segunda-feira, 25 de julho de 2016

# que só tem o sol que a todos cobre



Por que ainda vivemos em um país com índices de desordem relativamente baixos?

Por que não vemos diuturnamente arrastões, avalanches, tsunamis de violência pelas praias e praças das pólis, eminentes sobreviventes dos espaços públicos das nossas cidades?

O olhar e olfato comuns, sob o senso midiático, faz acreditar que estamos sob o diário domínio do medo, num caos e com a bandidagem aos borbotões, intrépida e incessantemente às nossas portas e em nossas ruas.

E isso, porém, é uma meia-verdade.

É claro que não estamos no Canadá, na Escandinávia ou em Cuba, sítios onde a violência revela índices mínimos, mas isso aqui era para ser bem diferente, era para ser uma Síria em todos os lugares e a todo tempo.

Afinal, arromba a retina a brutal e catastrófica desigualdade no Brasil, uma distância medida a anos-luz entre nossos dois mundos, entre as nossas duas cidades-realidades.

Duas sentenças resumem bem este estado de coisas e nos permitem refletir os porquês: primeiro, com Noam Chomsky, quando diz que "a grande maioria da população não sabe o que está acontecendo e sequer sabe que não sabe"; depois, com Leonardo Boff, ao recentemente dizer que "se os pobres soubessem o que estão preparando para eles, não teríamos ruas suficientes para tanta luta". 

De um lado, ricos, brancos e encastelados em uma vida fidalga que vagueia por um consumo hedonista e que se desbunda na busca da maximização da boa vivência, com seus umbigos como centro de tudo.

Do outro, um contingente de pobres e pretos emputecidos com o cotidiano dantesco que margeia a miséria e que faz suar sangue em busca da mínima sobrevivência, umbilicalmente ligados ao nada periférico.

No primeiro Brasil, a nobreza goza um padrão de vida superior ao daquela parte de um planeta em que o padrão é todos terem, a gozar de uma vida cheia, com mais ou menos exageros – esta nossa elite é a máxima elite de países ricos.

No segundo, a malta estropia-se sob uma ordem social semelhante àquela dos parturidos nos bolsões onde o vazio impera e cujos padrões de desprezo e descaso são, sem exagero, simplesmente trágicos – esta nossa gente é aquela gente das regiões mais miseráveis do planeta.

Repita-se: neste nosso Brasil uma desigualdade tão atroz e abismal deveria produzir catarses diárias, inconsequentes e revolucionárias, ataques incondicionais e diuturnos.

O Brasil, ora pois, seria digno de sofrer sob trevas e escuridão infindáveis (v. aqui).

Afinal, não falamos de nações africanas ou mesmo dos estados pobres latino-americanos.

Falamos da sétima maior economia do mundo na qual pulula uma diferença social avassaladora, uma disparidade econômica ultrajante e uma dessemelhança humana quase pecaminosa.

Em suma, falamos de polos positivo e negativo, de dignidade e indignidade, de tudo e nada convivendo juntos, lado a lado, com poucos choques, com poucos sentimentos e com pouca mescla.

E mesmo assim o Brasil (ainda) não se vê em frangalhos, não se mostra em pulsante guerra e não revela um ódio bélico – a não ser o de "classe" – incapaz de aceitar este nosso tradicional estado de coisas.

Bem se sabe que há espaços urbanos onde, tal qual na órbita do grande capital, vigem códigos de conduta e ética de convivência alternativos, sob o império da legalidade à la carte, à mercê de regras e instituições paralelas.

Mas, mesmo assim, fora destes outros mundos, no "centro" não se nota a descortinação do Direito.

Não se vê a ameaça constante por parte dos excluídos sobre os superincluídos, não se vê a multiplicação de Robins Hoods do bem e do mal – como aqui lembramos – e não se verifica a atuação costumeira de rebeldes sociais em busca do brioche nosso de cada dia.

E por quê? Por que esta bomba-relógio insiste em não explodir? Qual o freio inibitório desta gente toda?

O argumento "policialesco" não se justifica por si só; ora, a própria rational choice seria capaz de responder que, no caso brasileiro, o custo de oportunidade para perverter à ordem e ingressar na criminalidade é muito baixo.

Primeiro, pelo risco de ser pego, processado e preso ser pequeno; segundo, pela ineficácia do sistema, mesmo se levando em consideração que ladrões de galinha preta têm penas muito mais certas que ladrões de colarinho branco; e, terceiro, pelo próprio tempo na prisão que, se porventura houver, não mitiga tanto a assim a sua liberdade – afinal, de qual liberdade está a se falar?

Depois, o argumento "religioso", pela fé divina no comportamento honesto que leva à salvação, creio que também não explica.

Ora, seria algo muito metafísico para suportar toda a carência real de tantos milhões de cidadãos sem nada e absolutamente entregues à própria sorte nascitura as igrejas neopentecostais, inclusive, têm um importantíssimo papel nisso tudo, enxergando e dando voz aos milhões de mudos que se invisibilizam na sociedade.

O "familiar"? Talvez, mas, não sejamos ingênuos: como os pais, os filhos e e todos os espíritos de outros exemplos intramuros haveriam de ser páreos para tudo o que se vê ao redor de luxo e luxúria?

A grande massa não pode entender e não vê na educação, no trabalho e na vida obreira dos seus pares fontes para o futuro, muito provavelmente incapazes de tirá-la do chão de miséria, de assegurá-la as mais básicas necessidades e de atender ao consumismo platinado que tanto incita o desejo felino de ter para ser.

O "pessoal", o "histórico-antropológico", o ethos assente em proposições como a cordialidade, o adoçamento, o conservadorismo e outras raízes? Bem, eles até ajudam a esclarecer algumas coisas à margem da questão da não selvageria, contudo de modo bastante reticente.

O "psíquico", do comportamento humano retraído e passivo extraído da relação entre dominantes e dominados, cujos laços Alain Morice caracterizou como a "motivação subjetiva da dominação"? Sim, até contribuem, mas em seus mais diversos matizes não funciona como conclusiva resposta ao fato.

O "Estado Democrático de Direito", a "Carta Magna", os "códigos", as "consolidações" e os "comitês" de marchas, sindicatos e circos? Um pouco, um pouco, quase nada.

Enfim, chego a uma primeira (e óbvia) conclusão de que tudo se esclarece na reunião de todas estas teses, num blend de tons, talantes e tinos que há séculos nos forma.

Mas, senão menos sui generis (e genérica), a ideia pode simplesmente residir na tese já anunciada no Gênesis, naquele longínquo sexto dia: "e criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou".

E com isso temos visto tudo quanto tinha feito.

E com isso tem nos parecido que, apesar de tudo e de todos, é muito bom.

Seria esta, portanto, a explicação?


A centelha da vida