quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

# libertador


Quando o Clube Atlético Paranaense entrar em campo hoje, no crepúsculo do dia, na nova velha Baixada da Vila Capanema, contra os mais fortes bolivianos, começará o maior campeonato de futebol do planeta.

Sim, meus amigos, as batalhas da Taça Libertadores da América juntam-se para formar a maior de todas as guerras, soerguida como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.
 
É aqui, pela nuestra América, onde o futebol é jogado na sua essência, na sua pureza, onde maestros, cavalos, deuses e hinchas desfilam juntos em epopéias dantescas.
 
Aqui é o "Inferno", meus senhores.

Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras latino-americanas. 

Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas; são, sim, jogadores, são heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do Céu.
Ora, não me venham com as lantejoulas das arenas alemãs climatizadas, as pompas dos gramados de pastagem de vacas holandesas, as purpurinas dos uniformes demi-sec franceses, a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas, o brilho comportamental da perfumada massa torcedora austríaca e seus canecos de vidro encervejados ou toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonista.
 
Não, meus amigos, não. 
 
Este nosso jogo é incapaz de ter a beleza pornográfica de todos aqueles espetáculos europeus, de ter a fleuma civilizatória do bom selvagem do velho mundo e de ter o bolo bilionário de tantos euros.
 
Ela tem, diria Vinícius e batucaria Baden, "qualquer coisa" além da beleza. 

Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa, afinal, na Copa Libertadores tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta. 

E mais.

Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor machucado, transborda em uma alegria sublime, sui generis, incompatível a qualquer outra de padrão europeu. 

Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelos mais depauperados amores, pelo mais irraciocinado dos amores – e se chora, e se grita, e se late, e se morre, e se arrebenta a veia para que tudo acabe em um deleite inentupitivo, inexplicável.
 
E não tentem convencer um argentino, um chileno ou um uruguaio do contrário: todos, todos sabem que as suas cores representam uma paixão, paixão que cada um sabe de cor, feitas apenas para serem amadas, e para ao final sofrerem de um eterno amor. 

Como aqui, com o azul, o branco, o preto e o rubro-negro de cada coração que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infintos noventa minutos. 
 
Senhores, a Copa Libertadores é assim: feita de paixão, feita de sangue, suor, cuspes e lágrimas, como em nenhum outro canto desportivo da Terra se vê e nem se tem.
 
De hoje até o seu fim, nada mais importa neste reino de Bolívar, Artigas y San Martín.

E nada mais nos restará, até sabermos qual abençoado clube será libertado desta vez. 

Saravá!