terça-feira, 1 de abril de 2014

# órbita de transferência


A última pesquisa do IPEA – "Tolerância social à violência contra as mulheres"
 (v. aqui) – revela um quadro que dispensaria uma enquete para denunciar o óbvio ululante: o caráter ainda machista da nossa sociedade.

É abjeto, é triste e é inadmissível ainda convivermos com estas ideias e com a visão que uma grande parcela da população tem da mulher, da mulher-objeto, da mulher coisificada, da mulher usufruto do homem, da mulher como mera fêmea do bicho macho. 

Mas isso é uma coisa, e as deduções que se têm feito de parte do seu resultado é outra.

A questão é que uma pesquisa não consegue dizer a verdade, a objetiva verdade por detrás das respostas que, intencionalmente ou não, acaba produzindo.

No trecho ao qual me refiro, bastaria emendar duas perguntas em sequência: "Você acha que uma mulher que usa roupas que mostram o corpo merece ser atacada?" e, depois, "Você acha que quem ataca uma mulher que usa roupas que mostram o corpo merece ser jogado aos leões?".

Se a resposta para a primeira causou surpresa pelo número de afirmativas, a segunda, tenham certeza, não causará, pois a quase totalidade dirá um sonoro "sim".

Logo, haveria contradição nisso?

Não, pois a construção das questões leva a respostas deste tipo, óbvias para o padrão da sociedade brasileira ou mesmo para um modelo lógico de interpretação.

Num país tão desigual, formado por ilhas de prosperidade num mar de pobreza, violência e deseducação, os contextos em que as coisas acontecem devem ser levados em conta.

E a própria pesquisa dá pistas disso, pois ao perguntar "Se a mulher se comportasse mais, haveria menos estupros?", a maioria dos entrevistados disse "sim". 

Porém, devemos analisar isso sem nos submetermos ao reducionismo de que o "decote da vítima" não pode ser a prova da sua culpa.

Ora, a grande parte do Brasil ainda vive se amontoando nas periferias, sem estrutura estatal, com descaso público, uma pulsante insegurança e um histórico centenário de falta de educação básica.

E aí, quando perguntado, o sujeito da pesquisa, de pronto, já imagina a cena: a mulher descendo do ônibus, no meio do nada institucional, a caminhar pelo chão de terra batida toda alta, forte, cheia, cabelos grossos, olhos oblíquos de cigana e, no detalhe, especialmente apertada em trajes miúdos de chita, acreditando em sua volúpia venusiana ser uma Capitu em ruelas suecas.

Por aí, é claro que o brasileiro médio, por silogismo, infelizmente responderá que isso é um comportamento inadequado ao lugar, à situação, e que, neste cenário, não custaria à mulher precaver-se – o tal comportar-se –, sob pena de, imaginem, sofrer o "ataque" de um filho da puta qualquer. 

Afinal, não sejamos hipócritas: no que tange esta concupiscente razão, a violência física contra as mulheres concentra-se no lado B do Brasil, no lado mais fraco da parte mais fraca da nossa brava gente que circula no pântano obscuro das vilas e senzalas, na órbita abandonada pelos poderes republicanos.

É evidente que a mulher não merece sofrer qualquer tipo de constrangimento físico ou moral.

É claro que a mulher tem todo o direito de ser, comportar-se e vestir-se como bem queira – e que talvez somente com esta sua exuberante liberdade poderemos ver outras ideias brotar do imaginário coletivo, enraizado numa história de submissão e humilhação femininas.

Contudo, militância e ideologia não devem se dissociar da realidade solar que, diariamente, nos arromba a retina.

Mais Estado, mais educação e mais segurança pública são as imprescindíveis fontes para se combater o ultrajante senso-comum confirmado nesta pesquisa.

E muito mais sérias que algumas sessões de topless na praia de Copacabana.