sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

# tábula

 
 
Raspo, aqueço, esqueço,
esfrego diuturnamente
a pet em litros
encontrado ao baldio.
 
E nada.
 
Cheiro, asso, amasso,
dechavo ao avesso
aquela coca choca
tropeçada na noite.
 
E nada.
 
Um gênio! Uma sereia! Uma fada!
 
E nada.
 
Cadê o artrópode cheio de asas
a soltar fogo pelas ventas
para arrancar com seus dentes e tridentes
meus desejos ingênuos?
 
Como suplico se aflito imerso
neste pinico nada vejo
senão o marrom glacê
a boiar imenso
e meio amarelo?
 
Fujo com meus sonhos
pelo ralo onde calo e estalo
na inglória certeza
de chegar ao mar
e parar livre da queda.
 
A navegar sem rumo,
com uma obscura bússola na bainha,
chego ao meu subterrâneo
aconselhando-me como um grilo errante
catando cigarras que cantem a farra
sabática das cinzas de um domingo qualquer.
 
Ao pé da minha orelha,
ouço a minha voz cigana
que clama pelo meu desengano.
 
Ao pé da minha cruz,
sussurro em pigarros
o fim da vida rouca
que me dessalga nu e sem colete.

E sem nadar. 

Afogo-me
embebido nas trevas da desilusão sempiterna.