Difícil compreender que decidir pela democracia não deveria ser uma questão de “escolha”.
Assim como ter a possibilidade do voto em um processo eleitoral não significa que se vive uma democracia.
Ocorre que, antes de tudo, o ato de votar faz você se responsabilizar pelo que escolhe.
Vocês passa a ser complacente, conivente e mesmo cúmplice da escolha que faz.
E por isso votamos, e por isso a cada eleição, cada um, com suas visões de mundo ou seus raciocínios matemáticos – o voto também costuma se medir por cálculos objetivos – escolhe seus “representantes”.
No Brasil, não à toa, a primeira frase do art. 1º diz que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito.
Logo, não deveria se flertar com a escolha entre viver ou não numa democracia, bem como, a esta altura da humanidade, não se poderia admitir um direito a escolher entre viver em uma sociedade moderna ou medieval.
Claro que o receituário de democracia não admite apenas a forma que comumente enxergamos, que sacraliza o processo eleitoral -- e em regra nele hiberna.
Há outras formas, no mais das vezes revolucionárias, que hoje alcançam um governo do povo, para o povo e escolhido pelo povo sob configuração diferente das democracias liberais. Uma, em particular, com retumbante sucesso: a China.
Mas esse não é o ponto da nossa conversa.
Falamos da nossa democracia -- a liberal, para o bem e par o mal.
A partir dela, há soluções políticas e receitas programáticas para todos os gostos, mais ou menos convenientes às visões de mundo – a "ideologia" – de cada um.
E há, certamente, uma parcela da população que referenda um vida não-democrática.
Sim, há uma porção que escolhe viver sem democracia, sob diversas cepas.
Primeiro, aquela que representa o eixo estruturante do protofascismo nacional: é o brasileiro racista, entre outras qualificações, que não pretende a construção de uma sociedade igualitária, muito menos perder os seus históricos privilégios.
São os facínoras, cuja viuvez dos anos de chumbo é tratada com saudosismo e orgulho e em cuja órbita social não cabe o "outro". E são os vendilhões do nosso templo republicano, mais ou menos expostos na obstinada busca argentária – e diante desse pessoal toda lógica, todo direito, toda ética e todos os valores morais são absolutamente descartáveis, sendo, pois, impossível se cogitar qualquer reflexão para que possam se convencer do contrário.
Depois, há três outros grupos, que mais ou menos se enganam com o que imaginam desejar.
São as vítimas desgraçadas de uma ordem econômica e social -- o neoliberalismo -- que exclui, que segrega e que concentra estratos sociais em forma absolutamente antidemocrática, incapaz de desenvolver um tecido social que agregue, una e promova o engrandecimento geral.
É a parcela representada pelo precariado, uma imensa classe popular que não vê diferença entre essa democracia e a vida que leva: direitos e liberdade apenas formais, fulminados por restrições objetivas que diariamente fazem-na descrer de um país democrático.
E opr fim há os descuidados, batalhadores deixados de lado pelo Estado e que, além de verem limites inexpugnáveis no projeto de inserção e ascensão sociais, também passaram a acreditar no discurso da violência como combatente da violência, ignorando que sob esta lógica eles continuarão a ser "objeto" da violência, como se numa epopeia suicidária com a chancela oficial do governo.
Esses todos, diferentemente daquele pequeno grupo da extrema-direita, acreditam estar escolhendo uma mudança e decidindo pela salvação do país.
Mas não, não estão.
Pelo contrário, estão a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa história, que carcome nossos direitos e garantias e tinge com tinta sombria nosso futuro.
Sem saber, acabam por vibrar e flertar com as trevas de um arquétipo de governo: inventado, armado, enjambrado, com um lado e sem viva alma.
E estão a sucumbir a isso.
Estão admitindo viver à margem da democracia, no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente vil.
Estão, assim, a ver a construção da nossa nação vergar e se acabrunhar, de novo.
E estão a aceitar isso, num rotundo temor servil.
É, portanto, absolutamente dramático este momento da nossa República.
E na vida há situações em que se deve firmar uma posição.
E escolher um lado, posto que não se trata de um maniqueísmo qualquer.
Está muito claro que agora já não se trata de "esquerdismo" ou "direitismo", mas de lutar contra o bolsonarismo.
Não há, afinal, vestígios de vida em sociedade sob os arautos da extrema-direita.
Diante disso não há ideias, não há lógica, não há razão, não há coração, não há nada fora do arbítrio e da continência.
Nem liberdade, nem direito, nem lei, nem povo, nem justiça, nem amor, nem ordem, nem progresso, nem nada.
Agora há outro Bolsonaro no meio do nosso caminho, homem-pedra que não titubeia em ofender e assumir a destruição das regras básicas de uma sociedade moderna e de um país democrático.
Por isso, grite-se, o que está verdadeiramente em jogo é o inabalável respeito aos princípios, aos fundamentos e aos objetivos contidos na Constituição da República Federativa do Brasil.
Sendo assim, minha gente, não cabe omissão, isenção ou dúvida na escolha a ser feita.
Afinal, não mais se trata de política, modelos e cores partidárias.
Trata-se de escolher entre luz ou trevas, entre o progresso ou o caos.
Trata-se de escolher entre luz ou trevas, entre o progresso ou o caos.
E entre a civilização ou a barbárie.
