terça-feira, 27 de janeiro de 2015

# trypanosoma



No fundo dos meus olhos a cor é o amarelo.
 
Não é ouro, não douro a pílula, não reflete o tesouro de outrora.
 
É o fígado.
 
Na íris estalada estampo o pulsar do meu fígado.
 
Dele, sou hoje testemunha ocular do passado.
 
Ingrato, fui com ele insensato e insensível.
 
Ele hoje apenas dá o troco, um soco, um upper que deixa tudo exposto em postas.
 
É o fígado, sei que é o fígado.
 
O cheiro do ralo que sinto é o cheiro do fígado decomposto.
 
Não, não foi a aveludada compota de ontem que tudo me estragou.
 
Ela foi vítima, outra, do meu fígado que já se abusa como o dono da situação.
 
O gosto da saliva é dele.
 
Ouço ele.
 
Temo ele.
 
Dei, agora, de falar com ele.
 
“Teu fígado não está nada bem”, confessa com um ar de desilusão.
 
E nem precisava, pois bem noto nos poucos tocos de dedos que me sobram quando me toco.
 
Hoje freneticamente caem os restos dos meus pedaços.
 
Cãibras que de tão intensas fazem meus ossos tremerem, bagunçando-se desconfortavelmente como se clamassem socorro.
 
Passou da hora, sou agora uma fagocitose ambulante.
 
Meu fígado me engole.
 
Meu fígado me expele.
 
E as dores são do parto que de mim faço.