sexta-feira, 15 de agosto de 2014

# lava de chumbo

 
No virtual espaço sideral de uma amiga (v. aqui), deparei-me com um texto bacana, escrito por Osho, de quem acho nunca ter ouvido falar.
 
Fala de solidão, de solitude e do singular momento a sós...
 
Descobri este meu "vazio" vagando pela Europa, no meu particular camino santiagués, em profundos setenta e tal dias a rodar da Ibéria ao Leste, da Escandinávia ao Adriático, com o centro do velho mundo como eixo e a busca do meu novo centro como meta.
 
Peregrino, senti ultrapassar os limites da "solitude" do tal Osho; lá, uma solidão sem fim abria espaço para tudo e, perigosa, levava à torrente intensa de ideias, teses, dogmas e sentimentos que faziam aprofundar ainda mais num espaço sem fim.
 
Tem-se uma verdade: como nunca se pode, são nestas situações que nos pervertermos para abrir os olhos e (se) ver, e (se) enxergar, e (se) reparar. E se intocável, vagueava até tatear numa realidade cada vez mais clara, num cheiro cego de quem ali só escutava o buraco meio misantropo de línguas que vinham a toda hora diferentes: o húngaro do diabo, o polonês da wodka, o português do pravda, o coaxar do croata e o sueco de um mundo que um dia há de vir – e que assim seja (amém...).
 
Sê!, adverte.
 
E deixa-me notar algo de muito errado no ar.
 
Ar rarefeito, sublinhe-se.
 
E que aspirado por quem não era, traz o arrebatador efeito de compreender que a ordem das nossas coisas merece um novo arranjo, merece a desordem para ser reconstruída à imagem e à semelhança de tudo o que é mais justo neste nonsense mar que permanece dividido, diluído, morto.
 
Antes da solidão, enquanto ainda se está apenas sozinho, embrulha-se num estômago de inquietações que se faz sentir sem mentir, que se sente permitir levar-se adiante como se aquilo tudo não fosse com você, e como se dissimular para todo o exército que se forma diante do espelho fosse a resoluta salvação.
 
Não, não te resolve.
 
Não, você não consegue não se ver.
 
E mais.
 
As emas que em volta emanam e borbulham aos borbotões, reclusas com suas cabeças mergulhadas em outro planeta, não te podem convencer de que a ótica é outra, de que o-seu-ponto-de-vista-não-tem-a-vista-verídica e de que as viscosas e grossas vistas de quem finge não querer ver compõem o melhor remédio da terra – e, naquele infindo tempo de isolação, você simplesmente percebe que lá atrás dele e de todas as sete cores daquela turva imensidão está, enfim, o pote de colírio.
 
Mas, sem calma, não se permita o mínimo resfôlego.
 
É que a sina solitária finge-se para não se mostrar que ali se está só no começo.
 
Sempre, sempre no começo, a te levar só para eternos recomeços que te fazem sempre querer voltar ao zero, à vala vazia, àquela avara estaca do status quo ante, ao estado que te mantém no falso estado que te alivia para te alienar na pureza da inércia, do cômodo, do morno engodo vomitado pelas letras cartesianas da lei, da moral e dos bons costumes que por toda a vida te desencaminharam.
 
Esta é a promessa, esta é a jura da existência.
 
E por isso o privilégio por encontrar a gota d´água da cola mágica que sempre prometeram jamais existir.
 
Sim, sozinho, e na poética vágada da solidão, se descobre melhor o mundo.
 
Único, como um álbum de figurinhas que de criança quase desisti: custoso, curvo, demorado e difícil, mas que completei e que para sempre ficará comigo guardado.
 
Como ficarão, espero, as lições aprendidas daquela minha silenciosa peregrinação.
 
Todas bem emaranhadas, apreendidas no labirinto da alma.