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segunda-feira, 16 de março de 2015

# pede cachimbo



Sobre o que o se viu neste domingo, apenas mais do menos.

Mas não me refiro às pautas, à (o)posição ou aos seus interesses, pois isso é do jogo -- falo, pois, da parcela que legítima e democraticamente protesta contra o PT e o governo (ou, contra as "políticas" atuais, como aqui).

Ocorre que a outra parcela da população, aquela do "golpe" ou do "impítiman" -- nas ruas menos de 3% dos votos que a direita teve no 2º turno, ainda que se acredite nas mentiras quantitativas convenientemente infladas por uma mídia abjeta --, a cada ato que promove rebaixa-se aos mais sórdidos e inimagináveis níveis, o que a torna até caricatural.

Embora, confesso, vendo na manhã de ontem aquela marcha de zumbis em verde e amarelo, lobotomizados em suas falas e trejeitos sob uma onda paralela que surge das profundezas e desemboca noutra dimensão, tenha sentido um misto de pena e paúra da nossa espécie.

O alimento desta gente? Um coquetel em que se destaca o ódio homeopaticamente dosado pela grande mídia e engolido pelo umbigo.

Fico, assim com a ideia de Joseph Pulitzer, cujo nome dá título ao maior prêmio do jornalismo mundial e que muito bem ilustra quem publica e o seu público:

"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma".




terça-feira, 8 de julho de 2014

# marcha fúnebre


Na "marcha da quarta-feira de cinzas", Vinícius cantava que acabara o nosso carnaval, que ninguém mais ouvia cantar canções e que ninguém mais passava brincando feliz.

E que no coração o que restara eram saudades e cinzas.

Hoje, nesta noite soturna de terça-feira, pelas ruas de Copacabana pessoas murchas vagam como se velassem um ente querido.

Atropelado e depois espancado com ares de requinte e crueldade, o defunto está irreconhecível, dilacerado, atassalhado.

A lembrança é dos seus bons tempos, da ginga, da magia, da improvisação, do balacobaco, do chegar ao topo por meio de pernas tortas, de crioulos benditos ou de gênios indomáveis.

À mente vem a memória de um reinado que se esperava eterno -- como, afinal, toda dinastia pressupõe.

Mas ele se foi, perdemos o trono e recusamos a enxergar que tudo -- inclusive ele -- mudou. 

E agora este martírio, neste velório simples de alguém que já perdeu a majestade e que hoje já não se impõe, e hoje já não é modelo, e hoje já não arromba de alegria a retina de quem vê.

O fim foi amargo, azedo, ácido, acre, como jamais visto.

E o clima é triste, como poucas vezes se viu.

Agora chove a cântaros, como no inverno do Rio de Janeiro não se costuma ver.

Uma chuva que não nos lava a alma, mas serve para mascarar as lágrimas da maior humilhação sofrida pela nossa máxima expressão cultural.

É a decadência acachapante de alguém que já foi o maior de todos, iludido por um "vamos que vai dar" sem pés e sem cabeças, e que agora dói.

E assim, nesta noite fria e molhada, em cada esquina desta minha via sacra de volta para casa o futebol brasileiro é velado.

Espera-se a sua ressurreição.

Mas não no terceiro dia.


domingo, 8 de junho de 2014

# do pó


Meus poucos (mas fiéis) leitores, só os profetas enxergam o óbvio, cunhou Nelson Rodrigues.

No rádio, na tv, na rede, nas bancas, na calçada, nos sonhos, vê-se tudo mirar o Brasil, mas tudo mira mais ainda esta minha aldeia, o onphalos nestes trintas dias que nos seguirão.

Copacabana borbulha, queima, arde, sufoca, contamina, pulsa e quase explode.

E vai ficando cada vez mais frenética, indecente, barulhenta, gosmenta, multicolorida.

Verde-amarelo a todo canto, em toda esquina, em todos os milhares de bares que a cada passo me atropelam, me sugam, me desassossegam.

Nela se escancara o óbvio da brasilidade, a explicitar, a eclodir e a fazer a nossa espuma de pátria amada brilhar em raios mais fúlgidos. 

E eis-me aqui, nesta capital do Brasil, neste Rio de Janeiro (e de todos os meses do ano), a morar neste bairro e a ter como meu literal quintal esta mais amada praia desta maravilhosa cidade do mundo.

Pois é, ano passado já tive uma especial visita, cuja jornada aos arredores me tentaram fazer compreender isso tudo (v. aqui).

Mas é só agora, no microcosmos deste caos, que finalmente o enxergo.

Salve, salve a Copa.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

# cegueira branca


Viver fora dos nossos castelos dá vida, dá a vida.
 
Passamos a viver sempre com a epígrafe do Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, na memória: "se podes olhar, vê; se podes ver, repara." (v. aqui, aqui e aqui)
 
E o Rio, um destes lugares em que você deve viver a pé, te faz reparar a vida.
 
Vida esta que mistura tudo e todos, em cada canto, em cada esquina, em cada lugar.
 
Preto, pobre, branco, azul, rico, médio, amarelo, marrom, miserável, milionário, tudo junto, escancarado  esta Copacabana não te separa do mundo, ele te insere nele.
 
E isto te provoca.
 
Contextualizo isto com o caso de hoje.
 
Há pouco estava no mercado, com Benjamin ao colo e na mão uma cesta: mate, farinha de trigo, gramas de queijo e presunto e um pacote de bolacha waffle.
 
Pois é, um pacote de bolacha waffle.
 
Na fila do caixa, aproxima-se um sujeito, meia-idade, meio fedido, todo fodido dos pés à cabeça, e me aponta para um bilhete plastificado que tinha na mão, fazendo sinal para eu ler.
 
Não leio.
 
A moça do caixa me chama, e eu sigo.
 
Ele me acompanha, e insiste, só com gestos e grunhidos.
 
A moça do caixa me dá boa noite, eu respondo, e ela começa a passar as minhas compras.
 
Ele não desiste, e aponta para a pequena embalagem de mortadela carregava junto ao bilhete.
 
Ele não fala.

Eu, de novo, não leio.
 
Mas escuto, enxergo e entendo muito bem o que ele quer.
 
E na hora, sabe-se lá por qual razão, não lhe dou nada, nem mesmo atenção.
 
A moça do caixa me dá a nota, os sacos de compras e outro boa noite.

Ele ainda me olha, mas não o reparo; e, pela terceira vez, não leio.

E saio, com meu pacote de waffle.
 
Sem virar pra trás.

Mas me viro para Benjamin.

E tenho um daqueles remorsos que te fazem imergir em trevas totais, imensas noites adentro.
 
Ali, por alguns instantes, atento ao meu maiúsculo umbigo, fiquei cego.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

# um vizinho


Hoje fará 6 pm e não verei o meu novo amigo Francisco.

A soar como surreal, este diário encontro me deixou ter com a figura papal uma intimidade ímpar, quase pecadora.

Afinal, desde quinta-feira, dentre outras rotinas passei a ter uma curiosa: antes do pôr-do-sol, vestia-me – sim, o Rio não está só para bermudas –, calçava uns pisantes e atravessava a minha rua para, a poucos metros, chegar à Av. Atlântica e aguardar a visita do Papa.

Voilà, pontualmente às 5:30 da tarde lá estava ele, passando a um braço na minha frente, esguio, em pé e eufórico, com toda aquela simpatia de vovô contador de causos, sábio e sem pressa no mundo, contente por estar ali com a sua gente e com a saúde renovada de um jovem de setenta e seis anos.

Nuns dias mais rápido, noutros bem devagar, noutros com paradas que meu pareceram eternas, em seu papamóvel o meu platônico amigo trazia nos gestos e no olhar um sentimento indescritível de paz, de otimismo e de alegria.

Era como se ele conseguisse olhar profundamente para cada uma da centenas de milhares de pessoas que formavam todo aquele corredor entre o Forte de Copacabana e o Leme e dissesse: "Que bom te ver!".

E ali, naqueles instantes, era como se estivéssemos sendo olhado por ele, numa injeção de sortidos sentimentos do bem que reanima, rejuvenesce e nos enche de vida. Não eram, enfim, apenas acenos e sorrisos.

Eu acredito que Francisco seja um simples homem, humano e especial como cada um de nós.

Mas é um dos homens mais especiais que já vi – e que por alguns dias morou no meu bairro, quase na minha rua, e que vai deixar saudades...