terça-feira, 24 de agosto de 2021

# e la nave va


Pela editora da UFSM, acaba de ser publicada minha tese de doutoramento (UFF/2018), um manifesto devidamente adaptado para chegar fora do meio acadêmico, agora sob o título: "Ricos & Malandros  A riqueza na estrutura da desigualdade brasileira: como os ricos atuam na sociedade".

Deixo a seguir o posfácio da obra.


E LA NAVE VA

(POSFÁCIO)

 

Em outubro de 2018 – dois meses após a defesa em banca examinadora da tese de doutorado da qual este livro é fruto – a nossa distopia sopra ares surreais ao ver eleita presidente uma aberração saída dos grotões do baixo clero parlamentar e saudada nos porões da ditadura cívico-militar.

Bizarramente, pelos próximos quatro anos a República seria ocupada por um dublê de abantesma obsessor: lasciate ogni speranzavoi ch'entrate”, passaria a ser gravado nas areias do litoral da Bahia para quem aqui desembarcasse.

À sombra desta assombração arregimentou-se grande parte da elite brasileira, disposta a articular (e distorcer) aquele protesto popular em prol dos seus interesses, a fim de manter benefícios e privilégios ainda que sob um cenário de guerra, em uma terra que hoje – mais do que nunca – condensa táticas de faroeste, técnicas de manicômio, taras de ditadura e totens eugênicos com vistas a dizimar os dispensáveis da razão neoliberal desta ordem capitalista.

A mudança na dialética social do Brasil – que perpassa pela religiosidade neopentecostal, a desconstrução do operariado sindical, a fetichização dos costumes, os valores liberais não identitários e a reorganização urbana da periferia – traduziu-se em um “fenômeno epidemiológico” que saiu das redes sociais e contagiou as urnas, assinalando o estado da nossa decadência moral e política e, principalmente, o ressentimento desesperado da massa brasileira que naquela imagem de meganha tosco e boquirroto imaginava um “mito”.

Neste processo, a classe dos “intocáveis” sempre fingiu isenção, admitindo as trevas de algo tipo governo: inepto e indecente, armado e desalmado, capenga e enjambrado, sem luz e sem lógica democrática, sem programas e sem propósito social, tudo num planalto cujo cenário associaria o astral de banheiro químico com a graça de uma necrópole.

Fingiu eximição, admitindo um modelo de sociedade baseado na precariedade, na expropriação e na violência oficial, objeto da conjugação infausta de neoliberalismo com submilitarismo.

Fingiu sublimação, admitindo viver no fio da navalha do obscurantismo regido pelas vontades de uma gente perigosamente medíocre e enfaticamente lunática cujo método é a mentira e cuja bússola, o ódio.

Fingiu esperança, admitindo ver o caos institucional e o colapso socioeconômico, sem ordem e sem progresso, sem ações e sem recursos, sem vida e sem negócios.

Fingiu. E finge. Finge sob as máscaras venezianas de quem parece desfilar em seu próprio e seleto carnaval, como sói acontecer com os brancos e azedos malandros da contemporaneidade.

Notoriamente, a “aliança siamesa” entre endinheirados e empoderados de novo revela a plena disposição que as nossas elites têm, histérica e historicamente, em não medir esforços para ofuscar a realidade e dissimular as causas e as razões da desgraça brasileira que longe passam da “corrupção” da (e na) política, canto medúsico soprado pelo bando que deslavava a jato o Direito e que diariamente ecoava pelos jornais nacionais até chegar aos ouvidos mais incautos e menos conscientes da população.

Ainda, as últimas eleições criminalizaram em grau máximo a política para legitimar um sujeito que passaria a exercer o papel de “antipresidente”, cultivando a mais carcomida política, vinculada a todos os vícios e fraudes que há séculos o Brasil produz e no qual uma seleta casta eterniza-se em leito esplêndido ou nas varandas da casa-grande enquanto invisibiliza a usurpação das riquezas nacionais, a manipulação do mercado e, fundamentalmente, a exploração do trabalho.

Eis a plutocracia brasileira, que se alvoroça em torno do seu títere de ocasião não para domesticá-lo, mas para que áreas caras aos seus interesses sejam cuidadas sob um novo arranjo normativo, na forma de um tratamento à terra, à educação, à saúde, às relações de trabalho, à infraestrutura, ao meio-ambiente, às empresas públicas, aos pequenos negócios e aos movimentos sociais que unem o medieval ao neoliberal e o selvagem ao mafioso, arruinando toda uma agenda tão sensível à maioria da população.

Assim, o horror da desigualdade social – que em 2016 retomara o crescimento de forma calculada e acelerada – imediatamente transformou-se em uma “não-pauta”, absolutamente abandonada da selvagem agenda do presidente eleito, não apenas como sinal do seu déficit humano-civilizacional, mas como resposta ao desejo da elite brasileira de conservar o seu colossal quinhão da renda e da riqueza nacionais como uma eterna capitania hereditária: o “orçamento público”, máquina da qual brotam inúmeros mecanismos de apropriação de dinheiro público – via, especialmente, aprimorados ardis financeiros e bancários – de forma a continuamente renovar o processo de dominação.

A caracterizar universalmente o país como o samba e o futebol, a desigualdade volta a ser relativizada sob falácias liberais e ordens de ajuda motivacionais que enviesam a análise do problema de modo a ofuscar o lado perverso desta equação brasileira, crescentemente concentrado no topo piramidal do reino social, efeitos naturais de um sistema que manifesta seus sintomas de morbidez e decrepitude cujas consequências são escancaradas no dia a dia das nossas cidades.

Enquanto aos ricos (e ao capital) dia a dia são atribuídas feições heroicas e vitoriosas, seja pelos holofotes da grande mídia, seja em declarações oficiais de um obnóxio governo que almeja ser bem falado nos “clubes de golfe”, escondem-se as reais circunstâncias estruturais do subdesenvolvimento e do empobrecimento geral, a fim de que não se conheçam as razões institucionais e ideológicas da guetização de um povo esfacelado.

E justamente nesta estética de zoológico rural e lógica de desordem e retrocesso que caracteriza o momento brasileiro, em 2020 o nosso pandemônio coroa-se com uma “pandemia” cujo maior reflexo é a morte a quilo dos supérfluos humanos – a maioria das nossas periferias –, sinal macabro da vilania debochada e também do desprezo à nossa questão central: a desigualdade social que avisa e determina quem são as nossas grandes vítimas, mero detalhe para a necropolítica e eterno normal para o capitalismo como legítima expressão da barbárie.

E o tempo passa... e ao fundo um rinoceronte enfaixado segue sendo alimentado por nossos barões enquanto bizarramente capitaneia o barco Brasil nesta travessia infernal, com salva-vidas cuidadosamente selados para muito poucos. Até quando?

 

 

Rodrigo Gava

Copacabana, Rio de Janeiro

nas águas amargas de março de 2021