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quarta-feira, 22 de junho de 2016

# toucinho



Cadê o lucro todo que estava ali? O gato comeu.

Cadê o gato? Foi pro mato das Bahamas.

Cadê o mato? Os advogados queimaram.

Cadê os advogados? No uísque on the rocks afundaram.

Cadê a uísque? Os laranjas beberam.

Cadê os laranjas? Foram pra cadeia.

Cadê a cadeia? Tá cheia de preto e pobre.

Cadê os pretos e pobres? Os ricos vêm chupando.

Cadê o ricos? Foram à busca de outro trambique.

Por onde é o caminho do trambique?

É por aqui... por aqui... por aqui...

[cócegas]

É, pois, a velha e velhaca lógica deste sistema: privatiza-se o lucro nas franjas do Estado,
socializa-se a quebra nas barbas da sociedade.

Neoliberalismo na veia, à moda da casa.

E o pulso, ainda pulsa.



quarta-feira, 8 de junho de 2016

# bento carneiro



Em que mundo vivem estes magistrados (v. aqui) e estes membros do Ministério Público (v.  aqui)?

Não ouso imaginar o que passa pela cabeça da maioria dessa gente.

Duvido, porém, que aguentem encarar o espelho e o travesseiro, numa imagem distorcida e histriônica que não devem render bons sonhos.

Afinal, são servidores públicos que fazem concurso para entrar em carreiras que pagam 20 ou 25 mil reais por mês e, de repetente, não mais que de repente, veem os seus contra-cheques de meses e mais meses recheados com 50, 100, 200 e até 300 mil reais mensais (v. aquiaqui).

E, ainda pior do que agir como se nada estivesse acontecendo, não querem que isso seja noticiado, com manifesto receio de que a verdade e o sol queimem a pele vampira de quem suga o pescoço do erário (v. aqui).

Ora, como verdadeiras castas hindus, divertem-se com os kinder-ovos mensais numa realidade cármica e carnal que só mesmo o Brasil-sil-sil pode lhes proporcionar (v. aqui).

E acham isso natural, moral, legal.

E assim ficam engordando às custas do orçamento público, crentes que a árvore que dá dinheiro lhes pertence, como se um pé de feijão fincado no exclusivo quintal do feudo mais ou menos hereditário que creem ter.

Nada, nada, nada justifica isso.

Podem enfeitar o pavão como quiserem, podem abusar da exegese administrativa, podem esgarçar a hermenêutica regulamentar, podem consultar astros, bulas, dogmas e evangelhos: nada soará menos do que o inadmissível, o escracho, o abjeto.

Podem colocar aditivos, donativos, atrasados, auxílios, empecilhos, brindes, diárias, canários, funções, cumulações, bônus, ônus, saldos, caldos, elfos, incrementos, excrementos... o diabo!

Não há conta séria que lhes permitam – num obsequioso silêncio ou numa pura e seca ladainha – aceitar receber o que se revelou receberem.

Sublinhe-se: não são agentes do mercado, não são seres vivos dos negócios sem fronteiras que, sob o espírito e a ética do capitalismo golfam o direito de entupir o culchão de dinheiro como e da maneira que seus estômagos e suas consciências bem queiram.

Não, não, não são.

De novo, o que imaginam esses indivíduos? Quem pensam que são?

Não são pássaros, não são aviões, não comem gilete, não são homens-fluido, não têm molas e nem se multiplicam em doze capazes de fazer o impossível pelo interesse público.

Pelo contrário, até.

Despidos das fantasias da toga e da autoridade constitucional, a quatro paredes, o que será que pensam sobre ética e justiça, sobre desigualdade e república, sobre sociedade e democracia?

Qual, pois, é a visão de Brasil-sil-sil que eles têm?

Uma raça, enfim, que na maioria confortável numa não-indignação não dignifica o suor a ferro e sangue do miserável brasileiro.

O qual por aí continua, macambúzio, vendo "dotôres" e suas sinhás como totem ou tabu da sombria fábula nativa.



terça-feira, 12 de abril de 2016

# touché


Não haverá golpe – e mais do que um simples mantra, é mera análise do que consta nos fatos, astros, dados, bulas, dogmas e evangelhos.

No retrovisor, porém, o reflexo é também claro: não se desistirá do golpe.

Agora, será frustrado no Congresso (provavelmente na Câmara e indubitavelmente no Senado); depois, embora com certo receio técnico e político  lá temos o trio Fux-Gilmar-Toffoli , não deverá prosperar no Tribunal Superior Eleitoral; e ainda terá o Supremo Tribunal Federal que ao cabo porá fim neste espetáculo de horror.

Porém, a aliança conservadora brasileira – tridente organizado pela elite, pela grande mídia e pela oposição – que carrega (e faz de trouxa) grande parte da “classe média” brasileira pelas orlas do Brasil, não desistirá do golpe.

E não apenas pelo poder, na medida em que nas urnas e pelo voto a direita não voltará tão cedo ao comando do país.

E não apenas pela sua própria visão de mundo, pela qual deseja o definhar de políticas públicas com vistas à recuperação de um terreno hoje compartilhado com muito mais brasileiros.

E não apenas por organização e métodos pragmaticamente díspares – afinal, convenhamos, neste contexto já nem parece o caso (v. aqui e aqui).

E não apenas por um ódio que move montanhas (v. aqui).

Não.

Embora uma carga disso tudo na balança conservadora seja bastante natural, a grande questão que sassarica os ricos brasileiros (e multinacionais) e que fez retumbar os gritos esquizofrênicos de boa parte de um Congresso Nacional é outra.

É o "cagaço".

É a certeza de que aquela antológica frase da Presidente Dilma, dita em 2012 logo no início desse troço a envolver as bandidas parcerias entre homens públicos e empresários privados, será para valer.

“Não sobrará pedra sobre pedra!” – disse Dilma, quando apontou as armas ("Às armas! Às armas!") aos canalhas da Petrobras, demitindo inescrupulosos diretores que, lado a lado do “mercado”, desde os anos 90 roubavam uma grana preta da então caixa-preta estatal (v. aqui e aqui).

E assim foi feito, e assim se faz, e assim se vê tantos ratos saindo da toca para atear fogo na República.

Afinal, enfrentar a corrupção sempre foi uma dissimulada pauta da direita e dos conservadores, abusada na retórica e esquecida na prática.

Porém, hoje, a corrupção – longe de ser o maior problema do Brasil, gize-se (v. aqui) – deixa de ser varrida para debaixo do tapete, deixa de virar notícia episódica de telejornais e, principalmente, deixa de virar um problema só do Estado, cujo fardo carrega o deus-Sol pós-moderno (v. aquiaqui).

Hoje, a corrupção, bem como toda a sorte de crimes contra a Administração Pública, é vista, sabida, combatida, perseguida, esmiuçada e, salvo ainda um ou outro tipo piciforme, punida.

E não apenas por um compromisso de fé da ex-guerrilheira Dilma.

Mas, sim, porque se cortou na carne do próprio partido, sem titubear.

Porque ações preventivas, fiscalizatórias e corretivas são postas em práticas pelos órgãos internos de controle (CGU e Portal da Transparência, criados em 2003) e de repressão (Polícia Federal) e externos, nomeadamente o TCU e o Ministério Público que, apesar de todos os abusos e imperfeições (v. aqui), nunca antes na História gozaram de tantas ferramentas e de tanta autonomia ou independência nas respectivas competências (v. aqui).

Ora, quem fraqueja e lambuza-se diante de tantos desvios e mal-feitos criminais, quem lucra e locupleta-se diante de um Estado frágil, dócil e complacente, jamais veria com bons olhos tal projeto institucional, cuja arquitetura tenta ser capaz de promover novos alicerces éticos e legais, como as novas leis que responsabilizam administrativa e civilmente as empresas pela prática de atos contra a Administração Pública e que proíbem o financiamento empresarial de campanhas.

Ao contrário, políticos picaretas e empresários escrotos se juntariam numa joint-venture capaz de tudo para reverter estes novos modos de guiar o Estado e fazer política.

Com medo, Cunhas (e chikungunyas) querem o caos do país (v. aqui).

Mas com coragem, vamos juntar os cacos e retomar a viagem.

Para desespero daqueles que veem se aproximar um dos aforismos de Kafka: “A partir de um certo ponto não há retorno. Este é o ponto que devemos chegar”.

E chegaremos lá, sob novas bases – posto que não se transforma um país com coalizões de ocasião.

E sob um renovado rumo.

À esquerda, sempre.



sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

# chios da gruta



"O Brasil não quer mais o PT!"

Legítimo desejo, inclusive.

Afinal, isso é democracia e 40% da população assim se manifestou nas urnas em outubro de 2014.

Esquece-se, contudo, que para "não querer mais" é preciso esperar três anos e votar de novo.

E tentar ganhar as eleições.

E isso também se chama democracia.

Ocorre que o mantra entoado por múmias paralíticas, zumbis, planárias, juristas de aluguel e, claro, pela velha mídia de sempre, não quer saber desse negócio de "democracia".

E, pois, vale-se da raiva, do preconceito, da vigarice e do "vamos-tirar-este-bando-de-petralhas-do-poder-em-nome-de-jesus-da-família-e-do-brasil" para virar o tabuleiro, romper com as regras do jogo e tirar na marra uma mulher legitimamente eleita e sobre a qual não paira nenhum -- nenhum! -- fato criminoso.

Há dezenas e dezenas de textos por aí que já bem explicaram, em detalhes, que não existe nenhum -- nenhum, repita-se -- fato criminoso que possa ser imputado à Presidenta Dilma.

Sob o ponto de vista das ciências jurídico-políticas, qualquer interpretação diversa dessa não é exercício hermenêutico, mas, simplesmente, um escárnio.

O achismo popular, a rapinagem midiática, a vagabundagem técnica, o oportunismo barato do baixo clero e a má-fé cínica dos adversários, entretanto, não dão ouvidos a isso.

Querem, ao contrário, com o circo republicano já em chamas, aproveitar as brechas abertas a fórceps pelo deputado-chefe do Congresso -- cuja envergadura moral não alcança as cócoras de um anão -- para ir na jugular do Governo e da soberania popular.

Pelas redes sociais, pelos blogs da direita e pelos portais da velha mídia, escorre o chorume que hipnotiza e do qual se lambuza a malta revoltada.

Para este bando que empunha faixas e vestes verde-amarelas pelas orlas brasileiras pedindo "impeachment", o que importa é simplesmente materializar o ódio (v. aqui).

Não, o "impeachment" não serve como instrumento para cassar mandato de quem não gostamos.

Tão-pouco serve como desculpa para encerrar precocemente governo ruim -- o "recall", adotado em países como, vejam só, a Venezuela, não tem aplicação no Brasil.

O "impeachment", meus poucos mas fiéis leitores, é medida extrema, constitucionalmente prevista, com especificidade e rito legais, que serve para destituir quem dolosamente comete crime de responsabilidade.

Não serve, jamais, para romper com o Estado Democrático de Direito.

Porém, isso não importa.

O que importa é a fúria que, desde a quarta vitória petista, há doze meses, infecta as mentes pouco lúcidas de uma parte do Brasil em busca do caos (v. aqui).

O que importa é não deixar Dilma governar -- e, a propósito, o que me parece a sua tese: podem não me deixar governar, mas se investigará tudo e todos até não sobrar pedra sobre pedra da arquitetura carcomida, secularmente mal-acabada, desta nossa República.

O que importa é tirar o foco do sistema político-econômico para se fartar sobre o fetiche da "corrupção", um mal descoberto há doze anos e grão-responsável por tudo e todos (v. aqui e aqui).

O que importa é o contínuo desgaste e constrangimento institucionais para a perpetuação de políticas econômicas absolutamente contrárias àquelas que o norte vencedor das eleições apontava (v. aqui).

O que importa é perenizar o "toma lá, dá cá" do jogo político de coalizão, levado à risca pelo Governo na busca quixotesca de uma tal governabilidade -- aliando-se inclusive aos mentores, patrocinadores e capitães deste golpe -- que muito bem serve às máfias e à plutocracia de plantão (v. aqui).

E mais do que isso: o que importa mesmo é fazer de tudo para que Lula não saia candidato em 2018 (se houver...).

Sim, para a direita brasileira imaginar a volta de Lula é o maior pesadelo da Terra.

Mal sabem que, derrubando Lula, ganhará Ciro Gomes -- e talvez ninguém abomine tanto os tucanos (e a lógica conservadora) quanto Ciro (v. aqui) -- ou mesmo um dos dois melhores governantes da atualidade: Flávio Dino (Governador do Maranhão, do PCdoB) ou Fernando Haddad (Prefeito de São Paulo, do PT).

Afinal, pelas urnas, esta gente que hoje chia de suas cavernas a melodia do golpe paraguaio nunca mais volta.

E, por isso, das trevas saem para querer sequestrar o Brasil.

No pasarán!







terça-feira, 13 de outubro de 2015

# verdade inconveniente



Recente estudo indica o quanto se sonega de tributos no país (v. aqui).

No ano-base de 2013, a estimativa foi de meio trilhão de reais -- sim, R$ 500 bilhões.

E o grosso, o que pesa mesmo deste crime, não advém de camelôs, de microempresários ou de coisas caricaturais do gênero.

Mas vem da turma limpinha e bem-cheirosa que circula pelas "classes As" do nosso Brasil-sil-sil.

Esta quantia reflete bem que o combate à corrupção, embora deveras importante, revela-se quase um "fetiche", afinal, estima-se que com esse crime o Estado perca aproximadamente 100 bilhões de reais (v. aqui), ou seja, apenas 20% do que se perde com a sonegação.

Isso sem falar de outro grande problema nacional, muito à frente da corrupção, que são as dívidas empurradas com a barriga pelos devedores da Receita, em cobranças fiscais que parecem morrer no infinito (ou no Judiciário) e que perfazem quase 1 trilhão de reais (v. aqui).
 
Logo, não obstante a soma resulte num "coquetel explosivo" para a República, comparando ambos os crimes o que mais esfola os cofres públicos não é a "corrupção" -- que envolve o público e o privado --, mas, cinco vezes mais, a "sonegação fiscal", promovida exclusivamente pelos entes privados que usam e abusam de paraísos, elisões e dissimulações fiscais.

E por que a grande mídia não noticia isso, pelo contrário, exalta painéis mambembes do tipo "Impostômetro" e vive a alardear o quanto a nossa coitada gente -- que gente, cara-pálida? -- sofre pagando tributos?

Lembram, por exemplo, da CPMF, o mais eficaz tributo já criado, mas que foi varrido por um Congresso ajoelhado diante de grandes interesses privados (v. aqui e aqui)?

Ora, escondem esta inconveniente verdade da sonegação porque não interessa à desgraçada elite (v. aqui) revelar como funciona este "capitalismo" deles, arredio à competição -- a tendência do capital é o monopólio, bem disse Marx -- e ao trabalho -- como bem se vê por aí, a tendência do capital é o rentismo.

E como não interessa a verdade, insistem em tingir (e fingir) o universo privado -- do mercado! -- com as cores do mundo celestial de fadas, como se tratasse de hagiologia, de um protótipo da imaculada excelência, de um reino incompatível com males do tipo "Estado" e "sonegação fiscal".

Por outro lado, como a corrupção tem dedos no Estado e na política... voilà, eis o porque de tamanho ódio e tamanha obsessão.

Quer-se insistir com a falsa ideia de que o governo é vicioso o mercado o virtuoso.

Quer-se a ladainha de que o público é ontologicamente ineficiente e corrupto, e o privado eficaz e imaculado. 

Lá nada presta, aqui tudo se soluciona.

E, com esta "lógica", concretizar o desejo de se mercantilizar tudo, em prol do capital (a classe endinheirada) -- "xô, Estado!", brada-se.

Afinal, quer-se matar as ideias de Estado e de política e tudo o que neles estão envolvidos, para assim restar um estado mínimo e uma política miniaturizada.

Pois os nossos endinheirados sabem muito bem que um Estado e uma política de verdade jamais lhes trará tantas rendas.



quinta-feira, 24 de setembro de 2015

# ódio



Temo exagerar no argumento e prejudicar a causa, como precavia Hegel; entretanto, vamos em frente, pois a pertinência escancara-se.

A tese de Adolf Hitler  ratificada pelas teorias que sempre trataram da psiquê humana -- era muito simples: nada une tanto um grupo díspar de seguidores do que o "ódio".

E assim o líder nazista construiu uma grande máquina na qual essa emoção negativa para tratar das subclasses funcionava com rara eficácia.

Por aqui, a negação do outro lado -- cujo teor fez surgiu, pós-Holocausto, a ideia da "banalização do mal" (v. aqui) -- também é alimentada, diuturnamente, por tvs, jornais, revistas, sites, rádios e para-choques de caminhão que mostram o pobre e o nordestino como seres inferiores, incapazes de terem seus próprios juízos.

A negação, partida de uma gente odiosa a qualquer um que ouse pensar pelo lado esquerdo do peito e sentir pelo lado humano do cérebro, funda-se na cantilena de que a sua consciência é a única ciente, a única com a ciência de avaliar o bem e o mal e de decidir os destinos do país, forma-se no plano da expiação dos seus pecados combatendo o inimigo vermelho, resume-se no fetiche do individualismo meritocrático, digno daqueles bem-nascidos, e resolve-se pelo álibi do combate da corrupção como fantasia para promover seus ideais de um terra limitada aos "de bem", esses singularmente reconhecidos no que se vê no espelho.

Veem, pelos olhos platinados da tv, que o destino é ser "contra-tudo-isso-que-está aí".

Só esquecem de ver, com os olhos que a terra há de comer, que o destino deles não é o destino de outras dezenas de milhões de brasileiros mal classificados e que sempre foram ultrajados pela classe usurpadora do Estado.

Os lancinantes discursos do Führer estimularam a "paixão do ódio", tal qual os editoriais e locutores da grande mídia perante seu público-alvo.

E grande parte da nossa classe média  medusicamente cooptada pelas teses reacionárias da elite – comprou esta ideia, sorvendo o veneno produzido amiúde por todos os cantos midiáticos.

Ora, o que sempre se percebeu no Brasil é a vontade de um Estado que tenha um só lado, que estanque a massa na miséria analfabeta e que pare de tentar ser de todos e para todos.

Essa é a nossa vontade secular, o desejo felino da nossa elite empedernida, tão desgostosa da ações populares e populistas e que na nossa história recente levou a matar Getúlio e a derrubar Jango para dar golpes.

Desta vez, quem escancarou a divisão do país, o recalque social e a falta de espírito cívico, nacional e democrático de uma grande parcela da população foi um partido político que, estando há milhares de léguas submarinas de ser um ente promotor do socialismo revolucionário, apresentou-se como o único factível em uma sociedade tão concentradora de riqueza.

E não ao contrário, afinal, é o contrário do estado democrático, da soberania popular e da desigualdade social que sustenta as bases programáticas desenhadas pela direita e que dá asas aos seus príncipes.

Não à toa, o ódio por trás da contínua depreciação de um grupo político  que, infelizmente, cometeu dezenas de erros – e da incessante desconstrução da Política tem por fim a retomada do status quo, a despolitização da vida pública, a apolitização do cidadão e o recrudescimento das "mãos visíveis" que algemam o Estado social.

É o rancor pelo potencial fim de um exército de mão-de-obra barata, explorada e fruto dos processos de colonização escravocrata e de urbanização favelizada.

Na contramão do mundo, a cegueira faz uma grande parte do Brasil ser conduzida pelos cabrestos interesses de quem na história sempre fez desta terra uma terra de poucos, agora sob os auspícios de um neoliberalismo que sabe à naftalina.

Mas é uma cegueira branca, como aquela de Saramago (v. aqui e aqui).

Hoje, a fúria que baba do canto da fala ensaia o retrocesso, o regresso e o resgate de programas econômicos funestos e de políticas públicas nauseabundas, tudo temperado com repressão e depressão.

A nau que pode voltar a nos conduzir, não sejamos tolos, tem um porto certo.

E para este norte a bússola é o ódio.

De um ódio que move montanhas.



(publicado em agosto de 2014) 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

# quem volta?



Ainda não assisti, mas as críticas ao filme "Que Horas Ela Volta?" são excelentes, desde aquelas nativas até aquelas de fora, que passam a conhecer um ranço ainda quente da nossa recente história escravocrata e a ainda atual relação casa-grande e senzala da sociedade brasileira.

Claro que a versão esquizofrênica dada pela grande mídia é mero faz de conta, uma análise alienada da realidade e, pior, avessa ao que o filme propõe.

Afinal, nas palavras da Diretora, a obra "trata das regras de convivência sociais no âmbito doméstico. Essas regras separatistas, nós sabemos, não são faladas, mas estão aí. Quando eu criei a Jéssica [a filha da empregada doméstica que visita a mãe em São Paulo para prestar vestibular] tão segura de si, não estava pensando em política, mas em fugir de um clichê dramatúrgico da coitadinha da filha da empregada. Mas, quando o filme ficou pronto, todos reconheceram que ele estava falando de um Brasil pós-Lula. E eu concordei. Uma personagem como a Jéssica não seria verossímil antes de seu Governo. Acho que, entre erros e acertos, houve uma melhora da autoestima do povo brasileiro. E a PEC das empregadas, sem dúvida, tem a ver com o final do filme. Acho que foi um grande passo para tirar o estigma do escravagismo e tornar a empregada doméstica uma profissional como qualquer outra.'" (v. aqui)
 
Portanto, não se trata de um conto de fadas cor-de-rosa, típico das novelas platinadas que invadem os lares brasileiros -- é, justamente, ao contrário.

E isso me lembrou de um recente fato que aqui trouxemos.

Tratava de uma matéria do "O Globo", de março deste ano, sobre uma empresa que presta serviços de consultoria para o "uso" de empregadas domésticas, criando um curso para melhor domesticar as serviçais dos brancos lares (v. aqui).

Sim, é mais uma espécie deste negócio horrendo chamado "coaching", no caso pret-à-porter aos desejos felinos da "patroas".

Na reportagem, outra amostra de ser vivo que bem tipifica o perfil daqueles que "são contra tudo isso que está aí" (v. aqui e aqui) e que perambula nas ruas com a sua cara-de-pau pintada e a irretocável fantasia de "brasileiro".

Eis a entrevista:
 
----- Por que você criou este curso?
Porque eu passei um ano e meio trabalhando em casa e quase enlouqueci com as empregadas.

----- Como assim?
Senti que elas perderam a noção do limite. Teve uma que eu pedi para chegar às 7h30 e botar a mesa do café. Ela disse para mim:  ‘Eu não! Imagina se vou botar mesa de café para madame!’. Essa falta de limite foi muito lembrada também na pesquisa que fiz.
 
----- O Brasil é um do únicos países do mundo em que ainda é comum ter uma empregada doméstica sempre por perto para te servir, que dorme num quartinho dos fundos…
Sim, tenho uma amiga que mora fora e fica chocada com isso. Mas é muito cultural, né? As condições no Brasil não favorecem a vida sem as empregadas, no exterior você vê mil eletrodomésticos que facilitam a vida, comidas pré-prontas. Aqui não tem muito isso. 
 
----- Quais as falhas mais comuns citadas na pesquisa?
Alguns exemplos: empregada que pendura o pano de prato no ombro; a que fala muito ao celular e depois diz que não deu tempo de passar toda a roupa; a que se recusa a usar touca e uniforme; e as que ficam falando das tragédias do bairro onde moram. Muitas têm vergonha de usar uniforme de doméstica na rua. Eu não entendo isso. É um símbolo de status. As empregadas de novela usam. A roupa mostra que ela tem um emprego bacana, que a patroa se preocupa com o seu visual.
 

Uma gente sem noção e que não (se) enxerga.
 
 
 
 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

# coisas di vomitar


Eis que se nota a chegada deste negócio horrendo chamado "Comida di Buteco" (v. aqui, nos mínimos detalhes).

No império do consumo, é angustiante ver o quanto o sistema se reinventa para criar o "nada", a provocar um consumo vazio em que muito se vende e muito se lucra à custa da idiotização de tudo e de todos, descaracterizando-se lugares e tradições e travestindo tudo no tom pastel da pasteurização geral.
E nela, uma arrogância que por tantos cantos do cotidiano provoca-nos as mais coceguentas urticárias.
E, atenção, não me refiro a um ou outro caso em que seria até natural encontrar vestígios e raspas de soberba comportamental, como na Academia e nas Artes, onde, afinal, erudição e eructação costumam não se confundir.

Falemos, pois, do ambiente, do dia a dia, do jeito da massa bem-cheirosa -- cujos atributos em regra encolhem-se no menor bolso graxo da roupa de grife -- se comportar.

Daquelas situações em que o arrogante é um alienado, um débil social, um daqueles que acha feio o que não é espelho ou que acha insustentável a presença do ser que não seja um ser dos seus.

Outrora já lembramos do que acontece na relação dessas pessoas com vinhos e cervejas (v. aqui), com seus hálitos e hábitos (v. aqui) e com os tratamentos que se dão (v. aqui).

Agora tratemos deste mesmo público, que roda pelas mais infaustas rodas, e a sua relação com a comida.

Sim, se não bastasse a pantafaçuda sopa de espumas, torres, gotas, granulados, desenhos e combinações minúsculas de troços mais ou menos óbvios que ostentam em pratos fotogênicos para a compartilhada fotogenia da rede...

E se não bastasse o inclassificável tripúdio sobre a gourmetização e a glamourização do mundo animal, vegetal, líquido, gasoso e mineral, a etiquetar tudo que se ingere com purpurinas e lantejoulas que muito bem euforizavam os índios nos escambos com os nossos descobridores...

E, ainda, se não bastasse as fortunas depositadas nos caixas de refeitórios doze estrelas, a fim de justificar a gulosa luxúria como uma legítima ação da ordem agostiniana do livre arbítrio...

Eis que os últimos arrotos, imberbes num misto de petulância com sabujice de dar dó, estão no sopro de "reinventar" os tira-gostos de bar, na forma deste concurso encampado pela vênus platinada, e, também, a velha comida de rua, que doravante chamam -- percebam o ar descolado -- "food truck".

Impávidos e colossos, empinam os narizes imperiais para comentar, pelas colunas de jornais ou por seus espaços nas redes sociais, que a onda agora é valorizar esta tal "gastronomia".

Modernos, chiques e na última moda, socorrem-se à avalanche de falsas autoridades que surgem para firmar e ratificar a boa-venturança desta cozinha e desta atitude, só digna dos bons trópicos.

Arrogam-se, agora, como bandeirantes dos bares e das ruas.

Melhor que ficassem em seus clubes privés ou com seus restaurantes estrelados.

Afinal, eles se merecem.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

# grã-fino das narinas de cadáver



Agora, a palavra da moda no cenário político é "austeridade" – menos na Grécia, claro, onde o termo foi varrido pelo povo.

E por todo o Paraná, e especialmente na sua Capital, escancara-se os efeitos ultranocivos das ladainhas neoliberais e de xoques de jestão propagadas pela turma demo-tucana (e até copiadas em certa parte pela leviana retórica petista) e, no caso, pelo reeleito governador Beto Richa.

Entretanto, e não poderia ser diferente, a grande mídia nacional esconde e não tece uma só vírgula sobre o caos que se instala pela Administração Pública paranaense (v. aqui)  a propósito, já pensaram o que se mostraria e falaria, Brasil afora, se o governo paranaense fosse do PT?

Bem, afora o escandaloso dia a dia repleto de uma "nada" constrangedor, as trevas deste triste e terrível (des)governo estadual vem na forma de estouro no limite de gastos com salários, da paralisação de obras em escolas, presídios, moradias etc., da interrupção dos poucos programas sociais e de dívidas e mais dívidas a descoberto. 

Ademais, o nada deste governo sempre fora tão flagrante em termos de políticas públicas, que Beto, o Energúmeno, a todo instante se segura em factóides e se agarra na esposa para destacar ações filantrópicas vazias, tentando se expor em outdoors pelas ruas das cidades para ostentar o sorriso vacilante, o bronze de Vanuatu, o V de alguma vitória e o relógio de vistosa marca.

Contudo, em termos de atitude, políticas e governo, é um nada, um sombrio e rotundo nada

Este picareta que ocupa a cadeira de governador lembra muito aquela célebre personagem das crônicas de Nélson Rodrigues, a "Grã-Fina das Narinas de Cadáver" (v. outra delas aqui), que, em pleno estádio, costumava olhar para o seu nobre acompanhante da hora  um desses eternos que reinam nas colunas sociais – e perguntar, sem titubear: “Hein, quem é a bola?”.

Eleito e reeleito com a promessa de gastar menos e melhor – típico (e falso) mote desta turma –, Beto enganou até onde conseguiu,  hoje já sendo notória a sua incompetência administrativa, a sua ignorância política e a sua incapacidade de reger a coisa pública.

Porém, isso não surpreende, afinal, que história  francamente, seria essa aqui? – e que trajetória profissional, pública, política ou social ele tem para merecer o cargo que ocupa?

Alguém lembra da sua atuação como parlamentar? E na Prefeitura de Curitiba, o que fez além de gastar milhões e milhões em narcisistas campanhas publicitárias, surfando na ultrapassada onda lernista de cidade-modelo? E o que falar do seu primeiro mandato de governador?

Ora, tudo se resume à grana posta em jogo – afinal, foi por causa de "verbas" e "cargos" que a maioria dos canalhas do PMDB no Parlamento, cheia de votos no interior do Estado, apoiou e reelegeu Beto – e ao maquiavelismo às avessas, bem como à necessidade da população querer deslumbradamente a tal da "renovação" e iludidamente o "novo".

Mas a sua essência é oca ou bafeja naftalina: o que é novo não presta, e o que presta não é novo. 

Além disso, parte da ópera bufa da reeleição ainda reside na sua casca de bom-moço, de modos etiquetáveis, de limpinho-aromatizado-com-polo-de-golfe-e-gel e de politicamente correto, cuja figura ainda se sustenta em relativa escala Paraná (e Curitiba, claro) adentro.

Mas que, evidentemente, não deveria ultrapassar os limites do Graciosa Country Clube ou do Iate Clube de Caiobá.

Enfim, a população acabou de novo engolindo este outro conto do vigário tucano, esta outra fábula do governo-empresa e esta outra cantilena da gestão privada da res publica  e agora terá que aturar as desventuras deste mimado "piá de prédio" e seus deputados de quinta categoria.

Enquanto isso, o bom síndico que teríamos continua em Brasília, no meio daquele Senado...

Ossos, pois, da democracia.

E no final, o Governador articula e a Assembleia passa por cima do povo paranaense



sábado, 15 de novembro de 2014

# guerra e paz



Trata-se de uma situação como a do ovo e da galinha: quem veio primeiro, o corrupto ou o corruptor?

Mas, se porventura não queiramos ter a mesma dúvida criacionista e sobre ela buscar a metafísica da questão  o que, ao meu ver, passa pela discussão da natureza humana e dos valores desta sociedade, fetichizada na riqueza material, como aqui, aqui, aqui e aqui dissemos , vê-se que a solução está na artificial existência siamesa de interesses públicos e privados, de Estado e capital, de política e business.

Ora, se a política continua na sombra corruptora do dinheiro, o dinheiro continua à sombra da política, como aqui se disse.

Historicamente, assim se fez boa parcela das maiores fortunas do Brasil adentro; e assim se faz em Brasília, assim se faz na Petrobras, assim se faz no Rio, em Curitiba, em Araucária..., enfim, a grande parte da massa bem-cheirosa que arrota habilidade e desfila competência locupleta-se roubando do Estado.

Mancomuna-se com agentes públicos ou políticos, e se entope de privilegiadas informações e polpudos contratos; ajeita-se com juízes, promotores ou policiais, e se farta de doces e convenientes decisões jurídicas  aqui, inclusive, lembramos desta entrega total dos pseudocapitalistas à tal farra...

E se chega nesta sexta-feira, e parece que finalmente o Brasil escancara este outro lado da moeda   v. aqui.

O país parece ter cansado de ser hipócrita e põe na janela o lado antes engomado e poliglota, o lado meritocrático, o lado eficiente, o lado que produzia, o lado sério e imaculado que se obrigava a participar da picaretagem nacional.

Eram vítimas, quando muito, como se insiste em dizer.

Na verdade, eram invisíveis no assunto corrupção, pois sempre muito bem escondidos pelos nossos poderes estatais e, claro, pela grande mídia.

Hoje, escancarado está que ao lado dos canalhas que desdizem o juramento à defesa e à promoção do interesse público, da ética e da legalidade, estão outros bandidos que, embora não jurem nada disso  "it's business, stupid!", dir-se-ia por aqui , jamais poderiam agir como a inocente donzela que involuntariamente morde a maçã da bruxa.

Hoje, se alguns políticos e servidores públicos e as cúpulas partidárias que estão ou estiveram no poder afundam-se neste que talvez seja um bom momento da República, levam junto, como um Caronte infernizado, parte dos magnatas brasileiros que jamais honraram as calças do capitalismo que vestiam   eis, pois, o grande mérito do Governo Dilma.

E atente-se.

Tem muito, muito mais por aí e para além das já tradicionais "empreiteiras"  lembre-se aqui e aqui de casos recentes envolvendo este bando, sempre a empreender com metodologia similar ao tal "Clube" de agora (v. aqui e, num vaticínio acerca das "donas de um monte de coisas"aqui).

É hora de mexer no vespeiro do transporte público  das empresas de metrôs, trens e ônibus (v. aqui e aqui)  , dos serviços regulados e de outras tantas concessões que, nas mãos de síndicos ilegítimos da res publica, são tão nefastas e contrárias ao interesse público.

É hora de encarar de frente, e com a honestidade técnica e intelectual que merece, o modus operandi de agências reguladoras e de parcerias público-privadas tão nocivas à sociedade.

É hora de a Presidenta Dilma aparecer em rede nacional, semanalmente, para mostrar o que faz e o que fará para mudar o país nesta matéria  que, repitamos, não é a mais crítica do Brasil e nem nos deve merecer as mais profundas ilusões republicanas.

Afinal, meus amigos, ela mais uma vez prova: corrupção não se combate com mera retórica (v. aqui) e, principalmente, nem com embustes cinematográficos como essa "Operação Lava Jato", que nasce com (desvio de) finalidade e (conveniente) final: a caçada vermelha, com fins soturnos e antidemocráticos.

E, por isso, doravante teremos uma guerra  como disse Dilma, "não vou deixar ficar pedra sobre pedra" (v. aqui).

Ora, embora se saiba que qualquer coisa que aspire tornar o mundo e as pessoas menos complexos, menos paradoxais e menos variados esteja a cometer uma pequena calúnia com a realidade, posto que são múltiplas as realidades  inclusive no mundo das relações público-privadas , "esta" realidade finalmente  veio ao sol.

E este sol exige obrigações e saídas, pois como disse Kafka em um dos seus aforismos, "de um ponto determinado em diante não há mais retorno; esse é o ponto a ser alcançado".

E sem retrocesso, porquanto inadmissível para um novo Brasil, os interesses a serem enfrentados  mais ou menos dissimulados, ocultos ou escancarados  serão muitos e o desafio será hercúleo.

Portanto, se o Judiciário  se sob uma autêntica independência e justa observação do Executivo e do Legislativo  chegar a algum lugar certo, imparcial e que alcance a todos, trata-se de uma empreitada histórica e valiosa.

Por isso, se é a "paz perpétua" que a nossa sociedade deseja, preparemo-nos para a guerra.

Tal qual no ditado latino: si vis pacem, para bellum.

Sem máscaras, sem medo.

E com o coração valente, para lutar contra tudo e todos.