segunda-feira, 18 de abril de 2016

# a república da bananada: um outro abril



E agora, amarelinhos?

O sentimento de nojo que a triste e deplorável “sessão” deste dia – e que assim já se qualificara independentemente do resultado – na Câmara dos Deputados causou tornou ainda mais caricato os fins das “manifestações” pelo Brasil.

Manifestações que, como num circo romano em que pediam “Impeachment já!” com o polegar virado para baixo, tiveram por resultado revelar, de uma vez por todas, a hipocrisia e a tragédia nacionais no mesmo passo.

Manifestações que, ao cabo, deram nisso: a coroação de Eduardo Cunha como, talvez, o mais poderoso homem público brasileiro.

Um sujeito que todos – menos aqueles que pelas ruas e redes uivavam por um “novo Brasil"... – conhecem por, historicamente, atuar nos esgotos do poder e na lama da política brasileira, num modus operandi clássico de chantagens, arbitrariedades, propinas, estelionatos e traições.

Absolutamente lamentável.

E não é só o planeta Terra que vê este vexatório episódio, como se fosse promovido por uma autêntica “República da Bananada”.

Não!

Quem também está a ver é o espelho de quem sempre apoiou, com faixas, gritos, gracejos, dancinhas e isenções, este estado de coisas.

espelho de quem sempre apoiou, por achar normal, natural e necessária, a expulsão de uma Presidente da República que, tenha ou não todos os defeitos do mundo, não cometeu nenhum crime de responsabilidade.

espelho de quem sempre apoiou, contaminado pela cegueira branca saramaguiana e por um ódio que move montanhas, o descarte de 54 milhões de votos com base em "Deus, na família e na propriedade" (e no grupo de corretores de Goiás, na paz de Israel, na memória do torturador Cel. Ustra, na inflação, na zika etc.).

Mas ali – e é isso que nos conforta – o reflexo não é o nosso, pois aqui estamos – como aqui estivemos, neste domingo, junto a grandes amigos – do outro lado, na nossa trincheira, al otro lado del río.

E por isso que a repugnância, a ânsia e o choro desta noite causarão um dia seguinte de azia, ressaca e lamento – mas também de cabeça erguida pela luta que travamos e a bandeira que empunhamos, pois, como disse o saudoso Darcy Ribeiro, hoje a maior derrota seria estar ao lado dos que venceram.

Agora, muito mais que para o ridículo, o Brasil está sendo empurrado para o sombrio caminho do autoritarismo senil, da esculhambação republicana e do escárnio institucional.

Quem quer nos liderar são estes covardes incapazes de enfrentar a questão posta, de honrar a verdade e se ater aos fatos que tentam justificar o pedido de impeachment, pois, em uníssono, alienavam a justificativa do voto ao contexto político-econômico nacional e, desgraça das desgraças, à transcendência divina e à metafísica familiar.

Ora, que Deus é esse que a chusma canalha clamava para justificar seu voto?

Ora, falavam em nome da família, dos filhos, dos netos e bisnetos... Natural, posto que família, filhos, netos e bisnetos pouco se lixam de onde vem a grana absolutamente suja que os ricos brasileiros – e particularmente a grande maioria destes deputados – abastecem a consciência de suas gerações com casas, carros, joias – sim, este tipo de gente ainda vive num séc. XII e caricaturalmente usa e consome “joias” –, viagens à Disneilândia e todos os tipos de mordomias que para a “família” nunca vem ao caso perguntar (e refletir).

Muito além, não só “não vem ao caso” como perpetuam as regalias com as contínuas sucessões nas capitanias hereditárias do “cargo” e do "capital" que detêm – e justamente por isso jamais se questionou a total inviabilidade de reeleições infinitas para os cargos de Deputado e jamais se avança numa reforma fiscal que definitivamente se tribute a riqueza, por exemplo.

No espetáculo de bordel desta noite o que se via eram pragas e vermes notórios, que agora tentarão se esbaldar no poder com pilhagens tradicionais e programas nauseabundos como o já apresentado "Ponte para o Futuro" (v. aqui).

Em suma, um bando de saqueadores do interesse público e nacional que se mistura à uma safada horda conservadora – aquela que, dentre outras (ir)razões, age segundo tortos e esquizofrênicos versos evangélicos – para provocar um cataclismo na nossa imberbe estrutura democrática.

Nem o mais infausto dos neoliberais, nem a mais baldia das políticas entreguistas tucanas, seriam capazes de provocar o caos que se anuncia, porque agora nem a cara do PSDB o golpe que se constrói terá, tamanha a sopa de malfeitores e de interesses espúrios que está a se preparar.

Pior que o golpe militar daquele abril de 1964, este golpe parlamentar travestido de impeachment é feito de modo dissimulado e mascarado, na garupa do receio de enfrentar um poder popular legitimamente eleito com a “verdade” de tanques e carabinas.

Neste abril de 2016, o Brasil foi simplesmente refém de um terceiro turno.

Mais grave, de um terceiro turno via eleições indiretas, nas quais 300 picaretas tomaram o lugar (e o voto) de 54 milhões de pessoas.

À frente, vislumbro um cenário terrível: caso o impeachment logre êxito, esta escória assume, e como não ganhará nas urnas – sabe que, no voto popular, não ganha nada –, ela estará disposta a tudo para permanecer no poder.

Um tudo que se forma no achincalhamento da democracia, no afastamento dos cidadãos do comando constitucional e no desprezo pela ideia de que todo poder emana do povo e por ele e para ele é exercido.

Em resumo, na não realização de eleições em 2018.

Afinal, estão convictos de que este povo é um mero detalhe.

Apesar de vocês...