domingo, 11 de outubro de 2026

# a escolha: o que se confirma

 

Difícil compreender que decidir pela democracia não deveria ser uma questão de “escolha”.

Assim como ter a possibilidade do voto em um processo eleitoral não significa que se vive uma democracia.

Ocorre que, antes de tudo, o ato de votar faz você se responsabilizar pelo que escolhe.

Vocês passa a ser complacente, conivente e mesmo cúmplice da escolha que faz.

E por isso votamos, e por isso a cada eleição, cada um, com suas visões de mundo ou seus raciocínios matemáticos – o voto também costuma se medir por cálculos objetivos – escolhe seus “representantes”. 

No Brasil, não à toa, a primeira frase do art. 1º diz que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito.

Logo, não deveria se flertar com a escolha entre viver ou não numa democracia, bem como, a esta altura da humanidade, não se poderia admitir um direito a escolher entre viver em uma sociedade moderna ou medieval.

Claro que o receituário de democracia não admite apenas a forma que comumente enxergamos, que sacraliza o processo eleitoral -- e em regra nele hiberna. 

Há outras formas, no mais das vezes revolucionárias, que hoje alcançam um governo do povo, para o povo e escolhido pelo povo sob configuração diferente das democracias liberais. Uma, em particular, com retumbante sucesso: a China.

Mas esse não é o ponto da nossa conversa.

Falamos da nossa democracia -- a liberal, para o bem e par o mal.

A partir dela, há soluções políticas e receitas programáticas para todos os gostos, mais ou menos convenientes às visões de mundo – a "ideologia" – de cada um.

E há, certamente, uma parcela da população que referenda um vida não-democrática.

Sim, há uma porção que escolhe viver sem democracia, sob diversas cepas.

Primeiro, aquela que representa o eixo estruturante do protofascismo nacional: é o brasileiro racista, entre outras qualificações, que não pretende a construção de uma sociedade igualitária, muito menos perder os seus históricos privilégios.  

São os facínoras, cuja viuvez dos anos de chumbo é tratada com saudosismo e orgulho e em cuja órbita social não cabe o "outro". E são os vendilhões do nosso templo republicano, mais ou menos expostos na obstinada busca argentária – e diante desse pessoal toda lógica, todo direito, toda ética e todos os valores morais são absolutamente descartáveis, sendo, pois, impossível se cogitar qualquer reflexão para que possam se convencer do contrário.

Depois, há três outros grupos, que mais ou menos se enganam com o que imaginam desejar.

São as vítimas desgraçadas de uma ordem econômica e social -- o neoliberalismo -- que exclui, que segrega e que concentra estratos sociais em forma absolutamente antidemocrática, incapaz de desenvolver um tecido social que agregue, una e promova o engrandecimento geral. 

É a parcela representada pelo precariado, uma imensa classe popular que não vê diferença entre essa democracia e a vida que leva: direitos e liberdade apenas formais, fulminados por restrições objetivas que diariamente fazem-na descrer de um país democrático.

Depois há os antipetistas, classe média que trabalha sob a ojeriza a um grupo político e que pelas ruas e redes do Brasil pensam estar desembarcando na Normandia, combatendo a crise, a corrupção e as coisas todas ("tudo-que-está-aí") deixadas para trás desde 2003, sublimando que a extrema-direita historicamente é absolutamente incapaz de oferecer qualquer proposta concreta para quaisquer dos grandes problemas nacionais (desigualdade, segurança, trabalho, saúde, educação, moradia, transporte, economia, energia, meio ambiente etc.). São as pessoas do bem que sabem que regimes autoritários só sufocam, e perseguem, e prendem, e torturam, e matam... os "outros".

E opr fim há os descuidados, batalhadores deixados de lado pelo Estado e que, além de verem limites inexpugnáveis no projeto de inserção e ascensão sociais, também passaram a acreditar no discurso da violência como combatente da violência, ignorando que sob esta lógica eles continuarão a ser "objeto" da violência, como se numa epopeia suicidária com a chancela oficial do governo. 

Esses todos, diferentemente daquele pequeno grupo da extrema-direita, acreditam estar escolhendo uma mudança e decidindo pela salvação do país.

Mas não, não estão.

Pelo contrário, estão a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa história, que carcome nossos direitos e garantias e tinge com tinta sombria nosso futuro.

Sem saber, acabam por vibrar e flertar com as trevas de um arquétipo de governo: inventado, armado, enjambrado, com um lado e sem viva alma.

E estão a sucumbir a isso.

Estão admitindo viver à margem da democracia, no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente vil.

Estão, assim, a ver a construção da nossa nação vergar e se acabrunhar, de novo.

E estão a aceitar isso, num rotundo temor servil.

É, portanto, absolutamente dramático este momento da nossa República.

E na vida há situações em que se deve firmar uma posição.

E escolher um lado, posto que não se trata de um maniqueísmo qualquer.

Está muito claro que agora já não se trata de "esquerdismo" ou "direitismo", mas de lutar contra o bolsonarismo. 

Não há, afinal, vestígios de vida em sociedade sob os arautos da extrema-direita.

Diante disso não há ideias, não há lógica, não há razão, não há coração, não há nada fora do arbítrio e da continência.

Nem liberdade, nem direito, nem lei, nem povo, nem justiça, nem amor, nem ordem, nem progresso, nem nada.

Agora há outro Bolsonaro no meio do nosso caminho, homem-pedra que não titubeia em ofender e assumir a destruição das regras básicas de uma sociedade moderna e de um país democrático.

Por isso, grite-se, o que está verdadeiramente em jogo é o inabalável respeito aos princípios, aos fundamentos  e aos objetivos contidos na Constituição da República Federativa do Brasil. 


Sendo assim, minha gente, não cabe omissão, isenção ou dúvida na escolha a ser feita.

Afinal, não mais se trata de política, modelos e cores partidárias.

Trata-se de escolher entre luz ou trevas, entre o progresso ou o caos.

E entre a civilização ou a barbárie.


“O passado nunca está morto. Ele nem mesmo é passado” (William Faulkner).

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

# joões e marias


Nem sempre na história sabe-se onde está o precipício.

Podemos, porém, tentar enxergar.

É aquilo que Saramago disse na abertura do seu Ensaio sobre a Cegueira: "se podes olhar, vê; se podes ver, repara".

Benjamin, meu mais velho, tem aos 13 anos compreendido muita coisa.

Olha, vê, repara, escuta e compreende o que pode acontecer, por exemplo, com o seu país.

Um país na mão da extrema-direita.

Um país que flerta com os propósitos, as ideias, as ações e as consequências de uma extrema-direita no poder.

Afinal, é o que a família Bolsonaro promete, escancarando há anos o que quer e como quer, sem bem-me-quer algum -- não quer, pois, enganar ninguém.

Mal a quer, porém, são os jovens.

E para hoje ao meio-dia foi marcada uma caminhada de estudantes, a fim de mostrar que não deserdaram do posto e da luta: "PROTESTO ESTUDANTIL CONTRA A ASCENSÃO DA EXTREMA-DIREITA", dizia a convocação.

Ele quis ir, afinal, no tempo da maldade ele já é nascido.

À rua com seus amigos, colegas, professores, pais e mais quem poderia ali se juntar, milhares de meninos e meninas fizeram valer suas forças, suas ideias, seus planos, seus estudos, seu tempo e, principalmente, as suas consciências.

Benjamin, como tantos ali, está crescido. 

Vejo gritar, xingar, levantar o braço, hastear bandeira... mas agora não na nossa Baixada, e sim num campo menos lúdico, menos leve, lugar de gente grande e com outras causas em jogo. 

Vendo-o ali naquela multidão, passam filmes e fotos na cabeça, mas de uma história que nunca foi minha -- os dias não eram assim na minha Curitiba dos anos 80.

Ali naquele trajeto da Candelária à Cinelândia, uma outra juventude enfrentou os batalhões, canhões e alemães da ditadura militar de 1964.

Muito mais sério, muito mais crítico.

Não estamos lá.

Mas eles reparam que logo ali há um precipício, com um futuro sério e crítico a ser desenhado sob dor e sofrimento.

E não querem, mais uma vez, que os dias sejam assim.


Benjamin, entre a Candelária e a Cinelândia, vivendo seus "Anos Incríveis".




domingo, 4 de outubro de 2026

# e se a gente virasse bolsonarista?


E se nós, brancos, cristãos, bem formados, com situação financeira e profissional estável, com ou sem filhos, com ou sem pets, com casa, carro e bicicleta motorizada, com nossas idas à praia ou às academias, com nossos vinhos e jantares, com nossas viagens e passeios campestres...

E se nós amanhã, ao acordarmos de sonhos intranquilos, levantássemos de nossas camas como bolsonaristas?

Sim, a partir de amanhã estaríamos de cabeça refeita. 

O nosso mundo, e a nossa visão de mundo, passaria a ser outra.

Com naturalidade, este estado de coisas que se desenha no Brasil -- e, ora pois, no mundo, vasto mundo -- já não nos seria estranho.

Pelo contrário, nos seria fácil, convenientemente fácil.

O meio ambiente, por exemplo, seria apenas um lugar pra viver, um lugar para se curtir. 

Um lugar para se plantar e para se construir.

Afinal, para que serve um mico-leão dourado? E um rio, senão encher e encher o nosso saco? E, pior, qual a função de um índio no ano da graça de 2026?

A vida nos seria mais leve, sem preocupações muito mundanas. 

Afinal, onde já se viu se preocupar -- pré-ocupar, não é? -- com um povo que nem conheço e que vive sabe-se lá como?

E onde já se viu eu, branquinho da silva, perder meu tempo a pensar no destino, na educação ou na formação de uma povo que nem sequer tem as origens que eu tenho? 

Ora, tão tranquilo seria, por exemplo, parar de pensar numa ideia mais complexa da violência e da segurança pública. 

Passaria a acreditar que cada um escolhe trilhar o caminho que quer para ser bom e não ser morto -- até porque, veja bem, a minha cor, a minha Copacabana e o meu status social estão muito longe de onde toda esta gente diferente mora e sobrevive (ops, vive). 

Ainda, como sou um vencedor, eu dormiria tranquilo porque a solução estaria na cara: é só ensinar cada um a pescar, não é?

A partir de então compreenderia que não há libertação fora da vida empreendedora, e cada vez mais estimularia os nossos self-made men sobre suas motos e carros, entregando coisas e gente sob a ideia de que só esse trabalho salva: afinal, em termos negociais, tudo pode naquele que no mercado de auto-ajuda crê.

E por falar em salvação, agora a gente entenderia melhor o que a Bíblia diz, bem na linha do que a catequese colegial falava: as lições do Evangelho nada tem a ver com luta, lado, laços, luto... nada disso, pois o Verbo estaria sob outra conjugação, invariavelmente na primeira pessoa do singular.

A gente também compreenderia melhor o papel bíblico da mulher, lembrando que ela nasce da costela de nós homens para fazer o que historicamente precisa ser feito. Selva!

E mais: a gente finalmente pararia de nos questionar o que seria o mal -- claro, a gente sacaria que é uma pergunta ideológica, coisa de militante e não merecedora de qualquer discussão.

Até que, no sexto dia em diante, vendo que tudo passaria a ser muito bom, a gente só louvaria a família, a moral e os bons costumes, variações suficientes para descansar o espírito.

E assim, glória, a gente deixaria pra lá esta ideia de querer mudar o mundo. 

Deixaria pra filme de Hollywood, pra novela das 9 ou pra um outdoor qualquer a ser visto num passeio por algum resort em Varadero. 

A gente daria mais risada ao ver, por exemplo, que os nossos jeitinhos do dia a dia fazem parte deste país. A gente poderia até gargalhar disso, lembrando que é cada um por si e que só Deus está vendo o pecadilho de cada dia. 

E daí a gente poderia, juntos, se revoltar contra a corrupção que assola o país, apenas falando mal da classe política que não deixa o país crescer. Ufa!

Veja bem, quão leve a gente se sentiria se despreocupando em dar respostas para assuntos que, na realidade -- e já me desculpem a franqueza --, estaria pouco se fodendo? Coisas como educação, saúde, emprego, moradia, transportes, saneamento, fome... por que pensar nisso se nada disso impacta as nossas vidas?

Olha, quão aliviados nos sentiríamos de saber que nossos filhos não correriam o risco de perder vaga nas melhores universidades ou nos grandes concursos por conta das cotas? Quão sossegados estaríamos ao entender a necessidade das coisas voltarem andar nos trilhos, com cada um no seu devido quadrado social?

A gente estaria tão convencido de que neste cenário só faltaria superação, disciplina e chaves de autocontrole para as pessoas liberaram a mente para a gloriosa prosperidade.

Claro, a prosperidade está ao alcance de todos: eu sou próspero, logo existo.

Depois, como continuaria indo semanalmente à missa, pediria a Deus para cuidar de todo mundo e, nas horas vagas, participaria das quermesses que sempre levantam fundos, sopas e roupas para as pessoas mais necessitadas. Deo gratia!

Compreenderia, nas conversas de WhatsApp com o grupo daquela antiga turma do colégio, que a nossa parte está sendo feita: a gente ora, a gente dá emprego e a gente produz riqueza para o país.

A gente teria o sono tranquilo, bem relaxado sob doses diárias de um tarja preta aspirado do novo ar que respiraríamos.

Sim, eu viveria em paz com nossos pares. 

A minha consciência estaria plena de amor e compaixão à la carte, repleta de conversas, memes e frases motivacionais com o afeto já não estranho da minha gente agora querida.

E quando porventura omitisse o riso, abusaria do silêncio, calado, calmo para evitar problemas com o meu networking. 

Sim, a partir de então passaria a ser um eterno vendedor de sonhos em minhas conversas.

Em tom sério, convicto diria que todo mundo nasceu com braços, pernas, cabeça, ombros, joelhos e pés, portanto, cada um pode ser quem quiser ser.

Enfim, entenderia que o mundo é assim mesmo.

E entenderia que posso muito bem escolher a verdade que melhor me encaixa em cada situação.

Ah, somos livres.

Isso é lindo, dá-nos paz.

O que mais a gente poderia querer?





quinta-feira, 1 de outubro de 2026

# catando conchinhas: ser ou não ser?

 

Quando no final do séc. XVIII tomaram a Bastilha e adotaram a guilhotina como um peculiar modo de se fazer política, os miseráveis resolveram que o caos deveria cortar para todos os lados.

Baionetas, panfletos, passeatas, petições e nas ruas gritos vermelhos de sangue contra aquela "ordem" e aquele "progresso".

E quando no início do séc. XXI sujeitos deploráveis migram dos gritos histriônicos e roboticamente calculados da internet para alcançar grandes resultados nas urnas, o recado que se quer é direto: desordem e regresso – ou melhor, qualquer coisa ainda que se volte à Idade Média.

Fantasias, memes, mentiras, mimetismos e pelas redes bilhões de vídeos curtidos contra-tudo-isso-que-está-aí e, fundamentalmente, contra a política – no Brasil, esta onda surge com as "jornadas de junho" de 2013 (v. aqui), cujos reflexos não cessam de provocar maremotos políticos e sociais.

Mas isso não parte direta e voluntariamente da direita, de conservadores, de liberais, dos donos do capital...

Isso parte de personagens bizarros cujas performances atendem prêt-à-porter o desespero, a desesperança, a cólera e a vida caótica em direção ao abismo de bilhões de pessoas.

Porém, tais sentimentos – e votos – da extrema-direita inexoravelmente caem no colo de quem? Claro, da direita, de conservadores, de liberais, dos donos do capital...

Por quê? 

Ora, porque grande parte da esquerda apequenou-se, aburguesou-se e partidarizou-se como um grupo de cinderelas que finge esquecer a abóbora nos esperando do lado de fora do castelo das instituições.

Porque a esquerda acabrunhou-se, a esquerda pensa e propõe dentro de um cercadinho institucional, programático e ideário que pendula entre os gritos jovens de centros acadêmicos e a cartilha ordinária da social democracia europeia. 

Insistimos no continuísmo da conciliação enquanto o fogo continua soprado de cima para baixo ardendo sem cessar no lombo da massa.

Insistimos no tom de que a virtude está no meio enquanto a imensa base é sufocada sem dó pela parte de cima da pirâmide social.

Insistimos em fechar os olhos para a tragédia da desindustrialização, da escolarização vazia e, em especial, da desigualdade social, fomentando indiretamente – mas convenientemente – bolsas e bicos em aplicativos de entregas, de apostas, de danças, de vendas, de sexo, de tráfico... de tudo que possibilite uma renda e um sentido à vida de um mar de náufragos sociais. 

Insistimos no paz e amor vendido simpaticamente pelos telejornais enquanto o subúrbio, a periferia e as favelas perambulam dia e noite pelos escombros de uma vida que sabe à pus e pólvora.

Insistimos, enfim, em defender este modelo socioeconômico vigente, fingindo acreditar que qualquer adjetivo torna-o possível: capitalismo humano, capitalismo sustentável, capitalismo democrático, capitalismo social, capitalismo responsável...

Nada vislumbrando, todos num beco sem saída, agarram-se na fé de uma teologia da prosperidade, na sorte das roletas virtuais e nas cantilenas de coaches e influencers como frestas por onde possam escapar em busca de sentido e dinheiro.

Ora, que perspectivas têm os milhões de jovens num modelo excludente, segregador, individualista e elitista senão quebrar a coisa toda para depois transmitir em alguma live que dê engajamento e moedas?

Ora, que saídas têm os milhões de adultos numa ordem social cujo máximo que pode prometer é uma espécie de "bricolagem social", como se o mundo possível fosse uma mistura de Uber com Leroy Merlin embalada a doses de cachaça, sarro e jogo do bicho?

Enquanto isso, a esquerda engomada, dentro das suas vestes burocratas e das suas pautas mezzo lá, mezzo cá, com seus burocratas encastelados ou yuppies que acendem uma vela para o "luxo" – cheio de casa-grandes, vans e um obsceno consumo – e outra para o "Che" – um avatar contra a fome e a exploração do capital –, vê a banda passar.

Ao lado, ludicamente, temos a esquerda identitária, que cada vez mais ocupa desmedido espaço público em suas pautas limitantes -- porque não alcançam a imensa maioria da população (abandono do universalismo) -- e limitadas -- porque não dão as respostas concretas para os problemas reais que se avolumam (desconexão) --, pouco racionalizadas (a supremacia da moral) e institucionalizadas. 

Perdidos ou confortados, nosotros continuamos oferecendo pílulas – ou seriam supositórios? – para uso homeopático da população, enquanto a extrema-direita propõe bombas atômicas que o eleitorado curte e compra, embora não saibam que sejam de festim.

E por isso, nesta toada seremos sempre presa fácil para qualquer platelminto que promete o impossível e que, habilmente, ofusca estas contradições.

Por sinal, querem contradição maior do que ver a precarização do trabalho e a descrença na capacidade do Estado de melhorar a vida da massa periférica no discurso da direita, como se o conjunto de ações e proposições da própria direita não fosse a grande responsável pelo desmonte do trabalho, que leva à sua precarização, e pela entrega do Estado, que leva à sua incapacidade de agir?

Lá atrás perguntou Lênin: "o que fazer?".

Hoje, mais de cem anos depois, há um mundo a se (re)fazer. 

Antes disso, porém, é entender onde estamos e dizer o que está acontecendo, dando nome aos bois e constituir o problema.  

Depois, é dizer o que se vai fazer.

Sim, prometer além, um outro lugar, um lugar que parece irrealizável.

Prometer a utopia, tal qual a esquerda sempre o fez, sob um viés revolucionário que se baseava na imaginação e na construção das ideias que transformasse o presente para a existência de um novo futuro.

Prometer, mas sobretudo agir em busca deste lugar.

Acontece que quem hoje promete esta revolução é a direita, aceita sob um misto de esperança e delírio por uma multidão que infelizmente não consegue ver à frente a tragédia da "distopia", pois às cegas só é capaz de fugir do presente, sobre o cadafalso de um futuro visto do retrovisor.

E atenção: a direita faz exitosamente, joga o jogo, colocando em campo um elenco farto para consumo em série do povo.

São tantos homens com bíblias na mão – e ideias cifradas na cabeça – que diariamente dão o microfone divino para a massa falar diretamente com Deus, prometendo dinheiro (e a vida eterna), rodeando-a de ratoeiras cheias de cuidados e carinhos.

São inúmeras mulheres com câmeras na mão – e ideias de merda na cabeça – que medusicamente entoam frases e planos de vida e de sucesso que influenciam milhares ao alcance de um clique, prometendo dinheiro (e a fama eterna).

São muitos homens e mulheres que de dentro dos seus pequenos negócios e dos seus empregos irradiam a lógica privé da mão invisível, do self-made man e do "salve-se quem puder".

São infindáveis juízes, promotores e outras cabeças quadradas da máquina pública que contaminam o público com a ideia de meritocracia, pactos anticorrupção e outros contos da carochinha.

São todos os milicos que gritam "selva" da sala de estar e que cortam mãos e cabeças por cargos ou pensões.

E, principalmente, são sujeitos com um discurso exemplarmente simplista de (falsa) ruptura, de (falsa) liberdade e de (falsa) luta contra a "ordem" que laça o gado e o cerca nas redes sociais onde ninguém dá a mão pra ninguém, prometendo de modo desconexo mundos e fundos (e a pátria eterna).

Mundo que continuará nas mãos (e nos fundos mais ou menos paradisíacos) de uma única classe: os ricos, sujeitos que encartam e descartam aqueles personagens como marionetes, jagunços ou longa manus dos seus interesses, a nadar de braçada no rentismo, no entreguismo estatal, no extrativismo e nas monoculturas, concentrando renda, riqueza e poder como nunca se viu na Terra – por sinal, eis um lugar que também já não aguenta mais.

Enfim, deve ficar claro: o capitalismo e, a reboque, esta democracia representativa, morreram como arquétipos da ordem política, econômica e social.

Como zumbis, ambos são cadáveres reanimados na calada das noites por tipos bizarros: hoje são os Bolsonaros, ontem foi Kast, Trump e Milei, anteontem foi a turma da Europa... 

E amanhã será outro pseudo-Coringa qualquer, algum sujeito fantasiado de redentor, louco ou pirofágico, cujas promessas de lutar contra todos (America first!) ou destruir tudo (carajo!) cuidadosamente escondem os interesses de sempre -- aqueles da ordem posta --, mas que empolgam milhões de legionários, gementes, batalhadores, tolos, quebrados, incautos, adeptos e mais outros tantos sujeitos.

E a esquerda, nesta onda em que insiste navegar, morrerá sempre na praia, catando conchinhas para malabarismos reformistas em um looping de faíscas e apagões, de suspiros e manifestações.

Por isso, cientes da transição entre o velho e o novo na conformação da ordem social, urge encarar sem medo a onipotência das pautas (e dos votos) da direita como horizonte social e, mais ainda, sobrepujar o discurso edulcorante de um progressismo liberal e da pax brasilis.

A  esquerda, assim, precisa pôr em marcha a transformação do sistema social, econômico e jurídico, a partir da radicalidade institucional e com vistas à defesa aboluta do igualitarismo como meio de garantir padrões materiais razoáveis a todos os cidadãos.

É necessário, pois, esticar a corda.

E da energia que a tenciona (ou estoura), preparar a nova ordem, cujo fim é o engrandecimento emancipatório de nossa gente.

E dali fazê-la nascer, ainda que a fórceps.