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terça-feira, 28 de abril de 2015

# que ser sou eu?

O que é a vida?
Abujamra se foi, e com ele se vai uma das poucas pessoas que estavam na televisão para refletir e fazer pensar.
Não falarei do que fez com Eurípedes, Shakeapeare e Brecht nos teatros do Brasil afora.
Mas, sim, do que realizava no seu excepcional programa "Provocações", que circulava pelas tv públicas brasileiras há quinze anos.
Sem espaço na grande mídia – motivo de orgulho – e sem paciência para redes sociais – outro orgulho –, este seu programa de entrevistas era, como o próprio intelectual se referia, longe de ser uma janela para o mundo, mas apenas “um periscópio sobre o oceano do social”.
Intrigante, angustiado, poético, cético e utópico ao mesmo tempo, o eterno Ravengar – infelizmente só assim foi apresentado ao grande público – era um dos melhores provocadores.
Filósofo de formação (e alma), não permitia frase-feitas em seu talk-show, não consentia com a ciranda falsa de quem quer holofotes e não se rendia ao bom-mocismo do politicamente correto.
Ao mesmo tempo, contudo, nunca expunha ou perquiria por simples agitação ou vaidade pessoal, do pior daqueles tipos que querem a polêmica por si, burra e rasa, ou que pensam ter o rei na barriga enquanto nem sequer ainda sabem quem eram si próprios.
Quem à sua frente sentava sabia que não se estava ali de brincadeira, e por isso a conversa fluía séria e trágica, cômica e lúdica, direta e verdadeira, sem purpurina ou máscaras.
No início, suas entrevistas se encerravam com a oportunidade aos entrevistados “enforcarem-se nas cordas da liberdade”, deixando-lhes dizer o que bem entendessem sobre qualquer coisa, fixando-se numa câmera alternativa.
Ultimamente, mudou.
E passou a encerrar o programa com uma pergunta bastante simples ao entrevistado: “O que é a vida?”.
A pessoa titubeava, às vezes pensava um pouco, mas respondia, meio com chavões, meio sem sentido, meio até certa de si.
E ele tornava a perguntar, pausadamente: “O que é... a vida?”
A pessoa, confusa, respondia mais ou menos, meio diferente de antes, meio em dúvida.
E ele, de novo, ainda mais pausado e ainda mais impactante: “O que... é... a... vida?”.
A pessoa, se sagaz fosse, percebia então onde ele finalmente queria chegar.
E praticamente se calava, recebendo do provocador um grande abraço.
Salve, Abujamra!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

# inesgotável



A fingir tratar-se de outro negócio qualquer, a TV mundo afora padece do mais abjeto e vil fim: o lucro pelo lucro, a receita pela receita, não importa as consequências.

E, desde já a maior premissa: a TV é uma concessão pública, a depender do Estado e, pois, do interesse público, e de outras tantas condicionantes constitucionais que não sirvam ao bel-prazer dos empresários  para existir, como aqui já relatamos.

Mas retomemos às profundezas.

Ora, se a TV visa à grana da audiência, e se a audiência quer este show de horror que a todo instante é despejado como esgoto nas telas de TV, tem-se um inexpugnável (e nada subterrâneo) sistema de canais de lixo, com o "fomento" e a "busca" se engrenando num moinho produtor da bestialização geral.

Há, até, trabalhos científicos que se debruçam nisso, ou seja, a importância de programas idiotas no não-desenvolvimento cerebral das pessoas, o que as leva a querer consumir mais coisas idiotas e, pois, levando as emissoras a produzirem mais e mais idiotices, a formar o tal círculo vicioso  (v. aqui e aqui).

A reprovação e o rechaço, portanto, não cabem exclusivamente ao repugnante big brother brasil (v. aqui), mas são direcionados à miserável qualidade da vida televisiva  a qual, entre outros deploráveis eventos, abraça o telejornalismo de cadafalso, a comédia bandida e aquelas rinhas de hominídeos , em sua maioria sem educação, sem valores, sem cabeça e sem alma.

E mais, sem respeito, sem qualquer respeito, como assim agem estes grupelhos de humor, que a detonar grupos e dogmas religiosos, grupos e partidos políticos e grupos e minorias sociais, se imaginam engraçados e meros utentes (e beneficiários) de um estado livre e democrático.

E, assim, dá-lhe audiência.

Afinal, na outra ponta, uma sociedade cada vez mais alienada, mais egocêntrica e mais liquefeita  v. aqui, aqui e aqui , que a toda instante consome este tipo de produto em doses industriais.

Eis, pois, a roda-zumbi que bate palmas para o sobe e desce do carrossel social.




 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

# racio símio



Como sempre, o fundo do poço é ainda mais embaixo  e neste momento lembro dos Titãs, na fase "Õ Blesq Blom" da minha adolescência e daquele raciocínio simiesco musicado (o que, já por ora, me faz sentir ofender a inteligência dos primatas não-humanos...).

É que num destes pormenores que recheiam a vida, de novo me deparo com este "big brother brasil", um dos maiores shows de horror televisivo da história do planeta, e que noto sempre se superar.

A cada edição do troço, inclusive, ouso imaginar que o (nosso) fim esteja perto.

Bem, nestes prolegômenos devo antes admitir que, muito pior do que os animais  sim, "zoológico humano" é a expressão usada por gente da própria mídia global quando se refere ao evento e seus participantes – que se expõem naquilo tudo, as piores espécies são mesmo as que assistem, fomentam e sustentam o degradante espetáculo.

Degradante e mendaz, na medida em que, para aquilo tudo que pretende, o programa global é muito mais (hipocritamente) obsceno que toda a programação daqueles canais para "adultos", pois age com dissimulação, desfaçatez e desonestidade.

Finge, pois, ser algo que não é.

Fomenta aquele oba-oba sem sentido como se natural, como se cotidiano, como se o mundo realmente fosse feito daqueles dias e dias de orgia platinada, daquelas noites e noites de venustas festas. 

É, o tempo inteiro, a todo instante, um desfile de carnes sem sentido, à exaustão, para todos os tipos, para todos os gostos; é, num tempo triste, a escatologia na tela aberta brasileira e na voz infausta de um locutor poente.

E como nunca antes, a busca frenética pela grana da audiência abusa de qualquer mínimo sentido e açoita os mais básicos princípios que deveriam orientar um meio de comunicação cuja natureza é de utilidade pública.

Ah, mas o interesse público está justamente no interesse do público em acompanhar o reino animal em estado bruto, puro, selvagem...

Não, não.

Para isso tem-se os canais adequados para se promover e ostentar um ambiente dionísico e de luxúria o quanto quiser e como se queira  afora, claro, os canais da Discovery

Agora, para devassar e arrombar a retina de quem vê TV às dez da noite, isso não é legal. 

É imoral e engorda  pode soar piegas ou carola, mas não vejo como razoável o maior veículo de comunicação do país invadir os lares, em uma hora dessas, para despejar um rio pútrido de frases e imagens com ares de imaculada naturalidade e de inocente diversão.

Se, afinal, é este entretenimento que o distinto público curte, use-se dos canais da "TV a cabo", com suas regras e características próprias, abuse-se dos meios minimamente pertinentes às categorias de sinal, de ambiente, de programação e de horário para expor aquilo tudo  e os urubus e abutres, ávidos pela fortuna do patrocínio publicitário, continuarão saciados.

Mas o que não se pode admitir é a candidez de se promover, à exaustão, mensagens mais ou menos (ou nada) subliminares da vida sem sentido, da contracultura social, da idiotização plena, como se tudo não passasse de uma grande festa sem raiz (e crise) existencial.

Nesta TV, as pedras que rolam são cabeças vazias, para indiscreto delírio dos telespectadores enjaulados em si.

Sim, a jaula está do lado de cá da tela.