E se nós, brancos, cristãos, bem formados, com situação financeira e profissional estável, com ou sem filhos, com ou sem pets, com casa, carro e bicicleta motorizada, com nossas idas à praia ou às academias, com nossos vinhos e jantares, com nossas viagens e passeios campestres...
E se amanhã nós acordássemos de sonhos inquietos e de repente, não mais que de repente, levantássemos de nossas camas como bolsonaristas?
Sim, a partir de amanhã estaríamos de cabeça refeita.
O nosso mundo, e a nossa visão de mundo, passaria a ser outra.
Com naturalidade, este estado de coisas que se desenha no Brasil -- e, ora pois, no mundo, vasto mundo -- já não nos seria estranho.
Pelo contrário, nos seria convenientemente agradável.
O meio ambiente, por exemplo, seria apenas um lugar pra viver, um lugar para se curtir.
Um lugar para se plantar e para se construir.
Afinal, para que serve um mico-leão dourado? E um rio, senão encher e encher o nosso saco? E, pior, qual a função de um índio no ano da graça de 2026?
A vida nos seria mais leve, sem preocupações muito mundanas.
Afinal, onde já se viu se preocupar -- pré-ocupar, não é? -- com um povo que nem conheço e que vive sabe-se lá como?
E onde já se viu eu, branquinho da silva, perder meu tempo a pensar no destino, na educação ou na formação de uma povo que nem sequer tem as origens que eu tenho?
Ora, tão tranquilo seria parar de me pensar numa ideia mais complexa da violência e da segurança pública.
Passaria a acreditar que cada um escolhe trilhar o caminho que quer para ser bom e não ser morto -- até porque, veja bem, a minha cor, a minha Copacabana e o meu status social estão muito longe de onde toda esta gente diferente mora e sobrevive (ops, vive).
Ainda, como sou um vencedor, eu dormiria tranquilo porque a solução estaria na cara: é só ensinar cada um a pescar, né?
A partir de então compreenderia que não há libertação fora da vida empreendedora, e cada vez mais estimularia os nossos self-made men sobre suas motos e carros, entregando coisas e gente sob a ideia de que só esse trabalho salva: afinal, em termos negociais, tudo pode naquele que no mercado de auto-ajuda crê.
E por falar em salvação, agora a gente entenderia melhor o que a Bíblia diz, bem na linha do que a catequese colegial falava: as lições do Evangelho nada tem a ver com luta, lado, laços, luto... nada disso, pois o Verbo estaria sob outra conjugação, invariavelmente na primeira pessoa do singular.
A gente também compreenderia melhor o papel bíblico da mulher, lembrando que ela nasce da costela de nós homens para fazer o que historicamente precisa ser feito. Selva!
E mais: a gente finalmente pararia de nos questionar o que seria o mal -- claro, a gente sacaria que é uma pergunta ideológica, coisa de militante não merecedora de qualquer discussão.
Até que no sexto dia em diante, vendo que tudo passaria a ser muito bom, a gente só louvaria a família, a moral e os bons costumes, variações suficientes para descansar o espírito.
E assim a gente deixaria pra lá esta ideia de querer mudar o mundo.
Deixaria pra filme de Hollywood, pra novela das 9 ou pra um outdoor qualquer a ser visto num passeio por algum resort em Varadero.
A gente daria mais risada ao ver, por exemplo, que os nossos jeitinhos do dia a dia fazem parte deste país. A gente poderia até gargalhar disso. A gente poderia, juntos, se revoltar contra a corrupção que assola o país falando mal da classe política que não deixa o país crescer. Ufa!
Veja bem, quão leve a gente se sentiria se despreocupando em dar respostas para assuntos que, na realidade -- e já me desculpem a franqueza --, estaria pouco se fodendo? Coisas como educação, saúde, emprego, moradia, transportes, saneamento, fome... por que pensar nisso se nada disso impacta as nossas vidas?
Olha, quão aliviados nos sentiríamos de saber que nossos filhos não correriam o risco de perder vaga nas melhores universidades ou nos grandes concursos por conta das cotas? Quão sossegados estaríamos ao entender a necessidade das coisas voltarem andar nos trilhos, com cada um no seu devido quadrado social?
A gente estaria tão convencido de que neste cenário só faltaria superação, disciplina e chaves de autocontrole para as pessoas liberaram a mente para a gloriosa prosperidade.
Claro, a prosperidade está ao alcance de todos: eu sou próspero, logo existo.
Depois, como continuaria indo à missa semanalmente, pediria sempre a Deus cuidar de todo mundo e, nas horas vagas, participaria das quermesses que sempre levantam fundos e roupas para as pessoas mais necessitadas. Deo gratia!
Compreenderia, nas conversas de WhatsApp com o grupo daquela antiga turma do colégio, que a nossa parte está sendo feita: a gente ora, a gente dá emprego e a gente produz riqueza para o país.
A gente teria o sono tranquilo, bem relaxado sob doses diárias de um tarja preta aspirado do novo ar que respiraríamos.
Sim, eu viveria em paz com nossos pares.
A minha consciência estaria plena de amor e compaixão à la carte, repleta de conversas, memes e frases motivacionais com o afeto já não estranho da minha gente agora querida.
E quando porventura omitisse o riso, abusaria do silêncio, calado, calmo para evitar problemas com o meu networking.
Sim, a partir de então passaria a ser um eterno vendedor de sonhos em minhas conversas.
Em tom sério, convicto diria que todo mundo nasceu com braços, pernas, cabeça, ombros, joelhos e pés, somos todos prontos para ser quem quiser ser.
Enfim, entenderia que o mundo é assim mesmo.
E entenderia que posso muito bem escolher a verdade que melhor me encaixa em cada situação.
Somos livres.
Isso é lindo, dá-nos paz.
O que mais a gente poderia querer?