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domingo, 1 de março de 2015

# rio


  






Copacabana, meu jardim e meu quintal.

E nela saúdo todo o Rio de Janeiro, cidade-ícone da identidade cultural brasileira.

Viva o Rio e os seus 450 anos!




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

# desaniversários


 
Na clássica obra de Lewis Carroll, o Chapeleiro Maluco ensina à Alice que ali no País das Maravilhas o que importava eram as festas de desaniversário.
 
Sim, comemoravam-se todos os dias (e não-dias), festejavam-se as bonanças diariamente, a cada roda de vinte e quatro horas se podia erguer um brinde qualquer à vida.
 
Não se esperava, pois, completar o tal ano para se acender velas. Eis a lição: o dia a dia não precisa esperar um dia determinado para merecer a celebração.
 
Na expectativa de se fecharem ciclos -- como a conclusão de doze meses --, prolonga-se e adia-se os momentos de efusividade, aguardando-se um dia oito de janeiro qualquer para solenizar as bendições da vida.
 
Como numa estranha e desmedida simbologia, reverenciar aquela tarde de um outono de abril parece pouco significativa diante do acontecimento pré-fixado, lá naquele nascimento, que insiste em colar pelo fim do seu tempo.
 
E assim várias das lembranças só teimam em vir nestes dias, as ações e reações só insistem em surgir com os seus típicos ares de esquisita espontaneidade nestas noites.
 
É como se o antes e o depois fossem meros coadjuvantes para o "hoje".
 
Mas este hoje, com o sombrio gesto de apagar as velas, morre, vira ontem.
 
E lá se vai outro período em que se incuba a felicidade de se homenagear a vida, chocando-a doze meses até o próximo bisado parabéns.
 
Velho, cada vez mais velho, aguarda-se a passagem circular dos ponteiros para bater palmas, em bigs ou pics que soam eternos, num ritmo contrário à lógica do universo.
 
Neste caminhar, tudo amadurece, envilece, amarela, engorda -- tudo torna o bolo figura caricata do seu próprio estado físico-anímico.
 
Mais ainda, com a rigidez do dia D, um sofrimento atroz desembarca para atacar e mortificar a memória trazida de quem se foi, fixando-se eternamente um dia para se lamentar a sentida ausência.
 
Ou, mesmo de quem ainda não se foi, pensar na singularidade de um aniversário machuca a solidão de quem, justamente naquela hora, resta exilado.
 
Ingrata, a data não se preocupa em distribuir ao longo da jornada o que de bom ou ruim lembramos.
 
Não, tudo fica ali, guardado, esperando, esperando, esperando... até explodir, na desordem caótica da nossa existência relojeira.
 
Em todo este contexto, portanto, a verdade que tenho é que fazer aniversário uma vez por ano é pouco.
 
Ou muito, a depender do momento etário.
 
Contudo, prefiro ainda acreditar na primeira versão: não se deveria esperar tanto para se festejar tanto.
 
Um viva, pois, ao desaniversário nosso de cada dia.
 
 
 

sexta-feira, 12 de maio de 2006

# gabi, doze meses

Incrível esse tempo: há 12 meses, nascia a Gabriela, minha amada afilhada e sobrinha.
 
E lá atrás, ainda nos primeiros dias de vida – ela nasceu na prematuridade dos 6 meses (!) –, entre sustos, alegrias, dramas e orações, logo que a visitei na incubadora, eu recebi essa sua telepática carta, na forma de um debutante diário...
 
"Querido diário,
 
Queria eu saber como sair daqui.
 
Ou melhor, queria eu saber o que faço aqui.
 
Coisa mais estranha essa bagunça toda de fios, tubos, canos e agulhas aqui em cima de mim, ao meu redor.
 
E, pior, sem nada para fazer.... devo, quem sabe, pensar num pedido de resgate à minha mulher-maravilha.
 
É verdade que aqui está um pouco melhor do que antes, pois posso esticar as minhas canelas e os meus braços confortavelmente, além de não precisar ficar a engolir uma gororoba nada saudável que insistia em me entrar pelo umbigo.
 
Porém, acho estranho terem me tirado daquela piscina quentinha e colocado-me aqui, já, fora da hora, sem eu querer – pelo que andei a estudar (e pelas minhas contas), eu somente sairia de lá em dois meses e, quando chegado este momento, iria direto para um quarto todo colorido, pintado, enfeitado e perfumado, e não ficaria neste aqui, quase sem-graça, tudo muito branco e muito sério.
 
Aqui, pouca coisa acontece, mas, de todo esse pouco, quase nada a turma da Casa ficará a saber (vocês sabem, memória de recém-nascida é muito fraca...).
 
Embora não pareça, as moças daqui me tratam bem, ainda que não realizem todos os meus pedidos – já tentei lhes demonstrar que começo a me sentir incomodada com os homens que me vêem sem as calças e com a choradeira da vizinhança que não me deixa dormir.
 
Queria que soubessem que o leite que tomo desce redondo e o soro, embora meio sonso, não é de todo ruim.
 
Das coisas do meu corpanzil, tudo vai as mil maravilhas, fora ele: o meu sistema cardio-respiratório.
 
Diariamente o xingo (e talvez isso tenha herdado da mamãe) pela falta de competência e de agilidade para se desenvolver – vejam só, coisas inúteis como as unhas dos meus pés e os meus pêlos cá estão, belos e formosos, mas, ele, logo ele, não teve a envergadura moral de bem crescer... mas, tudo certo, a gente vai levando e logo não mais precisarei destes arzinhos que me entopem e terei, finalmente, a minha lei áurea.
 
Acho que eles gostariam também de saber que considero a minha cama boa, um pouco durinha, mas que faz bem à minha coluna.
 
Ah, outra coisa: se continuar neste ritmo, sairei daqui morenaça, pois o sol daqui, ainda que talvez meio diferente e meio artificial, é bastante forte – as moças de branco até dizem que é para ajudar no meu crescimento, mas desconfio ser coisa da vovó para me deixar exibida como uma garota de Ipanema...).
 
Bem, sempre me falaram que depois daquela piscina quentinha e amniótica eu iria ficar ou em um berço ou nos braços da minha amada Casa – mas, não é o que acontece...
 
Se não fico 24 horas deitada neste mesmo lugar, eu estou nos braços desta galera de branco que, tenho quase a certeza, não têm traços sanguíneos similares ao meu e a mim não pertencem.
 
Mas, de verdade, o que mais me instiga é tentar e não conseguir traduzir o que pensa essa gente toda da família que fica a me olhar.
 
E me olham, e me olha, e me olham... É engraçado ver a minha vovó (linda!) a acariciar essa bolha que me cerca, com medo de me tocar (será que não entendem que não sou tão intocável assim?).
 
É estranho ver as minhas tias por detrás do vidro sem poder nelas tocar ou morder (por falar nisso, me encasqueta não entender por qual razão nenhuma das duas não chega muito perto de mim – será que é pelo fato de uma ser meio atrapalhada, e perigar cair em cima de mim, e a outra ter um pescoço tão grande, e conseguir ver-me de bastante longe?). Como também o é aquele meu padrinho, sempre descabelado e com os olhos franzidos, parecendo pensar que sou algo meio alienígena (ah como dou risada...).
 
Da mesma forma, me angustio por ver meu vovô e não poder agarrar aquele esquisito monte de pêlo que tem embaixo do nariz.
 
Mais do que isso, me angustio por querer tanto lhe dar mil beijos de agradecimento, por cada dia, por tudo que sei que está fazendo por mim e não poder...
 
Porém, destas estranhezas todas, nada, nada supera a imensa vontade de sair daqui e ir para o colo amado da minha mãe.
 
As pessoas grandes podem não saber, mas daqui eu consigo captar tudo o que acontece ali fora, inclusive o choro dela, diário, sempre depois que vem me ver...
 
E isso me aflige, motivo que me faz ter todas as forças para sair deste meu quartinho e chegar lá fora, nos braços dela.
 
Ah, como eu queria que ela soubesse que está tudo muito bem e que não precisa chorar ou, menos ainda, ficar triste...
 
Por isso que a pena maior é o fato de, ainda, eu não saber escrever ou falar na língua das pessoas grandes, pois o que mais queria era lhe contar isso tudo, e muitas outras coisas.
 
Porém, suspeito que entre uma abertura dos olhos e um aperto de mão eu consiga, no fundo, lhe dizer...
 
Mamãe, amo você”.