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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

# a nova escola: uma revolução



Alguém, um dia, em algum lugar, resolveu fixar um conteúdo programático para ser ensinado nos bancos das escolas do mundo, vasto mundo.

Assim, por toda Oropa, França & Bahia, foi estabelecida uma ordem pedagógico-educacional que, se tinha, hoje não tem qualquer fundamento – a não ser, claro, pelo lógica em si de todo o "sistema", coisa que o velho Marx, com a tese da alienação, já debulhou.

Nesta (des)ordem, cujo sistema de ensino é fruto da escola prussiana de treinar milicos para a guerra, lá do séx. XIX, o mal é manifesto: corrompe-se a energia, trava-se a criatividade e se fulmina a vitalidade de mentes jovens e abertas para o mundo. 


E neste caminho de idiotização robótica do ser humano infanto-juvenil, as ricas contracorrentes são marcadas como símbolos de mera rebeldia, de franca alucinação ou de bruxaria.

São aquelas que encorpam a "educação proibida", a qual pretende desacentuar a escola como "agência seletiva" do mercado e fortalecer a educação como função democratizante da sociedade, não obstante a reprodução social que, fruto de capitais econômicos e culturais absolutamente díspares, sustenta uma cruel desigualdade.

Primeiro, o que se tem em grande parte dos nossos jardins de infância é uma "brincadeira".

São, em regra, galpões pintadinhos de galinhas azuis que num estilo pré-fordista tentam sossegar os nossos pequenos leões, funcionando com um circo baldio no qual palhaços, focas e motoqueiras do globo da morte formam uma massa absolutamente estéril para o que se dispõe.

É, pois, a fantástica loja de depositar crianças que, sob o fanático espírito mercantil da sua líder (a tal "tia-chefe"), promete aos respeitáveis pais um grande espetáculo – mas, sim senhor, ao final entrega apenas a marmelada.

Depois, nos colégios, o que se ensina é um escárnio.

Pior, o que não se ensina é de uma flagrante insensatez, pois tudo vem condensado em saberes enlatados, mímicas da moda e ventriloquismos deterministas que esvaziam o ser humano.

Nas grades curriculares, disparates: em Matemática, passa-se todo um Ensino Médio apresentando (e se estudando) números complexos, polinômios, matrizes, equações de enésimo grau, e por aí vai; em Biologia, é um tal de classes de protozoários pra cá, conteúdo de caules pra lá, mitocôndrias acolá; em Química e Física, se insiste no aprofundamento de cadeias orgânicas, cinética, termologia, fluidostática e de tantos cálculos e fórmulas claramente bizarros e desprezíveis...

E nada, nada disso se aprende, pois não tem aplicação alguma, não tem qualquer importância e não subsiste no universo dos objetivos e na realidade cotidiana dos jovens, futuros adultos e potenciais profissionais.

Pelo contrário, só aguça ainda mais a ojeriza à escola e ao estudo, torna tudo mecanizado e frio e só inibe ainda mais o desenvolvimento mental e humano dos jovens.

E ainda mais grave do que (tentar) ensinar isto tudo, é passar à margem de tantas outras matérias e de tantos outros temas de importância e significado ímpares.

O foco, pois, tinha que ser outro: Filosofia, Política e Teologia, sacrossantas áreas do pensamento.

Porém, essas são apresentadas com desdém, sem padrão e sem a relevância devida.

Esquece-se que são disciplinas cruciais para a compreensão da sociedade e para o (auto)conhecimento, absolutamente vitais para o estímulo à reflexão e para tornar os adolescentes pensadores do que se professa em sala e do que se faz pelo mundo.

Mas, como mal lecionadas, mal trabalhadas e mal conformadas no calendário pedagógico, estes cânones do ideário intelectual moderno são, se tanto, servidos como fast-food, para insossa ingestão (e digestão) dos jovens, então totalmente descomprometidos com as causas e os ingredientes das ciências em jogo.

Além disso, outros tantos esforços tinham que estar concentrados na Língua Portuguesa (a última flor do lácio), nas Línguas Espanhola (uma pátria grande) e Inglesa (o esperanto do mundo pós-moderno global), na Lógica e na Matemática, na História, na Geografia e nas Artes.

Ainda, duas matérias criadas pelo regime militar deviam ser reincorporadas à grade juvenil, evidentemente pelo avesso daquele imposto ditatorialmente: "Educação, Moral e Cívica" e "Organização Social e Política Brasileira", as quais muito contribuiriam para a reformação e reconstrução cidadã de nossos jovens, hoje distantes do mínimo ideal cívico, ético e republicano e da mínima compreensão social e política do Brasil.

Também, uma estrutura de ensino com foco na vocacionalização e a redução do total de disciplinas  fragmentadas, com uma grade que ofereça o mínimo de disciplinas obrigatórias e autonomia para o aluno (e a família) preencherem sozinhos o restante do tempo – já alargado, como no Atlântico Norte – com cursos e matérias optativos em áreas diversas do conhecimento e da cultura.

E, com isso, auxiliar no desabrochamento das "virtudes" de cada um, identificando os talentos vivos e alimentando os sonhos reais de cada jovem.

Mais, a inclusão no conteúdo programático de todo o Ensino Médio de estudos e práticas que apresentem as principais atividades, ofícios e profissões e com elas se relacionem.

Afinal, é aqui, e com o curso de matérias que provoquem a reflexão e o raciocínio dos jovens sobre a vida profissional, que se melhor preparará o caminho e o terreno para as escolhas futuras 
– não será, pois, com este ensino de hoje e as suas toscas aulas de decoração, repetição e ruminação que um adolescente melhor será encaminhado à Medicina, à Música, à Engenharia ou às Ciências Humanas.

Ou há alguma dúvida de que tudo isso é muito melhor, mais importante e mais útil que anos e anos numa carteira ouvindo sobre sistema respiratório de crustáceos, sobre tabela de Linus Pauling, sobre circuitos elétricos e sobre logaritmos?

Mas, é claro, para isso a premissa é mudar o conteúdo das provas de ingresso à universidade e, claro, o próprio fim do fim do ensino colegial: o  "vestibular".

Ora, se mantivermos este sistema em que apenas se ensina 
– ou se dá máxima importância à – tabela periódica, estrutura do caule e equações de terceiro grau, o aluno certamente entrará num faculdade, mas não vai ter parado um momento sequer para refletir e pensar sobre as questões fundamentais da vida.

Por fim, talvez o essencial: a escola em tempo integral, como na maior parte do mundo civilizado ocorre. A transformação do "tempo" para os nossos jovens será o caminho para uma nova vida.

Aqui, portanto, a grande importância e o preponderante papel do Estado, particularmente no plano federal, como principal e renovado meio para se apresentar e cobrar real conhecimento 
– cultural, crítico, valorativo, reflexivo e imaginativo , num terreno que prepare a maior mudança de sempre,  um novo paradigma de educação e de escola: a "Pátria Educadora", como uma dia pretendeu o governo brasileiro (v. aqui).

Portanto, afora base e princípio familiares, será apenas por meio de um Ensino Médio inovador, criativo, alternativo, analítico, participativo e ecoante que conseguiremos ver a mínima transformação na cabeça dos nossos jovens 
– ter-se-ia, pois, uma educação que liberte, a "pedagogia da libertação" que pregava o gigante Paulo Freire.

E essa, pois, seria a nossa pequena revolução.

Caso contrário, abdicando-se de uma real e verdadeira educação, teremos nossa juventude continuamente refém do enciclopedismo vazio de uma escola mercantil e das teses e verdades propagadas pela tv e pelas redes sociais e sob o cabresto do sistema vigente.

Afinal, o que se quer é uma educação que nos ajude a pensar, e
 não uma que nos adestre para obedecer.


You say you want a revolution...


sábado, 6 de agosto de 2016

# vestindo por amor



A cada madrugada acordado, de tempo em tempo vou ao quarto para ver meus filhos dormindo.

No ninar deles, ouso imaginar os seus sonhos  e os meus também.

Mas não aqueles de dragão, reino encantado e cidades de algodão-doce repletos de personagens de quadrinhos.

Inquieta-me, pois, saber para qual time irão torcer.

Sim, talvez uma das maiores missões que todo homem tem na vida é ensinar o filho a torcer.

E, claro, a torcer pelo seu time.

Não que deva obter êxito neste encargo, mas que deve tentar, como consta na cartilha da boa pedagogia para pais do velho e rude esporte bretão.

Afinal, não há ideologia, religião ou sobremesa que importe mais que ver o seu fruto, a sua obra, a sua divina criação dividir a mesma paixão no futebol.

O trabalho, claro, é duro; no meu caso, morando longe do ninho, beira o mitológico.

Entretanto, assim vou seguindo na pessoal catequização deles, sentindo-me quase como um Padre Anchieta no desembarque pelas praias e selvas brasileiras, mas agora sozinho, sem o pelotão português  ou um furacão  na retaguarda...

Primeiro, provo-lhes diariamente que no princípio era o "vermelho" e o "preto", ao contrário do pregado pela Bíblia.

Ambos, juntos e verticalmente ligados, formam o vermelho-e-preto, a cor mais importante do planeta, que rege o mundo e que sustenta todo o cosmos – e lembro que o "verde", ao contrário do que pregam os ambientalistas, não é cor que se cheire.

Mas aqui neste Rio de Janeiro o perigo é grande, pois corro o risco dos meus filhos, confusos na identidade de tons, acabar num time nativo, maciçamente presente pelas ruas, casas, parques, praias e confins.

Bem, depois a complicada tarefa é começar a ensinar nosso hino e urros de guerra.

Embora esta segunda parte seja-lhes muito agradável – ora, toda criança que se preze gosta de berrar palavras de ordem e a esmo –, as lindas letras da camisa rubro-negra que só se veste por amor ainda saem difíceis, como quem diz sem saber muito bem o que diz.

Eles tentam, erram, desistem, tentam, erram, desistem, erram, e a cada insistência minha desiste mais do que tentam.

Começo eu a ficar meio chato, confesso.

Um terceiro momento desta saga pela torcida deles é fazê-los sentar ao meu lado e, diante da televisão, por longos minutos, ensiná-los a arte de se contorcer pelo time adorado.

Dura missão, e sei que terei trabalho para uma vida.

Mas, claro, não importa, pois o resultado poderá ser impagável.

Ora, imaginar estar ao lado de Benjamin e de Santiago e poder sentir o que há mais de trinta anos sinto quando estou com meu velho pai, na nossa Baixada ou no nosso caseiro camarote em Curitiba, valerá quantas vidas forem necessárias.

A preparação para os jogos, as idas ao estádio – inclusive do inimigo verde... , os papos preliminares, os debates com chicabons e amendoim de intervalo, as resenhas da volta, as notícias da semana, os cantos, os gols, os títulos, as rinhas, os revezes, as ressacas...

Enfim, a paixão conjunta pelo Atlético fez-me ter com meu pai esta boa parte da vida lado a lado, juntos, ligados num mesmo refrão e dividindo momentos que não teríamos se os nossos caminhos no futebol fossem diferentes.

Tivemos, na emoção de acompanhar e torcer pelo mesmo time, parte da forma da nossa relação.

E do amor que tanto nos une.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

# ítalo e o jacaré



Ítalo decide morrer.

Mas Ítalo não era a adulta Veronika cheia de inquietações filosóficas do livro de Paulo Coelho que virou filme.

Era, sim, um piá de dez anos, que jamais lera um livro, que teve uma vida igual ao filme de terror de milhões de crianças negras e pobres de um Brasil real cujo trágico desfecho é quase sempre óbvio e infeliz (v. aqui e aqui).

Sim, porque tem crianças que nascem num outro Brasil, num Brasil de faz-de-conta, num Brasil-arco-íris, num Brasil-castelo, num Brasil-resort, num Brasil como a redoma exclusiva que de colosso e gigante só tem a cegueira de seus internos, tão branca como aquela da extraordinária fábula de Saramago.

Vocês já pararam para imaginar o que é uma criança de dez anos sentada no banco de motorista, ao volante de um carro cujos pedais mal são alcançados pelos seus pés?

E agora conseguem imaginar a mesma cena, mas com o detalhe de que ela estava a fugir da polícia, roubando um carro após invadir um condomínio no bairro do Morumbi (SP) ao lado de um colega da mesma idade?

Como desfecho, a polícia atira-lhe na cabeça: Ítalo era um cabrito marcado para morrer.

Em paralelo, numa realidade particular, Benjamin e Santiago tiveram o destino divino de nascer naquele tal castelo, de ter pais que não dependem do crime – crime de preto ou de branco – para viver, de ter roupas novas no armário e iogurte de morango na geladeira, de ter cama e banho diários, de ter gibis e desenhos animados educativos e, em especial, de ter tempo e amor dedicados às suas criações.

Portanto, lá e cá, são como duas linhas de vida que nem no infinito se cruzarão.

Ora, nascer no Brasil e em qualquer rincão do planeta em que a desigualdade é avassaladoramente mortal – ponha-se os EUA nessa conta – ainda é um manifesto “destino”, roleta que aos montes fabrica produtos e mais produtos de gerações eternamente alijadas de oportunidades e de futuro.

E quem desamarrará isso, dando liberdade para que os Ítalos soltem-se das cordas malditas que os asfixiam eternamente na miséria, flertando com o nada bandido e viajando no pêndulo que vai do vazio da fome ao cheiro da cola?

E quem transplantará esta vida seca de sempre, soterrada nos escombros de um não-lar, amálgama do amargo de um pais em ruínas?

A sociedade, minha gente.

Eu, você, ele, todos nós que ativamente compomos este amontoado de indivíduos e que formamos o Estado, mas que dele não queremos participar, e nem para ele votamos com a consciência desligada do umbigo, e nem sobre ele (e sobre o nosso papel) refletimos e pensamos – pelo contrário, continuamos a propagar pelos cantos das ruas e da internet frase-feitas de uma ideia reacionária, higienista, fascista e tão excludente de mundo.

E, vamos lá, por que em regra isso não acontece na Escandinávia, no Canadá, em Cuba, em lugares onde a desigualdade é muito menor e o Estado maximamente presente e atuante nas questões sociais?

Elementar, meus caros.

Neste ambiente de tudo ou nada tropical, de uma gente que só tem o sol que a todos cobre (v. aqui), um único projeto na nossa história imaginou transformar a realidade institucional: os CIEPs, as escolas em tempo integral dos gênios Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, diuturnamente boicotadas pelas elites brasileiras, dotadas de um narcisismo primitivo que sempre enxergou o problema no outro.

Não era, e nunca teremos, a solução mágica para tornar isso aqui outra terra.

Porém, toda a restruturação do processo pedagógico-educacional e a progressiva redistribuição da renda nacional – e a "política", no final das contas – são as chaves para que um dia possamos responder: o que motivaria Ítalo a não fazer o que fez?

Enfim, o episódio deste menino é mais um nítido retrato desta "banalidade do mal" na veia, ao vivo, a cores (v. aqui), e que revela a pequenez da nossa gente.

Sim, dá-me profundo lamento saber que uma criança morta por uma bala na testa não tem o mesmo pesar social daquela que foi arrastada, dias atrás, por um jacaré num lago da Disneilândia.

Convenientemente, talvez.

Afinal, neste Brasil, o jacaré somos nós.



segunda-feira, 25 de abril de 2016

# eureka!



Eis que parte da manipulada classe média, sempre alerta na defesa da moral reacionária e dos bons costumes conservadores, descobre, de repente, que o golpe está sendo tramado por uma “federação de bandidos”.

Não sei se foram as capas das revistas semanais, ou se foram algumas das submanchetes dos jornalões ou mesmo uma ou outra notícia revelada pelos âncoras de plantão – ou, ainda, a hipocrisia da rede globo, acusada de golpista mundo afora, ao ontem, no seu programa dominical, dar longo espaço ao bolchevique José de Abreu.

A questão é que milhares de amarelinhos acordaram para a verdade por trás do empuxo do impeachment.

Belos, cheirosos e adormecidos, devem ter recebido o beijo do pato e assim despertados para o "amanhã".

Olhando pro lado e pro chão, nas redes sociais começam a se comportar como mamíferos racionais, nas ruas a agitação odiosa aparentemente se apequena, nos apês as panelas parecem ter voltado ao monopólio das domésticas e na (des)lavada cara já se notam sinais de ruborização.

Mas, atenção, o fato não se deve à súbita politização desta massa e à coragem de aceitar a ignorância cívico-social para intensivamente aprender um pouco sobre poder, república, democracia etc., tal qual faz qualquer um que tenha dúvidas sobre  gastroenterologia ou edificações e procura um médico ou um engenheiro para saná-las.

Não.

Afinal, o problema desta gente não é a "política".

Sendo assim, desconfio que, com o id satisfeito pelo resultado de domingo – resultado, gize-se, apenas parcial no processo –, o supergo passou a marcar presença e apresentar-se como a sentinela das suas mentes, com o perdão da rasa intelecção freudiana.

Logo, permitiram-se perceber o (falso) senso de realidade que o ego lhes apresentavam.

Afinal, não há qualquer preocupação com o “bem comum”, ou com o estado de direito, ou mesmo com as instituições democráticas; trata-se, apenas, de um reflexo daquilo que viram no espelho, de um narciso às avessas.

Envergonhados, e sempre vendo pelos olhos do umbigo, passaram a reconhecer que ali faziam o papel clássico da massa bovina manobrada por grandes interesses, algo tradicional em quinhentos anos de uma dominação vampiresca da casa-grande.

E, reféns das jaulas em que estão acorrentados, passaram a entender que aquilo ali começa a a ter um certo (e outro) sentido, para além da lógica desenhada pela grande mídia nos muros da caverna e que tenta construir uma narrativa de pura normalidade.

Claro que nunca é tarde para aprender e tentar se desamarrar do raciocínio fácil, médio, curto e acrítico – aquele que ataca com a ira medieval os hereges que teimam em não queimar na fogueira do pensamento único –, acontece que o custo de toda essa alienação e resistência é alto demais.

É, por vezes, o preço da democracia e da liberdade.



quarta-feira, 29 de abril de 2015

# centro cívico na democracia

 
 
Esta nossa “democracia” provoca coisas absolutamente incompressíveis.
 
Veja-se o caso deste Beto Richa.
 
Que história e que trajetória profissional, pública, política ou social ele tem para merecer o cargo que ocupa? Alguém lembra da sua atuação como parlamentar? E na Prefeitura de Curitiba, o que fez além de gastar milhões e milhões em narcisistas campanhas publicitárias, surfando na ultrapassada onda lernista de cidade-modelo? E o que falar do seu primeiro não-mandato de governador?
 
Ora, reeleito às custas de muita grana, de muito “apoio” de deputados em seus redutos eleitorais interioranos – afinal, foi por causa de verbas e cargos que a maioria dos canalhas do PMDB no Parlamento, cheia de votos no interior do Estado, apoiou e reelegeu Beto – e de muita alienação da massa conservadora curitibana, o sujeito a cada dia que passa consolida-se como um traste político e um infame administrador.
 
Dentre outras coisa, Beto Richa lembra muito aquela célebre personagem das crônicas de Nélson Rodrigues, a "Grã-Fina das Narinas de Cadáver", que, em pleno estádio, costumava olhar para o seu nobre acompanhante da hora e perguntar, sem titubear: “Hein, quem é a bola?”.
 
Ainda, parte da ópera bufa da reeleição reside na sua casca de bom-moço, de modos etiquetáveis, de limpinho-aromatizado-com-polo-de-jacaré-e-gel e de politicamente correto, cuja figura ainda se sustenta em relativa escala Paraná (e Curitiba, claro) adentro – mas que, evidentemente, não deveria ultrapassar os limites do Graciosa Country Clube ou do Iate Clube de Caiobá.
 
Depois, as “ideias” (sic) e a “gestão” (sic) de Beto escancara os efeitos ultranocivos das ladainhas neoliberais e de xoques de jestão propagadas pela turma demo-tucana, tudo e sempre em nome da mão divinal do mercado, do não-Estado e do vale-tudo nas relações público-privadas.
 
Resultado: quebrou o Paraná.
 
Mas isso tudo ainda não era suficiente.
 
E agora Beto e a sua equipe de pulhas, picaretas e piás de prédio deram para surrar e quebrar centenas de professores e servidores públicos, num dos episódios mais repugnantes que o Centro Cívico da capital paranaense presenciou.

Cenas de guerra, de um massacre absurdo promovido por um governo sem pés e, muito menos cabeças -- por sinal, registre-se: o "secretário" de Educação de Beto Richa era um agente do mercado historicamente envolvido nas privatizações das empresas de telecom...
 
Bem, jamais se esperou alguma coisa desta gente, mas confesso que se poderia esperar qualquer coisa, menos o que foi visto hoje.

Beto Richa, assim, se já podia ser considerado o pior governador que o Paraná já teve, depois desta quarta-feira também será lembrado como um dos mais indignos da nossa história.
 
A propósito, já pensaram o que se mostraria e falaria, Brasil afora, se o governo paranaense fosse do PT ou de alguém pouco afeito às colunas sociais?


 

quarta-feira, 25 de março de 2015

# praxes e trouxas



Surge à tona a questão dos "trotes", quando a mídia vem mostrar as festas & festividades nas quais os calouros universitários são castigados, humilhados e coisificados, como aqui.

Lembro-me bem do meu tempo universitário, e acho meio óbvia a questão: tanto quanto os "veteranos", os grandes idiotas dos casos são também os próprios calouros.

Afinal, por que ir aos tais eventos de "boas-vindas" promovidos com claros e manifestos propósitos de castigar e humilhar?

E, ainda que de modo mais ou menos masoquista queiram lá ir, por que aceitar, serenos e cordiais, a submissão animal a eles imposta?

Freud explica?

-- x --

É óbvio ululante que, nos primeiros meses de vida universitária, toda reunião extramuros tem por alvo esculhambar com os calouros.

Cocô, lixo, blush, tinta, mijo, raspagens, agressões, lesões, roubos e extorsões, tudo conspira para que os calouros sejam humilhados.

Repergunto: por que ir a estes negócios?

À minha época, quando calouro na UFPR, lembro-me de alguns esfuziantes colegas que tinham a plena (in)consciência do que aconteceria nas tais "recepções" e, mesmo assim, iam para depois curtirem a experiência do que sofreram -- e, às vezes, lamentarem, como se não fossem responsáveis pelo que haviam cativado, quase Pequenos Príncipes às avessas... -- e se creditarem, orgulhosos, para fazer nos calouros do ano seguinte tudo aquilo a que se submeteram.

Dizem que isso tudo faz parte da jovem idade; encaro, porém, como parte da imbecilidade.

Afinal, só otários vão para "eventos" desta natureza, ou enxergam algo de sublime em dar ou receber "trotes" desta natureza diante de uma massa de desconhecidos.

E, se antes das redes sociais essa coisa toda já era ultrabadalada, imaginem agora, tendo à mão um facebook que instantaneamente mostra ao mundo a sua "nova fase", a tua badalada testa pichada de bosta e o teu corpo banhado de ovo bento... não é o máximo isso?

-- x --

E, ainda mais estúpido que ir, é aceitar aquilo tudo, submisso.

Será que o calouro rebelde seria submetido a tratamento tão degradante quanto aquele oferecido à coletividade (ou à manada) de calouros?

Certamente não, afinal, poucas humilhações públicas (crimes?) restariam para além daqueles normalmente praticados pelos veteranos nesses tipos de "eventos".

Repergunto: por que não recusar? Por que não se rebelar? Por que não mandar todo mundo tomar no olho do cu?

No meu início de competições desportivas, com 12 ou 13 anos, eram frequentes as viagens com atletas mais velhos -- frequentemente viajava e jogava com atletas dois ou três anos mais velhos, o que praticamente significava a distância entre as eras cenozoica e paleozoica -- e, não raras as vezes, havia o conflito entre "veteranos" e "calouros".

Numa delas, para alguma cidade do interior do Paraná, na noite em que toda a chefia da delegação havia saído para jantar, eu já sabia que coisa boa não viria.

Dito e feito.

Atenienses de um lado -- uns dez -- e nós três calouros do outro.

Os veteranos queriam impor um jogo: "cubol", uma aberração cujo nome mistura a parte interna das nádegas e algo tipo bola.

Ainda mais novo que os outros dois colegas calouros, fui o primeiro a ser apontado como um dos "jogadores".

Insurgi-me: "Não!".

E negava por várias vezes três.

Desaforos, ofensas, pequenos tapas e empurrões, grandes ameaças... e nada me desabalava e nada me faria ir para aquele "jogo".

"Não vou!", insistia em alto e bom som.

Era, ali, um digno espartano.

E não fui e não fiz -- e acho que não me mataram.

Hoje, duas décadas depois, ainda me vem à memória a imagem dos outros dois colegas, mezzo descontraídos, mezzo deslumbrados pelo momento, correndo pelados, de cócoras, de um lado para outro daquela imensa sala, com uma tampa de xampu (ou uma bolinha de ping-pong ou um naco de sabonete, já não lembro) enfiada por entre as nádegas e com o objetivo de empurrar para um tênis como simulacro de "cesta".

À frente, já veterano e líder de time, comprei inúmeras brigas por jamais admitir que tal prática -- e outras deste nível, meras aberrações infanto-juvenis -- fosse feita nas tantas viagens em que estive presente.

Mas, confesso, não faltavam aqueles calouros que lamentavam não ter todo aquele nauseabundo ritual.

Seriam aquelas que faziam porque queriam.




terça-feira, 17 de março de 2015

# a família não fluida: um sólido que não se desmancha no ar

 
 
No cenário do faz-de-conta midiático – e, pois, global platinado –, parece incontornável a máxima flexibilização das relações, das uniões, dos matrimônios.
 
Nesse mundo, vasto mundo, onde tudo é efêmero e muito casamenteiro, a família ainda brevemente resiste para não se deixar fadar ao fim, ao insucesso, à vala comum das ideias e dos comportamentos descartáveis.
 
E tal modus vivendi, na esteira de tantos desafortunados garotos e garotas-propaganda, já contagia lares e casais mais desavisados e alienados, menos maduros e espiritualizados.
 
Do outro lado, não obstante os personagens e os valores em jogo, também se compreende a necessidade da grande família merecer a devida repaginação, ainda que à moda da casa, da velha casa.
 
É, sem ser contraditória, a renovação de volta para o futuro, reloaded.
 
Entretanto, ainda que nesta conjuntura, a ordem jurídico-normativa não deve permitir a fluidez permanente da “célula-mater da sociedade” – nos dizeres remotos de Rui Barbosa –, sob a pecha de se amoldar à tal dinâmica pós-moderna.
 
Com dignas exceções, no que por aí se flerta -- como em parte do Projeto de Lei nº 674/07 -- escasseiam-se verdades e sobram bolhas de sabão com temas que, embora latentes no (novo) Código Civil, são ainda muito controversas na doutrina e na jurisprudência, sendo uma temeridade catapultá-las ao ordenamento como regras do cotidiano, como regras de uma vida que ainda não é (e que nem se sabe se há de vir).
 
Amantes taciturnos, bodas relâmpagos, sexos vãos, sociedades monoafetivas, enfim, consequências possíveis que se afiguram num cúmulo de ideias, teses e vontades incapazes de, por ora, merecer o devido respaldo moral, social e jurídico.
 
Sim, compreende-se (e defende-se) a necessidade de se promover eficazmente a tutela das novas composições familiares e a dignidade da pessoa humana sexualmente irrelevante; porém, questiona-se se tal sistematização, em tais modos, efetivamente logrará melhor sorte para a coletividade e garantirá a envergadura que a consagrada instituição familiar requer.
 
Afinal, se há a necessária compreensão de que a história da família é assinalada pelas sucessivas rupturas com os acontecimentos sociais, fato é também que a mera colocação em xeque – ou, quiçá, o mero desprezo – da estruturação familiar tradicional não se sustenta por si.
 
Se por um lado o intervencionismo estatal é vital para o desenvolvimento pleno e equânime da nação, o pragmatismo de tudo se normatizar não alcança êxito nas relações civis já pautadas pela eticidade e socialidade.
 
Se por um lado o legislador brasileiro não pode fingir-se cego em relação ao que se passa na Oropa, França & Bahia e diante do que o Poder Judiciário já vem, aos poucos, reconhecendo acerca dos novos pares, por outro se exige, do próprio Parlamento, prudência e constância na valoração dos conceitos e dos princípios que regem a instituição em si, na sua forma mais singular.
 
Se por um lado rechaça-se o moralismo e o conservadorismo vadios, travestidos de onisciente, num cego ensaio daquilo que inutilmente se pretende tapar (e não tocar), por outro se deve atentar, de olhos bem abertos, para a não admissão da imoralidade e do vanguardismo tunante, desfaçando-se de moderno.
 
Assim, é neste balanço, por vezes doce, por vezes amargo, que a família caminha, como se ensimesmada numa insólita fenda temporal e incapaz de buscar nas suas origens – menos remotas, senão insustentável os dias de hoje – a sua mais concreta redenção e solidificação.
 
As relações conjugais, as relações de filiação, as relações fraternas, as relações parentais, enfim, as relações humanas consolidadas no seio familiar exigem a mais urgente reflexão, para, ato contínuo, a mais urgente prática.
 
Nesta busca, o trânsito para estas relações menos hedonistas, menos eugênicas e menos egoicas passará, certamente, pela reconstrução da ordem familiar como o mais verdadeiro lugar de amor e reverência (lar), como o mais significativo instrumento de re-humanização social.
 
Todavia, diante deste grande desafio da contemporaneidade, a garantia de êxito não perpassa pela luxúria ou gula legislativa, nem pela inveja de certos setores da sociedade civil, nem pela ira vaidosa da Igreja, nem pela preguiça judicante em estudar a fundo os casos, mas, sim, pela conscientização individual a respeito das virtudes de se formar uma família absolutamente enraizada nos eternos ideais e valores cristãos.
 
E assim, quanto menos fluida for essa presença familiar, mais sólida será a nossa sociedade, arauto fundamental para o nosso desenvolvimento cidadão, pessoal e espiritual.
 
 
 
 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

# pronome de (des)tratamento



À época do voluntário exílio europeu, lia nos raros momentos de folga acadêmica, sob a luz amarela e fria das lindas bibliotecas, clássicos -- ou parte deles -- que noutros tempos era-me impossível.

E desses período trago agora o filósofo Hegel, que em sua Fenomenologia do Espírito examinou amiúde a dialética do senhor e do escravo.

Nessa obra, aprende-se que o senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o escravo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais seu estado de escravidão.

Em tantas oportunidades e ocasiões da vida, diversas pessoas (e diversas colegas) assim parecem se comportar, atribuindo a imerecidas pessoas o respeito de um tratamento senhorial ou pseudo-acadêmico que, inconscientemente, as escraviza.

E no ambiente de trabalho isso a todo instante vejo acontecer -- e como perturba a vulgarização já histórica do "doutor".

Assim, muitas vezes vejo as pessoas constrangidas, estampando nas oprimidas testas uma virtual placa que as submetem, a cada indevida pronúncia de "doutor" ou "senhor", ao contexto senhorio.

Sim, como disse Leonardo Boff, esta conduta resulta do fato do oprimido admitir hospedar em si o opressor.

E, neste microcosmo da vida, a libertação  realiza-se quando o oprimido extrojeta o opressor, não mais admitindo servi-lo e não mais aceitando servir-se com tratamentos indevidos.

Portanto, ao menos nesses inconcebíveis termos de um "senhor" ou, pior ainda, de um "doutor", devem as pessoas terem a consciência de que ambas as formas são absolutamente indignas e ilegítimas para certas pessoas que, pela notória falta de caráter -- tenha ou não uma merecida idade avançada -- ou de honra acadêmica, não podem fazer jus a nada além de um comum "você".

Afinal, infelizmente, para esses casos ainda se desconhece um pronome de destratamento.



 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

# pátria educadora



Já apresentamos aqui em nosso microtratado: a nossa revolução está na educação, com uma "pedagogia da libertação" a serviço da transformação social, como desenvolveu o patrono Paulo Freire.

Educação na qual nenhum governo nestes quinhentos anos mexeu pra valer.

Excetuem-se os dúbios anos de Getúlio Vargas e os poucos anos de Fernando Haddad como Ministro de Lula (IDEB, FUNDEB, PROUNI, ENEM, FIES), e nada de concreto, duradouro e visionário foi feito.

Neste tempo todo enxugamos gelo, douramos a pílula, tomamos atitudes pra inglês ver e fingimo-nos de bons samaritanos diante da causa.

Evidentemente, os donos do poder jamais se preocuparam com a matéria, pois tudo era uma questão de "classe", de "dom", de "sangue" e de "meritocracia".

Em suma, era cada um no seu quadrado, pois o destino de cada família assim já estava eternamente traçado: "eu" com meu computador, minha mesa e meus livros e o "outro" com a sua vassoura, seu balde e suas latrinas.

Assim, a nossa República trancou-se numa rotina infértil -- que em matéria de Educação (quase) nada tem inovado --, cômoda -- arrendando a obrigação às escolas mercantis, fábricas de jovens fadados a um ensino enciclopédico, ultracompetitivo e cujo fim está em si mesmo (ou num inconsequente vestibular) -- e selvagem, deseducando nas escolas públicas de modo a alijar os filhos da nossa pobre gente de qualquer esperança e oportunidade de revisar sua sina.

E a nossa Federação tem insistentemente falhado neste seu apriorístico dever republicano, com limitações profundas na sua tarefa educacional de se converter em "Estado-educador", e não mero Estado fundador de escolas e administrador de um sistema educacional entregue e falido.

Ao cabo, pois, arruinamos a educação pública nos ensinos fundamental e médio, o segredo dos nossos olhos e do nosso futuro.

Por isso a importância dada ao assunto pela Presidenta Dilma nos seus dois discursos de posse, e o mote criado em ambas as suas boas falas: "Brasil, Pátria Educadora".

E por isso a certeza (e a grande vontade de ser ter a certeza) de que tal ideia -- a qual será posta em prática pelo novo Ministro Cid Gomes, irmão do grande Ciro Gomes (v. aqui) -- não será apenas um slogan de pós-campanha.

Afinal, revolucionar a nossa escola pública será a nossa redenção como Estado, e a chave para a emancipação de milhões de brasileiros.

Será a bússola pela qual o Estado brasileiro navegará pelas próximas décadas.

Será o melhor (e único) meio de tornar, enfim, a nossa pátria livre.
 
Educação ou morte! -- eis o lema.




sexta-feira, 5 de julho de 2013

# memórias de um estudante sem malícias


Em “Memórias de um Sargento de Milícias”, por muito pouco meu reino não ruiu.

E foram estas “memórias” que hoje me vieram à tona, quando, para desasnar, conversava rapidamente com uma amiga sobre literatura, mais precisamente sobre parte da literatura brasileira dos séculos XVIII e XIX.

Inicialmente, uma conclusão já óbvia: por que cargas d´água nós, no auge dos 12 anos, somos obrigados a ler Manuel Antonio de Almeida, Raul Pompéia, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e outras feras, em cujos livros pouco de significativo há para quem (ainda) não quer começar a ter o gosto pela literatura?

E de pronto sempre vem uma contra-pergunta, a afirmar que ninguém nesta fase infanto-juvenil gosta de estudar coisa alguma. Porém, é diferente: aqui temos coisas que se avolumam em duzentas ou trezentas páginas e que se rastejam para se impregnarem em nossas almas por luas e mais luas, quase meses, tudo muito diferente de um estudo com fórmulas químico-físicas, exercícios matemáticos ou curtos contos de história e geografia com começo-meio-fim e que duram alguns parágrafos ou páginas.

Sendo assim, vejamos: o que falar da poesia arcadista a ser decorada em todos os seus quadrantes? E dos parnasianos da gema que nos mandavam ler e a eles nos prostrar?

Ora, a leitura desta nossa antiga e arcaica literatura, quase pré-socrática, parece durar seis vidas, tempo suficiente para quereremos largar tudo e ir direto para o Inferno, ou ir lutar contra moinhos gigantes, ou ir tentar fugir de uma baleia enfurecida, ou quem sabe ir tomar chá com algum chapeleiro tresloucado. No mundo literário, todas estas opções são muito mais gratificantes.

Enquanto a nossa prosa pré-realista jamais conseguirá ser recebida pelos olhos juvenis, o que veio antes dos modernistas também poderia passar sem deixar vestígios. Ouso, inclusive, ser radical e dizer que, não fosse o brilhantismo máximo de Machado de Assis e de mais uns e outros da sua época, o nosso mundo literário iniciar-se-ia com a Semana de Arte Moderna, em cuja contemporaneidade temos a chegada dos nossos grandes gênios de verso e prosa.

Não estamos a exaltar o desconhecimento da nossa história, tão-pouco se trata de uma apologia à ignorância ou uma renegação aos estudos da nossa língua.

Mas, creio eu, se poderia dispensar um aprofundamento impertinente para aquele alucinante momento da vida, cujos efeitos, ainda que num ponto de vida utilitarista, são negativos, pois afasta potenciais leitores da nossa inculta e bela, afasta aqueles que, talvez poucos anos à frente, poderiam mergulhar no passado literário da última flor do lácio sem dor e sem preconceitos.

Foi então que minha amiga trouxe à nossa conversa a obra de Camilo Castelo Branco, escritor lusitano de dois séculos atrás e cujos textos confessei jamais ter lido.

“Relaxe e dispense, não perde nada”, disse ela, com uma segurança ímpar.

Meu mundo, oh, meu mundo por esta frase naquela tarde dos idos de 1985, quando o professor de Língua Portuguesa, ao invés de pular esta fase da literatura – que, é claro, está umbilicalmente relacionada à nossa – e os seus autores, obrigou-nos a leitura e a apresentação de um complexo trabalho daquela obra (resumo, análise dos personagens, aspectos sociais, culturais...) que fala das lembranças e desventuras de um milico de araque.

Era coisa para uma vida, pensava eu. E talvez tenha sido a partir dali meu ressábio quando sujeitos de verde-oliva me aparecem, a carregar o mau-agouro daquele período em que fiquei semanas e semanas trancafiado em meu quarto com aquele livro e com aqueles histórias absolutamente chatas e longas de um sujeito que militava em torno da funesta turma da farda.

Mas não foi este o fato mais significativo daquele momento.

Na verdade, o meu desespero foi ainda maior em razão da certeza que passava a ter: era eu uma besta, um jumento incapaz de compreender uma frase daquele livro se não lida seis vezes, ou um parágrafo se não repetido à exaustão. Confesso que até o título eu tive que ler e reler para sacar.

Assim, desesperava-me o fato de que, dali a poucos meses, não conseguiria traduzir meia-dúzia de vírgulas acerca daquilo que se passava como aquele sujeito naquele Rio de Janeiro quase medieval; angustiava-me a certeza de que não iria enxergar nenhum aspecto – ainda mais "aspectos" das mais variadas estirpes – para relatar; e saíam-me brotoejas por imaginar não conseguir escrever bulhufas de nenhum daqueles toscos personagens.

Impotente em buscar a exegese da obra ou de entender os objetivos do autor, peguntava-me, absoluto: o que serei no futuro, diante de tanta incapacidade de leitura? O que será de mim perante todos os meus colegas, com certeza mais sabichões e que muito bem entenderam as aventuras do sargento e cia?

E passados tantos e tantos dias, e passadas dezenas de folhas de papel-almaço num mequetrefe manuscrito, eis que na véspera da entrega supus finalizar aquilo que mal sabia como tinha começado.

Chegado o dia, adentra o professor em classe.

A sala muda, mas ninguém mais mudo do que eu, numa mudez que chegava a me cegar, impossibilitando-me sequer olhar para o colega ao lado e comparar forma ou tamanho. Era como se eu estivesse num mictório, em repouso e acabrunhado com o momento.

Ele faz a chamada e, ato contínuo, pede para cada um se levantar e deixar o trabalho feito sobre a mesa.

Ele termina a chamada, pega a pilha de trabalhos e passa a chamar um a um para devolvê-los, sem correção, sem contestação, sem comoção – e sem a minha humilhação.

Sim, era um blefe para provar a nossa leitura e os nossos estudos. E passa aquela aula toda, e parte da seguinte, a explicar a obra e seus texto e contextos.

E assim, mais do que aliviado pela minha ignorância ter sido resguardada e rasgada no silêncio da lixeira do pátio externo, vi que talvez eu não era tão asnil assim, pois coisa ou outra até havia captado daquilo tudo. 

Embora ainda hoje continue sem saber: afinal, por que Leonardo-Pataca foi abandonado pela cigana?