quinta-feira, 10 de março de 2016

# o ovo da serpente


E destes nossos últimos e tristes acontecimentos, que nos parecem revelar uma republiquetazinha de quinta categoria -- e não, entre outras coisas, a sexta economia do planeta --, lembro do vaticínio que fizemos ainda naquele famoso junho de 2013, abaixo reproduzido.

Eis, agora, que a casca do ovo já está a trincar...


# o ovo da serpente

Não, você não está na Europa dos anos 40; nem nas trevas da América Latina dos anos 70.

Também não está no mundo das arábias com seus ditadores mafiosos de turbantes e diamantes; tampouco no Sudão, na Islândia ou na Grécia pós-modernas e pouco olímpicas.

Você provavelmente esteja no Brasil, país hoje pulsando na roda-viva do planeta Terra.

Localizado no tempo e no espaço, pergunte-se: qual o real sentido desta onda que enche ruas, praças, orlas, emails e redes sociais?

Disformes e esquisitos, esses protestos, com passeatas e manifestações, parecem os testes de Rorschach: cada um vê neles o que quer e, assim, se revela no que vê – isso até soa meio complexo, mas não é, garanto.

Antes de tudo, porém, não desprezemos por total as vozes que ecoam em cada esquina do país, afinal, se tem uma coisa que há milênios provoca nojo e náuseas é o modus operandi das empresas de transporte coletivo país afora: estas empresas de ônibus são mafiosas, são bandidas, são canalhas de um "setor" que se caracteriza pelo que de mais asqueroso existe neste arremedo de capitalismo (amanhã falamos disso...)

Depois, claro, até se compreende também um outro viés da ideia, como se assim pensasse aquela gente: "veja, não sabemos o que seja, não entendemos o que possa ser, mas, na boa, tem algo nos incomodando..."

Ou seja, incapazes de pretenderem uma utopia ou um sonho revolucionário, traduzem o incômodo assim, numa sopa difusa de gritos e cartazes sem sentido, talvez decifráveis em divãs de psicanalista ou rodas de haxixe, mas que querem mostrar um descontentamento, uma tristeza, uma melancolia por uma broxada astral só reerguida por pílulas azuis de pseudocivismo.

Mas, à margem disso, agora já parece – verdadeiramente!  trazer evidências transformadoras que se sustenta no seguinte clamor pseudo-popular: "tudo contra a política!” e “tudo contra o Estado!” – inclusive o âncora matutino da rádio BandNews assim denomina a coisa, com aplausos gerais...

Ora, por favor, não me venham transformar um protesto legítimo – revisão dos preços e das concessões dos serviços de transporte público e, até, a frustração quase metafísica por um estado de coisas – em uma ação despolitizante contra tudo e todos, afinal, bem se conhece a famosa frase da obra "Il Gattopardo" (Tomasi di Lampedusa): “mude-se tudo, para que tudo permaneça como está”.

Ora, não se vê ninguém a pedir a Reforma Política, a Reforma Agrária, a Reforma Fiscal, a Reforma da Previdência e a Reforma dos Meios de Comunicação, por exemplo, cruciais para o avanço do país.

Por quê? Ora, porque se trata, na maioria, de uma turma apolítica, despolitizada e que se cria em chatsnets e quejandos virtuais de discussão, reflexão e estudos, tudo muito volúvel, muito superficial e muito “líquido”, como diria o filósofo Zygmunt Bauman.

Afora o mesmo pessoal de sempre – aquele que tem horror às mudanças sociais e econômicas efetivamente construídas no país e que representam os eternos 25% da população –, (não) surpreende a profusão de pseudo-esquerdinhas a ajudar a chocar este ovo ou a embalar este cavalo troiano.

Sim, bandeiras, lenços, plumas e paetês "contra a corrupção", "pela paz" e "em favor da vida" são inatingíveis e fisicamente inúteis.

Na verdade, o que políticos e endinheirados filhos da puta (e corruptos) mais desejam são, justamente, manifestações “contra tudo o que está aí”, “contra a política”, "contra os partidos", “contra as instituições” etc.

A história recente é sempre farta em exemplos e em nos ensinar, para não nos deixar esquecer: nos anos 60, pré-Golpe, as “filhas de Maria” também queriam um estado democrático e um país melhor – mas sem o Jango (e o povo).

Sim, ironia pura, os reacionários daquela época entupiam as ruas de Rio e São Paulo clamando e marchando por Deus, “pela Tradição, pela Família, pela Liberdade” e, claro, pela Democracia e pelo Brasil-sil-sil.

Em 64, portanto, os clamores também eram belos e justos na sua formosura, com um blá-blá-bla bonitinho (e sempre ordinário).

Porém, a “democracia” deles só servia sem um presidente da República legitimamente eleito, popular e de centro-esquerda, no caso Jango – e o golpe, a reboque da grande mídia, foi questão de minutos.

Logo, qual o efeito político desta marcha, desta onda e destas cartazes atuais? A quem interessa? Qual o sentido desestabilizador disso tudo (v. aqui)?

Não sejamos tolos, pois basta ver a redireção tomada pela grande mídia diante dos movimentos, as edições de texto e imagem, as manchetes associativas e as mensagens subliminares de culpa que promovem.

Ora, os "donos do país" já se apropriaram dos caras-pintadas 2.0, a versão hi-tech de uma turma que nos anos 90 gozava nas ruas o impacto dos “Anos Rebeldes” da tv e que pedia a excomunhão de Fernando Collor por motivos que interessavam muito mais à grande e velha indústria multinacional aqui instalada e a outros frustrados pelos rompantes monarquistas de um arrogante Presidente, do que à população em geral. 

A história, inclusive, hoje explica muito bem isso.

Que insatisfação seria essa, justamente num momento em que o Brasil (já?) acordou, resgatando a dívida secular com a dignidade de dezenas de milhões de brasileiros e inserindo-se definitivamente como co-protagonista no cenário político e econômico mundial? 

E, mais, num momento em que, mesmo com o insano e diário bombardeio midiático, o atual governo continua a gozar de alta popularidade (ótimo/bom/regular com mais de 70%, segundo as últimas pesquisas) e cujo partido passa a governar a maior cidade da América Latina (São Paulo)?

É óbvio que há muitas e muitas coisas a melhorarem; são, sim, notórias as nossas deficiências, os nossos problemas, as nossas carências estruturais e institucionais e a nossa decepção com o freio centrista do governo federal em várias áreas.

Há, sim, uma crise de representatividade, que parece redimensionar a via direta do exercício do poder.

Contudo, mesmo que se vá às ruas na busca deste caminho – ação por vezes e condicionalmente legítima –, é absolutamente obrigatório o zelo e o respeito pela instituições e pelos governos democraticamente eleitos, aspectos esquecidos pelos bandos que invadem as nossas ruas e Casas, com suas cabeças vazias ou já bem programadas. 

Atenção: o Brasil está mudando, e isso precisa ficar claro, e isso precisa ser visto – e não enxergado pelas lentes turvas de quem não tem interesses populares, coletivos, cívicos e republicanos.

E isso precisa ser feito por vias efetivamente democráticas, assentadas no voto e nos desejos de governo de cada um de nós.

Portanto, minha gente, de duas, uma: o que se vê agora (i) não dará em nada, pela inconsistência das posições ideológicas, sociais e políticas e a ausência de efetivas propostas e objetivos pleitos, ou (ii) será o começo do fim do governo Lula & Dilma, na marra, com as consequências mais desgraçadas para a República  o caos.

E, neste último caso, nada surpreendente ou sem querer, exatamente como naquele Golpe de outrora.

(publicado originalmente em junho de 2013)