Nem sempre na história sabe-se onde está o precipício.
Podemos, porém, tentar enxergar.
É aquilo que Saramago disse na abertura do seu Ensaio sobre a Cegueira: "se podes olhar, vê; se podes ver, repara".
Benjamin, meu mais velho, tem aos 13 anos compreendido muita coisa.
Olha, vê, repara, escuta e compreende o que pode acontecer, por exemplo, com o seu país.
Um país na mão da extrema-direita.
Um país que flerta com os propósitos, as ideias, as ações e as consequências de uma extrema-direita no poder.
Afinal, é o que a família Bolsonaro promete, escancarando há anos o que quer e como quer, sem bem-me-quer algum -- não quer, pois, enganar ninguém.
Mal a quer, porém, são os jovens.
E para hoje ao meio-dia foi marcada uma caminhada de estudantes, a fim de mostrar que não deserdaram do posto e da luta: "PROTESTO ESTUDANTIL CONTRA A ASCENSÃO DA EXTREMA-DIREITA", dizia a convocação.
Ele quis ir, afinal, no tempo da maldade ele já é nascido.
À rua com seus amigos, colegas, professores, pais e mais quem poderia ali se juntar, milhares de meninos e meninas fizeram valer suas forças, suas ideias, seus planos, seus estudos, seu tempo e, principalmente, as suas consciências.
Benjamin, como tantos ali, está crescido.
Vejo gritar, xingar, levantar o braço, hastear bandeira... mas agora não na nossa Baixada, e sim num campo menos lúdico, menos leve, lugar de gente grande e com outras causas em jogo.
Vendo-o ali naquela multidão, passam filmes e fotos na cabeça, mas de uma história que nunca foi minha -- os dias não eram assim na minha Curitiba dos anos 80.
Ali naquele trajeto da Candelária à Cinelândia, uma outra juventude enfrentou os batalhões, canhões e alemães da ditadura militar de 1964.
Muito mais sério, muito mais crítico.
Não estamos lá.
Mas eles reparam que logo ali há um precipício, com um futuro sério e crítico a ser desenhado sob dor e sofrimento.
E não querem, mais uma vez, que os dias sejam assim.