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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

# terra, trabalho e transformação



Voltar-se para o interior e para o campo não significa retrocesso.

Tão-pouco desvio esquizofrênico do ideário capitalista.

É, pois, uma literal saída pra Brasil desafogar as megalópoles, desacumular as grandes regiões metropolitanas e reorientar o caminho da massa pobre e desatinada do nosso interior.

Acontece que, embora como nunca antes feito  aqui o Plano Safra 2014/2015  e aqui um plano geral do negócio todo , o Brasil parece insistir que a solução está no agribusiness e que a "industrialização" do campo é a variável para se obter o melhor produto da equação.

Não, mil vezes não.

É claro que não se é contra a tecnologia, contra a eficiência e contra a produtividade do campo, em tantas áreas nas quais somos modelo mundo afora, sempre sob as rédeas da EMBRAPA, uma empresa pública referência mundial que pensa, fomenta e investe no desenvolvimento agropecuário nacional.

Entretanto, o "agronegócio" não é a melhor alternativa para se ajustar as crises de trabalho, de emprego e de renda mundo afora (e em nosso país), as quais provocam mazelas estruturais calcadas em especial na desigualdade e na violência, tão-pouco para se enfrentar as crises no âmbito alimentar e ambiental que mancham o globo.

E, atente-se, nem se está a falar da crescente praga dos clássicos latifúndios (v. aqui), cuja existência aos borbotões no nosso país é "é inaceitável eticamente aos olhos dos valores e doutrinas que pregamos", pois "nenhuma família pode estar sem casa, sem moradia digna" e "nenhum sem terra pode estar sem terra", afinal, "o latifúndio ser distribuído é uma posição ética”, resumiu assim o gigante Papa Francisco nos recentes encontros com os grandes líderes dos movimentos sociais mundo afora (v. aqui e aqui).

O negócio, pois, é entender que até este tradicional latifúndio está a mudar de cara, e hoje o diabo envolve as empresas transnacionais que atuam no "negócio", de modo a controlar o comércio e a produção agrícola-pecuária por meio de oligopólios financiados por bancos privados ou públicos que anulam a competição e a tradicional veia cooperativista deste meio, esfacelando toda uma rede rural -- este, pois, é modelo industrial que se chama "agronegócio".

Assim, a proposta deve ser concentrar todos os esforços e investir muito na agricultura familiar e na pequena e média propriedades rurais -- onde atuam 75% dos trabalhadores rurais e saem 35% do nosso consumo --, intensificando-se a mais plural e efetiva reforma agrária -- a nossa outra "revolução" (v. aqui, a outra) -- e elevando-se à altas potências planos, programas e projetos financeiros (PRONAF, crédito fundiário...) e não-financeiros (escolas agrícolas, agroecologia, cooperativismo...) que transformem a nossa realidade e o nosso futuro, com justiça social e sustentabilidade.

Afinal, é ali que se emprega e onde está a imensa parte da família rural brasileira.

É ali que se muda a perspectiva pobre e cinza de uma grande massa peregrina.

É ali que se criam oportunidades e se desalgemam das amarras do destino milhões de brasileiro com muita energia.

Com muita energia mas ainda sem luz.

E com a godiva Katia Abreu por perto.


"Food, Inc.", documentário que revela o tal do agribusiness e os latifúndios 2.0



terça-feira, 23 de junho de 2015

# alta fidelidade



Sou uma pessoas de listas.

De fazer listas para tudo, de tudo, com tudo.

Contudo, sempre atualizando, sempre remexendo, sempre cutucando para me convencer de que nelas não há engano.

Mas, de uns tempos pra cá, uma delas está a me perturbar muito.

É aquela que faço dos cinco maiores brasileiros vivos – o gênero é a praxe da língua –, na qual figuram, desde a morte do nosso genial Oscar, apenas Pelé, Lula, Chico e João Gilberto.

E diante dela, sem um dos nossos arquitetos do pensamento, relutava em fechá-la.

Entretanto, tem um pessoa que toda vez que vejo, que ouço ou que sei o que anda aprontando, me convence mais.

João Pedro Stédile, cérebro do maior movimento social do planeta – o MST – e um dos líderes globais da "Via Campesina", orgulhece o nosso país.

Aqui e aqui, as suas mais recentes missões, uma delas na Academia de Ciências do Vaticano, ambas a convite do Papa Francisco, para falar sobre a reinvenção da terra e os trabalhos dos sem-terra, inclusive nas áreas da educação e da agricultura, sempre desenvolvidas para o alcance de todos.

Nestas audiências com o Papa, as lições e ideias de Stédile serviram, inclusive, como base racional para a última e revolucionária encíclica papal, a Laudato sí (v. aqui).

Ainda, aqui apenas uma dentre as tantas ameaças de morte que este grande líder nacional tem sofrido -- e não percam, no vídeo, um já clássico discurso que recentemente fez contra a direita, trazendo à memória a clássica adjetivação de Evita Perón para os oligarcas argentinos; aqui, uma resposta ao que a elite racista e a direita acéfala tem insistentemente tentado dele falar, ainda mais quando, junto do MST, se aproxima dos governos progressistas latino-americanos.

E, por fim, aqui e aqui você pode saber o que grandiosa e verdadeiramente faz o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, sob a liderança histórica de Stédile.

Ele, em suma, é um sujeito gigante.

Mas a grande mídia, é claro, prefere associá-lo exclusivamente a um idiota qualquer que em algum ligeiro e tosco protesto queimou certos pés de rabanete no interior de um sítio bacana do rincão paulista.

Stédile, enfim, fecha a minha lista. 



Acima, o nó que Stédile insiste em desatar com os dentes.



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

# aspas (xxxv)



A presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, cumpre, ao menos retoricamente, as já preliminares expectativas para o seu governo, e encara de frente, e sem tergiversar, a questão do campo, da terra, dos sem-terra e da reforma agrária (v. aqui):

   "Temos de fazer uma revolução no campo, no sentido de transformar os agricultores em proprietários. Resolver o problema dos sem-terra é criar milhões de pequenos proprietários que farão com que o tecido social no setor rural brasileiro seja mais democrático." 



 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

# a carapuça que cada um veste


fdsNão acreditem nos jornalões. Ou no Jornal Nacional. Ou na CBN. Ou no Boris Casoy (hã?).
fdsDilma Roussef, a candidata de Lula, cujo governo tem 75% de aprovação -- recorde mundial --, continua do mesmo lado, do lado esquerdo do peito.
fdsE defende o MST, como também se mostra com a foto abaixo, tirada ontem, cuja carapuça veio na forma de um singelo "boné" (v. aqui)

fds

sábado, 10 de abril de 2010

# kátia flávia


fdsKátia Abreu! Kátia Abreu! Kátia Abreu!
fdsEm uníssono, este blog torce (e clama, e vibra, e acende vela, e promete lançar exocets...) pela confirmação desta exótica espécime -- sim, a godiva do latifúndio, a morenaça belzebu, a senadora da UDN/ARENA/PFL/DEM pelo Tocantins -- como candidata à vice- presidência na chapa de José Serra, na chapa demo-tucana (v. aqui).
fdsAlô cidadãos!
fds"Alô, Polícia!..."
fds

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

# aspas (xxxi)



Joaquim Nabuco -- um dos grandes brasileiros da nossa história, motivo de tantas homenagens e comemorações neste ano do centenário da sua morte --, em 5 de novembro de 1884, em Recife, num discurso da sua campanha para deputado, já falava uma das grande verdades e necessidades do Brasil, ainda hoje insistentemente ignorada ou vilipendida pelo DEM/PFL/ARENA/UDN, pela OAB, pela CNA, pelos pré-modernos senhores feudais e pela grande mídia corporativa: a ampla e estruturada consecução da reforma agrária.

O nosso Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim -- o "maior chanceler do mundo", segundo matérias de alguns especialistas internacionais --, em recente conferência na Academia Brasileira de Letras, reproduziu trecho daquele histórico discurso de Joaquim Nabuco (v. aqui):

fdsfd“Não há outra solução possível para o mal crônico e profundo do povo senão uma lei agrária que estabeleça a pequena propriedade, e que vos abra um futuro, a vós e vossos filhos, pela posse e cultivo da terra. É preciso que os brasileiros possam ser proprietários de terra, e que o Estado os ajude a sê-lo.
fdsfdA propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra ao Estado.

fdsfdEu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões: a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão.



 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

# aspas (xxviii)



No seu "Conversa Afiada", Paulo Henrique Amorim repercute o discurso do Governador do Paraná, Roberto Requião, no qual disse, para espanto de alguns, que "autoridades não devem gozar de sigilo", que "água é bem público imprivatizável" e que "o MST é uma dádiva de Deus, pois encaminha uma juventude excluída para um trabalho de militância social e para arar um pedaço de terra".

Eis o post do jornalista (v. aqui):

- Com o MST eu converso, disse Requião.
- Eu encaminho reivindicações ao Governo Federal; eu faço uma escola.
- Com o crime organizado -- que seria a alternativa para a juventude excluída -- eu faço o quê?, perguntou Requião.
- No MST, alguns querem o socialismo e eles têm direito a isso.
- Outros querem um pedaço de terra.
- E outros querem vender a terra -- e são esses que empurram o MST adiante.
- Eu conversei com o Governador Requião sobre a Sanepar.
- Uma empresa de saneamento que Daniel Dantas privatizou e Requião tomou de volta.
- Requião, ao contrário do Presidente Lula, enfrentou Dantas.
- Requião disse que gostaria muito de ver Dantas na cadeia.
- E disse mais, sobre a batalha do Presidente do Supremo e o delegado Protogenes: Requião acha que autoridade não deveria ter direito a sigilo.
- A nenhum sigilo, muito menos o telefônico.
- Só não pode divulgar conversas íntimas, privadas; o resto, todo mundo tem o direito de saber.
- O homem público é público, diz Requião.



 

# causas (e homens) imprescindíveis


Eu discordo de Bertolt Brecht, quando esse disse que não há homens imprescindíveis, mas sim causas imprescindíveis.

Na noite de hoje, quando estive aos arredores da Lapa/PR como convidado para as cerimônias em comemoração aos 25 anos do MST -- o maior movimento social da América Latina -- e de encerramento do ano letivo na "Escola Latinoamericana de Agroecologia" (v. aqui), a qual está contígua ao "Assentamento Contestado" (v. aqui) e situada numa antiga fazenda escravocrata do séc. XIX -- em cuja estrutura há a forte presença do Estado, a oferecer o mínimo aparato educacional, tecnológico e de saúde aos assentados e aos estudantes --, percebi que, ao lado das causas e dos caminhos imprescindíveis, há, sim, homens imprescindíveis, ainda que, claro, substituíveis.

Na medida em que a história é uma construção tremendamente coletiva, na qual andamos e colocamos as nossas pedras, percebi que aqueles tantos homens e mulheres que dirigem, trabalham e pertencem aos projetos e movimentos sociais que anseiam a concretização da solidariedade, da igualdade e da liberdade são, sim, fundamentais.

E imprescindíveis para a reforma e a revolução do nosso país, para a nossa transformação na definitiva busca por justiça e desenvolvimento social.


 

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

# terras santas?


fdsfdsO Governo Lula finalmente decide corrigir um erro que já é histórico: promover a atualização dos índices de produtividade das propriedades rurais, intocados desde 1975 e que, por norma constitucional, deveriam ser revistos a cada 10 anos.
fdsfdsEsses índices são utilizados para classificar como "produtivo" ou "improdutivo" um imóvel rural e, assim, agilizar, com legitimidade, justiça e transparência, a desapropriação das terras para efeito de reforma agrária.
fdsfdsEm suma, uma medida que beneficiaria e agradaria a maioria dos brasileiros -- vez que a agricultura familiar é um dos mais eficientes meios de reduzir a miséria e conter o crescimento das grandes metrópoles -- e que, por isso mesmo, é malhada pela grande imprensa (o famoso PIG - "partido da imprensa golpista"), a qual vive, como abutres, às custas dos grandes donos do capital, devendo, portanto, defender aficciosamente os interesses dos barões do agronegócio. Essa é a razão, por exemplo, que o grupo Band diariamente critica essa medida, uma vez que o seu dono, a família Saad, somente em São Paulo tem dezesseis superfazendas (v. aqui).
fdsfdsPortanto, teimar em manter os velhos índices de produtividade, ação tão querida pela bancada ruralista do Congresso -- quase toda formada por aquela gentalha do DEM (ex-PFL, TFP, UDN etc.) --, significa preservar o latifúndio improdutivo, desconsiderando a função social da propriedade e a justiça distributiva e reafirmando o Brasil como vice-campeão mundial do latifúndio, atrás apenas de Serra Leoa (v. aqui).
fdsfdsEm termos comparativos, os países desenvolvidos, como os EUA e a Austrália, e a Europa -- com países cujos territórios são muito menores que o nosso --, conseguem, com índices legais bastante elevados e desafiadores, obter alta produtividade no campo -- sem que haja latifúndio! -- e, assim, incentivar, sem retrocessos, a agricultura familiar.
fdsfdsMas por aqui isso tudo soa muito esquerdóide -- ou, pior, como tratássemos os nossos grandes latifúndios como micro-Jerusaléns...

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

# aspas (xxiv)



Um dos grandes problemas sócio-político-econômicos do Brasil, indubitavelmente, é a (falta de) reforma agrária, a qual voltou à ordem do dia em dos recentes momentos: (i) a discussão acerca da imprescindível e vital revisão do (antigo) ato normativo que regulamenta os índices de produtividades das terras -- v. aqui -- e (ii) a grande manifestação do MST, em acampamentos por várias capitais do país, a qual mereceu de Frei Betto, um dos grandes intelectuais do país, uma pontual análise, ora resumida (v. aqui).
 
   "A manifestação dos sem-terra reivindica do governo muito pouco, sobretudo se comparado aos incentivos oficiais concedidos a empresas que degradam a Amazônia e usineiros, que, em latifúndios, mantêm trabalhadores em regime de semiescravidão.
   É urgente assentar mais de 100 mil famílias sem-terra acampadas pelo país afora, sobrevivendo em barracas de plástico preto à beira de estradas. E cuidar das 40 mil famílias assentadas virtualmente, apenas no papel, pois aguardam, há tempo, recursos para investir em habitação, infraestrutura e produção. Nos últimos seis anos foram financiadas apenas 40 mil casas no meio rural. Também as escolas rurais necessitam, urgente, de recursos.
   O Brasil não tem futuro sem mudar sua estrutura fundiária. Nas três Américas, apenas Brasil e Argentina jamais fizeram reforma agrária. O detalhe é que somos um país de dimensões continentais, com 600 milhões de hectares cultiváveis.
   Dois problemas crônicos encontrariam solução se nosso país não tivesse tanta terra ociosa, como se constata ao viajar por nossas estradas ou sobrevoar nosso território: o desemprego e a violência urbana.
   Durante o período de acampamento estão previstos também debates sobre conjuntura agrária, clima e meio ambiente, energia, Previdência Social, juventude, comunicação, gênero e raça, além de atividades culturais e ato em comemoração aos 25 anos do MST.
   A manifestação, que imprime caráter cívico à data da independência do Brasil, tem por objetivo arrancar a população do imobilismo e ressaltar a importância de se fortalecerem os movimentos sociais para consolidar nossa democracia e conquistar soberania.
   A democracia não pode se restringir a eleições periódicas, que, por enquanto, permitem inclusive a candidatura de corruptos e réus de processos comuns. À democracia política é preciso aliar a econômica, de modo a reduzir a desigualdade social que envergonha o Brasil.
   Só assim conquistaremos o direito de ser um povo feliz."



 

quinta-feira, 23 de abril de 2009

# aspas (xiii)

 
Luiz Fernando Veríssimo assim se pronunciou sobre o MST, após os últimos acontecimentos:
 
   "(...) Mas há um assunto sobre o qual você talvez ingenuamente imaginasse que nenhuma discordância seria possível. A brutal evidência -- geográfica, cartográfica, literalmente na cara, portanto independente de interpretação e opinião -- da iniqüidade fundiária no Brasil, um continente de terra com poucos donos, era tamanha que durante muito tempo uma genérica "reforma agrária" constou do programa de todos os partidos, mesmo os dos poucos donos da terra. Era uma espécie de reconhecimento da injustiça inegável que desobrigava-os de fazer qualquer coisa a respeito, retórica em vez de reforma. O aparecimento do Movimento dos Sem Terra acrescentou um novo elemento a essa paisagem de descaso histórico: os próprios despossuídos em pessoas, organizados, reivindicando, enfatizando e até teatralizando a iniqüidade, para contestar a hipocrisia. A evidência insofismável transformada em drama humano.
   Pode-se discutir os métodos do MST, e até que ponto as invasões e a violência não dão razão à reação e não desvirtuam o ideal, além de agravar a truculência do outro lado. Mas sem perder de vista o que eles enfrentam: não só a injustiça que perdura, apesar de programas governamentais bem intencionados e de alguns avanços, como um Congresso recheado de grandes proprietários rurais, o poder político e financeiro dos agro-business e uma grande imprensa que destaca a violência mas sempre ignorou a existência de acampamentos do MST que funcionam e produzem, inclusive exemplos de cidadania e solidariedade. É a minha opinião."







 
 
 
 

sexta-feira, 6 de março de 2009

# ai dos que coam mosquitos mas engolem camelos

fdsA Coordenação Nacional da "Comissão Pastoral da Terra" (CPT), diante das declarações do presidente do STF, Gilmar Mendes, veio a público se manifestar, em defesa da reforma agrária, dos movimentos sociais do campo e, principalmente, da justiça, a clamar pelo fim de um país comandado pelo conservadorismo das elites e que está (muito) bem representado na figura do senhor de terras que ocupa o máximo posto do Poder Judiciário (v. aqui).
fds
fds"No dia 25 de fevereiro, à raiz da morte de quatro seguranças armados de fazendas no Pernambuco e de ocupações de terras no Pontal do Paranapanema, o ministro [Gilmar Mendes, Ministro Presidente do STF] acusou os movimentos de praticarem ações ilegais e criticou o poder executivo de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica ações ilegais. Cobrou do Ministério Público investigação sobre tais repasses.
fdsNo dia 4 de março, voltou à carga discordando do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para quem o repasse de dinheiro público a entidades que “invadem” propriedades públicas ou privadas, como o MST, não deve ser classificado automaticamente como crime.O ministro, então, anunciou a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é presidente, de recomendar aos tribunais de todo o país que seja dada prioridade a ações sobre conflitos fundiários.
fdsEsta medida de dar prioridade aos conflitos agrários era mais do que necessária. Quem sabe com ela aconteça o julgamento das apelações dos responsáveis pelo massacre de Eldorado de Carajás, (PA), sucedido em 1996; tenha um desfecho o processo do massacre de Corumbiara, (RO), (1995); seja por fim julgada a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho, em Unaí, MG (2004); seja também julgado o massacre de sem terras, em Felisburgo (MG) 2004; o mesmo acontecendo com o arrastado julgamento do assassinato de Irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA) no ano de2005, e cuja federalização foi negada pelo STJ, em 2005.
fdsQuem sabe com esta medida possam ser analisados os mais de mil e quinhentos casos de assassinato de trabalhadores do campo. A CPT, com efeito, registrou de 1985 a 2007, 1.117 ocorrências de conflitos com a morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda dados parciais, são 23 os assassinatos). Destas 1.117 ocorrências, só 85 foram julgadas até hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra preso. Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade, ou fugiram da prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou morreram.
fdsCausa estranheza, porém, o fato desta medida estar sendo tomada neste momento. A prioridade pedida pelo CNJ será para o conjunto dos conflitos fundiários ou para levantar as ações dos sem terra a fim de incriminá-los? Pelo que se pode deduzir da fala do presidente do STF, “faltam só dois anos para o fim do governo Lula”... e não se pode esperar, “pois estamos falando de mortes” nos parece ser a segunda alternativa, pois conflitos fundiários, seguidos de mortes, são constantes.
fdsAlguém já viu, por acaso, este presidente do Supremo se levantar contra a violência que se abate sobre os trabalhadores do campo, ou denunciar a grilagem de terras públicas, ou cobrar medidas contra os fazendeiros que exploram mão-de-obra escrava?
fdsAo contrário, o ministro vem se mostrando insistentemente zeloso em cobrar do governo as migalhas repassadas aos movimentos que hoje abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos dos seus assentamentos, que conseguiram, com sua produção, elevar a renda de diversos municípios, além de suprirem o poder público em ações de educação, de assistência técnica, e em ações comunitárias. O ministro não faz a mesma cobrança em relação ao repasse de vultosos recursos ao agronegócio e às suas entidades de classe. Pelas intervenções do ministro se deduz que ele vê na organização dos trabalhadores sem terra, sobretudo no MST, uma ameaça constante aos direitos constitucionais.
fdsO ministro Gilmar Mendes não esconde sua parcialidade e de que lado está. Como grande proprietário de terra no Mato Grosso ele é um representante das elites brasileiras, ciosas dos seus privilégios. Para ele e para elas os que valem, são os que impulsionam o “progresso”, embora ao preço do desvio de recursos, da grilagem de terras, da destruição do meio-ambiente, e da exploração da mão de obra em condições análogas às de trabalho escravo.
fdsGilmar Mendes escancara aos olhos da Nação a realidade do poder judiciário que, com raras exceções, vem colocando o direito à propriedade da terra como um direito absoluto e relativiza a sua função social. O poder judiciário, na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo para atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento ou omisso em face das justas reivindicações destes. Exemplo disso foi a veloz libertação do banqueiro Daniel Dantas, também grande latifundiário no Pará, mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias, inclusive de tentativa de corrupção.
fdsO Evangelho é incisivo ao denunciar a hipocrisia reinante nas altas esferas do poder: “Ai de vocês, guias cegos, vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo” (MT 23,23-24).
fdsQue o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre de juízes como Gilmar Mendes!"

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

# pra não dizer que não falei das flores

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), como um movimento social do campo, do povo da roça, de trabalhadores rurais e de agricultores e camponeses familiares pobres e expulsos pelo latifúndio, sempre foi visto pela sociedade a partir do antidemocrático olhar de uma grande mídia que se encontra a serviço dos aparelhos ideológicos da elite nativa e que dominam o modo de pensar e de agir de toda a sociedade. Se alguém ou um grupo social fugir dos padrões de comportamento por eles fixados, nasce o conflito de interesses e o conflito de classes. E, por fugir dos padrões impostos pela sociedade dominante, desde o seu surgimento a população brasileira enxerga-o com certa desconfiança, desdém ou ódio.
 
dfds Em 1984, numa conjuntura de embates pelo fim da ditadura militar e da direita, pela abertura política e de mobilizações operárias e culturais, aproximadamente 100 trabalhadores rurais de mais de dez Estados da Federação concluíram que a ocupação de terra era uma ferramenta fundamental e legítima na luta pela democratização da terra e saíram com a tarefa de construir um movimento orgânico e nacional, fazendo nascer o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), hoje o maior movimento social da América Latina e exemplo mundial de independência, persistência e justa luta.
dfds Assim, formaliza-se a construção de um movimento que tem como pontuais fins: a luta pela terra, a luta pela Reforma Agrária e um novo modelo agrícola, a luta por transformações na estrutura da sociedade brasileira e a luta pela criação de um projeto de desenvolvimento nacional com justiça econômica e social, ou seja, diretrizes absolutamente normais e naturais para um Estado que queira, seriamente, cumprir o que hoje está disposto na nossa Constituição, em seus artigos preliminares, como fundamentos -- a "cidadania" e a "dignidade da pessoa humana" -- e como objetivos -- a "construção de uma sociedade livre, justa e solidária", a "garantia do desenvolvimento nacional", a "erradicação da pobreza e da marginalização", a "redução das desigualdades sociais e regionais" e a "promoção do bem de todos" -- da República Federativa do Brasil, ou mesmo no que diz os também pouco efetivados artigos 184 e 186 da Carta Magna, ao se referir à "função social da terra" e determinar que, se violada, a terra seja desapropriada para fins de Reforma Agrária.
dfds Após 12 anos dos governos fernandistas -- o primeiro comprometido com os ruralistas e latifundiários e o segundo com o neoliberalismo --, o Brasil sofreu, fazendo crescer a pobreza, a desigualdade, o êxodo, a falta de trabalho e de terra. Com a eleição de Lula, a expectativa não se traduziu na prática, não se gerando mudanças significativas na estrutura fundiária, no modelo agrícola e no modelo econômico.
dfds Defenestrada pela mídia golpista, a qual nada mais representa senão os interesses da elite nativa, a população pouco conhece do MST e generaliza-o, pensa-o como um bando de vândalos ou vagabundos. Ledo engano. Bem como advogados, jornalistas, magistrados, empresários e políticos, também há trabalhadores rurais descomprometidos com a ética, a moraldiade, o interesse público e o interesse coletivo -- ouso dizer, inclusive, em muito menor parte... Todavia, em sua ampla maioria, são homens e mulheres dignas e são líderes sérios que apenas almejam uma nova realidade agrária brasileira, com a mais absoluta justiça.
dfds Todos os países considerados desenvolvidos atualmente fizeram reforma agrária. Em geral, por iniciativa das classes dominantes industriais, que perceberam que a distribuição de terras garantia renda e trabalho aos camponeses, o que formou um mercado nacional nesses países, criando condições para o salto do desenvolvimento. O maior exemplo disso foi os EUA que, no final do século 19, com uma economia do mesmo tamanho que a do Brasil, promoveu uma intensa reforma agrária e, em 50 anos, alcançou uma enorme força industrial, via aumento da qualidade de vida e do poder de compra do povo.
dfds Hoje, o MST está organizado em 24 estados, onde há 130 mil famílias acampadas e 370 mil famílias assentadas, organizando os pobres do campo e continuando a luta pela Reforma Agrária, pela construção de um projeto popular para o Brasil, baseado na justiça social e na dignidade humana, e que priorize a produção de alimentos, a distribuição de renda e a construção de um projeto popular de desenvolvimento nacional. Porém, depois de 500 anos de lutas do povo brasileiro e 25 anos de existência do MST, a Reforma Agrária não foi realizada no Brasil. Os latifundiários, agora em parceria com as empresas transnacionais e com o mercado financeiro – formando a classe dominante no campo - usam o controle do Estado para impedir o cumprimento da lei e manter a concentração da terra.
dfds Enfim, a grande ação do MST não está nas ocupações e nas suas legítimas indignações, mas no ato de ensinar para toda a sociedade brasileira de que o campo e o mundo camponês estão em movimento, a exigir um novo modo de pensar o país.
ffds Logo, não se pode simplesmente ignorar sua existência. Ele existe e traz um novo modo de ver as relações sociais, sempre ensinando e lembrando, por meio dos atos, dos fatos, da linguagem, das marchas e dos símbolos, que se pode ter esperança na sociedade brasileira, pois, a questionar as estruturas sociais e a cultura política-econômica vigente, está a afirmar a sua vocação filosófica de formar novos sujeitos coletivos e históricos que venham realmente construir um Brasil não apenas de todos, mas para todos.