Mostrar mensagens com a etiqueta governo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta governo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de julho de 2017

# tijolo com tijolo num desenho lógico



Vamos com calma.


Discuta-se, sim, princípios, regras e métodos do processo penal adotados pela polícia, pelo MP e pelo juiz federais; aprofunde-se, outrossim, o fim político e não judicial das ações; radicalize-se, ainda, as críticas à postura partidária da mídia e esquizofrênica da oposição.


Entretanto, não se pode inverter a ordem lógica da coisa.

Afinal, terem sido presos mafiosos de tantas bilionárias famílias de bandidos – e que tanto estão a confirmar o modus operandi do histórico negócio a envolver Estado e empreiteiras –, é um fato muito positivo da nossa República, finalmente dando a cara do outro lado da moeda, ou seja, escancarando que o "mercado" (empresas privadas) são co-protagonistas do espetáculo da corrupção (v. aqui). 


Por isso, a "solução" que se pretende dar às investigações da operação "Lava-Jato", de que se deve salvar estas tantas empresas picaretas da construção civil, é de um surrealismo atroz.


E o que mais espanta é que tal ideia não parte dos eternos donos do poder, sempre carinhosos com a banda podre da dinheirama nacional, mas, sim, da mídia e das vozes alternativas e, pior, de parte da centro-esquerda brasileira.

Ora, não são apenas as cabeças (e os troncos, e os membros) destas empresas que precisam ser liquidadas, mas sim os seus espíritos, pois, caso contrário, continuarão, por meio de familiares, laranjas e mandatários, a tomarem conta dos seus sujos negócios em detrimento do interessa nacional. 

Logo, fechem-se todas.

Cassem-se suas licenças, seus títulos, suas obras e seus contratos.

Consultem-se os astros, os signos, os búzios e se apoie em tudo que é tipo de dogma para defenestrar este bando que há decênios surrupia, em conchavos espúrios com o poderes republicanos, os cofres públicos.

O "caos", meus caros – diferente de outro caos, aqui –, seria continuar dourando esta pílula, continuar admitindo o perdão eterno e deixá-las vivas.

Too big to fail? 

Não, não também neste negócio da construção civil.


E se pode, sim, parar de alimentar o monstro.


Ora, saem estas e, na fila, há quilômetros de outras tantas empreiteiras que teriam o máximo desejo de construir para o Estado – e, particularmente, para a grandiosa Petrobras (v. aqui) –, mas que sempre foram abafadas pela máfia que comanda este meio, a conformar um dos mais nefastos cartéis do país. (v. aqui e aqui, num caso recente).

Com o fim destes gigantes empedernidos, as demissões seriam em massa, é claro – como até já está a ocorrer, tão-somente com as suspensões dos contatos.

Entretanto, as centenas de milhares de trabalhadores que perderiam os seus empregos, seriam reempregados pelo novo batalhão de construtoras que ingressariam, de verdade, no mercado – ou, melhor ainda, num mercado de verdade – a sós, em parcerias ou em consórcios, nacionais ou multinacionais, sendo nesse caso com um rígido controle sobre dividendos e a remessa de lucros.

Logo, ainda que em tese a ser talhada na prática, em cada rincão onde o Estado constrói, novas construtoras abraçariam a causa, e em cada canteiro reentrariam toda uma mão-de-obra antes nas mãos dos mesmos.

E para isso a máquina pública precisa, rapidamente, tomar atitude e resolver, sem levar tudo num banho-maria. 

Alguns questionarão: "Ah, mas apenas essas empresas é que detêm a tecnologia, as técnicas, a escala e a estrutura produtiva necessárias para a construção pesada e de vanguarda..."

Ora, o ponto, então, é o seguinte: que se salvem as "empreiteiras" (e a tecnologia, as técnicas, a escala e a estrutura produtiva), mas não a "propriedade" dessas empresas pelas famílias e grupos historicamente mafiosos, pois os "padrinhos" presos não significa que a famiglia deixe de continuar recebendo seus quinhões de faturamentos bilionários.

O ponto, ainda, vai muito além disso: qual a lógica – a não ser a ideológica – para que o Estado, por meio da Administração Pública, deixe de fazer por si ou sob as suas rédeas (quase todas) as coisas?

Afinal, como aqui sublinhou o Prof. Boaventura, "se o Estado fosse por natureza mau administrador não seria tantas vezes chamado a resolver as crises econômicas e financeiras provocadas pela má gestão privada da economia e da sociedade"; o Estado "só é verdadeiramente mau administrador quando os que o controlam conseguem impunemente pô-lo ao serviço dos seus interesses particulares por via do fanatismo ideológico, da corrupção e do abuso de poder"; em suma, o Estado "é considerado mau administrador sempre que pretende administrar sectores da vida social onde o capital vê oportunidades de lucro".

Portanto, por que o próprio Estado brasileiro não finca os seus pés nisso e cria uma empresa pública na área, uma Construção Civil Brasileira S.A, uma "CONSTRUBRAS", coadjuvada por tantas cooperativas locais criadas para o setor e por tantas pequenas empreiteiras regionais – ainda que alavancadas com regulado capital estrangeiro, especialmente se necessário para a transferência de tecnologia e a (re)formação de capital intelectual –, em cujo desenvolvimento estaria, literalmente, a construção coletiva de um povo?

Ora, dentre outras razões não nos esqueçamos que grande parte dos "investimentos" que o setor privado faz advém dos bilionários aportes financeiros do próprio Estado, por meio do BNDES, o qual empresta a juros subsidiados e parcelas infinitas às maiores empreiteiras do país.

Do outro lado do mundo, a "China State Construction Engineering Corporation" (CSCEC), entre outras estatais chinesas deste mercado, é um fenômeno que quase humilha (v. aqui).

Hoje como a terceira maior do planeta, mostra como uma empresa pública pode concorrer com outras centenas de empresas privadas e, com isso, beneficiar toda uma nação, pois, por meio de sua atuação no mercado, (i) controla os preços, (ii) consegue regular a demanda e a oferta de mão-de-obra no setor (emprega anualmente 800 mil trabalhadores), (iii) multiplica e pulveriza a participação de pequenas empreiteiras, pois terceiriza os contratos regionais conquistados e (iv) evita a concentração privada do mercado (oligopólios).

E não é só entre-muros que esta gigante chinesa da construção civil mostra-se eficiente e competitiva – a título de exemplo, ela frequentemente tem assinado contratos nos EUA (v. aqui), onde deve provocar as mais coceguentas urticárias na turma nativa.

Claro que, tal qual acontece com a nossa Petrobras, a estatal chinesa é fonte de muitos interesses canalhas e tocada por ilícitos em todos os cantos e de todas as ordens; todavia, mecanismos de prevenção, controle e fiscalização que fortaleçam ainda mais a obediência ao interesse público são propostas muito mais sérias diante do clamor  infantil pelas suas meras não existências.

Mas não: "isso não pode ser", "isso não funciona", "isso não queremos", "isso é coisa de comunista"... lamentam quase todos.

Preconceito puro, desestímulo broxante, conveniência vil e um eterno medo de se promover alternativas institucionais que repensem o negócio.

E assim, mais uma vez o Brasil está a perder uma oportunidade de chacoalhar as estruturas deste capitalismo fajuto que há tanto tempo tanto nos (des)engana.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

# ítalo e o jacaré



Ítalo decide morrer.

Mas Ítalo não era a adulta Veronika cheia de inquietações filosóficas do livro de Paulo Coelho que virou filme.

Era, sim, um piá de dez anos, que jamais lera um livro, que teve uma vida igual ao filme de terror de milhões de crianças negras e pobres de um Brasil real cujo trágico desfecho é quase sempre óbvio e infeliz (v. aqui e aqui).

Sim, porque tem crianças que nascem num outro Brasil, num Brasil de faz-de-conta, num Brasil-arco-íris, num Brasil-castelo, num Brasil-resort, num Brasil como a redoma exclusiva que de colosso e gigante só tem a cegueira de seus internos, tão branca como aquela da extraordinária fábula de Saramago.

Vocês já pararam para imaginar o que é uma criança de dez anos sentada no banco de motorista, ao volante de um carro cujos pedais mal são alcançados pelos seus pés?

E agora conseguem imaginar a mesma cena, mas com o detalhe de que ela estava a fugir da polícia, roubando um carro após invadir um condomínio no bairro do Morumbi (SP) ao lado de um colega da mesma idade?

Como desfecho, a polícia atira-lhe na cabeça: Ítalo era um cabrito marcado para morrer.

Em paralelo, numa realidade particular, Benjamin e Santiago tiveram o destino divino de nascer naquele tal castelo, de ter pais que não dependem do crime – crime de preto ou de branco – para viver, de ter roupas novas no armário e iogurte de morango na geladeira, de ter cama e banho diários, de ter gibis e desenhos animados educativos e, em especial, de ter tempo e amor dedicados às suas criações.

Portanto, lá e cá, são como duas linhas de vida que nem no infinito se cruzarão.

Ora, nascer no Brasil e em qualquer rincão do planeta em que a desigualdade é avassaladoramente mortal – ponha-se os EUA nessa conta – ainda é um manifesto “destino”, roleta que aos montes fabrica produtos e mais produtos de gerações eternamente alijadas de oportunidades e de futuro.

E quem desamarrará isso, dando liberdade para que os Ítalos soltem-se das cordas malditas que os asfixiam eternamente na miséria, flertando com o nada bandido e viajando no pêndulo que vai do vazio da fome ao cheiro da cola?

E quem transplantará esta vida seca de sempre, soterrada nos escombros de um não-lar, amálgama do amargo de um pais em ruínas?

A sociedade, minha gente.

Eu, você, ele, todos nós que ativamente compomos este amontoado de indivíduos e que formamos o Estado, mas que dele não queremos participar, e nem para ele votamos com a consciência desligada do umbigo, e nem sobre ele (e sobre o nosso papel) refletimos e pensamos – pelo contrário, continuamos a propagar pelos cantos das ruas e da internet frase-feitas de uma ideia reacionária, higienista, fascista e tão excludente de mundo.

E, vamos lá, por que em regra isso não acontece na Escandinávia, no Canadá, em Cuba, em lugares onde a desigualdade é muito menor e o Estado maximamente presente e atuante nas questões sociais?

Elementar, meus caros.

Neste ambiente de tudo ou nada tropical, de uma gente que só tem o sol que a todos cobre (v. aqui), um único projeto na nossa história imaginou transformar a realidade institucional: os CIEPs, as escolas em tempo integral dos gênios Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, diuturnamente boicotadas pelas elites brasileiras, dotadas de um narcisismo primitivo que sempre enxergou o problema no outro.

Não era, e nunca teremos, a solução mágica para tornar isso aqui outra terra.

Porém, toda a restruturação do processo pedagógico-educacional e a progressiva redistribuição da renda nacional – e a "política", no final das contas – são as chaves para que um dia possamos responder: o que motivaria Ítalo a não fazer o que fez?

Enfim, o episódio deste menino é mais um nítido retrato desta "banalidade do mal" na veia, ao vivo, a cores (v. aqui), e que revela a pequenez da nossa gente.

Sim, dá-me profundo lamento saber que uma criança morta por uma bala na testa não tem o mesmo pesar social daquela que foi arrastada, dias atrás, por um jacaré num lago da Disneilândia.

Convenientemente, talvez.

Afinal, neste Brasil, o jacaré somos nós.



sexta-feira, 10 de junho de 2016

# a boca no trombone



Abelardo Barbosa cunhou a célebre frase: "quem não se comunica, se trumbica".

E o Governo Federal – tal qual todo governo, de qualquer instância, que insiste em enfrentar os alemães e seus canhões e as grandes questões nacionais – parece que só agora quis enxergar o tamanho deste problema e como isso funciona.

Nesta noite, a ótima entrevista do jornalista Luis Nassif, na TV Brasil, foi apenas outra amostra disso (v. aqui).

É verdade que neste nosso sideral espaço virtual já se falou aos montes sobre isso (v. aqui, aqui, aqui...); entretanto, nunca é demais voltar ao tema. 

Bem, andiamo.

Ainda pior do que não (saber) se comunicar, é insistir com o autoflagelo e a falta de esforço – aquela não proposital, é claro – que murcha as ideias e frustra as intenções.

Não voltemos, porém, ao lamento cândido e inocente que anseia por "justiça" nos meios de comunicação, por uma grande mídia "imparcial e independente", por informações "isentas de interesses privados" e por uma imprensa cujas notícias são os fatos e não as opiniões.

Certos de que isso, como diria o alegórico Pe. Quevedo, "no ecziste" – afinal, meus caros, é um negócio indevidamente regido pelo "mercado" , coloquemos a mão na massa para implementar formas de mitigar os efeitos daninhos desta erva que corrompe a mente e o ideário da população e que mina o bom governo.

Não se fala aqui de se fazer propaganda ou promover hagiolatria, fala-se simplesmente em "informação".

Ora, encaremos a realidade: nada, nada ou quase nada do que o Governo fazia chegava aos olhos e ouvidos da massa.

Tudo, tudo ou quase tudo que se faz em termos de políticas públicas, de ações governamentais e de avanços, de alcances e de alvissareiro não chegava massificado em nossas casas.

Pelo contrário, a alvorada que diariamente surgia era vestida de sordidez, era maquiada de um turvo preto e se fixava como sinistro espantalho, sempre a anunciar o caos e a massacrar fatos, dados, nomes e notícias.

E o Governo, de verdade e concreto, se calava e se afastava cada vez mais da nossa gente. 

E, enfim, não se adonava da própria voz.

É claro que muita – muita! – gente vê e sente na pele o braço estatal de apoio, de amparo, de ajuda e de fomento.

E para estes milhões a farsa midiática é desnuda e os surtos da imprensa são em vão.

Mas para toda uma outra multidão, o silêncio e a ineficácia comunicativa do Estado sempre foram constrangedores e nefastos.

E suicidas.

E homicidas.

O Governo do PT, pródigo em cometer erros inconcebíveis em diversos planos, também insistia em conformar um Ministério das Comunicações doce e manso, cordial como o homem brasileiro descrito nas "Raízes do Brasil"; a SECOM, por sua vez, esvaziava-se no seu fim e se anulava nos seus meios; e a EBC trabalhava mal, muito mal, com uma NBR e uma TV Brasil fracas, chatas e brochantes  salvo raras aparições em idéias excepcionais que confirmam a regra – que faziam por merecer a microscópica audiência que sempre tiveram.

Em suma, meus raros leitores, isto que temos na estrutura de comunicações nunca bastou para levar o balanço, as obras e as políticas de Governo aos brasileiros, e para libertar ambos das amarras canalhas dos donos da informação.

No plano interno já se sabe que isso só tem conserto com o fechamento das torneiras que sustentam e fomentam os grandes grupos do país – lembre-se que são torradas fortunas em publicidade masoquista que, ao cabo, só engordam o bando – e, elementar meus caros, uma Ley de Medios, ampla, intensa e irrestrita (v. aqui).

E não se venha com a ladainha de "censura" ou coisas do gênero;trata-se, sim, de medida que radicaliza a democracia e a república, nos estritos termos do Capítulo V, Título VIII, da nossa Constituição.

E fora, como fazer para levar esse nosso mundo ao resto do globo, opondo-se à avalanche reacionária e colonialista dos gigantes conglomerados de mídia que insistem nas deslavadas mentiras de um pensamento único e unilateral?

No âmbito dos BRICS, China e Rússia montaram poderosos meios de difusão de informações: a agência de notícias Xinhua é um grande exemplo de competência e efetividade (v. aqui), a televisão estatal chinesa (CCTV) exibe programas em diversas línguas com material de notória qualidade – e até em espanhol (v. aqui) – e a Rússia já tem uma TV em língua inglesa que, vejam só, contrata ilustres âncoras e jornalistas mundo afora (v. aqui).

Pois bem, e o Brasil?

Continua trancafiado na Globo, nos jornalões, nos grupos regionais (e internacionais) de mídia e na cabeça conservadora da elite "formadora" de opinião.

Em suma, Dilma, Lula e todo governo popular e de centro-esquerda tinha que ir à TV -- como aqui se ensina.

Toda semana, em horário nobre, 10 ou 15 minutos dizendo o quê e como faz.

Tintim por tintim, nos mínimos detalhes, de modo claro, corajoso e contagiante.

E explicando, deixando claro as responsabilidades e atribuições de um Congresso que insistia em boicotar e chantagear a todo instante.

Metia o Poder Legislativo na vitrine, para que toda a população veja e saiba o que faz.

E acabava com a falsidade dos discursos e a dissimulada ação de parlamentares que sempre chegavam maquiadas aos holofotes da grande mídia.

E por que não expor o Judiciário, o nosso irresponsável (a quem responde?) e irreparável (por que nunca erra?) poder? Diz, fala das grandes ações que o Estado perdeu e das grandes decisões que os tribunais superiores tomaram.

Isso tudo é pressionar ou mitigar a independência destes dois poderes?

Não, isso é transparência, na TV, na veia, de verdade, para todos verem, ouvirem e refletirem.

E também a sobrevivência prática e moral da nossa democracia.




quinta-feira, 12 de maio de 2016

# carontes e zumbis



Hoje, nesta quinta-feira cinza, trágica e com as lágrimas da chuva, me pergunto: onde estarão os "amarelinhos"?

Onde estará toda aquela turma lobotomizada que vagava e babava apoiando e desejando este momento?

Onde estará a alegria daquela matilha com a consumação orgásmica do seu desejo?

Onde estará o indiscreto charme da burguesia limpa e bem-cheirosa que, finalmente, consegue o que visceralmente queria?

Cadê, cadê o êxtase da chusma que deu asas, alimentou e aninhou este golpe parlamentar?

Com o tempo, lá na frente, quando meus filhos me perguntarem sobre este momento histórico "pai, de que lado você estava?" –, eu poderei dizer, cheio de orgulho neste peito, que estive ao lado da democracia, da justiça e do Estado de Direito. 

Por outro lado, não lamento pelos outros – ah, tantos tão próximos a mim... – que serão personagens sombrios e funestos das páginas da nossa História, tais quais aqueles bichos que em 1964 deram as mãos aos militares e nos conduziram às trevas.

Não lamento porque, obviamente, sabiam muito bem o que se tramava no país,  num enredo marcado pela arbitrariedade e pelo casuísmo (v. aqui).

Não lamento porque escolheram ser levados como camarão pela onda golpista, fazendo questão de não saber do que se tratava, embalados pelo onipresente discurso midiático e com a (burra) certeza de que este era o melhor caminho – a verdade e a vida , regurgitando como catedráticos ventríloquos teses sem nexo que por aí ouviam na tentativa de legitimar o cadafalso para o qual empurram o Brasil (v. aqui).

Não lamento porque assim tiveram todas as oportunidade do mundo de conversar, ler e ouvir o que estava por trás deste processo de "impeachment" (v. aqui e aqui).

Não lamento porque lhes era possível olhar, com os olhos de ver e reparar, quem estava nesta trincheira, deste lado del riolutando pelo respeito à ordem constitucional: cientistas, intelectuais, artistas, os movimentos sociais, a comunidade internacional, as minorias marginalizadas e, em especial, o povo.

Povo esse que voltará a comer o pão que esses diabos golpistas hão de amassar.

Afinal, no lombo de quem vocês imaginam que irá arder as ações, as omissões e as comissões de um "governo" (des)encabeçado pelo PMDB que, sob aquela velha e carcomida direção, sacará direitos, flexibilizará garantias e imporá restrições civis e sociais ao bel-prazer da sua agenda conservadora não consagrada nas urnas?

Ora, quem pagará pelos tais ajustes, pelos arrochos fiscal e monetário, pelas revisões e releituras, pelos cortes inominados e infaustos?

Quem se não o trabalhador, o pobre, o preto e o periférico, os quais serão exemplarmente comprimidos ou descartados pela arquitetura neoliberal da tal "Ponte para o Futuro" que, sob o timão de Temer e Cunha, levará todos ao primeiro círculo do inferno?

Agora, a ditadura plutocrática – que, honra lhe seja, rege quase todos os lugares do mundo – não terá o enfrentamento nem mesmo das franjas de um Estado Social, nem mesmo de um desbotado vermelho de um governo eleito de centro-esquerda, para delírio do "mercado" e de seus agentes.

Enquanto isso, numa realidade paralela – mas que nem no infinito cruzam com a verdade , os noticiários da grande mídia serão uma overdose de sorrisos, de afagos, de musas, de plumas e paetês.

A parva massa amarela ligará a tv ou abrirá seus jornais ou revistas e, voilà, um mundo cheio de arco-íris, pôneis-dourados e fadas-madrinhas revelará que tudo era culpa daquele bicho vermelho de treze cabeças, como lá naquele junho de 2013 se decantava (v. aqui).

E, não duvidem, esse bando terá a desfaçatez de ainda dizer: "Ah, viu só?"

Doce e estúpida ilusão, fruto da manipulação que sói acontecer com essa classe média alienada, centrada nos seus umbigos e na sua visão turva da sociedade, da vida e da história.

Mal sabe ela que as chances deste governo interino – porque ilegítimo, traidor, sabotador e formado por nanicos morais e pela mais sujas peças do tabuleiro político nacional (v. aqui– lograr êxito são zero, por mais que cessem a greve do capital e o terrorismo midiático.

Mal sabe ela que esta tropa do golpe – porque sem voto, sem vergonha e sem escrúpulos – abafará e hermeticamente estancará toda a sorte de progresso, inclusive no que tange ao "combate à corrupção" (v. aqui), sempre em nome da medúsica ladainha da ordem (v. aqui).

Todavia, como o problema dessa gente nunca foi a política e as questões que verdadeiramente preocupam e interessam ao nosso país (v. aqui), isso é o que menos lhe importa.

A única coisa que importava era arrancar a fórceps o Partido dos Trabalhadores do poder e, fundamentalmente, acabar com quaisquer vestígios de pautas e programas da esquerda da agenda institucional brasileira.

Eis que, sabe-se lá por quanto tempo, conseguiram. 

E agora, acabou a nossa luta em prol da democracia, da justiça e do Estado de Direito?

Não, camaradas, ela está apenas começando.


Ed ecco verso noi venir per nave
un vecchio, bianco per antico pelo,
gridando: "Guai a voi, anime prave! 
Non isperate mai veder lo cielo:
i’ vegno per menarvi a l’altra riva
ne le tenebre etterne, in caldo e ’n gelo.
(Dante Alighieri, "A Divina Comédia - Inferno", Canto III)



segunda-feira, 2 de maio de 2016

# indecência vulgar



Não há dignidade no ato de aceitar o bando que pretende assumir o Brasil.

Todavia, a massa de beócios que mira seus umbigos para enxergar com “naturalidade” que Temer, Cunha e os sem-voto do PSDB vistam a faixa presidencial flerta com a falta de razão, a falta de sanidade e a falta de vergonha na cara, a ultrapassar qualquer prazer de uma mixoscopia sádica.

Não cansamos de repetir: a fonte é um ódio avassalador que tomou conta desta gente (v. aqui) e que dá suporte à maior vigarice da nossa História, como à frente assim se registrará nos livros e nas salas de aula.

Logo, pelos olhos cegos e analfabetos desta turma que tanto me cerca, nada, nada, nada, nada será pior do que manter o “governo-mais-corrupto-da-história” – algo meio slogan, meio jingle, que não sai da cabeça de milhões de brasileiros lobotomizados por uma mídia tradicionalmente nefasta quando em jogo estão os interesses público e popular – no poder.

Uma lástima esse raso e complacente raciocínio,  resultante de uma resistente ignorância  de quem, definitivamente, não quer se atentar para os fatos e para os tempos verbais em que isso tudo foi construído, e que desemboca em contagiante incivilidade.

Ora, o caos institucional que se provoca no Brasil não pode imaginar resolução por meio de quaisquer medidas ilegítimas, incabíveis numa ordem democrática e impraticáveis numa sociedade séria – o perigo, pois, tem proporções de hecatombe.

Por mais culpa que o governo, o PT e Dilma tenham – e têm, haja vista a péssima composição ministerial e a tímida aplicação das pautas da esquerda (v. aqui e aqui) –, são eles quem devem, inclusive como desafio e compromisso de mandato e eleitoral,  procurar os caminhos e oferecer as soluções para isso, com mudanças de pessoas, de planos, de políticas, de princípios programáticos, de projeto etc.

E não outros!

E, especialmente, não esses que são corresponsáveis por este estado caótico, na medida em que traições, revanchismos, vendetas, sabotagens e um explícito boicote institucional – basta verificar  o comportamento absolutamente antirrepublicano e antinacional da Câmara de Deputados no exercício da sua função constitucional nos últimos, pelo menos, dois anos – são notórios na paralisação geral.

E por isso a indecência desta situação toda, que permitirá a assunção desta corja ao poder na base do berro, sem base jurídica e à revelia do voto e da soberania popular.

Afinal, querem discutir "política(s)", como se tratasse de um processo eleitoral, e não "crime(s)" – posto que não há! –, como exige um processo de impeachment.

Ademais, não cabe, como se num lamento mendaz, suspirar pelo surgimento de um salvador da pátria capaz de agregar tudo e todos, numa grande "congregação nacional" e blá-blá-blá...

Ora, antes de se vislumbrar qualquer arremedo de verdade nesta tese-vontade, o que deve ficar claro é que há governo eleito e oposição derrotada.

E isso não se pode esquecer e tão-pouco confundir, porque isso é da política, isso é da democracia – e justamente por isso que uma das coisas que se faz no nosso país é, de quatro em quatro anos, ir "votar".

A propósito, note-se bem: a alternância não é propriamente um princípio fundante da democracia, como resultado, inevitável ou não, do funcionamento pleno do "sistema democrático".

Ou seja, a alternância de poder não se reveste como um atributo ou fundamento da democracia, mas, sim, trata-se de consequência quase natural do debate e da participação políticas em uma sociedade aberta.

Assim, no seu limite, consiste (apenas) em um elemento integrante da "oposição" – e para ela vital, não obstante possa haver oposição sem alternância (e sem poder), quando a oposição é fraca ou mesmo quando o povo está satisfeito com a situação, expondo nas urnas a sua vontade cívica.

Nestes termos, portanto, não há que se falar em "impeachment", em "pacto", em "nova eleição" ou outros eufemismos falsamente legitimadores de uma ideia nacional que deixa de cumprir a estrutura edificante (e retórica?) da democracia: governo do povo, para o povo e eleito pelo povo, tudo sob a estrita obediência à ordem constitucional.

Há que se dar nome aos bois: é golpe.

Golpe que ainda resisto e que, acredito, não passará. 

Se for um copo é um copo / se for um cão é um cão


quinta-feira, 21 de abril de 2016

# mea culpa (e a máxima lupa)



O PT, ao menos nos últimos quatro anos, tem errado muito.

Erra e errou tanto que, não fosse este sopro de vida dado pela oposição – tiro pela culatra de um esquema oposicionista montado por bancadas conservadoras, grande mídia e Lava-Jato que a todo custo e aos atropelos ético-jurídicos obstinou-se pela “destruição vermelha” –, provavelmente estaria sem perspectivas para um hipotético 2018.

E só não estará por que Luiz Inácio sairá candidato – desibernando de uma aposentadoria tranquila e pesqueira, viajando o mundo sob o registro histórico de ter deixado a presidência com um índice de aprovação (ótimo/bom) de quase 85% – e com ele a devoção quase messiânica que arrasta uma multidão eterna e justificadamente grata.

Afinal, nunca antes nesse país os pobres fizeram tão parte do orçamento público, nunca antes alguém resolveu encarar tão a sério a miséria, a fome e a seca que marcavam a ferro a “vida” de milhões de brasileiros.

Entretanto, não deveria precisar do socorro dele.

Bastaria, naquele auge, ter começado a pavimentar outro caminho, radical na democracia e na busca por uma sociedade mais igualitária.

Embora tenha sido essencial para, lá atrás, ter ganho a eleição e a governabilidade, já era tempo do PT ter repensado a estratégia e, aos poucos, ir desprezando o tradicional jogo político de coligações inchadas e coalizões vazias, de barganhas pantanosas e conchavos chatos
jogo por todos jogado mundo afora, numa comodidade diabólica que afoga fingindo afagar.

E assim se (re)aproximar, como tatuagem, das suas bases sociais, populares e ideológicas, única solução sadia e robusta para se governar com autonomia, altivez e segurança.

Tratou-se, portanto, de uma questão de escolha.

E pelas veredas escolhidas, ainda que em parte resultado da traição e da perversão de muitos e não obstante os tantos programas que assistem a tanta gente, os frutos que antes eram colhidos em abundância agora parecem se liquidificar, evaporar, findar.

Uma liquidificação consequência da miopia político-institucional inapta para entender as reformas necessárias para a transformação nacional.

E não me refiro às "reformas" boicotadas por um Congresso Nacional desqualificado, mas àquelas que o Governo jamais apresentou e que obviamente se justificam pela comunhão de interesses a que se subjugava – e que, mesmo depois de 2006, jamais se preocupou em descontruir.

Uma evaporação motivada pela acomodação de ideias e de pessoas, imaginando que as políticas públicas e os programas de governo implementados com o grande êxito da primeira década bastariam por si, infinitamente, estagnando o progresso de pautas tão caras à esquerda.

E não me refiro às "pautas-bomba" promovidas por este Congresso Nacional descompromissado com o país, mas àquelas fundamentais para desacorrentar a massa pobre, precarizada e periférica do círculo vicioso que bens materiais e diplomas sem lastro são incapazes de suplantar.

Um fim do modelo de desenvolvimento e de Estado crente em tortas avaliações de interesses: os pequenos e médio negócios reféns dos desejos do grande capital e do rentismo, a produção do campo de cócoras diante da superprodução do agronegócio, a indústria nacional à mercê do fetiche das commodities e da globalização e a realidade dos fatos e do interesse públicos escondida numa mídia privada e pirata.

E não me refiro, assim, a um modelo de paz-e-amor, necessariamente republicano e democrático, até meio frouxo perante alguns interesses e meio vacilante em firmar certas posições, mas às ideias centrais de uma esquerda cujo vermelho tanto tem desbotado e se apequenado que aquela onda popular responsável pela vitória nas eleições já nem mais consegue enxergá-lo.

Ora, arrocho não é política de ajuste econômico; descuidar da indústria nacional, das relações de trabalho e da gestão das empresas públicas não são políticas de desenvolvimento; não tributar e não controlar o grande capital não é política fiscal; não promover reforma agrária, reforma urbana, reforma habitacional e reforma tributária não são políticas sociais; manter-se refém de grupos midiáticos e cristalizar os latifúndios da comunicação não são políticas que fomentam a democracia e a liberdade de expressão. 

Não se enfrenta o capital vadio – bancos, especuladores e monopólios – sem ações e políticas construtivistas que desafiem destinos e libertem os brasileiros do jugo conservador arquitetado pelo pensamento refratário às mudanças estruturais.

Não se enfrenta a sanha mercantil dos cartéis e dos grandes grupos econômicos sem um Estado forte e com serviços públicos de qualidade, que sirvam de real alternativa (ou solução) aos caros e péssimos serviços privados e privatizados – bem distantes, pois, desta pútrida lógica de "agências reguladoras" em um pseudo-Estado que nada regula – e como chave para reorganizar um novo ciclo de desenvolvimento.

Não se enfrenta um ranço feudal, patriarcal e conservador sem alternativas, sem experimentalismo, sem imaginação e sem transformação institucional, capazes de empoderar técnica e politicamente a massa e de redesenhar as relações público-privadas.

Não se enfrentam quinhentos anos de periferia, de plutocracia e de preconceitos sem um firme projeto nacional que abrace o passado, dê asas para o presente e concretize um novo futuro para a nossa gente.

Portanto, esse elenco de graves falhas e omissões do PT durante os últimos anos não pode mais ser tolerado.

O que não significa, contudo, o seu réquiem.

Afinal, esse projeto e essas ideias para o país jamais caberão no ideário da direita, dos conservadores e da turma que, por exemplo, hoje faz a "revolução moral" no Brasil.

Eles pulsam, sim, nas veias de partidos e programas progressistas, de uma esquerda comprometida, desacomodada e não festiva.

E é aí que o PT – e toda a linha de centro-esquerda brasileira – precisa voltar a se encaixar.

Por isso, o que acabou é este "modelo" – outrora exitoso , com base em commodities e consumo, em planos sôfregos para o chão e cômodos para o teto.

O que acabou é o tempo de se cozinhar em banho-maria toda a vitalidade brasileira que agora exige chama e pressa.

O erro, contudo, foi não querer enxergar esse escorrer da ampulheta.

Inclusive porque, se mudanças estruturais e conceituais dependem de crises para serem implementadas, a "crise" estava aí, dentro, pulsante.

E restava-lhe trabalhar no caos, diante do qual pouco poderia ser feito.

Porém, caberia ao Governo fazer deste pouco, muito.

Tratava-se, portanto, de dimensão e perspectiva.

E de uma corajosa vontade.



terça-feira, 19 de abril de 2016

# radio magallanes



“Nós estamos no início da luta. Ela será longa e demorada (...) É uma luta de todos os brasileiro, uma luta pela democracia".

Assim Dilma Rousseff se pronunciou, muito claramente, na entrevista coletiva desta segunda-feira, com a dignidade da resistência (v. aqui).

E por isso o desespero reinante da chusma que, primeiro, pensava que a votação de domingo seria definitiva e significaria o último dia do mandato da Presidente – ah, essa ignorância... –, depois, porque tinha uma “certeza absoluta” de que ela tinha que renunciar – ah, essa lógica...

Não para minha surpresa, ao meu redor a malta desde cedo vociferava, com invejável autoconfiança no que exclamava: “Ela tinha que renunciar... mas é muito orgulhosa e por isso não vai!”.

Sim, eis a convicção bem-cheirosa para explicar o fato de que a Presidente vai enfrentar os golpistas e não irá fugir: ela é "orgulhosa".

Confundem, talvez por serem conceitos bem distintos aos que praticam, coragem com orgulho, confundem a busca por justiça com a covardia já cômoda de se submeter aos ditames de uma matilha coordenada por Eduardo Cunha.

Ora, neste contexto, o ato da não-renúncia é heroico porque, simplesmente, se distancia do ambiente da porta dos fundos.

Nos anos 70, num mesmo quadro de fatos, Salvador Allende, resistindo ao golpe no Chile, de dentro do “Palacio de la Moneda” já alvo de bombardeio pelos militares, pronunciou um dos mais célebres discursos da História, por meio de uma rádio comunitária, a Radio Magallanes (v. aqui).

O centro do seu discurso, que impactou o sonho socialista de milhões de latino-americanos?

O ato de não renunciar, em nome do povo chileno que democraticamente o elegeu.

Eis o início da sua fala, e percebam o tom sereno, forte e incrivelmente inabalável das palavras deste gigante líder latino-americano, concomitantemente aos aviões que já sobrevoavam e minutos antes da invasão ao palácio e da sua morte como desfecho do golpe:

“Seguramente ésta es la última oportunidad en que me pueda dirigir a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de radio Portales y radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura, sino decepción, y serán ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron... Ante estos hechos, sólo me cabe decirle a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar!

Já agora, neste dia seguinte à "derrota" na Câmara, Dilma nos deu o ânimo e mais uma vez o exemplo de coragem necessários e suficientes, os quais servirão como munição para, no dia a dia deste infausto processo de impeachment, enfrentarmos os batalhões e os seus canhões.

E não, não fugiremos não deste chamado da História.


"(...) víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas, esperando con mano ajena
reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios".