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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

# o papa (de novo)



O Papa Francisco, hoje, efetiva-se como uma das maiores e mais importantes personalidades da História.

Em sua viagem pela pobre América do Sul, a sua postura, a sua atitude e os seus discursos são próprios de quem, sim, enxerga o mundo ("a distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia, é um dever moral", destaca).

E enxerga o capitalismo ("ditadura sutil" de uma "economia que mata", diz ele).

E enxerga o papel que, diante do grande capital ("esterco do diabo"), deve ter Governos e Estados no desenvolvimento humano e na transformação social ("mudança de estruturas").

E, principalmente, enxerga as feridas que a Igreja Católica tem que abrir, cutucar, curar e fechar -- Igreja que, para ser a imagem e semelhança da doutrina e fé cristã, é inevitável estar del otro lado del rio, do lado esquerdo do peito, como a "teologia da libertação" já anunciava (e que aqui e aqui, por exemplo, sempre defendemos).

"Sejam revolucionários!", não cansa de enfatizar o Papa, como o fez na homilia na magna missa na praia de Copacabana, no encerramento da Jornada Mundial da Juventude (v. aqui). 

Agora, na Bolívia (v. aqui), ele apenas resumiu parte da grande mensagem que até agora bem resume o seu Pontificado, dita há quase um ano no "Encontro Mundial dos Movimentos Populares" (v. aqui), no qual Papa Francisco afirma que "Terra", "Teto" e "Trabalho" são direitos sagrados, e que abaixo parcialmente reproduzimos.

Viva, sempre, Jorge Bergoglio!


-- x --
"(...) Eu estou contente por estar no meio de vocês.
Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo. Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas.
Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão.
Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada.
Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!
Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos.
Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar.
Isso é meio perigoso.
Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer. (...)
Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram... têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta!
Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco.
Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.
Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. (...)
Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho.
É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é "comunista".
Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. (...)
Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.
terra. (...) A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. (...)
Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral (CDSI, 300). (...)
Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.
Em segundo lugar, teto. (...) Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! (...).
Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos.
Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana.
Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.
Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, "sobrantes".
Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.
Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas.
Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. (...)
Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais.
Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos.
É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.
Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.
Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. (...)
Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.
Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal.
A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.
Eu os acompanho de coração nesse caminho.
Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.
Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós.
É como uma bênção de humanidade." 

"E tendo feito um chicote de cordéis, lançou todos fora do templo, também os bois e ovelhas;
e espalhou o dinheiro dos cambistas, e derrubou todas as mesas" (João 2:15) 




segunda-feira, 5 de outubro de 2015

# terra, trabalho e transformação



Voltar-se para o interior e para o campo não significa retrocesso.

Tão-pouco desvio esquizofrênico do ideário capitalista.

É, pois, uma literal saída pra Brasil desafogar as megalópoles, desacumular as grandes regiões metropolitanas e reorientar o caminho da massa pobre e desatinada do nosso interior.

Acontece que, embora como nunca antes feito  aqui o Plano Safra 2014/2015  e aqui um plano geral do negócio todo , o Brasil parece insistir que a solução está no agribusiness e que a "industrialização" do campo é a variável para se obter o melhor produto da equação.

Não, mil vezes não.

É claro que não se é contra a tecnologia, contra a eficiência e contra a produtividade do campo, em tantas áreas nas quais somos modelo mundo afora, sempre sob as rédeas da EMBRAPA, uma empresa pública referência mundial que pensa, fomenta e investe no desenvolvimento agropecuário nacional.

Entretanto, o "agronegócio" não é a melhor alternativa para se ajustar as crises de trabalho, de emprego e de renda mundo afora (e em nosso país), as quais provocam mazelas estruturais calcadas em especial na desigualdade e na violência, tão-pouco para se enfrentar as crises no âmbito alimentar e ambiental que mancham o globo.

E, atente-se, nem se está a falar da crescente praga dos clássicos latifúndios (v. aqui), cuja existência aos borbotões no nosso país é "é inaceitável eticamente aos olhos dos valores e doutrinas que pregamos", pois "nenhuma família pode estar sem casa, sem moradia digna" e "nenhum sem terra pode estar sem terra", afinal, "o latifúndio ser distribuído é uma posição ética”, resumiu assim o gigante Papa Francisco nos recentes encontros com os grandes líderes dos movimentos sociais mundo afora (v. aqui e aqui).

O negócio, pois, é entender que até este tradicional latifúndio está a mudar de cara, e hoje o diabo envolve as empresas transnacionais que atuam no "negócio", de modo a controlar o comércio e a produção agrícola-pecuária por meio de oligopólios financiados por bancos privados ou públicos que anulam a competição e a tradicional veia cooperativista deste meio, esfacelando toda uma rede rural -- este, pois, é modelo industrial que se chama "agronegócio".

Assim, a proposta deve ser concentrar todos os esforços e investir muito na agricultura familiar e na pequena e média propriedades rurais -- onde atuam 75% dos trabalhadores rurais e saem 35% do nosso consumo --, intensificando-se a mais plural e efetiva reforma agrária -- a nossa outra "revolução" (v. aqui, a outra) -- e elevando-se à altas potências planos, programas e projetos financeiros (PRONAF, crédito fundiário...) e não-financeiros (escolas agrícolas, agroecologia, cooperativismo...) que transformem a nossa realidade e o nosso futuro, com justiça social e sustentabilidade.

Afinal, é ali que se emprega e onde está a imensa parte da família rural brasileira.

É ali que se muda a perspectiva pobre e cinza de uma grande massa peregrina.

É ali que se criam oportunidades e se desalgemam das amarras do destino milhões de brasileiro com muita energia.

Com muita energia mas ainda sem luz.

E com a godiva Katia Abreu por perto.


"Food, Inc.", documentário que revela o tal do agribusiness e os latifúndios 2.0



terça-feira, 23 de junho de 2015

# alta fidelidade



Sou uma pessoas de listas.

De fazer listas para tudo, de tudo, com tudo.

Contudo, sempre atualizando, sempre remexendo, sempre cutucando para me convencer de que nelas não há engano.

Mas, de uns tempos pra cá, uma delas está a me perturbar muito.

É aquela que faço dos cinco maiores brasileiros vivos – o gênero é a praxe da língua –, na qual figuram, desde a morte do nosso genial Oscar, apenas Pelé, Lula, Chico e João Gilberto.

E diante dela, sem um dos nossos arquitetos do pensamento, relutava em fechá-la.

Entretanto, tem um pessoa que toda vez que vejo, que ouço ou que sei o que anda aprontando, me convence mais.

João Pedro Stédile, cérebro do maior movimento social do planeta – o MST – e um dos líderes globais da "Via Campesina", orgulhece o nosso país.

Aqui e aqui, as suas mais recentes missões, uma delas na Academia de Ciências do Vaticano, ambas a convite do Papa Francisco, para falar sobre a reinvenção da terra e os trabalhos dos sem-terra, inclusive nas áreas da educação e da agricultura, sempre desenvolvidas para o alcance de todos.

Nestas audiências com o Papa, as lições e ideias de Stédile serviram, inclusive, como base racional para a última e revolucionária encíclica papal, a Laudato sí (v. aqui).

Ainda, aqui apenas uma dentre as tantas ameaças de morte que este grande líder nacional tem sofrido -- e não percam, no vídeo, um já clássico discurso que recentemente fez contra a direita, trazendo à memória a clássica adjetivação de Evita Perón para os oligarcas argentinos; aqui, uma resposta ao que a elite racista e a direita acéfala tem insistentemente tentado dele falar, ainda mais quando, junto do MST, se aproxima dos governos progressistas latino-americanos.

E, por fim, aqui e aqui você pode saber o que grandiosa e verdadeiramente faz o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, sob a liderança histórica de Stédile.

Ele, em suma, é um sujeito gigante.

Mas a grande mídia, é claro, prefere associá-lo exclusivamente a um idiota qualquer que em algum ligeiro e tosco protesto queimou certos pés de rabanete no interior de um sítio bacana do rincão paulista.

Stédile, enfim, fecha a minha lista. 



Acima, o nó que Stédile insiste em desatar com os dentes.



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

# aspas (xlv)



No final de outubro, no Vaticano, ocorreu o "Encontro Mundial dos Movimentos Populares", presidido pelo Papa Francisco e com a presença dos representantes dos maiores movimentos sociais do planeta.


Do Sumo Sacerdote já falamos muito -- aqui, aqui, aqui e aqui, por exemplo --, mas nunca será demais.

A cada ato, a cada discurso, a cada gesto, a cada manifestação e a cada decisão como representante máximo da Igreja Católica ou como Chefe de Estado, Papa Francisco diviniza a nossa espécie, orgulhando-nos.

No seu discurso neste Encontro, centrou-se em três palavras: "terra, teto e trabalho".

E não titubeou em criticar o capitalismo, o neoliberalismo e a sociedade de consumo, bem como não se furtou a defender a economia solidária, as políticas públicas, populares e populistas e a reforma agrária (como inclusive aqui já o fizera, ano passado, novamente na presença do líder do MST).

Enfim, Papa Francisco não quer dourar a pílula, não quer manter aparências, não quer ser peça decorativa de uma civilização e não quer figurar como nota de rodapé da história -- afinal, quer seguir à risca o conselho que deixou aos jovens na última Jornada Mundial da Juventude: "Sejam revolucionários!".

Abaixo, trechos do que disse o magnífico Francisco.

Palavras, pois, a serem talhadas em muros mundo afora (aqui, na íntegra).


"(...) Eu estou contente por estar no meio de vocês.
Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo. Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas.
Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão.
Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada.
Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!
Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos.
Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar.
Isso é meio perigoso.
Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer. (...)
Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram... têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta!
Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco.
Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.
Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. (...)
Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho.
É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é "comunista".
Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. (...)
Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.
terra. (...) A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. (...)
Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral (CDSI, 300). (...)
Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.
Em segundo lugar, teto. (...) Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! (...).
Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos.
Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana.
Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.
Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, "sobrantes".
Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.
Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas.
Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. (...)
Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais.
Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos.
É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.
Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.
Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. (...)
Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.
Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal.
A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.
Eu os acompanho de coração nesse caminho.
Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.
Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós.
É como uma bênção de humanidade."

Os papas e um grande Fiel

segunda-feira, 22 de março de 2010

# a direita insiste: ódio&mentira


fds Embora já seja notoriamente considerada, mesmo por alguns dos seus ricos e cegos leitores, uma revista dégoûtant, o mais famoso e racista panfleto da direita -- a "Veja" -- vem à tona para novamente mentir, de forma a assim agradar a todos aqueles que a financiam -- nesse caso as turmas da CNA e de oligopolistas da região -- e evitar que os seus já parcos leitores abram os olhos.
fds Eis a nota oficial do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) -- já estampada nos grandes e independentes blogs e sites da internet, vez que na grande mídia, evidentemente, você não ficará sabendo... -- sobre a (pen)última mentira exposta nas páginas da edição desta semana do citado panfleto:
fds "1 - O MST do Pará esclarece que não tem nenhuma fazenda ocupada no município de Tailândia, como afirma a Revista Veja (“Predadores da floresta”) desta semana. Não temos nenhuma relação com as atividades nessa área.
fdsfds 1.1 - A Veja continua usando seus tradicionais métodos de mentir e repetir mentiras contra os movimentos sociais para desmoralizá-los, como lhes ensinou seu mestre Joseph Goebbels.
fds fds 1.2 - A reportagem optou por atacar mais uma vez o MST e abriu mão de informar que o nosso movimento não tem base social nesse município, dando mais um exemplo de falta de respeito aos seus leitores.
fds 2 - A área mencionada pela reportagem está em uma das regiões onde mais se desmata no Pará, com um índice elevado de destruição de floresta por causa da expansão do latifúndio e de madeireiras.
fds fds 2.1 - Em 2007, a região de Tailândia sofreu uma intervenção da Operação Arco de Fogo, da Polícia Federal, e latifundiários e donos de serrarias foram multados pelo desmatamento. Os madeireiros e as empresas guseiras estimulam o desmatamento para produzir o carvão vegetal para as siderúrgicas, que exportam a sua produção. Por que a Veja não denuncia essas empresas?
fds 3 - Na nossa proposta e prática de Reforma Agrária e de organização das famílias assentadas, defendemos a recuperação das áreas degradas e a suspensão dos projetos de colonização na Amazônia.
fds fds 3.1 - Defendemos o “Desmatamento Zero” e a desapropriação de latifúndios desmatados para transformá-los em áreas de produção de alimentos para as populações das cidades próximas.
fds fds 3.2 - Também defendemos a proibição da venda de áreas na Amazônia para bancos e empresas transnacionais, que ameaçam a floresta com a sua expansão predatória (como fazem o Banco Opportunity, a Cargill e a Alcoa, entre outras empresas).
fds 4 - A Veja tem a única missão de atacar sistematicamente o MST e a organização dos camponeses da Amazônia, para esconder e defender os privilégios dos verdadeiros saqueadores das riquezas naturais.
fds fds 4.1 - Os que desmatam as florestas para o plantio de soja, eucalipto e para a pecuária extensiva no Pará não são os sem-terra. Esse tipo de exploração é uma necessidade do modelo econômico agroexportador implementado no Estado, a partir da espoliação e apropriação dos recursos naturais, baseado no latifúndio, nas madeireiras, no projeto de exportação mineral e no agronegócio.
fds 5 - Por último, gostaríamos de comunicar à sociedade brasileira que estamos construindo o primeiro assentamento Agroflorestal, com 120 famílias nos municípios de Pacajá, Breu Branco e Tucuruí, no sudeste do Estado, em uma área de 5200 hectares de floresta.
fds fds 5.1 - Nessa área, extraímos de forma auto-sustentável e garantimos renda da floresta para os trabalhadores rurais, que estão organizados de maneira a conservar a floresta e o desenvolvimento do assentamento."
 
fds

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

# aspas (xxxi)



Joaquim Nabuco -- um dos grandes brasileiros da nossa história, motivo de tantas homenagens e comemorações neste ano do centenário da sua morte --, em 5 de novembro de 1884, em Recife, num discurso da sua campanha para deputado, já falava uma das grande verdades e necessidades do Brasil, ainda hoje insistentemente ignorada ou vilipendida pelo DEM/PFL/ARENA/UDN, pela OAB, pela CNA, pelos pré-modernos senhores feudais e pela grande mídia corporativa: a ampla e estruturada consecução da reforma agrária.

O nosso Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim -- o "maior chanceler do mundo", segundo matérias de alguns especialistas internacionais --, em recente conferência na Academia Brasileira de Letras, reproduziu trecho daquele histórico discurso de Joaquim Nabuco (v. aqui):

fdsfd“Não há outra solução possível para o mal crônico e profundo do povo senão uma lei agrária que estabeleça a pequena propriedade, e que vos abra um futuro, a vós e vossos filhos, pela posse e cultivo da terra. É preciso que os brasileiros possam ser proprietários de terra, e que o Estado os ajude a sê-lo.
fdsfdA propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra ao Estado.

fdsfdEu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões: a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão.



 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

# aspas (xxviii)



No seu "Conversa Afiada", Paulo Henrique Amorim repercute o discurso do Governador do Paraná, Roberto Requião, no qual disse, para espanto de alguns, que "autoridades não devem gozar de sigilo", que "água é bem público imprivatizável" e que "o MST é uma dádiva de Deus, pois encaminha uma juventude excluída para um trabalho de militância social e para arar um pedaço de terra".

Eis o post do jornalista (v. aqui):

- Com o MST eu converso, disse Requião.
- Eu encaminho reivindicações ao Governo Federal; eu faço uma escola.
- Com o crime organizado -- que seria a alternativa para a juventude excluída -- eu faço o quê?, perguntou Requião.
- No MST, alguns querem o socialismo e eles têm direito a isso.
- Outros querem um pedaço de terra.
- E outros querem vender a terra -- e são esses que empurram o MST adiante.
- Eu conversei com o Governador Requião sobre a Sanepar.
- Uma empresa de saneamento que Daniel Dantas privatizou e Requião tomou de volta.
- Requião, ao contrário do Presidente Lula, enfrentou Dantas.
- Requião disse que gostaria muito de ver Dantas na cadeia.
- E disse mais, sobre a batalha do Presidente do Supremo e o delegado Protogenes: Requião acha que autoridade não deveria ter direito a sigilo.
- A nenhum sigilo, muito menos o telefônico.
- Só não pode divulgar conversas íntimas, privadas; o resto, todo mundo tem o direito de saber.
- O homem público é público, diz Requião.



 

# causas (e homens) imprescindíveis


Eu discordo de Bertolt Brecht, quando esse disse que não há homens imprescindíveis, mas sim causas imprescindíveis.

Na noite de hoje, quando estive aos arredores da Lapa/PR como convidado para as cerimônias em comemoração aos 25 anos do MST -- o maior movimento social da América Latina -- e de encerramento do ano letivo na "Escola Latinoamericana de Agroecologia" (v. aqui), a qual está contígua ao "Assentamento Contestado" (v. aqui) e situada numa antiga fazenda escravocrata do séc. XIX -- em cuja estrutura há a forte presença do Estado, a oferecer o mínimo aparato educacional, tecnológico e de saúde aos assentados e aos estudantes --, percebi que, ao lado das causas e dos caminhos imprescindíveis, há, sim, homens imprescindíveis, ainda que, claro, substituíveis.

Na medida em que a história é uma construção tremendamente coletiva, na qual andamos e colocamos as nossas pedras, percebi que aqueles tantos homens e mulheres que dirigem, trabalham e pertencem aos projetos e movimentos sociais que anseiam a concretização da solidariedade, da igualdade e da liberdade são, sim, fundamentais.

E imprescindíveis para a reforma e a revolução do nosso país, para a nossa transformação na definitiva busca por justiça e desenvolvimento social.


 

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

# aspas (xxiv)



Um dos grandes problemas sócio-político-econômicos do Brasil, indubitavelmente, é a (falta de) reforma agrária, a qual voltou à ordem do dia em dos recentes momentos: (i) a discussão acerca da imprescindível e vital revisão do (antigo) ato normativo que regulamenta os índices de produtividades das terras -- v. aqui -- e (ii) a grande manifestação do MST, em acampamentos por várias capitais do país, a qual mereceu de Frei Betto, um dos grandes intelectuais do país, uma pontual análise, ora resumida (v. aqui).
 
   "A manifestação dos sem-terra reivindica do governo muito pouco, sobretudo se comparado aos incentivos oficiais concedidos a empresas que degradam a Amazônia e usineiros, que, em latifúndios, mantêm trabalhadores em regime de semiescravidão.
   É urgente assentar mais de 100 mil famílias sem-terra acampadas pelo país afora, sobrevivendo em barracas de plástico preto à beira de estradas. E cuidar das 40 mil famílias assentadas virtualmente, apenas no papel, pois aguardam, há tempo, recursos para investir em habitação, infraestrutura e produção. Nos últimos seis anos foram financiadas apenas 40 mil casas no meio rural. Também as escolas rurais necessitam, urgente, de recursos.
   O Brasil não tem futuro sem mudar sua estrutura fundiária. Nas três Américas, apenas Brasil e Argentina jamais fizeram reforma agrária. O detalhe é que somos um país de dimensões continentais, com 600 milhões de hectares cultiváveis.
   Dois problemas crônicos encontrariam solução se nosso país não tivesse tanta terra ociosa, como se constata ao viajar por nossas estradas ou sobrevoar nosso território: o desemprego e a violência urbana.
   Durante o período de acampamento estão previstos também debates sobre conjuntura agrária, clima e meio ambiente, energia, Previdência Social, juventude, comunicação, gênero e raça, além de atividades culturais e ato em comemoração aos 25 anos do MST.
   A manifestação, que imprime caráter cívico à data da independência do Brasil, tem por objetivo arrancar a população do imobilismo e ressaltar a importância de se fortalecerem os movimentos sociais para consolidar nossa democracia e conquistar soberania.
   A democracia não pode se restringir a eleições periódicas, que, por enquanto, permitem inclusive a candidatura de corruptos e réus de processos comuns. À democracia política é preciso aliar a econômica, de modo a reduzir a desigualdade social que envergonha o Brasil.
   Só assim conquistaremos o direito de ser um povo feliz."



 

quinta-feira, 23 de abril de 2009

# aspas (xiii)

 
Luiz Fernando Veríssimo assim se pronunciou sobre o MST, após os últimos acontecimentos:
 
   "(...) Mas há um assunto sobre o qual você talvez ingenuamente imaginasse que nenhuma discordância seria possível. A brutal evidência -- geográfica, cartográfica, literalmente na cara, portanto independente de interpretação e opinião -- da iniqüidade fundiária no Brasil, um continente de terra com poucos donos, era tamanha que durante muito tempo uma genérica "reforma agrária" constou do programa de todos os partidos, mesmo os dos poucos donos da terra. Era uma espécie de reconhecimento da injustiça inegável que desobrigava-os de fazer qualquer coisa a respeito, retórica em vez de reforma. O aparecimento do Movimento dos Sem Terra acrescentou um novo elemento a essa paisagem de descaso histórico: os próprios despossuídos em pessoas, organizados, reivindicando, enfatizando e até teatralizando a iniqüidade, para contestar a hipocrisia. A evidência insofismável transformada em drama humano.
   Pode-se discutir os métodos do MST, e até que ponto as invasões e a violência não dão razão à reação e não desvirtuam o ideal, além de agravar a truculência do outro lado. Mas sem perder de vista o que eles enfrentam: não só a injustiça que perdura, apesar de programas governamentais bem intencionados e de alguns avanços, como um Congresso recheado de grandes proprietários rurais, o poder político e financeiro dos agro-business e uma grande imprensa que destaca a violência mas sempre ignorou a existência de acampamentos do MST que funcionam e produzem, inclusive exemplos de cidadania e solidariedade. É a minha opinião."







 
 
 
 

terça-feira, 21 de abril de 2009

# pinocchiadas das trevas

 
fdsPela enésima vez, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) vê-se obrigado a esclarecer à sociedade as deslavadas mentiras patrocinadas pela TV Globo, em rede nacional.
 
fdsEis, na íntegra, a carta nacional -- que certamente não merecerá maior repercussão na grande e golpista mídia, nem mesmo como "direito de resposta" -- encaminhada pelo maior movimento social da América Latina, e que vem muito bem a calhar neste dia em que se comemora a data daquele mártir da República, outrora o maior:
 
fds"Em relação ao episódio na região de Xinguara e Eldorado de Carajás, no sul do Pará, o MST esclarece que os trabalhadores rurais acampados foram vítimas da violência da segurança da Agropecuária Santa Bárbara. Os Sem Terra não pretendiam fazer a ocupação da sede da fazenda nem fizeram reféns. Nenhum jornalista nem a advogada do grupo foram feitos reféns pelos acampados, que apenas fecharam a PA-150 em protesto pela liberação de três trabalhadores rurais detidos pelos seguranças. Os jornalistas permaneceram dentro da sede fazenda por vontade própria, como sustenta a Polícia Militar. Esclarecemos também que:fds1- No sábado (18/4) pela manhã, 20 trabalhadores Sem Terra entraram na mata para pegar lenha e palha para reforçar os barracos do acampamento em parte da Fazenda Espírito Santo, que estão danificados por conta das chuvas que assolam a região. A fazenda, que pertence à Agropecuária Santa Bárbara, do Banco Opportunity, está ocupada desde fevereiro, em protesto que denuncia que a área é devoluta. Depois de recolherem os materiais, passou um funcionário da fazenda com um caminhão. Os Sem Terra o pararam na entrada da fazenda e falaram que precisavam buscar as palhas. O motorista disse que poderia dar uma carona e mandou a turma subir, se disponibilizando a levar a palha e a lenha até o acampamento.
fds2- O motorista avisou os seguranças da fazenda, que chegaram quando os trabalhadores rurais estavam carregando o caminhão. Os seguranças chegaram armados e passaram a ameaçar os Sem Terra. O trabalhador rural Djalme Ferreira Silva foi obrigado a deitar no chão, enquanto os outros conseguiram fugir. O Sem Terra foi preso, humilhado e espancado pelos seguranças da fazenda de Daniel Dantas.

fds3- Os trabalhadores Sem Terra que conseguiram fugir voltaram para o acampamento, que tem 120 famílias, sem o companheiro Djalme. Avisaram os companheiros do acampamento, que resolveram ir até o local da guarita dos seguranças para resgatar o trabalhador rural detido. Logo depois, receberam a informação de que o companheiro tinha sido liberado. No período em que ficou detido, os seguranças mostraram uma lista de militantes do MST e mandaram-no indicar onde estavam. Depois, os seguranças mandaram uma ameaça por Djalme: vão matar todas as lideranças do acampamento.
fds4- Sem a palha e a lenha, os trabalhadores Sem Terra precisavam voltar à outra parte da fazenda para pegar os materiais que já estavam separados. Por isso, organizaram uma marcha e voltaram para retirar a palha e lenha, para demonstrar que não iam aceitar as ameaças. Os jornalistas, que estavam na sede da Agropecuária Santa Bárbara, acompanharam o final da caminhada dos marchantes, que pediram para eles ficarem à frente para não atrapalhar a marcha. Não havia a intenção de fazer os jornalistas de “escudo humano”, até porque os trabalhadores não sabiam como seriam recebidos pelos seguranças. Aliás, os jornalistas que estavam no local foram levados de avião pela Agropecuária Santa Bárbara, o que demonstra que tinham tramado uma emboscada.fds5- Os trabalhadores do MST não estavam armados e levavam apenas instrumentos de trabalho e bandeiras do movimento. Apenas um posseiro, que vive em outro acampamento na região, estava com uma espingarda. Quando a marcha chegou à guarita dos seguranças, os trabalhadores Sem Terra foram recebidos a bala e saíram correndo – como mostram as imagens veiculadas pela TV Globo. Não houve um tiroteio, mas uma tentativa de massacre dos Sem Terra pelos seguranças da Agropecuária Santa Bárbara.fds6- Nove trabalhadores rurais ficaram feridos pelos seguranças da Agropecuária Santa Bárbara. O Sem Terra Valdecir Nunes Castro, conhecido como Índio, está em estado grave. Ele levou quatro tiros, no estômago, pulmão, intestino e tem uma bala alojada no coração. Depois de atirar contra os Sem Terra, os seguranças fizeram três reféns. Foram presos José Leal da Luz, Jerônimo Ribeiro e Índio.
fds
7- Sem ter informações dos três companheiros que estavam sob o poder dos seguranças, os trabalhadores acampados informaram a Polícia Militar. Em torno das 19h30, os acampados fecharam a rodovia PA 150, na frente do acampamento, em protesto pela liberação dos três companheiros que foram feitos reféns. Repetimos: nenhum jornalista nem a advogada do grupo foram feitos reféns pelos acampados, mas permaneceram dentro da sede fazenda por vontade própria. Os sem-terra apenas fecharam a rodovia em protesto pela liberação dos três trabalhadores rurais feridos, como sustenta a Polícia Militar".
 

segunda-feira, 9 de março de 2009

# ai...

fdsfdAlguns colegas advertem que a última sentença da nota pública divulgada pela "Comissão Pastoral da Terra" (v. abaixo) deveria incluir o repúdio salvador a outro repugnante ator, o qual funciona como caminho essencial e natural para as patranhas do Judiciário: o dotô adevogado.
fdsfdEstão absolutamente certos e repletos de razão: "Que o Deus da Justiça ilumine nosso País e o livre de juízes como Gilmar Mendes" -- e, se deve complementar, "de advogados como há às pencas nesta terra!"
fdsfd
fdsfdA Coordenação Nacional da CPT diante das manifestações do presidente do STF, Gilmar Mendes, vem a público se manifestar.fdsfdNo dia 25 de fevereiro, à raiz da morte de quatro seguranças armados de fazendas no Pernambuco e de ocupações de terras no Pontal do Paranapanema, o ministro acusou os movimentos de praticarem ações ilegais e criticou o poder executivo de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica ações ilegais. Cobrou do Ministério Público investigação sobre tais repasses. No dia 4 de março, voltou à carga discordando do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para quem o repasse de dinheiro público a entidades que “invadem” propriedades públicas ou privadas, como o MST, não deve ser classificado automaticamente como crime.O ministro, então, anunciou a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é presidente, de recomendar aos tribunais de todo o país que seja dada prioridade a ações sobre conflitos fundiários.fdsfdEsta medida de dar prioridade aos conflitos agrários era mais do que necessária. Quem sabe com ela aconteça o julgamento das apelações dos responsáveis pelo massacre de Eldorado de Carajás, (PA), sucedido em 1996; tenha um desfecho o processo do massacre de Corumbiara, (RO), (1995); seja por fim julgada a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho, em Unaí, MG (2004); seja também julgado o massacre de sem terras, em Felisburgo (MG) 2004; o mesmo acontecendo com o arrastado julgamento do assassinato de Irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA) no ano de2005, e cuja federalização foi negada pelo STJ, em 2005.fdsfdQuem sabe com esta medida possam ser analisados os mais de mil e quinhentos casos de assassinato de trabalhadores do campo. A CPT, com efeito, registrou de 1985 a 2007, 1.117 ocorrências de conflitos com a morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda dados parciais, são 23 os assassinatos). Destas 1.117 ocorrências, só 85 foram julgadas até hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra preso. Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade, ou fugiram da prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou morreram.fdsfdCausa estranheza, porém, o fato desta medida estar sendo tomada neste momento. A prioridade pedida pelo CNJ será para o conjunto dos conflitos fundiários ou para levantar as ações dos sem terra a fim de incriminá-los? Pelo que se pode deduzir da fala do presidente do STF, “faltam só dois anos para o fim do governo Lula”... e não se pode esperar, “pois estamos falando de mortes” nos parece ser a segunda alternativa, pois conflitos fundiários, seguidos de mortes, são constantes. Alguém já viu, por acaso, este presidente do Supremo se levantar contra a violência que se abate sobre os trabalhadores do campo, ou denunciar a grilagem de terras públicas, ou cobrar medidas contra os fazendeiros que exploram mão-de-obra escrava?fdsfdAo contrário, o ministro vem se mostrando insistentemente zeloso em cobrar do governo as migalhas repassadas aos movimentos que hoje abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos dos seus assentamentos, que conseguiram, com sua produção, elevar a renda de diversos municípios, além de suprirem o poder público em ações de educação, de assistência técnica, e em ações comunitárias. O ministro não faz a mesma cobrança em relação ao repasse de vultosos recursos ao agronegócio e às suas entidades de classe.
Pelas intervenções do ministro se deduz que ele vê na organização dos trabalhadores sem terra, sobretudo no MST, uma ameaça constante aos direitos constitucionais.
fdsfdO ministro Gilmar Mendes não esconde sua parcialidade e de que lado está. Como grande proprietário de terra no Mato Grosso ele é um representante das elites brasileiras, ciosas dos seus privilégios. Para ele e para elas os que valem, são os que impulsionam o “progresso”, embora ao preço do desvio de recursos, da grilagem de terras, da destruição do meio-ambiente, e da exploração da mão de obra em condições análogas às de trabalho escravo. Gilmar Mendes escancara aos olhos da Nação a realidade do poder judiciário que, com raras exceções, vem colocando o direito à propriedade da terra como um direito absoluto e relativiza a sua função social. O poder judiciário, na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo para atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento ou omisso em face das justas reivindicações destes. Exemplo disso foi a veloz libertação do banqueiro Daniel Dantas, também grande latifundiário no Pará, mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias, inclusive de tentativa de corrupção.fdsfdO Evangelho é incisivo ao denunciar a hipocrisia reinante nas altas esferas do poder: “Ai de vocês, guias cegos, vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo” (MT 23,23-24).fdsfdQue o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre de juízes como Gilmar Mendes!