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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

# só resta uma certeza



A tragédia da morte é sempre trágica porque é uma tragédia.

Cristão talvez fajuto, não consigo imaginar uma morte sequer que não se qualifique como trágica.

Não consigo, pois, deixar de encarar o fato como um ato de foice a ceifar a vida – e nele, neste fatídico fato, foi-se a seiva elaborada da vida.

É lógico que o inesperado, o acaso, o infortúnio, o funesto da morte abrupta espanta e tonteia.

Mas como admitir uma hierarquia entre o desespero do acidente fatal, a angústia da contínua e crescente perda e a extrema dor da última despedida, como assim pungia um de meus maiores amigos cuja querida mãe velava nesta quinta-feira?

Logo, a mim o que enlouquece é a loucura de que aquela pessoa – "de repente, não mais que de repente", poetizaria Vinícius – não estará mais contigo, não estará mais ali, junto, ao lado, ao longe, ao muito longe, enfim, fisicamente presente podendo ser abraçada, tocada, beijada, vista e ouvida a qualquer momento, numa visita ou num telefone qualquer.

Custa-me muito querer entender tudo isso – e olha que não faltam conversas, reflexões, aulas e exemplos dos mais variados tipos, formas e gostos acerca desta ideia, como aqui  aqui já tratei.

Já pensei, vejam só, que o ideal seria nascermos com esta certeza: prazo de validade tatuado na bochecha.

E assim, como velas, íamos aos poucos apagando, apagando, apagando... mas logo penso no caos prático disto, afora, claro, toda a filosofia religiosa que se propõe a garantir um sentido disso tudo aqui e que, então, passaria a não ter significado e valor algum.

Portanto confesso ainda não aceitar o fato de ser "a única certeza da vida". 
Nem a desculpa sobre a tal "ordem natural das coisas" é capaz de sensibilizar-me quando o caso envolve os nossos velhos. Tão-pouco a tese do "destino divino" me conforta para as excepcionais situações.

Insisto, assim, em ser pragmático num assunto que nunca se encaixará no pragmatismo.

É, portanto, um problema de estrutura e método, e ao mesmo tempo de especulação do ser, cuja associação não consigo compreender, tal qual nas cartesianas "meditações metafísicas".

Ou, então, ideia assente nos pontos de vista da "vontade" e da "representação", nos quais Schopenhauer pretendia defender a tese da indestrutibilidade da nossa essência. 


Para o filósofo alemão, a preocupação com tão breve espaço de tempo – com este "intermezzo momentâneo", com esta “mediação de um sonho efêmero de vida” –  e com este apego à vida é irracional e cega.

Eu, porém, insisto em não admitir porque não me imagino aceitando, como num passe de lógica, nunca mais viver com as pessoas que tanto amamos, as quais, num qualquer segundo seguinte, se vão como um "sopro", diria Oscar.

Calma, lá nos céus da vida eterna haverá o definitivo (re)encontro... não, não, a minha fé, ainda que hesitante, assegura a vida eterna – a Vida –, mas não que vou ter com as pessoas amadas, viventes comigo aqui na efemeridade deste plano.

Até, quem sabe, realmente trate-se de ser mais ou menos espiritualizado, mais ou menos teológico, católico e cristão.

Mas, para além, também se trata de não aguentar não se acabar em prantos para o fato de que todas essas pessoas que tão íntima e intensamente convivemos passarão a não mais existir.

Ora, ora, por que então amamos tanto e tanto estes seres que nasceram e viveram conosco?

É por isso que às vezes gostaria mesmo de ter nascido filho de chocadeira.

Para depois viver no eterno celibato de um monge ermitão.


Sozinho, como uma vela.



quinta-feira, 30 de junho de 2016

# nascentes e poentes


A distância provoca-nos sempre a refletir.

E se é comum lamentarmos que não estamos vendo as nossas crianças crescerem, máximo lamento acomete também para quando não estamos vendo os nossos pais envelhecerem.

Pode ser profundo isso, pode ser uma filosofia de araque ou pode ser apenas reflexo da incompatibilidade da relação espaço-tempo a que me submeto.

Como a física proíbe a presença real de corpos materialmente distantes, não notamos que o tempo para as nossas crianças e para os nossos pais incumbe-se de transformá-los em novos corpos, crescidos e recolhidos, agigantados e enrugados, numa dinâmica natural que desobedece a ordem que tanto gostaríamos.

E por não querermos ver este tempo passar, inconscientemente nos escondemos dos seus marcadores, dos seus símbolos, dos seus sinais.

Porém, à surdina, eles fazem questão de chegar, como se quisessem nos fazer ouvir o uivo pungente dos seus incansáveis passos.

E, de repente, a vasculhar por um armário à procura de um livro esquecido, vejo-me na mão com uma ampulheta e brinco de ver o tempo.

Cuco, de pulso, de parede, da torre, da igreja, em todos esses você pode até conseguir despistar o avanço a galope dos segundos e esquecer.

Entretanto, do escorrimento arenal da ampulheta não se escapa, cuja marca da passagem do tempo é de clara e destemida tirania.

Ali, sem filtros, é a vida que corre, que escorre, implacável e intransigente como uma onda sísmica do mar.

Por isso, ao olhar para as fotos expostas sobre a bancada do escritório, hei de confessar: para não ver este tempo correr, recolheria toda a areia do mundo.

Com ela, montaria um nababesco e indefectível castelo onde viveríamos para sempre – e onde seríamos as múmias mais felizes da Terra.

Porém, se com as nossas crianças o curso é promitente, repleto de expectativas, com múltiplos sabores e num retilíneo movimento para o alto e para avante, com nossos pais é tudo mais cru e mais cruel, pois a progressão geométrica da velocidade da parábola em queda livre é cruciante.

Pois é, as nossas crianças vêm, os nossos pais vão... é o vir e o ir, desoladamente inconjugáveis, como aqui e aqui esboçamos.

E me pergunto: afinal, quantas vidas serão precisas para viver tudo o que necessitamos viver com algumas pessoas que tanto amamos, antes delas crescerem e antes delas se despedirem?

Não sei, mas posto que me fio na ideia de uma só, estilhaço-me na realidade.

E ela escancara o quão rápido tudo está a passar.



domingo, 1 de março de 2015

# rio


  






Copacabana, meu jardim e meu quintal.

E nela saúdo todo o Rio de Janeiro, cidade-ícone da identidade cultural brasileira.

Viva o Rio e os seus 450 anos!




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

# sociedade e fraternidade



Melhor do que o título -- cujo termo empregado ("Fraternidade: Igreja e Sociedade"), para não ferir ou magoar todos os interesses dos conservadores e da própria Igreja Católica, foi por demais subliminar ou metalinguístico --, o mote de discussão da campanha da fraternidade é deveras apropriado: "Eu vim para servir" (Mc 10,45).
 
Capitalismo, neoliberalismo, privatizações, sociedade de consumo, desigualdade e socialismo, economia solidária, Estado, sociedade de caridade, igualdade, tudo reflete -- e tudo merece reflexão -- no pensamento e nas atitudes que se esperam de nós cristãos.

No texto-base da campanha, lê-se uma Igreja a serviço da sociedade e uma Igreja fundada à luz da doutrina social, para um debate de a partir do diálogo e da cooperação entre Igreja e sociedade que reflita sobre a dignidade humana, o bem comum e a justiça social. E como nas raízes do ideário cristão, uma Igreja que venha par servir.

Assim, retoma-se um tema -- e uma missão -- fundamental para a Igreja: o seu irrestrito engajamento político e social, com alicerce no amor, na fraternidade, na liberdade e na igualdade em nossa sociedade.

Simples assim? Não.

Embora sem ainda fazer a devida mea culpa pelo combate e boicote históricos à alternativa para o grande sistema econômico-social vigente e aos seus representantes -- como, no caso, todos aqueles que lideraram e consolidaram a "teologia da libertação" --, a Igreja Católica ajuda (e se ajuda) a reconhecer a nossa omissão diante das injustiças que causam exclusão social , fome, morte e miséria, de forma a tornar vital a relação que combina desenvolvimento, eficiência econômica, direitos fundamentais, justiça social e prudência ecológica.

Mais, busca repercutir os interesses neste universo do espetáculo, do consumo e do individualismo, que privilegia o ter e releva o ser.
 
Hoje, finalmente, temos uma campanha da fraternidade que atinge o âmago do grande problema e que nos convida a lutar para que as agruras provocadas pela economia capitalista possam, ao menos, serem minimizadas, mediante a concretização do mínimo necessário para a subsistência de cada ser humano.

A ideia, inclusive, corrobora outro lema da Campanha de uns anos atrás -- "Economia e Vida" (v. aqui) --, na qual se registrara a afirmação de Jesus: "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24), fazendo-nos propor uma escolha entre os valores cristãos e sociais -- da nossa sociedade e coletividade -- e os "valores" do capital, visto como entidade absoluta a dirigir a vida privada, egoísta e solitária.

Na história humana, marcada por ambições, explorações, injustiças e ganância, a Bíblia se volta decididamente para a defesa dos pobres. No âmbito social, a Bíblia nos mostra profetas acusando reis e gente poderosa que enriquece à custa do povo e não cuida bem daqueles a quem deveriam servir -- eis, aqui, uma incontestável relação com a atual realidade dos grandes capitalistas e de inúmeros governantes.

No âmbito comunitário e pessoal, a Bíblia fala sobre os direitos do trabalhador, ao socorro que devemos prestar aos pobres e aos dever de evitarmos a corrupção e a desonestidade e de viver a partilha no amor fraterno. Eis as palavras de João no Evangelho de Lucas (Lc 3, 11): "Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo".
 
Portanto, que Deus nos ajude a seguir perenemente este ensinamento e trilhar o mais justo caminho em busca da fraternidade, da igualdade e da verdadeira liberdade, fazendo-nos sempre lembrar que a vida, como ela é, não se concentra nos nossos castelos.



 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

# desaniversários


 
Na clássica obra de Lewis Carroll, o Chapeleiro Maluco ensina à Alice que ali no País das Maravilhas o que importava eram as festas de desaniversário.
 
Sim, comemoravam-se todos os dias (e não-dias), festejavam-se as bonanças diariamente, a cada roda de vinte e quatro horas se podia erguer um brinde qualquer à vida.
 
Não se esperava, pois, completar o tal ano para se acender velas. Eis a lição: o dia a dia não precisa esperar um dia determinado para merecer a celebração.
 
Na expectativa de se fecharem ciclos -- como a conclusão de doze meses --, prolonga-se e adia-se os momentos de efusividade, aguardando-se um dia oito de janeiro qualquer para solenizar as bendições da vida.
 
Como numa estranha e desmedida simbologia, reverenciar aquela tarde de um outono de abril parece pouco significativa diante do acontecimento pré-fixado, lá naquele nascimento, que insiste em colar pelo fim do seu tempo.
 
E assim várias das lembranças só teimam em vir nestes dias, as ações e reações só insistem em surgir com os seus típicos ares de esquisita espontaneidade nestas noites.
 
É como se o antes e o depois fossem meros coadjuvantes para o "hoje".
 
Mas este hoje, com o sombrio gesto de apagar as velas, morre, vira ontem.
 
E lá se vai outro período em que se incuba a felicidade de se homenagear a vida, chocando-a doze meses até o próximo bisado parabéns.
 
Velho, cada vez mais velho, aguarda-se a passagem circular dos ponteiros para bater palmas, em bigs ou pics que soam eternos, num ritmo contrário à lógica do universo.
 
Neste caminhar, tudo amadurece, envilece, amarela, engorda -- tudo torna o bolo figura caricata do seu próprio estado físico-anímico.
 
Mais ainda, com a rigidez do dia D, um sofrimento atroz desembarca para atacar e mortificar a memória trazida de quem se foi, fixando-se eternamente um dia para se lamentar a sentida ausência.
 
Ou, mesmo de quem ainda não se foi, pensar na singularidade de um aniversário machuca a solidão de quem, justamente naquela hora, resta exilado.
 
Ingrata, a data não se preocupa em distribuir ao longo da jornada o que de bom ou ruim lembramos.
 
Não, tudo fica ali, guardado, esperando, esperando, esperando... até explodir, na desordem caótica da nossa existência relojeira.
 
Em todo este contexto, portanto, a verdade que tenho é que fazer aniversário uma vez por ano é pouco.
 
Ou muito, a depender do momento etário.
 
Contudo, prefiro ainda acreditar na primeira versão: não se deveria esperar tanto para se festejar tanto.
 
Um viva, pois, ao desaniversário nosso de cada dia.
 
 
 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

# sublimar



E dezembro chegou, e os dias se passaram, e o ano acabou.

Fiquei de escrever o último texto para o (quase) último dia do ano.

E não o fiz -- como está sempre a se dizer por aí, "não tive tempo".

Hoje, por exemplo, fui registrar o nascimento do Santiago.

No caminho, sempre com a inexpugnável pressa, refletia sozinho o quanto os pequenos grandes gestos e momentos da vida estão sendo engolidos por inteiro, a seco, sem passagem e vaporizados, como se subitamente deglutidos, um a um, por um impiedoso ente metafísico que sequer nos impede de pensar "Ôpa, peraí...".

Aos poucos, tudo vai se banalizando de tal forma -- aqui, por sinal, já tratamos de outra "banalização", a da "pobreza" -- que o momento seguinte e o que há de vir tornam-se mais importantes que os grandes acontecimentos em si, anteriores e ainda presentes -- como aqui já observamos.

O importante é a viagem de uma dúzia de dias a tal lugar, o prato ornamental de uma chef tal que num dia qualquer compramos ou as grandes peripécias globais que se regurgitam pelas redes sociais; por outro lado, atropelamos o dia a dia das grandes pequenas coisas mundanas e com as grandes pessoas de nosso mundo ou, soberbamente, deixamos tudo e todos na galeria deste espetáculo que esquecemos não ser eterno (v. aquiaqui e aqui).

E assim caminhamos na ilusão da conveniente batida perfeita, dos flashes das frias noites estrelares e do dia a dia alienado na irrealidade do outro ou do seguinte.

Por isso, no duelo com este falso e indômito cotidiano, trago o registro do nascimento do filho na bainha que empunha a defesa dos fatos e pessoas grandiosamente miúdas.

Ainda que muito particularmente, considero bacana o tal papel -- um "símbolo" -- todo formal, a indicar as duas gerações que carregam o menino que acaba de chegar, a descrever local e hora da vinda ao mundo e, claro, as letras grandes e garrafais que anunciam o seu nome e sobrenomes, os quais hão de serem levados daqui até o clássico "Aqui jaz..."

Ademais, não é apenas a mera condição jurídica da situação, ou apenas a oficial perenidade do nome dado, mas a certidão carrega o fato-símbolo de que o minúsculo ser que hoje guardamos e cultivamos em casa entra civilmente para o mundo dos homens, como o batismo é o ingresso para a cristandade do mundo cristão.

"Mas, e que mundo?", indagava ao reflexo do retrovisor do carro no trajeto ao cartório do bucólico centro desta minha cidade.

Justamente este mundo de agora, cismado por um corre-corre sem-cabeça-nem-pé, por relações pasteurizadas, por uma ultramodernização do afeto, por uma obediência senil às modas e aos modismos, por uma rotina protocolar e asséptica e, a insistência das insistências, pela liquefação do agora e pela sublimação do ontem.

Ora, não se vê nossos pequenos grandes momentos e nossas grandes pessoas como "sublimes" circunstâncias da nossa vida.

Num tempo em que o espaço se virtualizou, se esmerilhou e que de tão grande se tornou uma concha, vê-se um dia a dia (de)composto em partículas que seu suspendem pelo ar.

Vira, hoje, tudo pó.

Pó que ao final de cada ano comemoramos como cinzas de um passado que ainda mal pulsa no presente.

Pó que a cada início de ano comemoramos como poeira fecundante de um futuro que ainda nem se preparou para o passado.

Pobre de nós que insistimos em não dar valor aos nossos pequenos grandes momentos do agora.

E nem às poucas e tão grandes pessoas que conosco vivem este nosso tempo.

Feliz e sublime 2015!


Torta de Santiago, trazida por uma amada irmã 
para consolidar o primeiro pequeno grande momento do dia.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

# o segundo

 
Um segundo filho não muda a vida -- a vida é que muda esse segundo filho.
 
Mais serenos, mais certos, mais seguros, mais racionais.
 
Enfim, somos mais pais por conta desta nova vida.
 
Restamo-nos mais independentes, mais autorais, mais confiantes, mais convictos.
 
Tudo flui menos laboratorial e tudo acontece com mais naturalidade, inclusive os sobressaltos.
 
Sem cerimônias e sem firulas, o segundo filho te madura.
 
E te envelhece.
 
E isso te muda, para além da aparência com menos cabelos e mais rugas.
 
E te conforta no aparente alívio do futuro.
 
Afinal, a pouca lógica da nossa cronologia permite esperar que no nosso adeus o primeiro, até então único, não chorará só.
 
Ali, naquela hora -- e sempre --, vestido sob o mesmo sangue e a mesma dor, encontrará o ombro e o abraço fraternal para dividir o vazio da perda.
 
Estranho tudo isso.
 
Deslumbrados com a vida que nos apresenta, já pensamos no porvir.
 
Extasiados com o nascimento que nos chega, já ousamos imaginar o nosso fim.
 
É o ciclo da nossa breve existência.
 
 
 
 

domingo, 24 de agosto de 2014

# rebenquear

 
 
Dizem que se morre de saudades.
 
No meu caso, acho que prefiro morrer a sentir saudade.
 
Provavelmente alguém já disse isso, se não disse, é porque nunca a sentiu.
 
Sentir a saudade dói porque não cura nem com a sua ausência: não existe "não-saudade" como medida terapêutica.
 
Isso porque nunca não se tem saudade, não importa o tempo em que se fique junto.
 
E não se enganem: a convivência é cruel porque ilude, porque fantasia uma eternidade que não dura senão aqueles momentos, sempre breves, sempre intensos.
 
E quando menos se espera, há a separação, há a distância, e tudo volta à normalidade de alguém sempre rebenqueado das saudades.
 
Saudades, pois, que não podem ser medidas, nem repostas.
 
Para o que só há respostas na arte dos finitos reencontros – e, por isso, a saudade pode sim ser tocada, afinal, a cada momento antes das partidas pegamos, abraçamos, beijamos e tateamos quem vai nos deixar.
 
Até que para ela voltamos, e dela somos inescapáveis.
 
É esta a dimensão absurda da saudade.
 
Que açoita, açoita, açoita, açoita.
 
E nunca para.
 
 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

# despedida do tempo


Duas premissas um tanto quanto óbvias: um cão não é um ser humano e dezesseis anos não são dezesseis semanas. Isso posto, porém, não imaginaria que pudesse vir a duvidar disso.

É que num destes insólitos fatos corriqueiros da vida, enquanto hoje eu cavava uma cova para no quintal da minha antiga casa enterrar o cachorro da família, na memória carregava aqueles dois temas – cães e tempo.

E chamar as coisas pelo que elas são provoca, por isso, uns mal-entendidos.

Embora tenha desmedida racionalidade no trato com os animais de estimação, hei de confessar que a perda deles, estimados no cotidiano, superestimados na dedicação, faz o nome dado soar meio estranho.

Soa menos racional, soa menos "animal" – a morte, meus caros, não soa natural e, por isso, um cão tão velho é por vezes menos um bicho envelhecido de estimação e mais um estimado membro antigo da família.

São quase como aqueles tios-avôs, enrugados, de bengala, que já andam pouco, que já pouco vivem, mas que sempre estão por ali, nos eventos, nas festividades, calados num canto na expectativa da morte lhes chegar.

E vendo a cena que preparava para o nosso cão, impossível não me lembrar do tempo.

De pá e enxada à mão, pés descalços já cobertos de terra e grama, não via apenas o buraco dos meus gestos de cavar ir aumentando.

Ali, na minha memória daquele quintal, templo da minha infância, via aumentar o drama de ver os anos voarem.

E, ao contrário do que se diz, era eu – e não o cão – quem ali sentia o tempo multiplicado por sete.

Era eu um cão engarrafado numa ampulheta em queda livre, em gravidade sétupla, sobra indefectível da inflação cósmica que nos consome.

Via, perdido na minha máquina do tempo, toda a vida de criança naquele espaço, como criança também foi aquele pequeno cachorro quando naquela nossa casa nasceu.

Hoje, para enterrado e enterrador, a vida adulta passou e passa a passos largos, inexoravelmente largos – e a única criança era a que ali estava ao meu lado, abraçada em lágrimas às minhas pernas.

Era Gabriela, minha afilhada, num choro de quem dava incompreensível adeus pela primeira vez na vida.

Ali, lembrei que por vezes um cão pode valer por um ser humano, e que dezesseis anos podem parecer não mais do que dezesseis semanas.

E o tempo, assim, vai se despedindo da gente.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

# um particular dia da criação

 
O mundo parou.
 
Por um longo instante de vários dias o mundo pareceu-me parado, suspenso.
 
Ao menos em câmera lenta, nele eu levitava.
 
E nele via a vida, e nela tudo não acontecendo, tudo em silência, tudo bisextamente congelado.
 
À mente, em movimento, vinha apenas a realidade passada, do que fomos e fizemos, e a futura, do que seremos e faremos, enquanto todo o presente insistia em permanecer em seu plano quase surreal.
 
Da conjugação entre o nosso desejo familiar-cristão-civilizacional e a sanha imperativa cromossômica, eis que se conformam os aromas de mais elevados sentimentos e matizes e os acordes de mais profundo lirismo e transcendência poética, para, assim, do dia para a noite, chegar a grande boa nova que modifica para sempre as nossas vidas.
 
Foi o nosso dia da (nossa) criação.
 
Daquele momento em diante – ainda que o nascimento pré-entreluz tenha se dado há quatro ou cinco semanas –, o que estava no plano hipotético do planejar e do querer concretizou-se na forma de um vivo projeto de microscópico ser.
 
Na verdade, nessa ainda transição de pulsante energia humana para uma ultraminúscula gente, maior que o júbilo é o caráter fantástico do acontecimento, afinal, mais difícil que conhecer a conformação físico-químico-biológica de todo este nosso desenvolvimento celular, é saber responder de qual plano viemos e do que será imaterialmente formado.
 
Sim, não será um mero mini-mim.
 
Com essa descoberta, um misto da prova genética e fabulosa de Deus, colocamos em marcha um (fiapo de) sentido que a todo instante ameaçará transformar o conjunto desgarrado – e por vezes sem nexo – de episódios a que chamamos "vida" numa narrativa, se não entendível, ao menos finalística.
 
Parece-me que é apenas de agora em diante, embora ainda com ares metafísicos, que passaremos a compreendê-la.
 
Fora dele, já começamos a ter a impressão de que tudo fora dessa nova vida dispõe do peso necessário para ser importante.
 
A nossa própria existência, inclusive, parece pulverizar-se e desatar da gravidade, tudo em prol da maravilhosa epopeia do proto-crescimento que, ao final, em seu estágio já pleno, deverá nos mostrar não sermos aquele que criamos, mas apenas nele estarmos e na vida dele nos reconhecermos.
 
Sim, esta é a razão da nossa multiplicação.
 
Neste nosso caso, saber que o amor humano – em todas as suas faces e, em especial, nas suas vindouras doses de afeto, zelo, doação, privação... – materializa-se na forma de um novo ser humano, faz-nos ter a complexa e dogmaticamente auto-explicativa certeza do divino poder da criação, pelo qual Ele, com a nossa constante contribuição, é capaz de nos deixar, em franco processo de evolução, mais humanos, demasiadamente humanos.
 
Afinal, ainda que não saibamos o que encontraremos neste nosso novo caminho, infinitamente marcado por incertezas, dúvidas e surpresas, a relação que teremos com a nova vida que estamos a gerar será, sempre, de absoluto amor e de incondicional atenção.
 
Tão certos quanto as plurimotivadas lágrimas, alegrias e emoções que doravante (não) haverei de conter.
 
 

sexta-feira, 12 de maio de 2006

# gabi, doze meses

Incrível esse tempo: há 12 meses, nascia a Gabriela, minha amada afilhada e sobrinha.
 
E lá atrás, ainda nos primeiros dias de vida – ela nasceu na prematuridade dos 6 meses (!) –, entre sustos, alegrias, dramas e orações, logo que a visitei na incubadora, eu recebi essa sua telepática carta, na forma de um debutante diário...
 
"Querido diário,
 
Queria eu saber como sair daqui.
 
Ou melhor, queria eu saber o que faço aqui.
 
Coisa mais estranha essa bagunça toda de fios, tubos, canos e agulhas aqui em cima de mim, ao meu redor.
 
E, pior, sem nada para fazer.... devo, quem sabe, pensar num pedido de resgate à minha mulher-maravilha.
 
É verdade que aqui está um pouco melhor do que antes, pois posso esticar as minhas canelas e os meus braços confortavelmente, além de não precisar ficar a engolir uma gororoba nada saudável que insistia em me entrar pelo umbigo.
 
Porém, acho estranho terem me tirado daquela piscina quentinha e colocado-me aqui, já, fora da hora, sem eu querer – pelo que andei a estudar (e pelas minhas contas), eu somente sairia de lá em dois meses e, quando chegado este momento, iria direto para um quarto todo colorido, pintado, enfeitado e perfumado, e não ficaria neste aqui, quase sem-graça, tudo muito branco e muito sério.
 
Aqui, pouca coisa acontece, mas, de todo esse pouco, quase nada a turma da Casa ficará a saber (vocês sabem, memória de recém-nascida é muito fraca...).
 
Embora não pareça, as moças daqui me tratam bem, ainda que não realizem todos os meus pedidos – já tentei lhes demonstrar que começo a me sentir incomodada com os homens que me vêem sem as calças e com a choradeira da vizinhança que não me deixa dormir.
 
Queria que soubessem que o leite que tomo desce redondo e o soro, embora meio sonso, não é de todo ruim.
 
Das coisas do meu corpanzil, tudo vai as mil maravilhas, fora ele: o meu sistema cardio-respiratório.
 
Diariamente o xingo (e talvez isso tenha herdado da mamãe) pela falta de competência e de agilidade para se desenvolver – vejam só, coisas inúteis como as unhas dos meus pés e os meus pêlos cá estão, belos e formosos, mas, ele, logo ele, não teve a envergadura moral de bem crescer... mas, tudo certo, a gente vai levando e logo não mais precisarei destes arzinhos que me entopem e terei, finalmente, a minha lei áurea.
 
Acho que eles gostariam também de saber que considero a minha cama boa, um pouco durinha, mas que faz bem à minha coluna.
 
Ah, outra coisa: se continuar neste ritmo, sairei daqui morenaça, pois o sol daqui, ainda que talvez meio diferente e meio artificial, é bastante forte – as moças de branco até dizem que é para ajudar no meu crescimento, mas desconfio ser coisa da vovó para me deixar exibida como uma garota de Ipanema...).
 
Bem, sempre me falaram que depois daquela piscina quentinha e amniótica eu iria ficar ou em um berço ou nos braços da minha amada Casa – mas, não é o que acontece...
 
Se não fico 24 horas deitada neste mesmo lugar, eu estou nos braços desta galera de branco que, tenho quase a certeza, não têm traços sanguíneos similares ao meu e a mim não pertencem.
 
Mas, de verdade, o que mais me instiga é tentar e não conseguir traduzir o que pensa essa gente toda da família que fica a me olhar.
 
E me olham, e me olha, e me olham... É engraçado ver a minha vovó (linda!) a acariciar essa bolha que me cerca, com medo de me tocar (será que não entendem que não sou tão intocável assim?).
 
É estranho ver as minhas tias por detrás do vidro sem poder nelas tocar ou morder (por falar nisso, me encasqueta não entender por qual razão nenhuma das duas não chega muito perto de mim – será que é pelo fato de uma ser meio atrapalhada, e perigar cair em cima de mim, e a outra ter um pescoço tão grande, e conseguir ver-me de bastante longe?). Como também o é aquele meu padrinho, sempre descabelado e com os olhos franzidos, parecendo pensar que sou algo meio alienígena (ah como dou risada...).
 
Da mesma forma, me angustio por ver meu vovô e não poder agarrar aquele esquisito monte de pêlo que tem embaixo do nariz.
 
Mais do que isso, me angustio por querer tanto lhe dar mil beijos de agradecimento, por cada dia, por tudo que sei que está fazendo por mim e não poder...
 
Porém, destas estranhezas todas, nada, nada supera a imensa vontade de sair daqui e ir para o colo amado da minha mãe.
 
As pessoas grandes podem não saber, mas daqui eu consigo captar tudo o que acontece ali fora, inclusive o choro dela, diário, sempre depois que vem me ver...
 
E isso me aflige, motivo que me faz ter todas as forças para sair deste meu quartinho e chegar lá fora, nos braços dela.
 
Ah, como eu queria que ela soubesse que está tudo muito bem e que não precisa chorar ou, menos ainda, ficar triste...
 
Por isso que a pena maior é o fato de, ainda, eu não saber escrever ou falar na língua das pessoas grandes, pois o que mais queria era lhe contar isso tudo, e muitas outras coisas.
 
Porém, suspeito que entre uma abertura dos olhos e um aperto de mão eu consiga, no fundo, lhe dizer...
 
Mamãe, amo você”.