terça-feira, 27 de janeiro de 2015

# corcova

 
 
A luz seduz a inundar o manancial de uma esperança que ao cabo sepulta.
 
Não, não há final antes da saída.
 
Não, não sou um corpo.
 
Sou o revés da minha existência que degela por entre os dedos.
 
A forma entornou.
 
Sou uma obra cubista que se conforma na deformação idealista do pintor cansado.
 
De vesgueio observo no espelho a mutação em avalanche.
 
Sou o avesso que se aterra na massa bruta que berra a pressa do fim consumado.
 
A forma entortou.
 
Em vão ouço os berros que vêm na contramão.
 
Não, de dentro.
 
Demãos contínuas tentam dar um sopro de aparência viva à esta natureza morta.
 
Ouço os cupins a percorrer a madeira em seus nós.
 
E entre engulhos, hei de ver soçobrar poeira.
 
De um corpo moído pela lança que chibata e amassa em chios brutos.
 
Não, não sou mais um corpo.
 
Sou o que se espera que resta do que deixa a maré baixa.
 
Uma ilusão cuja saída fora engolida pela areia.
 
Eis que houve, sim, um final.