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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

# calvário (e o amanhã)



Um dia de humilhação, uma dia de suprema vergonha nacional.

Seremos, de novo, uma republiqueta de bananas, enxergada pelo mundo como um paraguayzão com vista para o mar.

Uma terra na qual se atropela o povo, e se passa por cima do interesse nacional, e se perverte a "ordem", e se destrói o "progresso", sempre em nome das mesmas vontades que há quinhentos anos por aqui reinam.

Desta ópera bufa, o resumo é muito, muito simples: sabidamente cansada de perder eleições, a elite brasileira conjura-se numa aliança nojenta para acabar com a democracia -- e, pelas frias mãos do PSDB, se preparar para em 2017 dar o golpe do golpe.

Repita-se: neste momento em que notórios canalhas se tornarão oficialmente golpistas, será trocado um governo por outro completamente oposto sem passar pelo voto da população.

Não há legitimidade, não há justiça, não há verdade, não há lógica.

O grupo que usurpa o Poder é o grupo do programa "Ponte para o Futuro", na realidade um túnel para o passado, com a fixação de sórdidos tetos para investimentos públicos, para programas sociais, para direitos trabalhistas, para saúde, para educação etc., de modo a retalhar todas as franjas de um mínimo (e tímido) Estado Social a duras penas erigido e que promoveu ações fundamentais para as classes populares (pobres e miseráveis) e as regiões periféricas (nortistas e nordestinos) do Brasil.

O grupo que golpeia é o grupo do "petróleo é deles", é o grupo que deseja ver o pré-sal em mãos estrangeiras, para ganhar muito a curto prazo e mais ainda a longo prazo, evitando que se concretizem as transformações que essa riqueza nos propiciariam.

Bem, daqui a não muito tempo a História fará um registro implacável deste nosso período e deste funesto 31 de agosto de 2016.

Poucos, porém, conseguem ou querem se dar conta disso.

Iludidos pelo presente que as lentes da mídia lhes grudam e pelos umbigos que os movem, a grande maioria não se vê no espelho do futuro.

Na verdade, ela nem mesmo enxerga um palmo à frente dos seus empinados narizes.

E por isso é incapaz de imaginar que, em mais ou menos tempo, estará numa sala de estar, com os filhos ou netos sentados ao sofá, e terá que explicar o que foi este atroz e lamentável momento do Brasil.

E o que ele fez, e o que ele falou, e o que ele escreveu sobre isso.

E quem apoiou, e quem defendeu, e por quem brigou.

E como se calou, e como se prostrou, e como se equilibrou no pútrido muro das lamentações que apenas ratificavam a ruptura da ordem democrática brasileira.

Nesta sala do futuro, cara a cara com a verdade da História, é claro que não confessará ao seus herdeiros o que (não) fez.

É claro que contará historinhas da carochinha tendo por pano de fundo a liquidez da ética, da moral e dos bons costumes.

Mentirá, embora nem o nariz empinado e nem o drama de uma consciência vulgar, guardados sob o botox da mediocridade, crescerão.

E fingirá, com a maior caradura do mundo, que não foi um daqueles que suportaram o golpe no Brasil, mas apenas um dos milhões que era "contra-tudo-isso-que-aí-está".

Ao contrário, passará a mão na cabeça do futuro e dirá, com safadeza ímpar: “Foi um tempo triste aquele, meu filho. É melhor esquecer...”.

E lhe dará as costas, certamente constrangido, seguindo com o rabo preso entre as suas pernas.

Assim como sempre deu as costas para o Brasil.

Afinal, esta turma das orlas e dos castelos acha-se vivendo em outro lugar.

E acredita que o Brasil que retroagirá até afundar no abismo sócio-econômico não é o Brasil deles.

Mas se enganam, ouso crer.

Desta vez, diferente de outrora, o povo deverá arrastar esta gente junto para as trevas e para o caos construídos por um governo ilegítimo, sujo e tão perecível quanto um pote de coalhada caseira.

E, com este fim, das nossas trincheiras não esmoreceremos contra otários, hipócritas e canalhas que participaram, direta ou indiretamente, desta farsa.

Encararemos um a um, dia a dia, passo a passo, canto a canto.

Pois se a democracia era um mero detalhe, a paz social também passa a ser.

Neste dia de luto, marchemos altivos na luta e na resistência popular.

E recomecemos a formar os nossos batalhões, para o sublime orgulho de em pouco tempo vingar este golpe.


quarta-feira, 15 de junho de 2016

# licor de jenipapo



Sucupira é aqui, meus senhores.

Sucupira é hoje o Brasil, e que me desculpe o novelista Dias Gomes com seu "plágio" mal acabado.

Afinal, dia após dia o nosso país produz um universo dramatúrgico sem igual, com pessoas cujas atitudes são absolutamente surreais, a fazer valer a eterna frase de que a realidade é mesmo insuperável  como, talvez de modo inigualável na nossa História, naquele funesto domingo de abril, que há de ser sempre lembrado (v. aqui).

Bem, deixemos de lado os "entretantos" para partir aos "finalmentes".

Vejam este vídeo, aqui, sobre a Câmara Municipal de Campinas  atenção, não se está a falar de alguma ilhota de algum afluente da margem direita do Rio Amazonas, mas da segunda maior cidade de São Paulo  e notem a suprema semelhança dos ínclitos vereadores com o folclórico Odorico Paraguaçu.

Vejam isso aqui, sobre o direito de ser idiota em público, a rechear uma manifestação equina e bovina de um bando (ou cavalaria, ou manada, ou cáfila, ou qualquer outra coletividade irracional), e percebam a íntima identidade das suas ações com o jeitão das Irmãs Cajazeiras, dentre outras figuras de Sucupira. 

Vejam, aqui, mais um dos tantos episódios de doidice, de alienação e de estupidez avistados pelas arborizadas ruas brasileiras, os quais revelam uma gente cujo nível faria engasgar o esquisito Dirceu Borboleta, o sóbrio Nezinho do Jegue e o alucinado Zelão das Asas.

Leiam isso aqui, sobre as fofocas não fofocadas por pseudo-ouvintes que não ouviram uma inventada conversa e, a partir dela, todo o novelo interpretativo (e lunático) que metafisicamente se constrói.

Leiam aqui, sobre um jeito pouco (demasiadamente pouco) humano  eu diria, no mínimo, abominável -- de contestar e reprovar um homem público, mas que não foi levado em consideração no momento do seu próprio velório.

Leiam aqui, sobre como um picareta, perante o complacente Poder Judiciário, desdiz uma delação para de novo delatar, criando a jabuticabal "delação da desdelação", cujo modus operandi insiste em merecer o apoio do magistrado de plantão.

E mais, e mais, e mais... pois sobre toda a epopeia golpista de dinossauros, mercenários e amarelinhos,  avolumam-se notícias num ritmo delirante e que escancaram o mofo que insistem em borrifar sobre o estado brasileiro e o escracho geral de um rocambolesco enredo.

Afinal, o poço não tem fundo para serem vistos "tipos" e promovidos "atos" sempre tão surpreendentes, como se produzidos às custas inversas daquele bem-amado licor de jenipapo, agora desencadeador dos espíritos mais moralizantes (e reacionários) da sociedade.

Mas, antes de se chegar até lá, faz-se a hora de se construir não um cemitério para o afundamento dantesco  como assim queria o velho Odorico , mas um "hospício" no qual se consiga embutir toda esta gente que se cancera pelas orlas brasileiras.

Serão essas pessoas, pois, as nossas salsichas.



segunda-feira, 23 de maio de 2016

# ivo viu a uva



Roda cotia, de noite, de dia, o galo cantou e a casa caiu.

E eis que a ciranda dos amarelinhos muda o tom, muda o som.

Chega de fúria? Chega de atirar o pau no gato?

O que fazer agora que restou claro porque o golpe é golpe?

Com todas as letras, com todas as vírgulas e com todos os pingos nos is, ei-lo muito bem desenhado, dissecado e destrinchado, como numa necropsia, pelo bisturi de um dos mentores do processo: Romero Jucá (PMDB), o onipresente -- v. aqui.

É o cadáver do golpe, ali, deitado, frio, nu, com as vísceras expostas ao sol do meio-dia, sob os olhos de meio mundo.

A frase que resume tudo é, francamente, pornográfica: "Enquanto ela [a Dilma] estiver lá, essa porra [a Lava-Jato] não vai parar nunca", diz Jucá -- hoje Ministro do interino Temer, foi ministro durante três meses no Governo Lula e foi sacado por suspeita de crimes (v. aqui) --, dando o veredito dele e de alguns ministros do STF.

Com a gravação telefônica -- por que nada foi feito e só agora vazada, se ela é de março? --, a arquitetura e os elementos desta ópera bufa ficam na vitrine, para vermos ali, escancarado, em todos os detalhes: 

(i) que a ideia de tirar Dilma é para interromper as investigações e estancar esse papo todo de combate à corrupção;
(ii) que o novo governo vai, num "acordão", fazer ruir a Lava-Jato;
(iii) que com auxílio da velha mídia, a pauta dos noticiários será outra;
(iv) que tem dedos do STF no arranjo golpista;
(v) que o PSDB co-liderou a tramoia e tem salvo-condutos na MPF e no Judiciário; e 
(vi) que todos eles têm muito medo do que Lula e as ruas mobilizadas são capazes.

E resta a questão: como e por onde andará aquela matilha que praguejava contra Dilma, Lula, PT e uma ideia de esquerda no poder, todos esses símbolos magnânimos do eixo do mal, aquele feito de corruptos e incompetentes e em cujo ritual está comer criancinhas?

Bem, esse negócio de vergonha, de ter vergonha na cara, é claro muito relativo.

Mas já é um tal de enfiarem a cabeça na terra ou de fingirem “não é comigo” que torna a situação ainda mais constrangedora, como aquele sujeito que solta um pum em público.

Sim, pelas ruas, pelo trabalho e pelas redes sociais, um silêncio eloquente e que rubra a face destes personagens: parece que tenho em volta um bando com as mãos amarelas.

Incrível, isso.

Afinal, jamais essa turma, mais ou menos golpista, poderia acreditar que, em onze dias, (quase) tudo viraria pó.

Pirlimpimpim, e não mais que de repente fez-se a luz.

Ou, como num Segundo Dia por Ele desenhado, tem-se o firmamento.

Só que às avessas.

E em pouco mais de uma semana, caiu o mundo na República Federativa da Ordem, do Progresso, de Deus, da Família e da Propriedade.

"Ué, a gente não estava batendo panela para acabar com a corrupção?", se perguntam. "Cadê os cavaleiros da Távola Redonda que nos levariam para o Brasil sagrado?", indagam os adoradores do faz-de-conta contado pela Vênus Platinada. "E que horas o Aécio assume?", uns mais incautos hão de querer saber.

Nada estranho, extinguiram-se os comediantes de ocasião, aquela turma que fazia chiste do momento do país, fazendo graça de ver rasgada a Constituição, como se no espelho a cara gozada não fosse a sua.

Fingiram-se de mortos, rolaram, sentaram, deram as patinhas, foram atrás das bolinhas e, bem adestrados, jamais ousaram se soltar das rédeas que os amarravam à narrativa burlesca do "impeachment".

Ô, amarelinhos... agora não cola o papel de assoviar olhando para o nada e fazer cara de tundra.

Vamos: gritem, chiem, suem, estrebuchem-se na realidade.

Encarem a situação, não queiram posar de isentões e lamentem a sério a canalhice que ajudaram a promover: sim, vocês puseram no poder o que há de mais podre no reino da política brasileira, que atua com fim em si mesmo e sob as pautas e os programas mais reacionários do planeta.

Afinal, quem mandou fantasiar o gigante para se levantar contra a ordem democrática, contra as regras do jogo de um Estado de Direito?


quinta-feira, 12 de maio de 2016

# carontes e zumbis



Hoje, nesta quinta-feira cinza, trágica e com as lágrimas da chuva, me pergunto: onde estarão os "amarelinhos"?

Onde estará toda aquela turma lobotomizada que vagava e babava apoiando e desejando este momento?

Onde estará a alegria daquela matilha com a consumação orgásmica do seu desejo?

Onde estará o indiscreto charme da burguesia limpa e bem-cheirosa que, finalmente, consegue o que visceralmente queria?

Cadê, cadê o êxtase da chusma que deu asas, alimentou e aninhou este golpe parlamentar?

Com o tempo, lá na frente, quando meus filhos me perguntarem sobre este momento histórico "pai, de que lado você estava?" –, eu poderei dizer, cheio de orgulho neste peito, que estive ao lado da democracia, da justiça e do Estado de Direito. 

Por outro lado, não lamento pelos outros – ah, tantos tão próximos a mim... – que serão personagens sombrios e funestos das páginas da nossa História, tais quais aqueles bichos que em 1964 deram as mãos aos militares e nos conduziram às trevas.

Não lamento porque, obviamente, sabiam muito bem o que se tramava no país,  num enredo marcado pela arbitrariedade e pelo casuísmo (v. aqui).

Não lamento porque escolheram ser levados como camarão pela onda golpista, fazendo questão de não saber do que se tratava, embalados pelo onipresente discurso midiático e com a (burra) certeza de que este era o melhor caminho – a verdade e a vida , regurgitando como catedráticos ventríloquos teses sem nexo que por aí ouviam na tentativa de legitimar o cadafalso para o qual empurram o Brasil (v. aqui).

Não lamento porque assim tiveram todas as oportunidade do mundo de conversar, ler e ouvir o que estava por trás deste processo de "impeachment" (v. aqui e aqui).

Não lamento porque lhes era possível olhar, com os olhos de ver e reparar, quem estava nesta trincheira, deste lado del riolutando pelo respeito à ordem constitucional: cientistas, intelectuais, artistas, os movimentos sociais, a comunidade internacional, as minorias marginalizadas e, em especial, o povo.

Povo esse que voltará a comer o pão que esses diabos golpistas hão de amassar.

Afinal, no lombo de quem vocês imaginam que irá arder as ações, as omissões e as comissões de um "governo" (des)encabeçado pelo PMDB que, sob aquela velha e carcomida direção, sacará direitos, flexibilizará garantias e imporá restrições civis e sociais ao bel-prazer da sua agenda conservadora não consagrada nas urnas?

Ora, quem pagará pelos tais ajustes, pelos arrochos fiscal e monetário, pelas revisões e releituras, pelos cortes inominados e infaustos?

Quem se não o trabalhador, o pobre, o preto e o periférico, os quais serão exemplarmente comprimidos ou descartados pela arquitetura neoliberal da tal "Ponte para o Futuro" que, sob o timão de Temer e Cunha, levará todos ao primeiro círculo do inferno?

Agora, a ditadura plutocrática – que, honra lhe seja, rege quase todos os lugares do mundo – não terá o enfrentamento nem mesmo das franjas de um Estado Social, nem mesmo de um desbotado vermelho de um governo eleito de centro-esquerda, para delírio do "mercado" e de seus agentes.

Enquanto isso, numa realidade paralela – mas que nem no infinito cruzam com a verdade , os noticiários da grande mídia serão uma overdose de sorrisos, de afagos, de musas, de plumas e paetês.

A parva massa amarela ligará a tv ou abrirá seus jornais ou revistas e, voilà, um mundo cheio de arco-íris, pôneis-dourados e fadas-madrinhas revelará que tudo era culpa daquele bicho vermelho de treze cabeças, como lá naquele junho de 2013 se decantava (v. aqui).

E, não duvidem, esse bando terá a desfaçatez de ainda dizer: "Ah, viu só?"

Doce e estúpida ilusão, fruto da manipulação que sói acontecer com essa classe média alienada, centrada nos seus umbigos e na sua visão turva da sociedade, da vida e da história.

Mal sabe ela que as chances deste governo interino – porque ilegítimo, traidor, sabotador e formado por nanicos morais e pela mais sujas peças do tabuleiro político nacional (v. aqui– lograr êxito são zero, por mais que cessem a greve do capital e o terrorismo midiático.

Mal sabe ela que esta tropa do golpe – porque sem voto, sem vergonha e sem escrúpulos – abafará e hermeticamente estancará toda a sorte de progresso, inclusive no que tange ao "combate à corrupção" (v. aqui), sempre em nome da medúsica ladainha da ordem (v. aqui).

Todavia, como o problema dessa gente nunca foi a política e as questões que verdadeiramente preocupam e interessam ao nosso país (v. aqui), isso é o que menos lhe importa.

A única coisa que importava era arrancar a fórceps o Partido dos Trabalhadores do poder e, fundamentalmente, acabar com quaisquer vestígios de pautas e programas da esquerda da agenda institucional brasileira.

Eis que, sabe-se lá por quanto tempo, conseguiram. 

E agora, acabou a nossa luta em prol da democracia, da justiça e do Estado de Direito?

Não, camaradas, ela está apenas começando.


Ed ecco verso noi venir per nave
un vecchio, bianco per antico pelo,
gridando: "Guai a voi, anime prave! 
Non isperate mai veder lo cielo:
i’ vegno per menarvi a l’altra riva
ne le tenebre etterne, in caldo e ’n gelo.
(Dante Alighieri, "A Divina Comédia - Inferno", Canto III)



domingo, 24 de abril de 2016

# cuspe e ovas



Tratemos de pôr, ainda que nunca definitivamente, os devidos pingos nos is.

É que a turma não cansa de confundir ser "de esquerda" com ser franciscano.

Erro crasso do imaginário conservador.

Seria como pretender que toda pessoa "de direita" fosse fascista – pode até ser a maioria, vá lá, mas não há uma relação lógico-conclusiva.

Por isso o desprezo absoluto pela expressão abrasileirada "esquerda caviar" – a qual tem origem na França, nos anos 80 ("gauche caviar") –, cuja ideia nada diz e para nada serve, a não ser tentar insistir com aquela falsa analogia e tratar com jocosidade quem sai da roda, enfrenta os canhões e muda de lado, como aqui já ilustramos.

Sim, os bem-cheirosos que se inflam bradando tal expressão o fazem, em regra, porque entendem a ida al otro lado del rio como uma espécie de "traição", como uma quebra aleivosa da fé de classe prometida e empenhada desde o nascimento.

Para eles não há esquerda que não aquela de sandálias de tiras, túnica, pão e água – transformar essa em vinho, por exemplo, nem pensar, sob pena de ser alvo de cuspe e pedras.

Para eles não há um voto de esquerda sem, lado a lado, um voto de pobreza, uma dedicação incondicional à penúria, à inópia, à sarjeta e à sopa de pedra diária.

Para eles, enfim, querer a esquerda no poder é querer um regime da miséria, da mendicância e da totalitária falta de tudo.

Sim, os personagens da horda de plantão, que volte e meia se misturam aos cantos e às faixas non-sense resgatadas do baú do golpe e que por aí se comportam como zumbis símbolos da lobotomização geral, creem que só há esquerda se todos forem pobres, se postarem como pobres, se ajolharem como pobres, se lavarem como pobres, se pintarem como pobres...

Com lembraria Eça de Queirós, trata-se, pois, de "má-fé cínica" ou "obtusidade córnea".

Deslegitimam o pensamento da esquerda, distorcem as políticas e as pautas da esquerda e descaracterizam todos que, sob o plano político-ideológico, estão à esquerda.

Ora, a turma conservadora – ou "isenta", ou "neutra", ou qualquer coisa que queira (se) valer para não refletir a "direita" – não acredita num viés progressista da humanidade, a não ser que o progresso passe pelo seu colo e seu cofre; o resto, dizem, é coisa de quem come criancinha.

Com muito catchup e pouco gosto, a direita não digere que uma parte dos seus coabitantes – os seus "irmãos"... – tenha abandonado o ambiente castelão, pulado os muros da aldeia e traído a pátria.

"Traição lesa-society!", bradam revoltosos na petulância que os simboliza.

E, tolamente, misturam alhos com bugalhos.

Não compreendem, é claro, que "igualdade", "fraternidade" e "liberdade" – a real, e não aquela de escolher o sabor da pasta de dente para comprar (v. aqui) – são bandeiras da esquerda.

Jamais compreenderiam como se constroem os propósitos de justiça social, de distribuição de renda e de democracia, tão defendidos pela esquerda.

Afinal, apenas compreendem o seu mundo sob as suas regras e o seu enquadramento, que dentre outras vanguardas privilegia a "ordem" ao "progresso" (v. aqui), salvo, claro, quando se trate da desordem que beneficia o seu próprio, e dinástico, progresso.

Sob esta ótica míope e astigmática, são incapazes de reconhecer que ser de esquerda não é querer que todos tenham nada.

Pelo contrário, é querer – inclusive a custo dos que têm muito – que todos tenham ao menos um pouco, sem aquela cantilena fajuta da meritocracia de araque: a "meritocracia herdada", própria de quem carrega no sangue os genes meritórios do sucesso e do bem-estar.

É querer mitigar os graves danos da desigualdade estruturante do capitalismo, evitar a miserabilização concentrada e herdada ad eternum pelas classes de sempre, sem perspectivas e sem oportunidades reais (v. aqui).

É querer uma "riqueza" que produza menos pobres e miseráveis e menos ricos e milionários.

É querer, em síntese, uma sociedade que espolie menos e distribua mais.

Ser de esquerda, meus caros, é desprivatizar o ser humano.



quarta-feira, 20 de abril de 2016

# a unicórnio



E eis que ressurge, sempre em momentos estrategicamente pensados, a Fada Verde, a nossa Madre Tereza da Amazônia, a gloriosa Marina Silva.

Dantes uma eco-fundamentalista xiita e hoje o proto-objeto de consumo da turma que faz dela a evolução da espécie (a)política, Marina anuncia, como sempre, “ser-contra-tudo-isso-que-aí-está”.

E para múltiplos delírios da plateia, ela chega toda mitológica, com um sorriso franciscano e ares de um dócil mico-leão dourado.

Se antes Marina saiu do PT (e do Governo) para não entrar na história, a cada momento eleitoral ela assim faz: salta do alto da montanha para dar rasantes cheios de sabedoria e, com a força dos ventos uivantes, é carregada para junto sabe-se bem de quem e do quê.

Eternamente raivosa pelo fato de Lula tê-la preterido como candidata presidencial de 2010, Marina entrega-se de corpo e alma à tarefa de sempre ressurgir do nada, ressair do ostracismo e resplandecer para as luzes globais como "a" candidata  mesmo que isso signifique, como em 2014, perder no seu próprio quintal, o Acre.

Sabe-se, claro, que no Brasil os "verdes" nunca federam e nem cheiraram o orgânico sabor de um partido ideológico e independente.

Mesmo assim, Marina há anos debandou do PV e criou um novo partido, uma REDE que pesca indecisos, andróginos e pirilampos da política alternativa e sem cor – atributos ignorados, claro, quando quis escancaradamente apoiar Aécio Neves na última eleição.

Ora, nestes nossos tempos, tipos como os ex-verdes olorizam-se pelo aroma prosecco das cheias taças que desfilam sobre as mesas e rodas de networking, sob o distintivo de se fazer algo "diferente", tal qual pregam e buzinam as pessoas-descolada-e-cansadas-e-do-bem-que-querem-fazer-política-mas-sem-dizer-que-é-política do "Agora!", como se viventes n´A Vila do M. Night Shyamalan.

E desta cepa, como indefectível fruto, brota Marina Silva como a herdeira única do trono político-episcopal.

Marina, a reboque da grande mídia, que por sua vez é a porta-voz dos grandes interesses econômicos e da ignorância da classe média, flerta com uma meta: aliar-se aos golpistas e, numa hipótese de vácuo, fulminar a centro-esquerda e assumir o atentado como um "recado divino", sendo ela, claro, a salvadora.

Marina, antes defensora de índios, boitatá e pirarucus e da política evangelista – e não da evangelização na política –, quer se tornar a maior esperança da cavalaria anti-esquerda e consigo carregar várias das políticas mais atrasadas e reacionárias do mundo político.

Marina, com o mote de sair-se bem aos olhos do povo, nega a política, pretendendo que se despolitize a política – e, assim, cai no gosto populesco com as teses do mundo privado, privatista e não-governamental, de fácil deglutição.

Marina, catapultada como a grande herdeira de um espólio mítico, acalanta os interesses de quem quer ver um holograma no comando do Estado, exibindo-se como a profética madrinha capaz de convencer a "isentolândia" de que o novo mundo chegou.

Marina, sob a cantilena da "terceira via", veste um capuz mágico para iludir que há outro caminho além da direita ou da esquerda, num blá-blá-blá turvo, volúvel e vazio.

Marina não tem visão estrutural, não tem disposição para transformações institucionais e não tem traços, nem atitudes e nem história para enfrentamento dos interesses dominantes.

Marina, meus caros, embora com um passado que não a faça ser de direita, é apenas mais uma destas figuras que se tornaram da direita.

Sim, depois do golpe exumado, a ex-chapeuzinho verde posa-se como capaz de “legitimar” os interesses (conservadores) daqueles que fingem não ter invadido o Planalto e assaltado o poder no processo de "impeachment".

Ocorre que o buraco é mais embaixo.

Ora, independentemente da carga trágica que carrega, votar no bloco PT-PSDB é votar em teses, teorias e ideologia concretas; é votar em algo fisicamente possível, em algo quântico, quantificável, possível de ser selado, registrado e carimbado, por mais que o voo seja restrito só para as primeiras classes.

Sim, no plano da política e da conformação estatal, estes partidos e suas extensões existem, as suas vontades e ações são pertinentes e coerentes com os seus interesses  e os seus interesses, por sua vez, não se escondem e nem se dissimulam na demagogia existencial.

E tudo isso porque se fala de "política", e não de religião, na qual crer no metafísico ou na fé movedora de montanhas não permite discussão sobre razões ou porquês.

E tudo isso porque se fala de "projeto político", e não de ficção científica, na qual o imaginário, o impossível e o inverossímil seriam naturais e funcionais.

Portanto, o voto tucano está numa dimensão real e humana, razão pela qual os seus ex-eleitores não precisam fugir da raia para se esconder na obnubilação alheia.

Ao contrário, votar em Marina Silva é entressonhar um mundo de fantasia.

Porém, não da fantasia utópica, horizonte de todas as ideias e ações revolucionárias e eterno destino em construção para o engrandecimento humano  é, sim, o mundo da fantasia como aquele arquétipo jungiano.

Assim, nesta miragem mais ou menos inconsciente, Marina passa a servir como uma unicórnio de Troia, a travestir os farrapos da trupe neoliberal  a mesma que atravessou a "ponte para as trevas" e chegou ao castelo Temer para dar as cartas e agora se entranhar nas candidaturas zumbis da direita brasileira –, mas com uma larga dose de "açúcar" que edulcora o caldo conservador

É então nesta fúnebre alquimia que cria uma candidata sobre-humana, a qual satisfará "indecisos" na “escolha” que serão obrigadas a fazer, fingindo .

Marina, com o seu jeito vaga-lume de ser, diz, desdiz, contradiz e rediz coisas, as mesmas coisas, a todo instante e sobre variados temas, numa metamorfose anódina e histriônica: é a favor do golpe, mas é contra os que dão o golpe; quer um Banco Central independente, e ao mesmo tempo quer a soberania econômico-financeira nacional; não aceitava, mas também não recusava, doações de empresas de bebida, de tabaco e de agrotóxicos; é contra as políticas de direitos de homossexuais, mas ao mesmo tempo é contra a discriminação de orientação sexual; não quis que o país despencasse no abismo, mas fugiu e não foi capaz de dar uma mão para segurá-lo; não é a favor e nem contra os transgênicos, nem quer e nem desquer a reforma agrária; ama piracemas e não quer odiar as grandes hidrelétricas, come puritanismo e eructa mineirinhos; apoia e desapoia as lutas no campo, enaltece e constrange o sistema financeiro, acaricia e sufoca o monopólio midiático...

Marina Silva, enfim, cai do céu para vagar numa onda espiritual que prometerá um conto de fadas sob a ideia de reino encantado e celestial que, porém, só cabe para se discutir e pensar ficção, como se uma novela fosse.

Mas dela poderão fazer justamente a mocinha, a namoradinha do gigante adormecido.

Plim-plim. 


terça-feira, 19 de abril de 2016

# radio magallanes



“Nós estamos no início da luta. Ela será longa e demorada (...) É uma luta de todos os brasileiro, uma luta pela democracia".

Assim Dilma Rousseff se pronunciou, muito claramente, na entrevista coletiva desta segunda-feira, com a dignidade da resistência (v. aqui).

E por isso o desespero reinante da chusma que, primeiro, pensava que a votação de domingo seria definitiva e significaria o último dia do mandato da Presidente – ah, essa ignorância... –, depois, porque tinha uma “certeza absoluta” de que ela tinha que renunciar – ah, essa lógica...

Não para minha surpresa, ao meu redor a malta desde cedo vociferava, com invejável autoconfiança no que exclamava: “Ela tinha que renunciar... mas é muito orgulhosa e por isso não vai!”.

Sim, eis a convicção bem-cheirosa para explicar o fato de que a Presidente vai enfrentar os golpistas e não irá fugir: ela é "orgulhosa".

Confundem, talvez por serem conceitos bem distintos aos que praticam, coragem com orgulho, confundem a busca por justiça com a covardia já cômoda de se submeter aos ditames de uma matilha coordenada por Eduardo Cunha.

Ora, neste contexto, o ato da não-renúncia é heroico porque, simplesmente, se distancia do ambiente da porta dos fundos.

Nos anos 70, num mesmo quadro de fatos, Salvador Allende, resistindo ao golpe no Chile, de dentro do “Palacio de la Moneda” já alvo de bombardeio pelos militares, pronunciou um dos mais célebres discursos da História, por meio de uma rádio comunitária, a Radio Magallanes (v. aqui).

O centro do seu discurso, que impactou o sonho socialista de milhões de latino-americanos?

O ato de não renunciar, em nome do povo chileno que democraticamente o elegeu.

Eis o início da sua fala, e percebam o tom sereno, forte e incrivelmente inabalável das palavras deste gigante líder latino-americano, concomitantemente aos aviões que já sobrevoavam e minutos antes da invasão ao palácio e da sua morte como desfecho do golpe:

“Seguramente ésta es la última oportunidad en que me pueda dirigir a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de radio Portales y radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura, sino decepción, y serán ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron... Ante estos hechos, sólo me cabe decirle a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar!

Já agora, neste dia seguinte à "derrota" na Câmara, Dilma nos deu o ânimo e mais uma vez o exemplo de coragem necessários e suficientes, os quais servirão como munição para, no dia a dia deste infausto processo de impeachment, enfrentarmos os batalhões e os seus canhões.

E não, não fugiremos não deste chamado da História.


"(...) víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas, esperando con mano ajena
reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios".



segunda-feira, 18 de abril de 2016

# a república da farsa: um outro abril



E agora, amarelinhos?

O sentimento de nojo que a triste e deplorável “sessão” deste dia – e que assim já se qualificara independentemente do resultado – na Câmara dos Deputados causou tornou ainda mais caricato os fins das “manifestações” pelo Brasil.

Manifestações que, como num circo romano em que pediam “Impeachment já!” com o polegar virado para baixo, tiveram por resultado revelar, de uma vez por todas, a hipocrisia e a tragédia nacionais no mesmo passo.

Manifestações que, ao cabo, deram nisso: a coroação de Eduardo Cunha como, talvez, o mais poderoso homem público brasileiro.

Um sujeito que todos – menos aqueles que pelas ruas e redes uivavam por um “novo Brasil"... – conhecem por, historicamente, atuar nos esgotos do poder e na lama da política brasileira, num modus operandi clássico de chantagens, arbitrariedades, propinas, estelionatos e traições.

Absolutamente lamentável.

E não é só o planeta Terra que vê este vexatório episódio, como se fosse promovido por uma autêntica “República da Bananada”.

Não!

Quem também está a ver é o espelho de quem sempre apoiou, com faixas, gritos, gracejos, dancinhas e isenções, este estado de coisas.

espelho de quem sempre apoiou, por achar normal, natural e necessária, a expulsão de uma Presidente da República que, tenha ou não todos os defeitos do mundo, não cometeu nenhum crime de responsabilidade.

espelho de quem sempre apoiou, contaminado pela cegueira branca saramaguiana e por um ódio que move montanhas, o descarte de 54 milhões de votos com base em "Deus, na família e na propriedade" (e no grupo de corretores de Goiás, na paz de Israel, na memória do torturador Cel. Ustra, na inflação, na zika etc.).

Mas ali – e é isso que nos conforta – o reflexo não é o nosso, pois aqui estamos – como aqui estivemos, neste domingo, junto a grandes amigos – do outro lado, na nossa trincheira, al otro lado del río.

E por isso que a repugnância, a ânsia e o choro desta noite causarão um dia seguinte de azia, ressaca e lamento – mas também de cabeça erguida pela luta que travamos e a bandeira que empunhamos, pois, como disse o saudoso Darcy Ribeiro, hoje a maior derrota seria estar ao lado dos que venceram.

Agora, muito mais que para o ridículo, o Brasil está sendo empurrado para o sombrio caminho do autoritarismo senil, da esculhambação republicana e do escárnio institucional.

Quem quer nos liderar são estes covardes incapazes de enfrentar a questão posta, de honrar a verdade e se ater aos fatos que tentam justificar o pedido de impeachment, pois, em uníssono, alienavam a justificativa do voto ao contexto político-econômico nacional e, desgraça das desgraças, à transcendência divina e à metafísica familiar.

Ora, que Deus é esse que a chusma canalha clamava para justificar seu voto?

Ora, falavam em nome da família, dos filhos, dos netos e bisnetos... Natural, posto que família, filhos, netos e bisnetos pouco se lixam de onde vem a grana absolutamente suja que os ricos brasileiros – e particularmente a grande maioria destes deputados – abastecem a consciência de suas gerações com casas, carros, joias – sim, este tipo de gente ainda vive num séc. XII e caricaturalmente usa e consome “joias” –, viagens à Disneilândia e todos os tipos de mordomias que para a “família” nunca vem ao caso perguntar (e refletir).

Muito além, não só “não vem ao caso” como perpetuam as regalias com as contínuas sucessões nas capitanias hereditárias do “cargo” e do "capital" que detêm – e justamente por isso jamais se questionou a total inviabilidade de reeleições infinitas para os cargos de Deputado e jamais se avança numa reforma fiscal que definitivamente se tribute a riqueza, por exemplo.

No espetáculo de bordel desta noite o que se via eram pragas e vermes notórios, que agora tentarão se esbaldar no poder com programas nauseabundos como o já apresentado "Ponte para o Futuro" (v. aqui) e pilhagens tradicionais, como o projeto o "petróleo é deles" e a entrega do pré-sal para o mercado.

Em suma, um bando de saqueadores do interesse público e nacional que se mistura à uma safada horda conservadora – aquela que, dentre outras (ir)razões, age segundo tortos e esquizofrênicos versos evangélicos – para provocar um cataclismo na nossa imberbe estrutura democrática.

Nem o mais infausto dos neoliberais, nem a mais baldia das políticas entreguistas tucanas, seriam capazes de provocar o caos que se anuncia, porque agora nem a cara do PSDB o golpe que se constrói terá, tamanha a sopa de malfeitores e de interesses espúrios que está a se preparar.

Pior que o golpe militar daquele abril de 1964, este golpe parlamentar travestido de impeachment é feito de modo dissimulado e mascarado, na garupa do receio de enfrentar um poder popular legitimamente eleito com a “verdade” de tanques e carabinas.

Neste abril de 2016, o Brasil foi simplesmente refém de um terceiro turno.

Mais grave, de um terceiro turno via eleições indiretas, nas quais 300 picaretas tomaram o lugar (e o voto) de 54 milhões de pessoas.

À frente, vislumbro um cenário terrível: caso o "impeachment" logre êxito, esta escória assume, e como não ganhará nas urnas – bem sabe que o povo reconhecerá os reais culpados pelo caos institucional, político, econômico e social que advirá, como aqui já pretendiam –, ela estará disposta a tudo para permanecer no poder.

Um tudo que se forma no achincalhamento da democracia, no afastamento dos cidadãos do comando constitucional e no desprezo pela ideia de que todo poder emana do povo e por ele e para ele é exercido.

Em resumo, uma ideia que se forma na não realização de eleições em 2018, haja vista os gigantes interesses econômicos e geopolíticos por trás deste golpe e que não suportariam o voto popular.

Insisto: o que aconteceu neste domingo é o trincar do ovo da serpente chocada em junho de 2013 (v. aqui), espécie que crescerá malevolamente para devorar o Brasil até 2018, um ano que não terminará com as eleições.

Afinal, estão absolutamente convictos de que este povo é um estorvo.

E um mero detalhe.

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