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terça-feira, 23 de agosto de 2016

# mal banal



A filósofa alemã (e judia) Hanna Arendt cunhou a célebre expressão "banalidade do mal" para explicar a sua tese do que houve no regime nazista, mais especificamente depois de acompanhar, em Nuremberg, ao vivo, o julgamento de Adolf Eichmann, um tenente-coronel do regime de Hitler e reconhecido como o executor-chefe do Terceiro Reich.

Eichmann foi responsabilizado pela logística de extermínio de milhões de pessoas, organizando a identificação e o transporte de pessoas para os distintos campos de concentração – era a chamada "solução final", na porta de entrada dos trens.

Ao se referir à "banalidade do mal", Arendt em momento algum busca rebaixar a sua gravidade, mas, pelo contrário, aumentá-la – e isso, à época, foi muito pouco compreendido, maiormente pelo furor dos tão recentes acontecimentos. 

Na verdade, é que o mais horrível do mal está no fato das autênticas perversões poderem se apresentar e ser vividas como atos corriqueiros, triviais, indiferentes e neutros do cotidiano.


Ora, se chego a acreditar que praticar tais atos é um direito (ou um dever) meu, é muito mais fácil cometê-lo, publicizá-lo e defendê-lo.

Assim, sob tal concepção, Eichmann não era um assassino monstruoso.

Ele era, simplesmente, um funcionário estatal comum encarregado de fazer pessoas entrarem nos trens para que chegassem a um determinado lugar, inadmitindo juízo de valor.

Sim, mera peça de uma engrenagem, circunstancialmente travestida de "gente", que deveria funcionar sob estrito aparo da convicção e da convenção populares vigentes no contrato social daquela Alemanha.

E uma peça de engrenagem não é moral e nem é imoral: é, simplesmente, uma "peça".

Logo, qual o paralelo que se quer propor?

É que a mesma lógica sucede com esta coisa chamada "mercado" que nesta sociedade produz, como fruto fiel da sua capital libertinagem, uma atroz "injustiça social", banalizando-se na sua essência.

A dinâmica invisível de uma estrutura abstrata que afeta a vida de bilhões de pessoas assenta-se em comportamentos cujos reflexos são encarados como meros fenômenos naturais – e a sua existência, pois, refuta qualquer ordem valorativa.

Não há monstruosidade na conformação deste regime do capital e não há perversidade na atuação dos seus agentes: neles somente se fazem "escolhas" e "investimentos”.

Como Eichmann, que só organizava transportes e pessoas.

Ora, os responsáveis em ambas as situações não se movem por instintos malévolos, por regras de conduta malvadas e por ódio; há, apenas, a renúncia a ser homem e, pois, a "pensar".

Pensar não deve ser entendido, jocosamente, como uma abstração máxima da não-atividade.

Pensar revela-se como a capacidade para refletir e para saber as causas e as consequências dos próprios atos, ainda que resultem da mera obediência e cumprimento do dever, sem reduzi-los às dimensões individuais e sem abstraí-los das implicações globais, como inclusive aqui já foi narrado.

Pois é, neste anonimato do "mercado", pessoas tomam singelas decisões sócio-econômicas que abrem o caminho para dramas, tragédias e a falência financeira, pessoal e moral de outras bilhões.

Tal qual Eichmann e os agentes do mercado, mundo afora agentes políticos também trabalham com esta "lógica".

E se não levam centenas de milhares de seres humanos aos trens que levam às câmaras de gás, amontoam-nas pelas periferias sob a redoma de uma câmara de asfixia pessoal e social.

Estes agentes políticos são cruéis e malevolentes?


Não, talvez não.

Afinal, tal qual os agentes do mercado (e Eichmann), eles também creem que estão apenas a cumprir os seus deveres -- como assim crê, embora com sulfuroso odor de cinismo e dissimulação, esta nauseabunda turma que usurpa o governo federal.

E assim segue a toada, e assim se perpetua a banalização do mal, no caso, a banalização da injustiça social.


Diante da qual poucos se atrevem a pensar ("sapere aude!"), como lá atrás exigia a filósofa judia alemã, sob a lição de Kant.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

# mito de sísifo


Após um necessário período de hibernação, retomemos. 
 
E, en passant, tratemos da vida, ou da morte, direto das arquibancadas do jogo entre Atlético e Vasco, em Joinville. 
 
É que os acontecimentos deste triste domingo para a espécie humana provocaram-me a refletir sobre isso.
 
Os bichos que se violentaram, numa selvageria anojosa, gratuita, estúpida e voluntária, estavam dispostos a ter qual fim? 
 
Abstraindo-me, se possível fosse, de questões religiosas, defendo que a morte de todos – sim, todos, literalmente todos os que diretamente ansiavam por aquele momento, para se evitar que, sendo só de um ou outro desgraçado, não se faça injustiça ou, pior, façam-se mártires – os envolvidos naqueles atos seria natural, algo óbvio, calculado e pertinente. 
 
Note-se que se falou desejar ou querer a morte de outrem – para ainda tentar mais uma vez resgatar o fundamento cristão que sempre me move –, mas em respeitar o desejo de cada um dos bichos que se entreveram naquele cenário de cimento e ódio. 

Ora, eles estavam ali naquele meio porque queriam – não foram perseguidos, não foram abandonados, não foram surpreendidos e não foram iludidos até o local. 
 
Ora, eles foram para lá porque quiseram – não foram coagidos, não foram por dinheiro, ou por deus, pela pátria, pela liberdade ou pela revolução. 
 
Eles, sedentos e famintos como javalinas no cio, estavam à disposição para aquilo tudo. O fim, a morte, não lhes era algo caro ou diferente. 
 
Na verdade, eram indiferentes a ela. Era, sim, o maior barato ali estar. 
 
Se Hanna Arendt desenhou a “banalidade do mal”, as dezenas de animais que envergonharam a espécie humana banalizaram, ali, a vida. 
 
A vida entre eles, só deles e desprezada por eles, já não lhes tinha uma razão de ser, nem de existir; a morte entre eles, só deles e provocada por eles, já não seria um acaso, mas mero ocaso. 
 
Estavam, pois, dispostos a tudo: engolir, estrangular, marretar, ralar, rolar, roer, socar, quebrar, cortar, perfurar, pisotear, atropelar, amassar, morder e moer tudo, todos, inconsequentemente.
 
Não havia, portanto, qualquer causa ou consequência aos seus atos que os proibissem ou os impossibilitassem de agirem daquele modo. 

E se pergunta: pena? 
 
Alguém, não sendo um doente mental, que pela adrenalina senta num veículo de passeio para seguir pela estrada afora a 200 km/h e morre sem ver o lobo-mau? Suicídio involuntário? 
 
Alguém, não sendo um doente químico, que pela curtição se tranca num quarto para se entupir de heroína veia adentro e morre sem ver a fada-dos-dentes? Suicídio indireto? 
 
Alguns, não sendo doentes ou escravos civis, que pela adrenalina, pela curtição e pelo ódio, se dirigem a uma praça vazia para se agredirem incessantemente com tacapes, lanças e chutes, e morrem? Suicídio coletivo? 
 
Não, não me parecem casos de pena (salvo, é claro, em relação aos familiares, que em tese nada tiveram com aquilo e deverão sofrer pela perda dos respectivos entes amados...). 
 
Pelo contrário, são casos em que devemos respeitar os autodesígnios de cada um – o "livre-arbítrio", como ensinou Santo Agostinho – e os desejos felinos de curtirem as suas histórias.

São casos, como o de Joinville, em que até se chegaria num (insensato) nível de se lamentar o não-ocorrido – e tudo pelo bem da sociedade, pelo bem do futebol brasileiro e, repita-se, pelo bem de cada um dos envolvidos, uma vez que estavam bem dispostos a morrerem pelas cores vãs das suas facções. 

Lembremos: o futebol inglês, ou melhor, todo o estado de coisas que circundava (e preenchia) o futebol inglês, só mudou depois que dezenas de pessoas morreram – e lá a grande maioria injustamente! – em razão das podres condições do superlotado estádio e do enésimo confronto entre hooligans, os marginais torcedores nativos; hoje, a Inglaterra tem o maior, o mais rico, o mais cheio e o mais seguro futebol do planeta. 
 
O Brasil, portanto, precisa e clama pelos seus kamikazes, por seres dispostos a se entregarem – como ontem – para a redenção do nosso futebol. 

Logo, neste domingo parece que se perdeu uma grande chance disso acontecer, tamanha a sanguinária e voluptuosa vontade dos envolvidos, afinal, no baixio das bestas lá estavam elas, saltitantes, encubadas num terreno só delas para orgulhosamente morrerem. 
 
E, consumado o ato, lá na frente, talvez por piedade, poderíamos oferecer nomes de pontes, de pracinhas, de bosques ou criar um muro das lamentações em homenagem a cada um dos finados que prestaram um grande serviço à nação.

Como diria Fernando Pessoa, "absurdemos a vida, de leste a oeste".