quarta-feira, 20 de abril de 2016

# a unicórnio



E eis que ressurge, sempre em momentos estrategicamente pensados, a Fada Verde, a nossa Madre Tereza da Amazônia, a gloriosa Marina Silva.

Dantes uma mera eco-fundamentalista xiita e hoje o proto-objeto de consumo da massa que faz dela a evolução da espécie (a)política, Marina anuncia, como sempre, “ser-contra-tudo-isso-que-aí-está”.

E para orgasmos múltiplos da plateia, ela chega toda platinada, mitológica, com um sorriso franciscano e ares de um dócil mico-leão-dourado.

Se antes Marina saiu do PT (e do Governo) para não entrar na história, a cada momento crítico ou eleitoral ela salta do alto da montanha para dar rasantes com a força dos ventos uivantes que a carregam junto sabe-se bem de quem, para onde e porquê.

Eternamente raivosa pelo fato de Lula tê-la preterido como candidata presidencial de 2010, Marina entrega-se de corpo e alma à tarefa de sempre ressurgir do nada, ressair do ostracismo e resplandecer para os holofotes globais como "a" candidata  mesmo que isso signifique, como em 2014, perder no seu próprio quintal, o Acre.

Sabe-se, claro, que no Brasil os "verdes" nunca federam e nem cheiraram o orgânico sabor de um partido ideológico e independente.

Mesmo assim, Marina há anos debandou do PV e, ainda mais pragmática, criou um novo partido, uma REDE que pesca indecisos, andróginos e magos da política alternativa e sem cor.

Ora, nestes nossos tempos, tipos como os ex-verdes olorizam-se pelo aroma prosecco das cheias taças que desfilam sobre as mesas enfeitadas da malta pequeno-burguesa, sob o arrepio de se fazer um "nova política" – é, segundo eles, a lógica da darwinização.

E desta cepa, como indefectível fruto, brota Marina Silva, herdeira única do trono político-episcopal.

Marina, a reboque da grande mídia, que por sua vez é a porta-voz dos grandes interesses econômico-financeiros e da ignorância da classe média, flerta com uma meta: aliar-se aos golpistas e, numa hipótese de vácuo, fulminar a centro-esquerda e assumir o atentado como um "recado divino", sendo ela, claro, a salvadora.

Marina, antes defensora de índios, boitatá e pirarucus e da política evangelista – e não da evangelização na política –, torna-se agora a maior esperança da cavalaria anti-PT (e antitrabalhismo) e consigo carrega várias das políticas mais atrasadas e reacionárias do mundo político.

Marina, com o mote de sair-se bem aos olhos do povo, nega a política, pretendendo que se despolitize a política – e, assim, cai no gosto populesco com as teses do mundo privado, privatista e não-governamental.

Marina, catapultada como a grande herdeira de um espólio imaginário, acalanta os interesses de quem quer ver uma marionete no comando do Estado, travestindo-se como a exótica musa madrinha capaz de convencer alienados e descolados de que o novo mundo chegou.

Marina, sob a cantilena da "terceira via", veste um capuz mágico para iludir que há outro caminho além da direita ou da esquerda, num blá-blá-blá turvo, volúvel e vazio.

Marina, meus caros, embora com um passado que não a faça ser de direita e com algumas convicções do presente que não a façam estar à direita, é apenas mais uma destas figuras que se tornaram da direita.

Sim, depois do golpe consumado, apenas a ex-chapeuzinho verde será capaz de “legitimar” os interesses (conservadores) daqueles que agora pretendem invadir o Planalto e assaltar o poder.

E assim, nesta fúnebre alquimia que cria uma candidata sobre-humana, finalmente as “manifestações” ficarão satisfeitas com a “escolha” que serão obrigadas a fazer.

Marina, como uma besta de Troia, traveste os farrapos da trupe neoliberal que se imaginavam trancafiados num baú ou presos para sempre num passado remoto. 

Marina, nossa Gandhi de saias, diz, desdiz, contradiz e rediz coisas, as mesmas coisas, a todo instante e sobre variados temas, num circunlóquio constrangedor.

Marina, no seu jeito vaga-lume de ser, é uma metamorfose anódina e histriônica: é a favor do golpe, mas é contra os que dão o golpe; quer um Banco Central independente, e ao mesmo tempo quer a soberania econômico-financeira nacional; não aceitava, mas também não recusava, doações de empresas de bebida, de tabaco e de agrotóxicos; é contra as políticas de direitos de homossexuais, mas ao mesmo tempo é contra a discriminação de orientação sexual; não é a favor e nem contra os transgênicos, nem quer e nem desquer a reforma agrária, apoia e desapoia as lutas no campo.

Marina Silva, deste modo, cairá do céu para vagar numa onda espiritual que promete um conto de fadas sob a ideia de reino encantado e celestial que, porém, só cabe para se discutir e pensar ficção, como se uma novela fosse.

Simples, simples asssim.

Plim-plim.