Griza e Román, de nov.... mas, atenção meus amigos leitores: este último tento foi daqueles de outro mundo, dignos de placa, de merecer nome em barra de chocolate ou de estampar o seu feitor nas mais diversas propagandas de xampu ou de cotonetes.
Sim, num lançamento de quarenta jardas, Z. Samsa coloca a bola com a “ponta dos dedos” -- desta vez de modo metafórico -- no peito do romeno Román, que, de costas para o gol, ajeita o esférico, plana como um típico morcego da Transilvânia, e, de bicicleta, acerta o canto direito da meta losborrachiana. Uma pintura.
Porém, talvez ébrios pelo derradeiro gol, o MEU CHAPA passa novamente a vacilar e sofre um gol em bela jogada do centroavante adversário -- e de extrema delicadeza da dupla que o marcava --, ilustrando em definitivo o que fora o match daquela tarde: três bons momentos, com 3 gols em cada, e três péssimos momentos, com 1 gol em cada.
Diante disso, soerguendo-se das cinzas da mediocridade, é de se esperar que no próximo jogo o MEU CHAPA trate de brilhar, ao melhor estilo do que seus heróis podem e costumam fazer.

Meu Chapa Futebol e Regatas 9 x 3 Los Borrachos E.C.
MCFR*: Sautxuxa; Oliva (Irräti); Serginho (DeNixon), Z. Samsa (Haríate) e Griza; Sandroski e Grabiscoski (Capanêltima); Román. Téc.: Mr. Roger Donald.
Gols: Román (3), Sandroski (3), Z. Samsa (1), Griza (1) e Capanêltima (1).
Cartões amarelos: Oliva, Z. Samsa, Haríate e Sandroski (MCFR); 4 (LBEC).
Renda e público: não divulgados
* não participaram Rick Royce, Mestre Kisha, M. Salamones e Leônidas Rudi, todos lesionados.