terça-feira, 10 de outubro de 2017

# cacos


se dentro em seu coração faz dor

ao som do vento fúnebre pariu

entre as cordas da ânsia ao fastio

o medo de uma trilha em bolor


se insiste no pigarro assombrado o clamor

a angústia das sobras de uma noite em cio

flerta a miragem em nuvem de um silêncio hostil

com o ópio desse rio o embalou






Ousei querer tudo do que não sou.

Estou entregue, nos cascos a vagar sem criar um passado, sem lembrar do futuro.

Juro o brio ausente para virar a esquina: não terei saída

Caindo, andante lento tropeço na vertigem narcisa da ilustração refletida.

Traída caricatura, que sem luz do bueiro socorro grito em vão.

Ao chão de súbito rabisco a fuga movediça, ilusão de liberdade.

Alcaide preso no subterrâneo da existência, a boiar aguardo o despejo.

E o desejo pelo ralo que me parta






frio
acalanto cinza de abraços distantes


saudade
branco vazio à fôrma vazante


solidão
quebranto amargo na morada imigrante


suplício
lamento oco como tragédia errante


fim
encanto tardio de vida diletante






Pouco a pouco na finitude definho

E na vida espalhada ao acaso, ocaso


Louco, na rinha ingrata caminho

E nas feridas baratas em casa, o sarcasmo


Oco, no vazio asfalto minha alma

E em cinza rumino o afeto das memórias, em mora


Rouco em rouco engasgo no silêncio das palmas

E nas ruinas o incerto esplendor da história






Rebaixo a nuca ao beijo frio da morte

Cangaceiro eunuco, queixo teso em mata seca sob o assobio da navalha

Tempo brusco, me escondo e em concha vislumbro o fio do destino ao longe

E embrulho o nunca como pavio e dádiva do amanhã

Pois se na bainha funda empunho a vertigem que pariu meus pesadelos

É do suspiro de adeus que escuto a miragem de um cantil de vida






minha semente plantei no quinta onde nasci e à varanda despetalar via o tempo e as folhas caíam e pelo alto a esperança flutuava em vermelho tijolo como se fosse o chão firme pleno terreno de ilusões e de cipó à lua me atirava como mímico primata a debater ossos à procura de som e de luz e de alguém para me tirar da selva árida de uma nostalgia sem fim






Fui uma vida de quases.

Ou quase.

Vida intransitiva para um complemento ácido.

Hoje caído.

Corroído pela finitude da existência.

Tornei-me reticências de causas e ideias.

Chego no buraco onde busco respostas.

E encontro no gancho da interrogação a saída à força do garrancho que me tornei.






Se contente a ranhura do tempo apaga

Agrura clemente em campo que amarga

Vê prudente a cura num santo à descarga

Juras ausentes que o vento afaga



Se inerte à queda no descaminho padece

Resta o flerte desatino tivesse

E na fresta que antecede o vaticínio da prece

Perde e versa o destino como quem adoece