sexta-feira, 15 de abril de 2016

# a covardia de espírito



Decidir pela democracia não é uma questão de “escolha”.

Assim como apenas votar não significa que se vive uma democracia.

Ocorre que, sob o aspecto formal, o ato de votar é um símbolo da democracia.

E por isso votamos, e por isso cada um, com suas visões de mundo (ideologia) ou seus raciocínios matemáticos – o voto também costuma se medir por cálculos objetivos – escolhe seus “representantes”. 

Assim, nada mais lógico do que se frustrar ao não ver que a sua escolha vingou.

A frustração da escolha perdida, porém, está muito aquém da base maior que sustenta a sua possibilidade de escolha: a Constituição.

E desta Constituição, seus fundamentos, objetivos e princípios reitores.

No Brasil, não à toa, a primeira frase do art. 1º diz que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito.

Logo, não se há o direito a escolher entre viver ou não numa democracia.

Ela, repita-se, ao menos no seu aspecto formal, está posta e somente um golpe de Estado retira-a do nosso plano institucional.

Razão pela qual cumprir regras, submeter-se à normas, obedecer ritos e aceitar o resultado das urnas são deveres fundamentais de todo cidadão.

Claro, há remédios constitucionais que evitam abusos, garantem os indivíduos e corrigem erros – o impeachment, inclusive, é para isso previsto no nosso ordenamento, como uma medida extrema e excepcional para, desde que cabal e incondicionalmente fundamentado na lei, expurgar criminosos da titularidade do Poder Executivo.

Mas “remédios” não servem como pílulas homeopáticas, placebos ou mandinga.

E por isso exigem seriedade no uso terapêutico, e por isso não se brinca com eles.

Ora, não se escolhe um tarja preta para curar diarreia.

Se o desatino intestinal é incontrolável, há outros meios de curá-lo.

Pela educação, por exemplo.

Aprende-se a comer direito, a ingerir alimentos saudáveis, a beber água, a evitar frituras e comida de plástico, a ouvir sérios conselhos, a ler bons livros.

Mas, nunca, um rivotril, um coquetel radioterápico ou uma operação cardiovascular.

Por mais que se goste – “ah... sou fascinado por uma cirurgiazinha...”, alguém pode dizer –, isso não se faz.

Do mesmo modo, por mais que não se goste do sujeito que ganhou uma eleição, não se pode “gostar” de vê-lo tirado na marra, no grito, ao bel-prazer da dupla de médicos plantonistas vulgívagos e de quinta categoria.

Por quê?

Porque isso deve fazer parte da nossa decência cívica, da nossa incolumidade cidadã e da nossa vivência democrática.

É evidente que há muita gente ganhando, direta e concretamente, com este caos e a insurreição golpista: são os vendilhões do nosso templo republicano, mais ou menos expostos, na obstinada busca argentária.

E diante desse pessoal toda lógica, todo direito, toda ética e todos os valores morais são absolutamente desprezíveis, sendo, pois, impossível se cogitar qualquer reflexão para que possam se convencer do contrário – e até os entendo, como filosofaria Schopenhauer.

Por outro lado, há um mar de gente que, à revelia do certo e do justo numa ordem democrática, está a rejeitar tudo isso sem qualquer consciência – de classe, inclusive.

E que, pelas ruas do Brasil, pensa estar desembarcando na Normandia, combatendo a crise, a corrupção e as coisas todas ("tudo-que-está-aí") deixadas para trás desde 2003.

E que, assim, acredita estar escolhendo uma mudança e decidindo pela salvação do país.

Não, não está.

Pelo contrário, está a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa História, que carcome nossos direitos e garantias e tinge com tinta sombria nosso futuro.

Sem saber, vibra e flerta com as trevas de um arquétipo de governo: inventado, armado, enjambrado, sem sufrágio, sem legitimidade, sem programa, sem alma.

E estão a sucumbir a isso.

Estão admitindo viver à margem da democracia, no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente sem pátria e sem coração.

Estão, francamente, a engolir um crime à ordem constitucional sem notar o castigo cruel que se aplica à nossa República, consentindo que se subtraia o direito ao voto de 54 milhões de pessoas.

Estão a ver a imberbe construção da nossa nação vergar e se acabrunhar, de novo.

E estão a aceitar isso, num rotundo temor servil.

Êta, Brasil.