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segunda-feira, 14 de julho de 2014

# e teve a copa


A derrota das derrotas de terça-feira não pode apagar, nem tampouco minimizar, o brilho da nossa realização.

A incapacidade e incompetência na organização e no jogar do nosso futebol não pode ofuscar a capacidade e a competência na realização do grande evento.

E se o nosso escrete não pôde ter comissão técnica e CBF como aliados, o nosso Governo, como sempre, pôde contar com o nosso povo na concretização do maior espetáculo da Terra.

O mundo embasbacou-se com o que viu por aqui.

E o que se viu por aqui frustrou um bando de babacas nativos, vira-latas por completos e que, como infames profetas do apocalipse, ansiavam pelo desastre e pela vergonha nacional em rede mundial.

Se na terça-feira tivemos os mais desastroso e vexatório dia do futebol brasileiro, nestes mais de 30 dias tivemos o brio e a altivez de mostrar para ao mundo inteiro o nosso valor.

De mostrar a nossa gente, que muito além de multa inzoneira é educada, gentil, competente, pelejadora e feliz.

E de mostrar a nossa terra, que tem muito mais do que sol, florestas, rios e macacos.

Briosos, abrimos as nossas casas para milhões de pessoas que vieram, viram e gostaram.

E nós, fora do campo, vencemos.

Altivos, escancaramos as nossas janelas para bilhões de pessoas que pela tv e pela internet não sabiam deste Brasil, que inclusive ousou tentar acabar com um dos braços mafiosos da FIFA, capo di tutti capi (v. aqui).

Mas nunca é tão fácil assim de se ver e saber.

Afinal, o que a grande mídia nativa gosta mesmo de repercutir mundo afora é o que dá errado, o que não funciona, o que não perfuma, o que é caricato e o que pode ser-lhe útil na tutela e promoção dos seus privados interesses.

Como a política e o governo, é claro.

Política que no Brasil, mais do que em todo lugar, é sempre amaldiçoada.

E governo que, como em todo lugar, se não serve cordeiramente aos interesses privados, é sempre um grande telhado para onde se jogam pedras, cuspes e bosta.

Claro que com muitos trancos e sob tantos barrancos, mas o Brasil, com seu povo e seu governo, fez sim a Copa das Copas.

Agora sim, com muito orgulho e com muito amor.

Afinal, se antes a seleção nacional de futebol era o melhor do Brasil, hoje esse já pode se sentir (e se mostrar) melhor e maior que aquela.


terça-feira, 8 de julho de 2014

# marcha fúnebre


Na "marcha da quarta-feira de cinzas", Vinícius cantava que acabara o nosso carnaval, que ninguém mais ouvia cantar canções e que ninguém mais passava brincando feliz.

E que no coração o que restara eram saudades e cinzas.

Hoje, nesta noite soturna de terça-feira, pelas ruas de Copacabana pessoas murchas vagam como se velassem um ente querido.

Atropelado e depois espancado com ares de requinte e crueldade, o defunto está irreconhecível, dilacerado, atassalhado.

A lembrança é dos seus bons tempos, da ginga, da magia, da improvisação, do balacobaco, do chegar ao topo por meio de pernas tortas, de crioulos benditos ou de gênios indomáveis.

À mente vem a memória de um reinado que se esperava eterno -- como, afinal, toda dinastia pressupõe.

Mas ele se foi, perdemos o trono e recusamos a enxergar que tudo -- inclusive ele -- mudou. 

E agora este martírio, neste velório simples de alguém que já perdeu a majestade e que hoje já não se impõe, e hoje já não é modelo, e hoje já não arromba de alegria a retina de quem vê.

O fim foi amargo, azedo, ácido, acre, como jamais visto.

E o clima é triste, como poucas vezes se viu.

Agora chove a cântaros, como no inverno do Rio de Janeiro não se costuma ver.

Uma chuva que não nos lava a alma, mas serve para mascarar as lágrimas da maior humilhação sofrida pela nossa máxima expressão cultural.

É a decadência acachapante de alguém que já foi o maior de todos, iludido por um "vamos que vai dar" sem pés e sem cabeças, e que agora dói.

E assim, nesta noite fria e molhada, em cada esquina desta minha via sacra de volta para casa o futebol brasileiro é velado.

Espera-se a sua ressurreição.

Mas não no terceiro dia.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

# pátria de chuteiras


Vai começar.

Sessenta e quatro anos depois, finalmente o país deu um jeito  e se deu o direito  de ser, literalmente, o país do futebol.

O maior espetáculo da Terra na terra da sua mais ilustre gente, que fez do futebol a sua máxima expressão cultural e desta a sua maior identidade planeta afora.

Não é pouca coisa.

E o Brasil mudou, cresceu, amadureceu.

Mas nem tanto.

A partir de hoje, a cada momento em que aqueles onze caras pisarem no gramado, perfilarem-se para o hino nacional e se prepararem para a batalha que se sucederá, seremos inadvertidamente imaturos, imberbes sorvidos pela crua comoção de uma Copa do Mundo.

Sob a mais irracional paixão, seremos dominados pela emoção do velho e rude esporte bretão em seu traje de gala, com todas as pompas e circunstâncias.

Transpiraremos como nossos laterais, berraremos como nossos beques berram, xingaremos como volantes brucutus, festejaremos como festejam os avantes artilheiros e daremos suspiros tal qual nosso goleiro salvo pelo gongo da trave. 

De joelhos, uns farão figas e acenderão velas, na eterna certeza de que aquele gesto vai mudar o jogo, vai mexer a bola ou vai ser um mero vodu em face da ameaça inimiga.

De eterno e surrado suéter verde, pantufas amarelas em pés trocados e a mesma briosa bandeira engomada a tiracolo, outros manterão rituais sem qualquer sentido senão o sexto sentido da fé, do axé, da mandinga, da intuição ideológica e sem freios.

Gritos toscos, roucos, febris, frívolos, glóticos, guturais e juvenis, em uníssono, movem e unem uma família inteira, um mundo inteiro tropical e abençoado chamado Brasil.

E novamente aqui da nossa casa, em nossa casa, no nosso caminho, em nosso solo tão gentil. 

Haverá festa na cumeeira, nas ruas, nos barracos, nos bares, nas calçadas, nas praias, nas margens das ribanceiras enfeitadas com as cores da nossa gente... tudo sob um aparente mistério como sói acontecer a cada quatro anos, nesta coisa mágica que, mesmo sabendo que além de tudo engorda, acaba por nos enfeitiçar, nos engolir e nos fazer quase duzentos milhões a postos, pra frente, ao ataque e na defesa do nosso pavilhão.

Enfim, a nossa pátria, em raios fúlgidos e vívidos, em campo estará pelos próximos trinta dias.

E o mundo vai parar para nos ver em ação.

Salve, salve, a seleção!  


domingo, 8 de junho de 2014

# do pó


Meus poucos (mas fiéis) leitores, só os profetas enxergam o óbvio, cunhou Nelson Rodrigues.

No rádio, na tv, na rede, nas bancas, na calçada, nos sonhos, vê-se tudo mirar o Brasil, mas tudo mira mais ainda esta minha aldeia, o onphalos nestes trintas dias que nos seguirão.

Copacabana borbulha, queima, arde, sufoca, contamina, pulsa e quase explode.

E vai ficando cada vez mais frenética, indecente, barulhenta, gosmenta, multicolorida.

Verde-amarelo a todo canto, em toda esquina, em todos os milhares de bares que a cada passo me atropelam, me sugam, me desassossegam.

Nela se escancara o óbvio da brasilidade, a explicitar, a eclodir e a fazer a nossa espuma de pátria amada brilhar em raios mais fúlgidos. 

E eis-me aqui, nesta capital do Brasil, neste Rio de Janeiro (e de todos os meses do ano), a morar neste bairro e a ter como meu literal quintal esta mais amada praia desta maravilhosa cidade do mundo.

Pois é, ano passado já tive uma especial visita, cuja jornada aos arredores me tentaram fazer compreender isso tudo (v. aqui).

Mas é só agora, no microcosmos deste caos, que finalmente o enxergo.

Salve, salve a Copa.


quinta-feira, 20 de março de 2014

# aspas (xli)

 
João Pedro Stédile, um dos maiores nomes mundiais na questão da terra e da reforma agrária e um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Via Campesina – v. aqui –, afirma não ser a Copa do Mundo no Brasil o momento para mobilizações, por mais razão que tenham os protestos contra os gastos para a organização do torneio e pela presença da FIFA.
 
Para ele, é importante as manifestações o quanto antes, e o pior momento seria justamente durante a competição – afinal, o inimigo é outro:
 
   "As mobilizações, mais do que bem-vindas, são necessárias, para seguirmos mudando o país, para termos mais o Estado a serviço do povo. Mais recursos para a educação, saúde.
   Nenhuma mudança social ocorreu, na história da humanidade, sem que tenha havido mobilização popular. 
   Em relação ao calendário, torço para que as mobilizações de rua comecem logo, pois no período da realização da Copa vai confundir a cabeça do povo, que quer ver a Copa e pode reduzir as mobilizações como se fossem apenas protesto pelo dinheiro gasto nas obras.  
   (...) Acho que Copa é que nem carnaval. Alguém vai marcar mobilização durante o carnaval?
   É besteira politizar certos períodos (...) O dinheiro que foi gasto nos estádios, em torno de 8 bilhões, claro que poderiam ser melhor aplicados, porém, eles representam apenas duas semanas do volume de recursos que o governo passa para os bancos. Então, a cada duas semanas temos uma Copa do tesouro nacional para os bancos.
   E esses são os nossos inimigos principais, que precisamos denunciá-los e derrotá-los, dentro e fora do governo" (v. aqui e aqui).


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

# um flautista de hamelin

 
Há milênios, sou das vozes que ecoam contra uma Copa do Mundo no Brasil.
 
E, desde o início, não era por preconceito, partidarismo, ideologia ou coisas do gênero; era, pois, pela "economia" (e pelas public choices), com sede inclusive em inúmeros estudos recentes que demonstram a falácia (ou imprecisão) dos argumentos a favor destes megaeventos (v. aqui, aqui, aqui e aqui).
 
"Entusiasmo político", "orgulho patriótico", "felicidade do povo", enfim, todas ideias metafísicas nas quais (ainda) não podemos nos sustentar para admitir o patrocínio de eventos desta natureza; e, claro, chutes do tipo enxurrada de investimentos privados, chuva de dinheiro internacional, superaquecimento das relações comerciais internas e avalanche de turistas estrangeiros são mentiras, ou no mínimo meia-verdades que a realidade e a história põem à mostra.
 
Agora, entre isso e o boicote ao evento que o nosso país sediará há um abismo, um cenário que em hipótese alguma pode permitir a mínima proximidade.
 
Ora, esta gente toda que chia e guincha, a carregar o tosco mote "não vai ter Copa", soa mal, soa infantil.
 
Quer o quê? Imagina o quê? 
 
Onde esteve há 11 anos, quando o Brasil se articulava para preparar a sua candidatura? Onde esteve quando fomos anunciados como país-sede? Onde esteve, ano a ano, desde o início dos preparativos?
 
Num oba-oba funesto, parecia ser empurrada pelos rompantes político-eleitorais que queriam a luxúria do negócio, era deslumbrada pelos discursos da raça empresária nativa que sonhava com os negócios da coisa e era lobotomizada pela mídia que sempre se empolgou com a ideia.
 
Mas, agora, na ultraiminência do evento, nota-se uma galera que surge para se indignar, ressuscitada pelo novo som hipnotizante da grande imprensa que, vejam só, brada os tantos (e naturais) erros envolvidos na organização, que supervaloriza a centenária falta de investimentos em lugares-chave e que sonha pela catástrofe, afinal, é ano eleitoral e um show de horrores seria a maior chance para, enfim, destruir este Governo. 
 
Lamentável.
 
Afinal, era antes que se tinha que discutir, era antes que se devia cobrar, era antes que se precisava desmascarar, era antes que se necessitava destruir, era antes que se tinha que abrir os olhos para o mau gasto e para a má escolha pública, era antes que se tinha que ir às ruas para dizer não.

Era tudo antes do agora.
 
Por isso, neste momento em que o maior evento do planeta chegou, é claro que torço a favor, é claro que quero ver o nosso país bem falado mundo afora, é claro que quero ver a minha nação bem na foto e nas manchetes, é claro que quero ver uma mínima infraestrutura funcionando, é claro que quero ver tudo quase-pronto, é claro que quero ver seleções, torcedores, autoridades e imprensa bem recepcionados, bem à vontade e vendo o meu Brasil campeão.
 
E, assim, com a minha flauta sairei pelas ruas a anunciar: "vai ter Copa"!


Em dó maior

quinta-feira, 27 de junho de 2013

# só agora, josé?


Urbi et orbi, acompanhamos as insistentes manifestações anti-Copa do Mundo.

E confesso não entender se tudo isso é mera faísca atrasada da população, se é uma frustração reprimida qualquer ou se é mesmo a descoberta tardia de que, ingenuamente, acreditou em duendes, chapeleiros malucos e fadas madrinhas.

Mesmo sabendo que tudo funcionará e que o evento se sairá bem, considero a ideia da Copa a pior herança do histórico Governo Lula.

Mas, lá atrás, a maioria  seja da situação, da oposição ou do morno muro , fascinava-se com a coisa. Ora, e por que só agora há uma generalizada revolta contra o negócio? Não era óbvia a furada? Não era um certo e deslumbrado despropósito?

Vejamos: uma pessoa que deve dinheiro e que não tem estrutura e nem recursos para manter-se nas condições essenciais e básicas de vida ou para pagar os seus credores, teria o direito de fazer uma grandiosa festa de final de ano, ainda que prometesse dela retirar fundos para cumprir com suas obrigações principais? E, no nosso caso, um país que deve (e não tem) estrutura e nem dinheiro para investir, por completo, em políticas públicas fundamentais segurança, educação, moradia e saúde , teria o direito de realizar o grandes (e ostentosos, e pomposos, e perfumados) eventos esportivos deste tipo?

Ora, por que à época todo o povo e toda a gente, por todos os cantos e bocas, babava de tezão pela Copa no Brasil? Por qual razão, em todas as rodas, redes e rastapés, era uníssona a voz que achava o máximo a realização dos Jogos? E por que, de repente, não mais que de repente, todos veem que a coisa não é de provocar delírios e gozos múltiplos?

Passado o prazo, e com a ópera bufa já em cartaz, agora estamos a pagar o pato por aquela patriótica apatia.

Por isso, já neste ano da graça de 2013 às portas do maior evento esportivo do planeta , repetimos, na íntegra, o que aqui escrevemos, ainda em 2009...


# conto da carochinha

Insistiram para que eu entrasse no concurso de contos promovido pelo Governo estadual. Porém, preferi contar este mais outro conto da carochinha nacional. Não é inédito, não é cômico, mas sim trágico e repetitivo: o anúncio das cidades que sediarão os jogos da Copa do Mundo de 2014 e o grande erro que se está a cometer na aplicação do dinheiro público.

Quem é a favor dos jogos? O povo, que, perdoa-o, nestes assuntos não sabe o que fala.

Quem mais? A elite nativa, que, sem mais perdão, quer arrombar e sangrar os cofres públicos, como de praxe.

A quem interessa os jogos? Aos políticos de plantão, que querem com tal anúncio e com a preparação não queimar o filme perante o povo e ter paz no espaço midiático – no Paraná, foi o que o Governador Requião foi obrigado a fazer: sempre disse ser contra a Copa no Brasil, mas teve que se render, com receio de que meio-mundo culpasse-o por Curitiba ficar de fora.

A quem mais? Ainda àquela mesma elite, que fará (ainda mais) fortuna às custas do erário, pois, é notório, nos últimos 360 dias para a Copa o orçamento inicial multiplicar-se-á por 5 e haverá uma avalanche de contratos emergenciais, prorrogados ou com licitação dispensada, justificados pela “urgência” e contratados a preços megafaturados.

A maior balela é a de que não haverá dinheiro público em tudo isso. Tudo, alegam, virá de dinheiro privado e de recursos externos. Espúria mentira!
A dimensão dessa competição e as enormes demandas que geram, em termos de infra-estrutura, instalações, segurança, financiamento e mobilização acabam fazendo com que o setor público tenha que assumir responsabilidades (desmedidas) por sua realização.

Esse mecanismo de transferência de responsabilidades revelou-se duplamente danoso.

Por um lado, a necessidade de preservar a imagem do País obrigou a União a assumir gastos sempre que necessário. Essa percepção de segurança garantida pelo aporte de recursos federais pode ter retirado dos outros entes a dedicação necessária em alocar parcela de seus orçamentos ao empreendimento, agravando o fenômeno.

De outra parte, a assunção dos compromissos de um ente por outro geralmente ocorreu com perda de tempo precioso ou gerou situações inadequadas do ponto de vista do controle do gasto público, como o repasse de recurso para obras em curso ou já executadas.

Será que o Pan já não serviu como lição? O que a população do Rio ganhou com a realização dos jogos, afora os lúdicos 30 dias de festa pelas ruas? O que de substancial (“infra-estrutura”) se gastou no Rio de Janeiro? Melhorou o sistema viário e de transportes? Humanizou-se as favelas? Recuperou-se a segurança pública?

Ora, nada disso aconteceu. Por quê? Porque o dinheiro é aplicado contingencialmente e é mal aplicado, posto que às pressas, no escurinho do cinema, em coisas indevidas e chupando drops de caviar beluga.

No Acórdão 2101/2008 do Tribunal de Contas da União (TCU), que avaliou e decidiu sobre o relatório final das ações e obras públicas realizadas para os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Ministro Relator assim diz: “[t]alvez a infra-estrutura urbana tenha sido a área que menos benefícios obteve a partir da realização dos Jogos (...) Nenhuma obra de relevância foi planejada ou realizada na cidade do Rio de Janeiro em decorrência do evento. Ao contrário, algumas iniciativas de intervenções viárias, imaginadas a partir da candidatura da cidade à sede dos Jogos Olímpicos de 2012, e que acabaram sendo carreadas nos planos para os Jogos Pan-americanos, foram arquivadas sem que ao menos fossem iniciadas (...) A infra-estrutura de transportes do Rio de Janeiro foi criticada pelo comitê técnico do COI para a seleção da sede das Olimpíadas de 2016, e recebeu as menores notas entre as quatro cidades candidatas aprovadas”.

Sinceramente, quem foi que nos disse que é melhor se gastar com grandes pistas de ciclismo, magnânimos campos de hóquei, explêndidos centros de hipismo e estupendos ginásios de tênis de mesa ao invés de se investir em hospitais, escolas e polícia? Ora, neste caso não vale o argumento de que “um não elimina o outro”, pois nos encontramos numa situação de "public choice", cujos recursos, porque limitados, devem nestes casos serem aplicados correta e alternativamente. Neste ponto, não são raros aqueles que prefiram a aplicação do dinheiro público em saúde, educação e segurança ao invés de ser despejado na construção de babilônicos templos de futebol e nas centenas de obrigações desmedidas, absurdas e caríssimas que a FIFA e seus parceiros impõem.

Sinceramente, a quem interessa dispender dezenas de bilhões de dólares em novos (?) estádios de futebol? Para quê? A Arena da Baixada é um puta estádio, o melhor e mais moderno do país, conforto extremo etc., mas para que se gastasr todo este dinheiro para simplesmente adaptá-lo às exigências internacionais? Por que Recife e Fortaleza -- excluo Salvador, pois parece que a Fonte Nova não tem mais jeito... -- hão de gastar bilhões de dólares em novos estádios se a pobreza e a violência imperam pelas ruas? E o que falar de Cuiabá, Manaus, Natal e Brasília, com seus mamutes brancos que terão por fim shows de forrós sertanejos e calipsos?

Tolice dizer que se adiantariam investimentos em infra-estrutura. Ora, ninguém no comando deste país é criança que precisa de algum estímulo para ser aprovado. Basta planejamento. Simples. E que se cobre por isso, principalmente a imprensa e a sociedade civil – essa iludida por aquela –, que tanto cobravam de cada um dos governantes das cidades-candidatas para que levassem a Copa para casa (v. aqui).

A ilustração mais clara de como funciona essa falta de planejamento em condições cuja conclusão não pode ser prorrogada advém de um evento relacionado à área de segurança dos Jogos Pan-Americanos. O sistema de credenciamento e acesso às instalações físicas dos Jogos foi definido e contratado antes que todos os órgãos responsáveis pela função de segurança pudessem opinar sobre seu desenho. Assim, em momento posterior, deliberou-se modificar a estrutura de controle de acesso físico com o intuito de garantir uma segurança mais rígida para as áreas restritas dos Jogos. O desenvolvimento do sistema de credenciamento previsto no contrato original estava orçado em R$ 55.595,56. A alteração solicitada custou aos cofres públicos R$ 26.700.000,00 (v. no relatório do TCU, aqui).

Outrossim, imagine-se outro tão supérfluo gasto, como os mencionados em estádios: vigilância internacional contra o terrorismo. O que ganhará um país pacífico como o Brasil em dispender milhões de dólares na proteção de milhões de atletas, autoridades e estrangeiros? Não seria muito melhor com esse dinheiro oferecer moradia e terra a tantos dos nossos favelados e sem-terra e com isso mitigar a violência interna?

Nas ruas, a golpista imprensa vem com a enfadonha pergunta: “Você gostaria de ver a Copa no Brasil?”. Ora, essa pergunta é cretina. Seria o mesmo que perguntar: “Você gostaria de ver a paz no mundo?". É claro que 90% das pessoas respondem “sim” às duas perguntas, afinal, quem não gostaria de ver os maiores jogadores do mundo a jogar em seu país, em sua cidade? Quem não gostaria de ver e encontrar pessoas do mundo todo, espalhadas pelas nossas ruas, bares e praças? Todavia, o que essa mídia não quer esclarecer e mostrar é o outro lado disso tudo.

Nas primeiras lições de Economia se aprende que, virtualmente, todos os gastos ou alocações têm um “custo de oportunidade”. E é isso que entra em jogo, seja o dinheiro público - o que é bem pior - ou privado.

Logo, a pergunta correta seria: "Se o seu Estado ou o seu Município tivesse que, nos pŕoximos 4 anos, gastar um adicional de R$ 5 bilhões do seu orçamento, em quais destes projetos ou ações públicas você preferiria vê-lo gasto ou alocado: (a) na Copa de 2014; (b) nos sistema viário e de transporte público, das mais diversas formas; (c) em segurança pública, das mais diversas formas; (d) no ensino fundamental e médio, das mais diversas formas; (e) no meio ambiente, das mais diversas formas”.

A escolha prioritária da lista certamente mereceria uma maior reflexão por parte da massa votante. A voluntariedade na opinião deveria passar pelas tantas privações diárias e a decisão lúdica de se querer uma Copa do Mundo no quintal de casa cederia espaço pela vontade concreta de se ter garantido um banco na escola, um leito no hospital e um policial nas ruas.

Assim, mais uma vez, munidos de pesquisas e estudos de impacto econômico, os donos do poder tentam mostrar um coisa que, na realidade, se mostrará outra. Sempre gostam de dar dois exemplos para os “grandes benefícios” que albergar os maiores eventos esportivos do mundo trazem: Barcelona e Pequim, nas Olimpíadas. No primeiro caso, é inegável que o evento deu muito reconhecimento à cidade. Mas será que não poderia ter feito coisas muito melhores pelo mesmo valor gasto com os Jogos? Certamente, sim. A Olimpíada não pode servir de desculpa para melhorar uma cidade. No caso da China, há uma grande peculiaridade: mostrar ao mundo, vasto mundo, que, além de não comer criancinha, os comunistas governam um grande país. Sim, o grande mote com os Jogos foi revelar aos conservadores e aos (pseudo)democratas de plantão com quantos pauzinhos se faz uma República, comandada por um partido único, o Partido Comunista. E o mundo ficou surpreso em ver como funciona o país, futura maior potência mundial. Sim, os comunistas quiseram pagar esse preço.

Enfim, ao contrário do que se tem noticiado por aí, a conclusão a que todos os estudiosos - aqueles, frise-se, que não visam ao lucro fácil dos jogos - chegam é a mesma: nem as receitas imediatas nem aquele benefícios a longo prazo chegam perto de cumprir as expectativas promovidas pelos businessmen de plantão (v. observação abaixo).

Em suma, o bilionário gasto público vai para um ralo, a resultar em investimentos públicos paupérrimos, numa situação que nem na Patópolis do Tio Patinhas se aguentaria.

P.S. Em artigo científico publicado na prestigiada “World Economics” (v. aqui), o economista londrino Stefan Szymanski dispõe de uma quadro fruto de uma pesquisa que coletou dados dos vinte países mais desenvolvidos do mundo, a fim de ter a exata noção do impacto e dos efeitos que ser sede de um dos maiores eventos esportivos do mundo (Copa e Olimpíadas) têm no desenvolvimento nacional – e, note-se, a maioria dos países desta lista sediaram pelo menos dois destes eventos.
 

Tabela 1: O impacto no crescimento econômico de ser sede dos maiores eventos

Efeitofdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfds Impacto na Taxa de Crescimento Econômico
No ano anterior à Copa fdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfds + 0.218
No ano da Copa fdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsf ds – 2.353
No ano seguinte à Copa fdsfdsfdsfdsfdsfdsfdss   – 0.099
No ano anterior às Olimpíadas fdsfdsfdsfd  sfdds + 0.415
No ano das Olimpíadas fdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfds + 1.190
No ano seguinte às Olimpíadas fdsfdsfdsfdsfd      – 0.640


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

# taj mahal


fdsfAfora empreiteiros, políticos e magnatas do business, quem mais quis a Copa do Mundo no Brasil?
fdsfOra, a população, o povo, a sociedade brasileira em sua esmagadora maioria -- e desde já reclamo a minha inclusão na minoria que foi e é contra, como há tempos, à sombra da mangueira imortal, deixamos claro (v. aqui, aqui e aqui).
fdsfPortanto, afora a “nata” envolvida no negócio Copa, quase toda a “malta” brasileira clamou e rezou para que o Brasil fosse a sede em 2014. E mais.
fdsfQuase toda a “malta” exigiu dos seus representantes políticos que a sua cidade, o seu estado e o seu país fosse sede da Copa.
fdsfNas idas e vindas até a eleição brasileira, fretavam-se aviões recheados de colarinhos brancos para alimentar o lobby nacional e os lobos da FIFA.
fdsfEra humilhante ver os nossos representantes pedintes, com malas-pretas à mão.
fdsfE, depois da “vitória”, o político que ousasse não reverenciar Ricardo Teixeira (o todo-poderoso na organização e presidente da CBF) veria alijado o seu Estado do mundo de Oz.
fdsfEra a suprema humilhação federativa.
fdsfE, repita-se, por graça de quem? Ora, da nossa gente, que ainda baba com o fato e que quer (e sempre quis) o mundial no Brasil.
fdsfE agora, José? Quem há de bancar todos os estratosféricos custos que envolvem o evento, dentre eles os palcos dos jogos?
fdsfSendo sede da Copa, já é notória a parcial cessão da soberania nacional à FIFA, que exige o que bem quer. Sem contraprestações.
fdsfE, dentre tantas outras imperiais ordens, destacam-se as absurdas regras relacionadas aos estádios, minimamente detalhados, e sem qualquer razão de ser.
fdsfLogo, como nenhum estádio no Brasil presta -- sob a ótica e os anseios financeiro-corporativos da FIFA --, ou se promove mais ou menos intensas reformas nos poucos aptos que existem ($$), ou se constroem novos ($$$$$$). E o custo disso é, além de inútil, fabuloso.
fdsfAfora os casos das novas construções totalmente patrocinadas (e queridas) pelos Estados -- como são os exóticos e nonsense casos das inúteis babilônias públicas a serem armadas em Cuiabá, Manaus, Brasília e Natal --, três exemplos privados, mas ainda com os mesmos fundamentos, são bem ilustrativos: o Internacional, com a reforma do "Beira-Rio", o Atlético, com a finalização da moderna "Arena da Baixada", e o Corinthians, com a construção do seu "Fielzão".
fdsfNesses casos, os três clubes não têm (e nunca tiveram) interesse algum em arcar com toda a nova infra-estrutura imposta pela FIFA e com todos os encargos exigidos para ser uma sede de Copa.
fdsfA reforma, a finalização e a construção que respectivamente pretendiam eram para atender aos seus interesses, aos interesses dos seus sócios e torcedores, os quais em nada se pareciam com o que a FIFA exige.
fdsfLogo, agora, quem é que deve pagar por isso?
fdsfOra, a população, o povo, o erário, o dinheiro público.
fdsfÉ a própria sociedade, infelizmente, quem deve arcar com os elefantes mais ou menos brancos que se espalharão pelo país.
fdsfÉ a sociedade, repita-se, quem deve arcar com cada regra estúpida, com cada ousadia técnico-estrutural e com toda a deslumbrada vaidade obrigada pela FIFA.
fdsfE nunca os clubes, que não podem ter o ônus privado e particular de algo que o nosso distinto público quis.
fdsfQuae sunt Caesaris, Caesari -- é, assim, o justo.
fds

 

segunda-feira, 1 de junho de 2009

# conto da carochinha


Insistiram para que eu entrasse no concurso de contos promovido pelo Governo estadual. Porém, preferi contar este mais outro conto da carochinha nacional. Não é inédito, não é cômico, mas sim trágico e repetitivo: o anúncio das cidades que sediarão os jogos da Copa do Mundo de 2014 e o grande erro que se está a cometer na aplicação do dinheiro público.
 
Quem é a favor dos jogos? O povo, que, perdoa-o, nestes assuntos não sabe o que fala.
 
Quem mais? A elite nativa, que, sem mais perdão, quer arrombar e sangrar os cofres públicos, como de praxe.
 
A quem interessa os jogos? Aos políticos de plantão, que querem com tal anúncio e com a preparação não queimar o filme perante o povo e ter paz no espaço midiático – no Paraná, foi o que o Governador Requião foi obrigado a fazer: sempre disse ser contra a Copa no Brasil, mas teve que se render, com receio de que meio-mundo culpasse-o por Curitiba ficar de fora.
 
A quem mais? Ainda àquela mesma elite, que fará (ainda mais) fortuna às custas do erário, pois, é notório, nos últimos 360 dias para a Copa o orçamento inicial multiplicar-se-á por 5 e haverá uma avalanche de contratos emergenciais, prorrogados ou com licitação dispensada, justificados pela “urgência” e contratados a preços megafaturados.
 
A maior balela é a de que não haverá dinheiro público em tudo isso. Tudo, alegam, virá de dinheiro privado e de recursos externos. Espúria mentira!

A dimensão dessa competição e as enormes demandas que geram, em termos de infra-estrutura, instalações, segurança, financiamento e mobilização acabam fazendo com que o setor público tenha que assumir responsabilidades (desmedidas) por sua realização.
 
Esse mecanismo de transferência de responsabilidades revelou-se duplamente danoso.
 
Por um lado, a necessidade de preservar a imagem do País obrigou a União a assumir gastos sempre que necessário. Essa percepção de segurança garantida pelo aporte de recursos federais pode ter retirado dos outros entes a dedicação necessária em alocar parcela de seus orçamentos ao empreendimento, agravando o fenômeno.
 
De outra parte, a assunção dos compromissos de um ente por outro geralmente ocorreu com perda de tempo precioso ou gerou situações inadequadas do ponto de vista do controle do gasto público, como o repasse de recurso para obras em curso ou já executadas.
 
Será que o Pan já não serviu como lição? O que a população do Rio ganhou com a realização dos jogos, afora os lúdicos 30 dias de festa pelas ruas? O que de substancial (“infra-estrutura”) se gastou no Rio de Janeiro? Melhorou o sistema viário e de transportes? Humanizou-se as favelas? Recuperou-se a segurança pública? Ora, nada disso aconteceu. Por quê? Porque o dinheiro é aplicado contingencialmente e é mal aplicado, posto que às pressas, no escurinho do cinema, em coisas indevidas e chupando drops de caviar beluga.
 
No Acórdão 2101/2008 do Tribunal de Contas da União (TCU), que avaliou e decidiu sobre o relatório final das ações e obras públicas realizadas para os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Ministro Relator assim diz: [t]alvez a infra-estrutura urbana tenha sido a área que menos benefícios obteve a partir da realização dos Jogos (...) Nenhuma obra de relevância foi planejada ou realizada na cidade do Rio de Janeiro em decorrência do evento. Ao contrário, algumas iniciativas de intervenções viárias, imaginadas a partir da candidatura da cidade à sede dos Jogos Olímpicos de 2012, e que acabaram sendo carreadas nos planos para os Jogos Pan-americanos, foram arquivadas sem que ao menos fossem iniciadas (...) A infra-estrutura de transportes do Rio de Janeiro foi criticada pelo comitê técnico do COI para a seleção da sede das Olimpíadas de 2016, e recebeu as menores notas entre as quatro cidades candidatas aprovadas”.
 
Sinceramente, quem foi que nos disse que é melhor se gastar com grandes pistas de ciclismo, magnânimos campos de hóquei, explêndidos centros de hipismo e estupendos ginásios de tênis de mesa ao invés de se investir em hospitais, escolas e polícia?
 
Ora, neste caso não vale o argumento de que “um não elimina o outro”, pois nos encotnramos numa situação de "public choice", cujos recursos, porquanto limitados, devem nestes casos serem aplicados séria, correta e alternativamente. 
 
Neste ponto, não são raros aqueles que prefiram a aplicação do dinheiro público em saúde, educação e segurança ao invés de ser jogado na construção de babilônicos templos de futebol.
 
Sinceramente, a quem interessa dispender dezenas de bilhões de dólares em novos (?) estádios de futebol? Para quê? A Arena da Baixada é um puta estádio, o melhor e mais moderno do país, conforto extremo etc., mas que diferença haveria de ter com o bom e velho Joaquim Américo, se renovado e ampliado? Por que Recife e Fortaleza -- excluo Salvador, pois parece que a Fonte Nova não tem mais jeito... -- hão de gastar bilhões de dólares em novos estádios se a pobreza e a violência imperam pelas ruas? E o que falar de Cuiabá, Manaus, Natal e Brasília, com seus mamutes brancos que terão por fim shows de forrós sertanejos e calipsos?
Tolice dizer que se adiantariam investimentos em infra-estrutura. Ora, ninguém no comando deste país é criança que precisa de algum estímulo para ser aprovado. Basta planejamento. Simples. E que se cobre por isso, principalmente a imprensa e a sociedade civil – essa iludida por aquela –, que tanto cobravam de cada um dos governantes das cidades-candidatas para que levassem a Copa para casa (v. aqui).
A ilustração mais clara de como funciona essa falta de planejamento em condições cuja conclusão não pode ser prorrogada advém de um evento relacionado à área de segurança dos Jogos Pan-Americanos. O sistema de credenciamento e acesso às instalações físicas dos Jogos foi definido e contratado antes que todos os órgãos responsáveis pela função de segurança pudessem opinar sobre seu desenho. Assim, em momento posterior, deliberou-se modificar a estrutura de controle de acesso físico com o intuito de garantir uma segurança mais rígida para as áreas restritas dos Jogos. O desenvolvimento do sistema de credenciamento previsto no contrato original estava orçado em R$ 55.595,56. A alteração solicitada custou aos cofres públicos R$ 26.700.000,00 (v. no Acórdão do TCU referido).
 
Outrossim, imagine-se outro tão supérfluo gasto, como os mencionados em estádios: vigilância internacional contra o terrorismo. O que ganhará um país pacífico como o Brasil em dispender milhões de dólares na proteção de milhões de atletas, autoridades e estrangeiros? Não seria muito melhor com esse dinheiro oferecer moradia e terra a tantos dos nossos favelados e sem-terra e com isso mitigar a violência interna?
 
Nas ruas, a golpista imprensa vem com a enfadonha pergunta: “Você gostaria de ver a Copa no Brasil?”. Ora, essa pergunta é cretina. Seria o mesmo que perguntar: “Você gostaria de ver a paz no mundo? É claro que 90% das pessoas respondem “sim” às duas perguntas, afinal, quem não gostaria de ver os maiores jogadores do mundo a jogar em seu país, em sua cidade? Quem não gostaria de ver e encontrar pessoas do mundo todo, espalhadas pelas nossas ruas, bares e praças? 
 
Todavia, o que essa mídia não quer esclarecer e mostrar é o outro lado disso tudo.
Nas primeiras lições de Economia se aprende que, virtualmente, todos os gastos ou alocações têm um “custo de oportunidade”.
 
E é isso que entra em jogo, seja o dinheiro público - o que é bem pior - ou privado.
Logo, a pergunta correta seria: "Se o seu Estado ou o seu Município tivesse que, nos pŕoximos 4 anos, gastar um adicional de R$ 5 bilhões do seu orçamento, em quais destes projetos ou ações públicas você preferiria vê-lo gasto ou alocado: (a) na Copa de 2014; (b) nos sistema viário e de transporte público, das mais diversas formas; (c) em segurança pública, das mais diversas formas; (d) no ensino fundamental e médio, das mais diversas formas; (e) no meio ambiente, das mais diversas formas”.
 
A escolha prioritária da lista certamente mereceria uma maior reflexão por parte da massa votante. A voluntariedade na opinião deveria passar pelas tantas privações diárias e a decisão lúdica de se querer uma Copa do Mundo no quintal de casa cederia espaço pela vontade concreta de se ter garantido um banco na escola, um leito no hospital e um policial nas ruas.
 
Assim, mais uma vez, munidos de pesquisas e estudos de impacto econômico, os donos do poder tentam mostrar um coisa que, na realidade, se mostrará outra. Sempre gostam de dar dois exemplos para os “grandes benefícios” que albergar os maiores eventos esportivos do mundo trazem: Barcelona e Pequim, nas Olimpíadas.
No primeiro caso, é inegável que o evento deu muito reconhecimento à cidade. Mas será que não poderia ter feito coisas muito melhores pelo mesmo valor gasto com os Jogos? Certamente, sim. A Olimpíada não pode servir de desculpa para melhorar uma cidade.
 
No caso da China, há uma grande peculiaridade: mostrar ao mundo, vasto mundo, que, além de não comer criancinha, os comunistas governam um grande país.
 
Sim, o grande mote com os Jogos foi revelar aos conservadores e aos (pseudo)democratas de plantão com quantos pauzinhos se faz uma República, comandada por um partido único, o Partido Comunista. E o mundo ficou surpreso em ver como funciona o país, futura maior potência mundial. Sim, os comunistas quiseram pagar esse preço.
 
Enfim, ao contrário do que se tem noticiado por aí, a conclusão a que todos os estudiosos - aqueles, frise-se, que não visam ao lucro fácil dos jogos - chegam é a mesma: nem as receitas imediatas nem aquele benefícios a longo prazo chegam perto de cumprir as expectativas promovidas pelos businessmen de plantão (v. observação abaixo).
 
Em suma, o bilionário gasto público vai para um ralo, a resultar em "investimentos"  públicos paupérrimos, numa situação que nem na Patópolis do Tio Patinhas se aguentaria.

P.S. Em artigo científico publicado na prestigiada “World Economics” (v. aqui), o economista londrino Stefan Szymanski dispõe de uma quadro fruto de uma pesquisa que coletou dados dos vinte países mais desenvolvidos do mundo, a fim de ter a exata noção do impacto e dos efeitos que ser sede de um dos maiores eventos esportivos do mundo (Copa e Olimpíadas) têm no desenvolvimento nacional – e, note-se, a maioria dos países desta lista sediaram pelo menos dois destes eventos.

Tabela 1: O impacto no crescimento econômico de ser sede dos maiores eventos
Efeitofdsfdsfdsfdsfdsfd                Impacto na Taxa de Crescimento Econômico
No ano anterior à Copa fdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfds + 0.218
No ano da Copa fdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfds – 2.353
No ano seguinte à Copa fdsfdsfdsfdsfdsfdsfdss – 0.099
No ano anterior às Olimpíadas fdsfdsfdsfdsfdds + 0.415
No ano das Olimpíadas fdsfdsfdsfdsfdsfdsfdsfds + 1.190
No ano seguinte às Olimpíadas fdsfdsfdsfdsfd – 0.640fds