terça-feira, 17 de outubro de 2017

# crepúsculo


O assoalho tem um branco
meio mórbido como se
num cadavérico cinza
que precede o preto.

O teto à testa
atesta a laje
do precipício sem parapeito.

O brilho oleoso
abafa os natimortos caracóis
que por fora já emboloram
sob o casco pesado
do fardo carregado.

Rugas e verrugas
camuflam a serra
torta e talhada
que no espelho do leito
do rio são desveladas.

Na imagem tento decifrar
o feio que sem culpa
me devora
ao bel-sabor do tempo
ou do unguento béchamel.

E nesse insosso reflexo
desencesto da memória
a glória escondida
da altiva existência passada.

Eis soçobrar pedaços,
lascas puídas
do desfecho doído
e sem cor.

À sombra de mim,
hoje tento juntar
os cacos que somem no breu.