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domingo, 24 de abril de 2016

# cuspe e ovas



Tratemos de pôr, ainda que nunca definitivamente, os devidos pingos nos is.

É que a turma não cansa de confundir ser "de esquerda" com ser franciscano.

Erro crasso do imaginário conservador.

Seria como pretender que toda pessoa "de direita" fosse fascista – pode até ser a maioria, vá lá, mas não há uma relação lógico-conclusiva.

Por isso o desprezo absoluto pela expressão abrasileirada "esquerda caviar" – a qual tem origem na França, nos anos 80 ("gauche caviar") –, cuja ideia nada diz e para nada serve, a não ser tentar insistir com aquela falsa analogia e tratar com jocosidade quem sai da roda, enfrenta os canhões e muda de lado, como aqui já ilustramos.

Sim, os bem-cheirosos que se inflam bradando tal expressão o fazem, em regra, porque entendem a ida al otro lado del rio como uma espécie de "traição", como uma quebra aleivosa da fé de classe prometida e empenhada desde o nascimento.

Para eles não há esquerda que não aquela de sandálias de tiras, túnica, pão e água – transformar essa em vinho, por exemplo, nem pensar, sob pena de ser alvo de cuspe e pedras.

Para eles não há um voto de esquerda sem, lado a lado, um voto de pobreza, uma dedicação incondicional à penúria, à inópia, à sarjeta e à sopa de pedra diária.

Para eles, enfim, querer a esquerda no poder é querer um regime da miséria, da mendicância e da totalitária falta de tudo.

Sim, os personagens da horda de plantão, que volte e meia se misturam aos cantos e às faixas non-sense resgatadas do baú do golpe e que por aí se comportam como zumbis símbolos da lobotomização geral, creem que só há esquerda se todos forem pobres, se postarem como pobres, se ajolharem como pobres, se lavarem como pobres, se pintarem como pobres...

Com lembraria Eça de Queirós, trata-se, pois, de "má-fé cínica" ou "obtusidade córnea".

Deslegitimam o pensamento da esquerda, distorcem as políticas e as pautas da esquerda e descaracterizam todos que, sob o plano político-ideológico, estão à esquerda.

Ora, a turma conservadora – ou "isenta", ou "neutra", ou qualquer coisa que queira (se) valer para não refletir a "direita" – não acredita num viés progressista da humanidade, a não ser que o progresso passe pelo seu colo e seu cofre; o resto, dizem, é coisa de quem come criancinha.

Com muito catchup e pouco gosto, a direita não digere que uma parte dos seus coabitantes – os seus "irmãos"... – tenha abandonado o ambiente castelão, pulado os muros da aldeia e traído a pátria.

"Traição lesa-society!", bradam revoltosos na petulância que os simboliza.

E, tolamente, misturam alhos com bugalhos.

Não compreendem, é claro, que "igualdade", "fraternidade" e "liberdade" – a real, e não aquela de escolher o sabor da pasta de dente para comprar (v. aqui) – são bandeiras da esquerda.

Jamais compreenderiam como se constroem os propósitos de justiça social, de distribuição de renda e de democracia, tão defendidos pela esquerda.

Afinal, apenas compreendem o seu mundo sob as suas regras e o seu enquadramento, que dentre outras vanguardas privilegia a "ordem" ao "progresso" (v. aqui), salvo, claro, quando se trate da desordem que beneficia o seu próprio, e dinástico, progresso.

Sob esta ótica míope e astigmática, são incapazes de reconhecer que ser de esquerda não é querer que todos tenham nada.

Pelo contrário, é querer – inclusive a custo dos que têm muito – que todos tenham ao menos um pouco, sem aquela cantilena fajuta da meritocracia de araque: a "meritocracia herdada", própria de quem carrega no sangue os genes meritórios do sucesso e do bem-estar.

É querer mitigar os graves danos da desigualdade estruturante do capitalismo, evitar a miserabilização concentrada e herdada ad eternum pelas classes de sempre, sem perspectivas e sem oportunidades reais (v. aqui).

É querer uma "riqueza" que produza menos pobres e miseráveis e menos ricos e milionários.

É querer, em síntese, uma sociedade que espolie menos e distribua mais.

Ser de esquerda, meus caros, é desprivatizar o ser humano.



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

# a derrubada de uma torre



Hoje ainda se fala muito da derrubada das torres gêmeas.

Entretanto, o que talvez mais se deva lamentar é aquele 11 de setembro de 1973, quando foi derrubada uma outra (e muito maior) "torre".

Nesta data, a direita chilena, em conluio com o Governo dos EUA e o apoio das ditaduras  sul-americanas, deu o Golpe e acabou com a democracia no Chile.

E esta tropa toda invadiu o Palácio de La Moneda, assassinou o presidente eleito Salvador Allende e acabou com um dos mais democraticamente revolucionários mandatos populares já existentes no mundo, no qual se desenvolvia um outro modelo, assente numa imaginação institucional alternativa, com raízes socialistas de Estado e de gestão pública e que repensava, para transformar, as relações de capital e de trabalho.

Em suma, o Chile, pelas mãos de Allende e o imaginário coletivo do povo, edificava um socialismo fundado em paz, democracia, pluralismo e liberdade, como assim descreveu Darcy Ribeiro, em carta publicada após o massacre golpista (v. aqui).

À sombra da mangueira imortal já nos pronunciamos sobre o fato, um dos mais tristes e lastimosos para todos aqueles que creem numa outra sociedade: justa, livre, igualitária e fraterna (v. aqui e aqui).

Ouçam, aqui, o último e arrepiante pronunciamento de Allende -- percebam a voz, a  serena, forte e inabalável voz de um dos maiores líderes latino-americanos --, feito ao vivo à "Rádio Magallanes" da capital Santiago, concomitante aos bombardeios e minutos antes da invasão como desfecho do golpe.

É, simplesmente, um dos maiores discursos da História.


A derrubada de uma Torre, tijolo a tijolo num desenho trágico.




terça-feira, 14 de abril de 2015

# a arte de conviver sem se curvar



O reencontro entre Cuba e EUA, afora reforçar o fato de que o Papa Francisco -- arquiteto moral da reunião -- caminha para ser o mais importante líder religioso da história moderna, revela que "diplomacia" pode muito bem conviver com "soberania".

Cuba, com a medida, dá sinceras mostras de que quer -- porque precisa -- avançar e se adaptar à realidade do mundo, aos poucos reconhecendo que os cinquenta anos que se passaram desde a revolução tiveram, nesta dinâmica global, o efeito de uma "Era", cujo presente mostra um passado insustentável diante do cotidiano real e das necessidades virtuais dos seus mais ou menos jovens, que não querem só comida, diversão e arte (v. aqui).

A Ilha, pois, sabe que para sustentar o seu modelo de Estado precisa adequar-se à tese do revolucionário chinês Deng Xiaoping, na retomada pós-Mao: "não importa a cor do gato, desde que cace o rato". 

Todavia, diante da sua história de audácia, resistência e bravura, Cuba certamente não haverá de se curvar a ponto de anular os seus tão caros valores nacionais e humanos.

Os Estados Unidos -- ou seriam apenas uns poucos democratas? --, muitos anos depois de convenientemente aceitarem (e sublimarem) China e Vietnan, já não veem mais sentido em continuar a desrespeitar Cuba e a sua autodeterminação popular, já não veem mais a mínima lógica em inventar uma cortina que separa os maus barbudos e os bons yankees e já não veem mais como agradar a imensa população hispânica que preenche os seus Estados fora de Miami.

Além disso, já veem os bons dividendos mercantis que o vizinho caribenho poderá lhe trazer, mitigando os efeitos negativos de uma preterição econômica e geopolítica, haja vista a notória ocupação de espaço do Brasil em todos os planos latinoamericanos. 

Mas, o motivo dos motivos, é outro (e para além do império tupiniquim): temem que os russos novamente cheguem primeiro, haja vista a intermitente "guerra fria" entre Tio Sam e Tio Putin que hoje parece retomar fôlego.

Em suma, uniram o externamente agradável ao internamente útil.

Entretanto, devem agora finalmente reconhecer a excrescência que é manter o abusivo e indecente bloqueio econômico -- um "ato de guerra", confessou a ONU --, que vai para muito além da mera vedação ao comércio bilateral -- algo que se poderia não contestar --, na qual se excetua apenas uma pequena lista de itens agrícolas e farmacêuticos.

O problema do negócio é que, como se vê aqui, aqui e aqui, o embargo alcança indiretamente o mundo inteiro que comercializa com Cuba.

Ou seja, para os EUA a regra real desse bloqueio travestido de "embargo" é, tipo birra de colégio: se você fizer negócios com Cuba, não fará mais comigo".

Porém, a jurássica mídia, claro, não deixa qualquer espaço para se refletir o assunto -- e, muito menos, pensar sobre alternativas institucionais, sobre como se constroem sistemas de saúde e educação com um PIB ridículo (v. aqui e aqui), sobre como se obtêm índices de violência em níveis escandinavos  e, claro, sobre o grande estrago que faz o tal embargo.

Na real, esta grande imprensa apenas dá a sua imutável e jocosa versão para insistir na caricatura do negócio, de modo a bem entreter o seu público e os seus interesses, que como chapeuzinhos azuis gritam pelas estradas afora do Brasil coisas como "Vá pra Cuba!" ou pedem socorro diante de uma invasão "bolivariana".

Enfim, em que pese a questão principal não ter sido resolvida -- a manutenção do bloqueio econômico, repita-se --, já se pode dizer que a Política aparentemente venceu.

E as economias nacionais -- e, evidentemente, a economia mais fraca -- poderão aos poucos lograr os frutos deste arranjo.

Com os avanços que a abertura econômica e a livre comercialização global proporcionarão, o Estado cubano vai se permitir atualizar-se no tempo e no espaço, o que não significa abrir mãos de valores e de ideias (v. aqui).

Afinal, valores e ideias baseadas na dignidade humana e na igualdade social devem ser "atemporais" e "universais".

E, ao menos nisso, Cuba ainda é uma viva fonte de lições.



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

# caiu o muro, não a alternativa





A viuvez que costuma tomar conta da maioria da esquerda mundial quando se fala na queda do Muro do Berlim precisa ser reavaliada e, especialmente, transformada.

Afinal, desde sempre as sociedades indignaram-se, revoltaram-se e insistiram numa alternativa de regime estatal que, antes de tudo, se caracterizasse pela "justiça" – que num sentido aristotélico e cristão representa a igualdade, mas que se contempla na realização equânime dos direitos humanos – e pela "liberdade" – no seu sentido kantiano, ou seja, assente na própria igualdade.


Há 25 anos – embora, sob o estrito ponto de vista político-econômico, há mais tempo – cessavam-se os efeitos mais imediatos da Revolução Soviética de 1917, a qual, dentre as mais importantes de toda a história universal, definitivamente colocou um tipo de socialismo – a etapa para o comunismo – como efetiva via para o desenvolvimento e para a construção sócio-político-econômica do Estado.


A sair do plano ideológico para assumir-se como fato histórico, o socialismo coloca em cheque pseudodogmas da ideologia liberal vigente, fazendo nascer um novo Estado que passa a objetar e contestar o (sacrossanto) mercado, a (falsa) democracia ocidental, a (desumana) concentração de renda e o (soberano) capital, entre outros temas que, não expurgados, ainda hoje mostram-se, crescentemente, reexaminados e reprovados.

Portanto, as consequências históricas daquele novembro de 1989 não podem ser entendidas como, já há muito propalado, um final da história, de forma que todas as sociedades fiquem à mercê das nefastas e infaustas (e já lutuosas) dinâmicas do sistema que veio querer brutalmente consolidar o capitalismo, na forma onipresente, onisciente e onipresente do “neoliberalismo”.
Por quê?

Ora, além das infindáveis crises que o sistema naturalmente provoca, algumas de gravidade ímpar, como a dos últimos anos, este capitalismo aumenta exponencialmente a desigualdade sócio-econômica mundo afora – v. aqui, em ótimo documentário que mostra os EUA ("Inequality for All") –  e restringe continuamente a liberdade dos povos ou classes mais pobres, negando-lhes o humano acesso à saúde, à moradia, à educação e à alimentação.

Não se pode acreditar – inclusive pelos próprios resultados que a todo o tempo se apresentam – que um sistema apolítico, sem Estado e encrostado na tese da soberania dos mercados possa ter um fim humano, minimamente humano, como se disse aqui, aqui, aqui e aqui.

E mais.

Em termos de regime de governo, a "democracia" que insiste em perdurar mundo afora centra-se num faz-de-conta que, a reboque dos donos do poder, mostra-se refém destes grandes grupos econômicos que abastecem a grande mídia para, livre, leve & solta, ao cabo tentar eleger mandatários dos Estados cujas políticas e ações públicas sirvam-lhes – portanto, não seria uma democracia do povo e para o povo, mas, apenas eleita pelo povo.

E a busca pela confirmação ou construção de um outro caminho é real e urgente – afinal, “there is alternative!”, ao contrário do que pregava a matriarca do neoliberalismo, Margaret Thatcher.

Assim, se Cuba, China e Vietnan, com seus muitos erros e acertos, despontam como os mais antigos países constitucionalmente socialistas do mundo – não obstante a abertura patrocinada pelos dois países asiáticos possa ensejar dúvidas existenciais por parte da esquerda mais apaixonada –, veredas menos traumáticas de alternativas institucionais devem ser imaginadas e implementadas, escapulindo das "necessidades falsas" que Mangabeira Unger ensina.

Logo, ainda que já tenhamos nos modelos de alguns países um consolidado rechaço ao capitalismo democrático (ou da democracia capitalista) ocidental como única via possível para o desenvolvimento e engrandecimento, é na América Latina onde parece tentar se conformar um contra-ponto àquela visão de planificação absoluta e, principalmente, uma alternativa ao capitalismo pós-moderno que raquitiza  a democracia, deifica o mercado e mercantiliza a vida.

Sem a sombra da derrota do leste europeu, essa nova América Latina que desponta – com Venezuela, Bolívia, Equador, Brasil, Argentina, Uruguai, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica..., embora ainda com sensíveis diferenças de progressismo em seu interior – faz revigorar as certezas de uma esquerda que parecia desmotivada com o isolacionismo retrô cubano ou enganada pela enviesada propaganda midiática que esconde um dos lados do híbrido sistema político-econômico chinês.

Mais do que isso, faz materializar o eco de uma esquerda que luta pelo irretornável caminho progressista, cujas ideias fazem sobrepor a solidariedade social ao "darwinismo social", o Estado protetor ao "Estado predador" e o interesse público ao "interesse privado".

Hoje, a grande comemoração que o capitalismo, as democracias ocidentais e, maiormente, a direita promovem, deve, sim, servir à esquerda de lição histórica, a fim de evitar que os mesmos erros, as mesmas teimosias e as mesmas alianças se repitam; contudo, jamais pode significar a impossibilidade de se construir um novo e admirável mundo.

Sem o muro?
Sim, mas, principalmente, sem o grande muro social que, a fim de isolar a minoria encastelada, amontoa nas periferias e nos grotões das cidades a grande maioria da população que, continuamente, vê negada os seus direitos humanos fundamentais e distante a esfinge da justiça, ainda soterrada pela parte de cima da pirâmide social.



Trailer do thriller em que vive a sociedade americana





terça-feira, 5 de outubro de 2010

# navegar é preciso



fds As medidas anunciadas recentemente em Cuba não significarão o fim do socialismo, e não se tratam, em absoluto, de mera conveniência midiático-política.

fds Muito mais que uma forma ou um sistema sócio-político-econômico – e muito menos que uma mera utopia mecanicista –, o socialismo é um valor. E, por isso, já enraizada numa sociedade que há 50 anos vê-se construída sobre pilares éticos e principiológicos, públicos e privados, comunitários e particulares, bastante diferentes daqueles sob os quais as sociedades capitalistas – auto-afirmadas evoluídas – firmam-se.

fds Tratá-lo um ser humano como um ser político e coletivo por natureza, reafirmá-lo como livre e igual e fazê-lo fraterno e solidário, foi, senão os maiores, os grandes méritos da revolução e da reconstrução do Estado e da sociedade cubanos.

fds Tanto para aqueles que pensam Cuba como uma falida e falsa ilusão, como para aqueles que zombam por pretenderem-na o protótipo imaculado do paraíso, neste nosso sideral espaço virtual já nos debruçamos e pusemos a nu os gravíssimos erros de tais concepções (v. aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).
 
fds Ora, acreditar numa ou noutra definição, absoluta, é, antes de tudo, ser uma besta quadrada, pois, como tudo que transcende o dogmático, Cuba tem erros e acertos, é exemplo e mau-exemplo, é êxito e fracasso.

fds As propostas e as medidas de despedir meio milhão de trabalhadores estatais, de incentivar as pequenas iniciativas privadas, as cooperativas e os trabalhos autônomos, de absorver as evoluções tecnológicas, de reduzir ou eliminar gratuidades e subsídios indiscriminados, de ampliar o mercado interno, de promover o arrendamento de terras e de pequenos estabelecimentos a seus trabalhadores, de potencializar os seus recursos humanos altamente qualificados, de coprotagonizar as técnicas tributárias e monetárias, e de flexibilizar o trânsito de cidadãos. A grande meta – tardia, sublinhe-se – de tais políticas é recuperar a sustentabilidade e a eficiência da economia cubana, que vem se deteriorando aceleradamente desde a franca recuperação pós-Período Especial – como se denomina a época que se seguiu à queda da União Soviética – e, em especial, normalizar os efeitos causados pela hipertrofia do sistema comunista como projeto socialista.

fds Tais idéias – idéias postas em prática –, em nada, porém, se confundem com a perda do poder estatal, com a perda da propriedade pública sobre os meios de produção fundamentais e, principalmente, com a perda dos valores socialistas, tão impregnados na sociedade e tão cruciais para as políticas públicas do país.

fds E, por isso, tais transformações têm no protagonismo popular pluripartite (forças populares, sociais, sindicais, estatais etc.) o seu foco e a sua força causal, e não no tecnocracismo que despreza o consenso real e os interesses legítimos dos diversos atores sociais – bem distante, portanto, do que se costuma observar nas ditas "democracias ocidentais".

fds Nunca a definitiva solução ou a cega negação, o socialismo assente no comunismo cubano é um caminho, um caminho de todos e um camiño muito mais justo, sempre sob a inolvidável máxima que exige “de cada um segundo as suas capacidades e a cada um segundo as suas necessidades”...



 

quinta-feira, 2 de julho de 2009

# missiva cibernética: os vermelhos, em dois mil caracteres

Um caro amigo aventura-se numa longa jornada, pelos rincões do leste europeu.

E, já lá, quae sera tamen, resolve adentrar no universo sócio-político-econômico daquela região, especificamente nas estranhas do tipo de regime socialista implementado e quebrado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas no séc. XX.

E, na bucha, pelos meios virtuais de plantão, diz-me, curto-e-grosso: "Prezado amigo, escrevo de São Petesburgo ao amigo que sei que conhece e gosta dessa terra. Desculpe a minha ignorância, mas se vc puder me explicar, em poucas palavras, a diferença entre o socialismo e o comunismo, serei grato. Depois nos falamos. Um abraço!"

Eis a resposta, modesta, e que (talvez) também sirva a tantos e tantos que ainda não sabem direito o que é tudo isso...
"Compañero, o comunismo é um nome que pode se dar à sociedade sem classes sociais, sem Estado, sem uma economia mercantil monetária, sem o trabalho alienado, com a coletivização dos meios de produção e com uma sociedade muito desenvolvida, particularmente em termos humanos, a fim de que possa revelar um 'novo homem', como dizia El Che, sob a clássica máxima marxiana: 'De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades'. Só que não é possível atingir tal sociedade num passe de mágica e da noite para o dia, pois a insuficiência no desenvolvimento das forças capital-produtivas e dos donos do poder e as heranças material e cultural não o permitem. Para que se chegue ao comunismo é necessária uma etapa anterior de transição: o socialismo. Nele são fixadas as diretrizes, montados os programas e preparada a transformação social para a construção do comunismo, com um estado concentrador, para que no segundo houvesse a sua supressão, passando a reger uma democracia direta e de autogestão. Na verdade, em termos clássicos, havia ainda uma outra fase, previamente ao socialismo e logo depois do fim do capitalismo, com a 'ditadura do proletariado', como na URSS e em todo o leste europeu -- fórmula autoritária, sob um partido único e que  descambou para algo muito distante do socialismo. O caso mais conhecido e presente desta 'alternativa' é Cuba, onde o socialismo logrou sim êxito e a cada dia avança no zelo pela saúde, pela educação, pela habitação e pela segurança de sua gente, não obstante as imensas dificuldades -- muitas advindas do embargo econômico dos EUA e da dependência financeira que criou com a URSS, outras da sua estagnação no tempo, amarrada demais às ideias fundantes do regime. Modernamente, a China constrói uma outra via, assente num antigo 'socialismo de mercado' (ou num 'capitalismo de Estado', que depois podemos discutir...) e a Venezuela e outros países latinos também tem desenvolvido alternativas ao capitalismo, com vistas à construção de um modelo de socialismo do séc. XXI, já é merecedor de estudos de muita gente boa. Muito breve e superficialmente, é isso. Espero ter ajudado. E traz umas wodkas de bolso pra mim. Até!"


segunda-feira, 23 de março de 2009

# pravda


fDezembro de 1901.

fLênin, em artigo para o jornal do "Partido Social Democrata Russo", já não tinha dúvidas quando afirmava que o primeiro passo a ser dado para construir a revolução, era a “criação de um jornal para toda a Rússia”.

fEra a afirmação central acerca da necessidade da eficiente comunicação para se fazer a revolução. Ou seja, para conquistar sua hegemonia, o partido da classe trabalhadora deveria começar por criar um jornal que unificasse e organizasse a luta, sob o perigo da revolução não chegar, afinal, como os milhões de operários, soldados e camponeses seriam convencidos da sua necessidade? Como teriam informação e formação suficiente para abraçar a ação revolucionária, sem um jornal?

fÉ claro que os donos do poder também sempre souberam disso; e foi por isso que em toda a nossa história a grande mídia confundiu-se com o poder politico-econômico vigente, ou, ao menos, sempre esteve liga às elites política e burguesa.
 
fLogo, consequência ululante, gerações e gerações de brasileiros foram domesticadas e adestradas única e exclusivamente consoante os ideais, as vontades e os pensamentos conservadores -- e, por vezes, reacionários --, que somente interessavam à nossa malfadada elite nativa, a quem sempre rogaram continência e a quem este país dedica hoje o posto de metrópole mais desigual do mundo.

 

quarta-feira, 18 de março de 2009

# eram 32 dentes...


No "blog do Macuco" (v. aqui), dispõe-se um dado estatístico triste e alarmante: só 40% da população usa escova de dente.

Sim, é verdade. Segundo uma pesquisa do Ministério da Saúde, mais da metade da população brasileira não usa escova de dente, número este (in)justificável pela falta de condições financeiras e de instrução da população. Acredite, se quiser...
 
Assim, enquanto no Brasil o "mercado" oferece escovas de dente grande, média, mini, da Minie, azul, roxa, de bolinha, de oncinha, com cerdas moles ou de plumas ou com vibrador, e cremes dentais de methol, de frutas silvestres, de pistache, verde-uva, superbranco, super-super branco, power-extra branco e outros, em Cuba, por outro lado, os mercadinhos (privados ou estatais) oferecem escovas e pastas magnificamente simples e eficientes, mas ao alcance de todos, pois o Estado ensina, exige e cuida do seu uso.
 
Sim, em Cuba, o ato de escovar os dentes e não tê-los podres não é privilégio de classe social.
 
Lá, há décadas, tem-se níveis de excelência em praticamente todos os dados relativos à saúde da população. Mas, coitada, não consegue oferecer a sua gente uma escova elétrica com cerdas de pelo de urso ou uma pasta com sabor de tâmaras maduras, veja só...
 
Sim, são por estas e outras que Cuba é destratada e menoscabada pelos idiotas de plantão que, sentados cada qual em seu barril, insistem nas maravilhas que o "mercado" pode proporcionar e nas agruras de uma vida sem um enorme corredor de supermercado com centenas de pastas e escovas para escolher.

O Estado? Ora, o Estado só nos atrapalha, só quer o nosso mal, o nosso sangue, a nossa alma! Vade retro! "Nos deixem sós!", brada a elite branca nacional.
 
Todavia, esquecem que apenas poucos brasileiros permitem-se essa freedom to choose, essa que é a maior cantilena neoliberal e que também vem refletida na pesquisa em comento, cuja realidade, estupidamente esquecida pela nossa burguesia, jamais a deixará a sós e em paz.


 

sexta-feira, 6 de março de 2009

# aspas (ix)

f

Do seu "Caderno", José Saramago brinda-nos com mais esta reflexão, na qual faz questão de lembrar e ratificar o explícito fato de termos razão (v. aqui):
 
   "Temos razão, a razão que assiste a quem propõe que se construa um mundo melhor antes que seja demasiado tarde, porém, ou não sabemos transmitir às pessoas o que é substantivo nas nossas ideias, ou chocamos com um muro de desconfianças, de preconceitos ideológicos ou de classe que, se não conseguem paralisar-nos completamente, acabam, no pior dos casos, por suscitar em muitos de nós dúvidas, perplexidades, essas sim paralisadoras.
   Se o mundo alguma vez conseguir ser melhor, só o terá sido por nós e conosco. Sejamos mais conscientes e orgulhemo-nos do nosso papel na História. Há casos em que a humildade não é boa conselheira. Que se pronuncie bem alto a palavra Esquerda. Para que se ouça e para que conste.
   Escrevi estas reflexões para um folheto eleitoral de Esquerda Unida de Euzkadi, mas escrevi-as pensando também na esquerda do meu país, na esquerda em geral. Que, apesar do que está passando no mundo, continua sem levantar a cabeça. Como se não tivesse razão."



 

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

# cuba libre


fds Amigos já me cobram manifestações acerca do grande evento comemorativo político do ano (talvez ao lado das votações para reformas nas Constituições de alguns países sul-americanos e da posse de Obama): os 50 anos da Revolução Cubana.
fds Não foi esquecimento, claro, e o fato certamente merecerá, durante todo o ano, diversos comentários por todos os cantos e para todos os gostos.
fds E, como o assunto é vasto e complexo, no decorrer deste mês iremos aos poucos comentando e analisando o que se passa, o que se passou e o que se passará na mais famosa ilha do mundo, onde, naquele janeiro de 1949, Fidel Castro, Raúl Castro, Ernesto Guevara e Camilo Cienfuegos lideraram a revolução.
fds  Uma revolução que (i) decretou o fim de um governo não democrático -- em todos os sentidos -- de direita, dependente dos EUA, sem soberania político-econômico-cultural e no qual uma minoritária elite burguesa tinha tudo de tudo e o povo apenas uma mascarada liberdade para o nada, e (ii) que iniciou um governo democrático -- em todos os sentidos, salvo o ligado ao pluripartidarismo... -- de esquerda, acabando com os divinos privilégios da elite, com a luxúria das grande propeidades privadas e com hedonismo da secular burguesia nativa, finalmente libertando o povo da falta de cinco necessidades básicas fundamentais: comida, saúde, moradia, educação e segurança.
fds Há 50 anos, Cuba passou a fazer parte da história.


 

domingo, 14 de dezembro de 2008

# o golpe no chile: uma trilogia única


Simplesmente espetacular, emocionante e arrepiante.

Neste final de semana concentrei-me em ficar mais de 7 horas à frente da tv para, enfim, assistir ao documentário tido por muitos -- e, doravante, por mim também -- como um dos melhores documentários políticos já realizados: "A Batalha do Chile", de Patrício Guzmán, concluído em 1979 após quase 10 anos de meticuloso trabalho.

Trata-se de um registro impecável, com uma análise absurdamente próxima e completa do que foram os quase 3 anos do governo de Salvador Allende como presidente do Chile, eleito pelo povo após a união de toda a esquerda chilena -- era a "Unidade Popular", com os partidos socialista e comunista, entre outros -- e que se traduziu no primeiro país do mundo a caminhar ao socialismo pela via democrática, já aqui entendida em sua mais ampla acepção -- e não apenas no "sufrágio universal" --, vez que atende aos verdadeiros interesses público e do povo, a exemplo do que hoje já acontece na Venezuela, na Bolívia, no Equador e, no prélio, no Paraguai.

Allende, com lealdade à Constituição e, maiormente, inteligência, amor, coragem e vontade, levou o Chile a transformações jamais vista em um país sul-americano, a cuidar de temas e problemas difíceis e complexos pelos quais todo o povo -- salvo as elites burguesa e política, claro... -- esperava já há 500 anos, adotando medidas inéditas para o lado de cá abaixo do Equador, em especial ligadas às nacionalizações dos recursos naturais (em especial o cobre), ao apoio irrestrito (mas, claro, condicional) ao processo de construção do "poder popular", com as ocupações de fábricas e latifúndios, e à construção da participação direta através de assembléias locais e regionais.

Porém, a insurreição da burguesia nacional e do capitalismo estadunidense -- raivosos desde a vitória de Allende nas urnas, em 1970 -- com múltiplas e cruéis ações de sabotagem, lideradas financeiramente pela CIA, politicamente pela mídia e postas em prática por um Congresso Nacional que tinha maioria conservadora e da direita, conseguiu, não obstante o esforço das classes populares, literalmente paralisar o Estado, levando ao Golpe Militar e à morte de Salvador Allende (v. aqui, como lembrança aos 35 anos da sua morte). Em suma, tudo muito parecido com o que aconteceu por aqui, no Golpe Militar de 64, com exceção ao fato de que João Goulart, ao contrário do que Allende fez e do que Leonel Brizola queria fazer, não resistiu e se acovardou.

Sobre o filme, especificamente, o cineasta foi além dos temas espetaculares, filmando desde assembléias de fábricas, passando por trabalhadores do campo, moradores de bairros construindo um abastecimento alternativo, até militantes de direita, as manifestações da burguesia nacional e os projetos de intervenção articulados pelos EUA. Mostra, enfim, a luta de um homem e de um povo para se livrar das amarras históricas e selvagens que, com toda a injustiça, relegavam à pobreza e à miséria toda uma explorada população, em espúrio privilégio de uma elite burguesa burra, arrogante e reacionária.

São 3 partes: o "Poder Popular", a "Insurreição da Burguesia" e o "Golpe de Estado", além de uma quarta parte, repleta de especiais, inclusive com um mini-documentário, de 1 hora, sobre as últimas horas de Salvador Allende dentro do Palácio de La Moneda (aqui um trailer).

E, como prévia, ouça, aqui, o último e arrepiante discurso de Allende, feito à "Rádio Magallanes", de Santiago do Chile, concomitante aos bombardeios e minutos antes da invasão promovidos pelos militares em nome da burguesia nacional e do capitalismo estadunidense. Outrossim, transcrevo-o aqui, para uma leitura reflexiva e contagiante que muito vale:fd

“Seguramente ésta es la última oportunidad en que me pueda dirigir a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de radio Portales y radio Corporación.
Mis palabras no tienen amargura, sino decepción, y serán ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron... soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino que se ha auto designado, más el señor Mendoza, general rastrero... que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al gobierno, también se ha nominado director general de Carabineros.
Ante estos hechos, sólo me cabe decirle a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar!
Colocado en un trance histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que entregáramos a la conciencia digna de miles y miles de chilenos no podrá ser segada definitivamente.
Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen... ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.
Trabajadores de mi patria: Quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley y así lo hizo.
En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección.
El capital foráneo, el imperialismo, unido a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara Schneider y que reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas, esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir
defendiendo sus granjerías y sus privilegios.
Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros; a la obrera que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños.
Me dirijo a los profesionales de la patria, a los profesionales patriotas, a los que hace días estuvieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clase para defender también las ventajas que una sociedad capitalista da a unos pocos.
Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron, entregaron su alegría y su espíritu de lucha.
Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos... porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente en los atentados terroristas,
volando los puentes, cortando la línea férrea, destruyendo los oleoductos y los gasoductos, frente al silencio de los que tenían la obligación de proceder: estaban comprometidos. La historia los juzgará.
Seguramente radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz no llegará a ustedes. No importa, lo seguirán oyendo.
Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos, mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal a la lealtad de los trabajadores. El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.
Trabajadores de mi patria: tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición, pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.
¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, habrá una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición”.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

# aspas (ii)



Ao lado das nossas outras três séries -- "e assim caminha a humanidade", "anti-fahrenheit 451" e "quo vadis, huracán?", esta com fim certo em 07/12/2008 --, doravante surge uma outra, intitulada "aspas" (já iniciada com uma lição dos cadernos do Saramago -- v. aqui), e que procura reproduzir sintetizadas palavras que nos trazem ânimo, bem-estar e confiança nas grandes (e mesmo pequenas) coisas da humanidade. Diria que se trata da antítese curta -- vez que as longas antíteses são exploradas em linhas muito mais extensas do blog -- do modo que a humanidade caminha.
 
Assim, do excelente espaço virtual do Prof. Vital Moreira (Universidade de Coimbra) e de outros colegas da Academia -- todos no http://causa-nossa.blogspot.com --, deparamo-nos com um texto (v. aqui, na íntegra) que também gostaríamos de ter escrito, aqui também reeditado e sintetizado na seguinte frase:

"[E]se grado mínimo de socialismo que por sí solo encarna la existencia de un Estado democrático interventor es todo lo que separa a la sociedad de la selva. Ése es el socialismo del siglo XXI".



 

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

# aspas

 
Outra do caderno virtual de José Saramago (v. aqui), magnífica:
 
"Felizmente há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça."
 
 
 

 


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

# oba?!


A vitória de Obama vai muita além do fútil oba-oba de sorriso amarelo da grande mídia nativa, como assim escreveu o grande uruguaio Eduardo Galeano, o primeiro cidadão ilustre do Mercosul (v. aqui) a exigir ponderada reflexão, ainda que se tenha tal eleição como um marco em termos de equilíbrio e igualdade racial.

Sim, o bloqueio (v. aqui) não cessará, como bem sabemos

"Obama provará no governo que suas ameaças de guerra contra o Irã e o Paquistão não foram mais do que palavras, proclamadas para seduzir ouvidos difíceis durante a campanha eleitoral?
Oxalá. E Oxalá não caia por nenhum momento na tentação de repetir as façanhas de George W. Bush. Ao fim e ao cabo, Obama teve a dignidade de votar contra a guerra do Iraque, enquanto Democratas e Republicanos ovacionavam o anúncio da carnificina.
Durante sua campanha, a palavra “leadership” foi a mais repetida nos discursos de Obama. Durante seu governo, continuará crendo que seu país foi escolhido para salvar o mundo, tóxica idéia que compartilha com quase todos seus colegas? Seguirá insistindo na liderança mundial dos Estados Unidos e na sua messiânica missão de mando?Oxalá esta crise atual, que está sacudindo os cimentos imperiais, sirva ao menos para dar um banho de realismo e de humildade a este governo que começa.
Obama aceitará que o racismo seja normal quando exercido contra os países que seu país invade? Não é racismo contar um por um os mortos dos invasores no Iraque e ignorar olimpicamente os muitíssimos mortos entre a população invadida? Não é racista este mundo onde há cidadãos de primeira, segunda e terceira categoria, e mortos de primeira, segunda e terceira?
A vitória de Obama foi universalmente celebrada como uma batalha ganha contra o racismo. Oxalá ele assuma, a partir de seus atos, tal formosa responsabilidade.
O governo de Obama confirmará, uma vez mais, que o Partido Democrata e o Partido Republicano são dois nomes de um mesmo partido?
Oxalá a vontade de mudança, que estas eleições consagraram, seja mais do que uma promessa e mais que uma esperança. Oxalá o novo governo tenha a coragem de romper com essa tradição de partido único, disfarçado de dois partidos, que, na hora da verdade, fazem mais ou menos o mesmo ainda que simulem uma disputa entre eles.
Obama cumprirá sua promessa de fechar a sinistra prisão de Guantánamo? Oxalá, e Oxalá acabe com o sinistro bloqueio a Cuba.
Obama seguirá acreditando que está certo que um muro evite que os mexicanos atravessem a fronteira, enquanto o dinheiro passa livremente sem que ninguém lhe peça passaporte? Durante a campanha eleitoral, Obama nunca enfrentou com franqueza o tema da imigração. Oxalá a partir de agora, quando já não corre o risco de espantar votos, possa e queira acabar com esse muro, muito maior e vergonhoso que o Muro de Berlim, e com todos os muros que violam o direito à livre circulação das pessoas.
Obama, que com tanto entusiasmo apoiou o recente presente de 750 bilhões de dólares aos banqueiros, governará, como é costume, para socializar as perdas e para privatizar os lucros. Temo que sim, mas oxalá que não.
Obama firmará e cumprirá o protocolo de Kyoto, ou seguirá outorgando o privilégio da impunidade à nação mais envenenadora do planeta? Governará para os automóveis ou para as pessoas? Poderá mudar o rumo assassino de um modo de vida de poucos no qual se rifam o destino de todos? Temo que não, mas Oxalá que sim.
Obama, primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos [bem como de qualquer outro país rico], concretizará o sonho de Martin Luther King ou o pesadelo de Condoleezza Rice? Esta Casa Branca, que agora é sua casa, foi construída por escravos negros. Oxalá ele não se esqueça disso, nunca."

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

# salvador allende: 35 anos do mais triste 11/09


fdsHá 35 anos, a elite burguesa e política chileno, apoiada financeira e militarmente pelos EUA, matou uma das esperanças latino-americana daquele momento, matou um dos maiores expoentes do cenário sócio-político da nuestra America, matou Salvador Allende.
fdsEm seu segundo ano de mandato presidencial, este grande líder já implementava mudanças radicais (e profundas e populares) no Chile, minimizando os graves problemas sociais e econômicos que faziam da ampla maioria da população uma eterna refém dos oligarcas e ladrões que há séculos dominavam o país, estabelecendo, com idéias definitivas, um plano socializante para o Chile, no qual não faltaria saúde, educação, segurança e trabalho da melhor qualidade e para todos.
fdsHoje -- e já muito mais importante que o enigmático e obscuro 11/09 das "torres gêmeas" -- o aniversário de seu assassinato deve ser lembrado e nada melhor do que um texto escrito por um dos seus grande amigos, Fidel Castro, que, em uma de suas crónicas semanalmente escritas para o "Granma" -- ora intitulada "Salvador Allende, un ejemplo que perdura", apresentada em maio deste ano, quando se fazia 100 anos do seu nascimento --, traz uma importante e biográfica reflexão da vida pública e política de Allende.
 

fdsNació hace cien años en Valparaíso, al sur de Chile, el 26 de junio de 1908. Su padre, de clase media, abogado y notario, militaba en el Partido Radical chileno. Cuando yo nací, Allende tenía 18 años. Realiza sus estudios medios en un liceo de la ciudad natal.

fdsEn sus años de estudiante preuniversitario, un viejo anarquista italiano, Juan Demarchi, lo pone en contacto con los libros de Marx. Se gradúa como alumno excelente. Le gusta el deporte y lo practica. Ingresa voluntario al servicio militar en el Regimiento Coraceros de Viña del Mar. Solicita traslado al Regimiento Lanceros de Tacna, un enclave chileno en el norte seco y semidesértico, posteriormente devuelto a Perú. Egresa como oficial de reserva del Ejército. Lo hace ya como hombre de ideas socialistas y marxistas. No se trataba de un joven blando y sin carácter. Era como si adivinara que un día combatiría hasta la muerte defendiendo las convicciones que ya comenzaban a gestarse en su mente.
fdsDecide estudiar la noble carrera de Medicina en la Universidad de Chile. Organiza un grupo de compañeros que se reúnen periódicamente para leer y discutir sobre el marxismo. Funda el Grupo Avance en 1929. Es elegido vicepresidente de la Federación de Estudiantes de Chile en 1930 y participa activamente en la lucha contra la dictadura de Carlos Ibáñez. Se había desatado ya la gran depresión económica en Estados Unidos con la crisis de la Bolsa de Valores que estalló en 1929. Cuba se adentraba en la lucha contra la tiranía machadista. Mella había sido asesinado. Los obreros y los estudiantes cubanos se enfrentaban a la represión. Los comunistas, con Martínez Villena al frente, desataban la huelga general. "Hace falta una carga para matar bribones, para acabar la obra de las revoluciones..." —había proclamado en vibrante poema. Guiteras, de profunda raíz antiimperialista, intenta derrocar la tiranía con las armas. Cae Machado, que no puede resistir el empuje de la nación, y surge una revolución que Estados Unidos en pocos meses, con guantes de seda y mano de hierro, aplasta, y su dominio absoluto perdura hasta 1959.
fdsDurante ese período Salvador Allende, en un país donde la dominación imperialista se ejercía brutalmente sobre sus trabajadores, su cultura y sus riquezas naturales, lleva a cabo una lucha consecuente que nunca lo apartó de su intachable conducta revolucionaria. En 1933 se gradúa de médico. Participa en la fundación del Partido Socialista de Chile. Es ya dirigente en 1935 de la Asociación Médica Chilena. Sufre prisión durante casi medio año. Impulsa el esfuerzo para crear el Frente Popular, y lo eligen subsecretario general del Partido Socialista en 1936.
fdsEn septiembre de 1939 asume la Cartera de Salubridad en el gobierno del Frente Popular. Publica un libro suyo sobre medicina social. Organiza la primera Exposición de la Vivienda. Participa en el año 1941 en la reunión anual de la Asociación Médica Americana en Estados Unidos. Asciende en 1942 a Secretario General del Partido Socialista de Chile. Vota en el Senado, en el año 1947, contra la Ley de Defensa Permanente de la Democracia, conocida como "Ley Maldita" por su carácter represivo. Asciende en 1949 a Presidente del Colegio Médico. En 1952 el Frente del Pueblo lo postula para Presidente. Tenía entonces 44 años. Pierde. Presenta en el Senado un proyecto de ley para la nacionalización del cobre. Viaja a Francia, Italia, Unión Soviética y la República Popular China en 1954. Cuatro años después, en 1958, es proclamado candidato a la Presidencia de la República por el Frente de Acción Popular, constituido por la Unión Socialista Popular, el Partido Socialista de Chile y el Partido Comunista. fdsPierde la elección frente al conservador Jorge Alessandri. Asiste en 1959 a la toma de posesión como Presidente de Venezuela de Rómulo Betancourt, considerado hasta entonces una figura revolucionaria de izquierda.
fdsViaja ese mismo año a La Habana y se entrevista con el Che y conmigo. Respalda en 1960 a los mineros del carbón, que paralizan su trabajo durante más de tres meses. Denuncia junto al Che en 1961 el carácter demagógico de la Alianza para el Progreso en la reunión de la OEA que tuvo lugar en Punta del Este, Uruguay. Designado de nuevo candidato a la Presidencia, es derrotado en 1964 por Eduardo Frei Montalva, democratacristiano que contó con todos los recursos de las clases dominantes y que, según datos revelados en documentos desclasificados del Senado de Estados Unidos, recibió dinero de la CIA para apoyar su campaña. En su gobierno, el imperialismo trató de diseñar lo que se dio en llamar la "Revolución en Libertad", como respuesta ideológica a la Revolución Cubana. Lo que engendró fueron los fundamentos de la tiranía fascista. En esa elección, Allende obtiene, sin embargo, más de un millón de votos.fdsEncabeza en 1966 la delegación que asiste a la Conferencia Tricontinental de La Habana. Visita la Unión Soviética en el Aniversario 50 de la Revolución de Octubre. El año siguiente, 1968, visita la República Democrática de Corea, la República Democrática de Viet Nam, donde tiene la satisfacción de conocer y conversar con el extraordinario dirigente de ese país, Ho Chi Minh. Incluye en ese mismo recorrido a Camboya y Laos, en plena efervescencia revolucionaria.
fdsTras la muerte del Che, acompaña personalmente hasta Tahití a tres cubanos de la guerrilla en Bolivia, que sobrevivieron a la caída del Guerrillero Heroico y se encontraban ya en territorio chileno. La Unidad Popular, coalición política integrada por comunistas, socialistas, radicales, MAPU, PADENA y Acción Popular Independiente, lo proclama su candidato el 22 de enero de 1970, y triunfa el 4 de septiembre en los comicios de ese año.
fdsEs un ejemplo verdaderamente clásico de la lucha por vías pacíficas para establecer el socialismo. El gobierno de Estados Unidos, presidido por Richard Nixon, después del triunfo electoral entra de inmediato en acción. El Comandante en Jefe del Ejército chileno, general René Schneider, es víctima de un atentado el 22 de octubre y fallece tres días después porque no se plegaba a la demanda imperialista de un golpe de Estado. Fracasa el intento de impedir la llegada de la Unidad Popular al gobierno.
Allende asume legalmente con toda dignidad el cargo de Presidente de Chile el 3 de noviembre de 1970. Comienza desde el gobierno su heroica batalla por los cambios, enfrentando al fascismo. Tenía ya 62 años de edad. Me cupo el honor de haber compartido con él 14 años de lucha antiimperialista desde el triunfo de la Revolución Cubana. En las elecciones municipales de marzo del año 1971, la Unidad Popular obtiene mayoría absoluta de los votos con el 50,86 por ciento. El 11 de julio el presidente Allende promulga la Ley de Nacionalización del Cobre, una idea que había propuesto al Senado 19 años antes. Fue aprobada en el Congreso por unanimidad. Nadie se atrevía a objetarla. En 1972 denuncia en la Asamblea General de las Naciones Unidas la agresión internacional de que es víctima su país. Es ovacionado de pie durante largos minutos. Visita ese mismo año la Unión Soviética, México, Colombia y Cuba. En 1973, al realizarse las elecciones parlamentarias de marzo, la Unidad Popular obtiene un 45 por ciento de los votos y aumenta su representación parlamentaria. No pueden prosperar las medidas promovidas por los yanquis en las dos Cámaras para destituir al Presidente. El imperialismo y la derecha agudizan una lucha sin cuartel contra el gobierno de la Unidad Popular y desatan el terrorismo en el país.
fdsLe escribí seis cartas confidenciales a mano, con letra pequeñita y una pluma de punta fina entre los años 1971 y 1973, en las que le abordaba temas de interés con la mayor discreción.
fdsEl 21 de mayo de 1971 le decía: "...Estamos maravillados de tu extraordinario esfuerzo y tus energías sin límites para sostener y consolidar el triunfo. Desde aquí se puede apreciar que el poder popular gana terreno a pesar de su difícil y compleja misión. Las elecciones del 4 de Abril constituyeron una espléndida y alentadora victoria. Han sido fundamentales tu valor y decisión, tu energía mental y física para llevar adelante el proceso revolucionario. Seguramente les esperan a ustedes grandes y variadas dificultades a enfrentar en condiciones que no son precisamente ideales, pero una política justa, apoyada en las masas y aplicada con decisión no puede ser vencida..."

fdsEl 11 de septiembre de 1971, le escribí: "El portador viaja para tratar contigo los detalles de la visita. nicialmente, considerando un posible vuelo directo en avión de Cubana, analizamos la conveniencia de aterrizar en Arica e iniciar el recorrido por el norte. Surgen luego dos cosas nuevas: interés expresado a ti por Velazco Alvarado de un posible contacto en mi viaje hacia esa; posibilidad de contar con un avión soviético IL-62 de mayor radio. Esto último permite, si se quiere, arribar en vuelo directo a Santiago. Va un esquema de recorrido y actividades para que tú añadas, suprimas e introduzcas las modificaciones que estimes pertinente. He procurado pensar exclusivamente en lo que pueda ser de interés político sin preocuparme mucho el ritmo o la intensidad del trabajo, pero todo en absoluto queda sometido a tus criterios y consideraciones. Hemos disfrutado mucho los éxitos extraordinarios de tu viaje a Ecuador, Colombia y Perú. ¿Cuándo tendremos en Cuba la oportunidad de emular con ecuatorianos, colombianos y peruanos en el enorme cariño y el calor con que te recibieron?"
fdsEn aquel viaje, cuyo esquema transmití al presidente Allende, salvé milagrosamente la vida. Recorrí decenas de kilómetros ante una multitud enorme, situada a lo largo del camino. La Agencia Central de Inteligencia de Estados Unidos organizó tres acciones para asegurar mi asesinato durante ese viaje. En una entrevista de prensa anunciada con anterioridad, había una cámara suministrada por una emisora televisiva de Venezuela equipada con armas automáticas, manejada por mercenarios cubanos que con documentos de ese país habían ingresado a Chile. El valor les falló a los que solo tenían que apretar el gatillo durante el largo tiempo que duró la entrevista y las cámaras me enfocaron. No querían correr el riesgo de morir. Me habían perseguido, además, por todo Chile, donde no me volvieron a tener tan cerca y vulnerable. Sólo pude conocer los detalles de la cobarde acción años más tarde. Los servicios especiales de Estados Unidos habían llegado más lejos de lo que podíamos imaginarnos.
fdsEl 4 de febrero de 1972 escribí a Salvador: "La delegación militar fue recibida con el mayor esmero por todos aquí. Las Fuerzas Armadas Revolucionarias dedicaron prácticamente todo su tiempo durante esos días a atenderla. Los encuentros fueron amistosos y humanos. El programa intenso y variado. Mi impresión es que el viaje ha sido positivo y útil, que existe la posibilidad y es conveniente seguir desarrollando estos intercambios. Con Ariel hablé sobre la idea de tu viaje. Comprendo perfectamente que el trabajo intenso y el tono de la contienda política las últimas semanas no te hayan permitido considerarlo para la fecha aproximada que mencionamos en esa. Es indudable que no habíamos tomado en cuenta estas eventualidades. Por mi parte, aquel día, vísperas de mi regreso, cuando cenábamos ya de madrugada en tu casa, ante la falta de tiempo y la premura de las horas, me tranquilizaba pensar que relativamente pronto nos volveríamos a encontrar en Cuba donde íbamos a disponer la posibilidad de conversar extensamente. Tengo, no obstante, la esperanza de que puedas tomar en consideración la visita antes de mayo. Menciono este mes, porque a más tardar, desde mediados del mismo, tengo que realizar el viaje, ya impostergable, a Argelia, Guinea, Bulgaria, otros países y la URSS. Esta amplia visita me llevará considerable tiempo. Te agradezco mucho las impresiones que me comunicas sobre la situación. Aquí, cada día más familiarizados, interesados y afectados emotivamente todos con el proceso chileno, seguimos con gran atención las noticias que llegan de allá. Ahora podemos comprender mejor el calor y la pasión que debió suscitar la revolución cubana en los primeros tiempos. Podría decirse que estamos viviendo nuestra propia experiencia a la inversa. En tu carta puedo apreciar la magnífica disposición de ánimo, serenidad y valor con que estás dispuesto a enfrentar las dificultades. Y eso es fundamental en cualquier proceso revolucionario, especialmente cuando se desarrolla en las condiciones sumamente complejas y difíciles de Chile. Yo regresé con una extraordinaria impresión de la calidad moral, cultural y humana del Pueblo Chileno y de su notable vocación patriótica y revolucionaria. A ti te ha correspondido el singular privilegio de ser su conductor en este momento decisivo de la historia de Chile y de América, como culminación de toda una vida de lucha, como dijiste en el estadio, consagrada a la causa de la revolución y el socialismo. Ningún obstáculo puede ser invencible. Alguien dijo que en una revolución se marcha adelante con ‘audacia, audacia y más audacia’. Yo estoy convencido de la profunda verdad que encierra este axioma."

fdsLe escribí de nuevo al presidente Allende el 6 de septiembre de 1972: "Con Beatriz te mandé mensaje sobre distintos tópicos. Después que ella partió y con motivo de las noticias que estuvieron llegando la pasada semana, decidimos enviar al compañero Osmany para ratificarte nuestra disposición de colaborar en cualquier sentido, y a la vez tú puedas comunicarnos a través de él tu apreciación de la situación y tus ideas con relación al viaje proyectado a esta y otros países. El pretexto del viaje de Osmany será inspeccionar la Embajada cubana, aunque no se le dará publicidad alguna. Queremos que su estancia en esa sea muy breve y discreta. Los puntos planteados por ti a través de Beatriz ya se están cumplimentando... Aunque comprendemos las actuales dificultades del proceso chileno, tenemos la confianza de que ustedes hallarán el modo de vencerlas. Puedes contar enteramente con nuestra cooperación. Recibe un saludo fraternal y revolucionario de todos nosotros."
fdsEl 30 de junio de 1973 enviamos una invitación oficial al presidente Salvador Allende y a los partidos de la Unidad Popular a la conmemoración del 20 Aniversario del ataque al Cuartel Moncada. En carta aparte, le digo:

fds"Salvador: Lo anterior es la invitación oficial, formal, para la conmemoración del 20 Aniversario. Lo formidable sería que tú pudieras dar un salto a Cuba para esa fecha. Puedes imaginarte lo que significaría eso de alegría, satisfacción y honor para los cubanos. Sé que eso sin embargo depende más que nada de tus trabajos y de la situación en esa. Lo dejamos por tanto a tu consideración. Todavía estamos bajo el impacto de la gran victoria revolucionaria del día 29 y tu brillante papel personal en los acontecimientos. Es natural que muchas dificultades y obstáculos subsistirán pero estoy seguro de que esta primera prueba exitosa les dará gran aliento y consolidará la confianza del pueblo. Internacionalmente se ha dado gran relieve a los sucesos y se aprecia como un gran triunfo. Actuando como lo hiciste el 29, la revolución chilena saldrá victoriosa de cualquier prueba por dura que sea. Te reitero que los cubanos estamos a tu lado y que puedes contar con tus fieles amigos de siempre."
fdsEl 29 de julio de 1973 le envío la última carta: "Querido Salvador: Con el pretexto de discutir contigo cuestiones referentes a la reunión de países no alineados, Carlos y Piñeiro realizan un viaje a esa. El objetivo real es informarse contigo sobre la situación y ofrecerte como siempre nuestra disposición a cooperar frente a las dificultades y peligros que obstaculizan y amenazan el proceso. La estancia de ellos será muy breve por cuanto tienen aquí muchas obligaciones pendientes y, no sin sacrificio de sus trabajos, decidimos que hicieran el viaje. Veo que están ahora en la delicada cuestión del diálogo con la D.C. en medio de acontecimientos graves como el brutal asesinato de tu edecán naval y la nueva huelga de los dueños de camiones. Imagino por ello la gran tensión existente y tus deseos de ganar tiempo, mejorar la correlación de fuerzas para caso de que estalle la lucha y, de ser posible, hallar un cauce que permita seguir adelante el proceso revolucionario sin contienda civil, a la vez que salvar tu responsabilidad histórica por lo que pueda ocurrir. Estos son propósitos loables. Pero en caso de que la otra parte, cuyas intenciones reales no estamos en condiciones de valorar desde aquí, se empeñase en una política pérfida e irresponsable exigiendo un precio imposible de pagar por la Unidad Popular y la Revolución, lo cual es, incluso, bastante probable, no olvides por un segundo la formidable fuerza de la clase obrera chilena y el respaldo enérgico que te ha brindado en todos los momentos difíciles; ella puede, a tu llamado ante la Revolución en peligro, paralizar a los golpistas, mantener la adhesión de los vacilantes, imponer sus condiciones y decidir de una vez, si es preciso, el destino de Chile. El enemigo debe saber que está apercibida y lista para entrar en acción. Su fuerza y su combatividad pueden inclinar la balanza en la capital a tu favor aun cuando otras circunstancias sean desfavorables. Tu decisión de defender el proceso con firmeza y con honor hasta el precio de tu propia vida, que todos te saben capaz de cumplir, arrastrarán a tu lado a todas las fuerzas capaces de combatir y a todos los hombres y mujeres dignos de Chile. Tu valor, tu serenidad y tu audacia en esta hora histórica de tu patria y, sobre todo, tu jefatura firme, resuelta y heroicamente ejercida, constituyen la clave de la situación. Hazles saber a Carlos y a Manuel en qué podemos cooperar tus leales amigos cubanos. Te reitero el cariño y la ilimitada confianza de nuestro pueblo."fdsEsto lo escribí mes y medio antes del golpe. Los emisarios eran Carlos Rafael Rodríguez y Manuel Piñeiro. Pinochet había conversado con Carlos Rafael. Le había simulado una lealtad y firmeza similares a las del general Carlos Prats, Comandante en Jefe del Ejército durante parte del gobierno de la Unidad Popular, un militar digno al que la oligarquía y el imperialismo pusieron en total crisis, que lo obligó a renunciar al mando, y fue más tarde asesinado en Argentina por los esbirros de la DINA, después del golpe fascista de 1973.
fdsYo desconfiaba de Pinochet desde que leí los libros de geopolítica que me obsequió durante mi visita a Chile y observé su estilo, sus declaraciones y los métodos que como Jefe del Ejército aplicaba cuando las provocaciones de la derecha obligaban al presidente Allende a decretar el estado de sitio en Santiago de Chile. Recordaba lo que advirtió Marx en el 18 Brumario.
fdsMuchos jefes militares del ejército en las regiones y sus estados mayores querían conversar conmigo dondequiera que llegaba, y mostraron notable interés por los temas de nuestra guerra de liberación y las experiencias de la Crisis de Octubre de 1962. Las reuniones duraban horas en las madrugadas, que era el único tiempo libre para mí. Yo accedía por ayudar a Allende, inculcándoles la idea de que el socialismo no era enemigo de los institutos armados. Pinochet, como jefe militar, no fue una excepción. Allende consideraba útiles estos encuentros.
fdsEl 11 de septiembre de 1973 muere heroicamente defendiendo el Palacio de La Moneda. Combatió como un león hasta el último aliento. Los revolucionarios que resistieron allí la embestida fascista contaron cosas fabulosas sobre los momentos finales. Las versiones no siempre coincidían, porque luchaban desde diferentes puntos de Palacio. Además, algunos de sus más cercanos colaboradores murieron, o fueron asesinados después del duro y desigual combate.
fdsLa diferencia de los testimonios consistía en que unos afirmaban que los últimos disparos los hizo contra sí mismo para no caer prisionero, y otros que su muerte sobrevino por fuego enemigo. El Palacio ardía atacado por tanques y aviones para consumar un golpe que consideraban trámite fácil y sin resistencia. No hay contradicción alguna entre ambas formas de cumplir el deber. En nuestras guerras de independencia hubo más de un ejemplo de combatientes ilustres que, cuando ya no había defensa posible, se privaron de la vida antes de caer prisioneros.

fdsHay mucho que decir todavía sobre lo que estuvimos dispuestos a hacer por Allende, algunos lo han escrito. No es el objetivo de estas líneas.
fdsHoy se cumple un siglo de su nacimiento. Su ejemplo perdurará.