quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

# ornitorrinco


Há momentos em que o absurdo criado para lambuzar a realidade é tamanho que até temos a impressão de ficar em dúvida do lado em que estamos.

É, pois, o que ocorreu com o caso da grande mídia na cobertura do acidente que matou o cinegrafista, em especial a maneira torpe, vil e repugnante com que o jornal e a tevê Globo agiram em relação ao deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL (RJ). 

É claro que o PSOL perdeu a linha, perdeu o rumo e, hoje, é paradoxalmente a maior arma da direita. 

A sua atuação repercute e funciona nos moldes dos partidos comunistas na Europa, os quais tanto insistem numa inconsequente oposição aos governos de cento-esquerda, que as suas  consequências passam a  flertar com a retomada do poder por coalizações reacionárias, radical-conservadoras ou neo-nacionalistas.

Inconsequente porque é cega, é rasteira, é enfezada, é enviesada, é enviuvada.

E, em especial, onírica.

E um exemplo ilustra bem isso. Foi a campanha da Sr. Heloísa Helena nas últimas eleições ao Senado Federal, em 2010: viajando por toda a Alagoas de Kombi, dormindo em redes pela estrada afora ou nas casas de correligionários, desabitadas de lobos-maus, e sem aceitar dinheiro ou maçãs de ninguém, fez uma propaganda impressionantemente franciscana das suas ideias e ações, sem alianças, sem técnica e sem um mínimo merchant (e, claro, sem o apoio da mídia). O resultado? Perdeu, e o povo de Alagoas ganhou Lira (PP) e Renan Calheiros (PMDB).

Hoje, portanto, o PSOL vislumbra o mundo mágico dos sonhos e joga para a platéia – e, como dissemos, joga perigosamente para a platéia, que medusicamente alienada poderá vir a capturar qualquer Marina Silva para apaziguar a consciência de que "é preciso mudar tudo" (sic), na linha do que receitam psolistas e congêneres. 

Afinal, como sói lhe ocorrer, o Brasil jamais dará voto a estes partidos vermelhões; pior, caso queiram mesmo acreditar que hoje trafegamos no inferno – como se propaga na homilia diária da mídia, da direita e da esquerda raivosa –, brasileiros e brasileiras sempre preferirão o verniz de alternativas descoladas e politicamente corretas, na já citada linha de Marina e seus multicolor caps

Em suma, pragmaticamente o que querem é brincar de fazer política, ficar no carrossel platônico, surfando na onda de uma conceição imaculada que jamais os deixarão sujar as mãos.

Mas isso é uma coisa, e o que a dona platinada fez com Freixo já é outra.

Ora, é claro que o deputado não está, e nunca mereceu estar, acima do bem e do mal, tão-pouco é um protótipo da excelência parlamentar. 

Mas isso tudo não permite que se ache justo e correto enxergar válida a sordidez midiática na cobertura do caso, desprezando por completo a sua pessoa e a sua trajetória e o alocando no rol de tantos porcos e bandidos que estiveram na vala da política carioca.

E mais, imputando-lhe uma ilegítima responsabilidade, como se um Nero, o vilão que ateou fogo nas praças do Rio, ou, ainda, como se um Jim Jones, o grande líder místico que hipnotizou centenas de marginais mascarados para se comportarem como celenterados. 

Aí, não.

Portanto, não é o PSOL que me faz merecer qualquer solidariedade, mas Freixo, que mesmo com muitos erros no meio de alguns acertos não pode ser triturado em rede nacional por um veículo cujo lastro moral e envergadura ética tendem a zero.

Entre Globo e Freixo, portanto, não há dúvidas de que lado estar – afinal, bem sabemos o que é e do que se alimenta aquele sistema.