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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

# que só tem o sol que a todos cobre



Por que ainda vivemos em um país com índices de desordem relativamente baixos?

Por que não vemos diuturnamente arrastões, avalanches, explosões, sangue e tsunamis de quebradeira e violência pelas praças, praias e pradarias das polis, eminentes sobreviventes dos espaços públicos das nossas cidades?

O olhar e olfato comuns, sob o senso midiático, faz acreditar que estamos todos sofrendo igual.

Mentira.

É a favela e a periferia que vivem sob o diário domínio do medo, num caos e com a selvageria aos borbotões, intrépida e incessantemente batendo às suas portas, dos dois lados: "mocinhos" e "bandidos" atiram para matar.

E, ora, aqui era para ser diferente: isso aqui era para ser muito pior.

Era para ser uma Síria em todos os lugares, uma Faixa de Gaza a todo tempo – e não apenas nas nossas Sírias e Faixas de Gaza de sempre.

Afinal, arromba a retina a brutal e catastrófica desigualdade no Brasil, uma distância medida a anos-luz entre nossos dois mundos, entre as nossas duas cidades-realidades.

Duas sentenças resumem bem este estado de coisas e nos permitem refletir os porquês: primeiro, com Noam Chomsky, quando diz que "a grande maioria da população não sabe o que está acontecendo e sequer sabe que não sabe"; depois, com Leonardo Boff, ao dizer algum tempo atrás que "se os pobres soubessem o que estão preparando para eles, não teríamos ruas suficientes para tanta luta". 

De um lado, ricos, brancos e encastelados em uma vida fidalga que vagueia por um consumo hedonista e que se desbunda na busca da maximização da boa vivência, com seus umbigos como centro de tudo.

Do outro, um contingente de pobres e pretos emputecidos com o cotidiano dantesco que margeia a miséria e que faz suar sangue em busca da mínima sobrevivência, umbilicalmente ligados ao nada periférico.

No primeiro Brasil, a nobreza goza um padrão de vida superior ao daquela parte de um planeta em que o padrão é todos terem, a gozar de uma vida cheia, com mais ou menos exageros – esta nossa elite é a máxima elite de países ricos.

No segundo, a malta estropia-se sob uma ordem social semelhante àquela dos parturidos nos bolsões onde o vazio impera e cujos padrões de desprezo e descaso são, sem exagero, simplesmente trágicos – esta nossa gente é aquela gente das regiões mais miseráveis do planeta.

Por isso repito: neste nosso Brasil, uma desigualdade tão atroz e abismal deveria produzir catarses diárias, inconsequentes e revolucionárias, ataques incondicionais e diuturnos, em todo canto e a cada minuto da madrugada.

Mas não só do outro lado, na terra feita de ninguém para "subcidadãos", no chão batido do subúrbio e sob os tetos de zinco das favelas onde tentam sobreviver contra a violência do Estado, da milícia, do narcotráfico, da sociedade... enfim, contra tudo e todos.

Por isso não falo desta luta; falo do "caos".

E não de um caos particularizado, daquele no qual está mergulhada a massa brasileira invisibilizada.

Eu falo do amplo e generalizado caos.

Sim, o Brasil seria digno de sofrer sob trevas e escuridão infindáveis (v. aqui).

Afinal, não estamos a tratar de nações uniformemente pobres, igualitariamente miseráveis; somos, ao contrário, a sétima maior economia do mundo na qual pulula uma diferença social avassaladora, uma disparidade econômica ultrajante e uma dessemelhança humana quase pecaminosa.

Em suma, falamos de polos positivo e negativo, de dignidade e indignidade, de tudo e nada convivendo juntos, lado a lado, com poucos choques, com poucos sentimentos e com pouca mescla.

E mesmo assim o Brasil de cartão-postal (ainda) não se vê em frangalhos, não é atingido pela pulsante guerra no seu interior e não revela uma revolta bélica – a não ser o de "classe" – incapaz de aceitar este nosso tradicional estado de coisas.

Bem se sabe que há espaços urbanos onde, tal qual na órbita do grande capital, vigem códigos de conduta e ética de convivência alternativos, sob o império da legalidade à la carte, à mercê de regras e instituições paralelas que fazem destas áreas nossas múltiplas sírias.

Mas, mesmo assim, fora destes outros mundos, no "centro" não se nota a descortinação do Direito.

Não se vê a ameaça constante por parte dos excluídos sobre os superincluídos, não se vê a multiplicação de Robins Hoods do bem e do mal – como aqui lembramos – e não se verifica a atuação costumeira de rebeldes sociais em busca do brioche nosso de cada dia, certamente preocupados em tentar comer as migalhas do pão que o diabo amassou.

E por quê? Por que esta bomba-relógio insiste em não explodir nuclearmente? Qual o freio inibitório desta nossa gente?

Há o argumento "policialesco", pela mais ou menos agressiva (e burra) presença da força militar no meio das comunidades pobres miseráveis, que mata para impor uma pseudo-ordem e fantasia uma ordem matando. Uma ordem que aprisiona na ilusão da liberdade e prende a torto e a direito para acabar com sonhos e vidas. Mas será que este medo é suficiente para não encorajar a rebeldia da transgressão, haja vista o que está em jogo para toda a abandonada ralé?

Depois, o argumento "religioso", pela fé divina no comportamento honesto que leva à salvação, ou "bíblico", sob a tese já anunciada no Gênesis, naquele longínquo sexto dia ("e criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou"), e com isso temos visto tudo quanto tinha feito, e com isso tem nos parecido que, apesar de tudo e de todos, é muito bom. Ora, se por um lado é muito metafísico para suportar toda a carência real de tantos milhões de cidadãos sem nada e absolutamente entregues à própria sorte nascitura; certamente, por outro lado, o estratégico papel das igrejas neopentecostais na formação psíquico-ideológica deste gente tem lhes abastecido de esperanças para a realização das suas necessidades físicas, o que lhes exige como contraprestação a cessão do corpo e da alma traduzida em obediência e ordem.

O "familiar"? Talvez, mas, não sejamos ingênuos: como os pais, os filhos e e todos os espíritos de outros exemplos intramuros haveriam de ser páreos para tudo o que se vê ao redor de luxo e luxúria?

O "pessoal" e "histórico-antropológico", ou seja, o ethos assente em proposições como a cordialidade, o adoçamento e outras raízes? Balela, eles até ajudam a esclarecer algumas coisas a partir do ofendido, mas nunca do opressor, basta ver o nosso imenso ranço e amargor de quinhentos anos da mais vil exploração.

O "prático-político", pela própria maneira que os progressistas encaram as potenciais chamas de rebelião, geralmente não participando da organização e contestando parte do repertório mais radical que se costuma adotar em manifestações e mobilizações contra a ordem vigente, e assim freiam uma real escalada do caos, unindo-se à fala conservadora? Talvez.

O "educacional" e "cultural", pela ausência de consciência da sua condição e da realidade nacional, resumida na ideia de alienação que faz deste povo incapaz de compreender a estrutura e as engrenagens da nossa sociedade e de se organizar politicamente, e a partir disse rebelar-se? Sim, mas há tantos outros sítios mundo afora com base educacional-cultural similar mas com outra resposta popular. Ademais, a grande massa não pode ver na educação, no trabalho e na vida obreira dos seus pares fontes (e pontes) para o futuro, muito provavelmente incapazes de tirá-la do chão de miséria, de assegurá-la as mais básicas necessidades e de atender ao consumismo platinado que tanto incita o desejo felino de ter para ser.

O "Estado Democrático de Direito", a "Carta Magna", os "códigos", as "consolidações" e os "comitês" de marchas, sindicatos e circos? Um pouco, um pouco, quase nada.

Mas, além, creio que isso tudo possa estar resumido numa ideia maior, absolutamente abrangente (e talvez simples): a "dominação ideológica" tão enraizada nestes trópicos, na qual o dominado não se vê nessa condição e compartilha da "visão de mundo" do dominador, sublimando a luta de classes para em grande medida fatalizar o futuro, aceitar o presente e  naturalizar o passado.

Algo que, talvez, só assim ajudasse a melhor compreender o sentido pouco notado da nossa imagem e semelhança divina.


A centelha da vida



terça-feira, 20 de março de 2018

# vitrines e espelhos: a vertigem hipersocial



A cada dia se nota a constrangedora evolução dos hábitos e do comportamento humano, demasiadamente humano, no universo das relações sociais da internet.

Em cada detalhe, em cada gesto, em cada canto, em cada esquina virtual, mais e mais pessoas parecem insistir em não entender o espírito da coisa – como aqui destacamos sobre uma das ágoras pós-modernas, o twitter, o qual é por muitos usado, infelizmente, ou como palanque de tipos celenterados que antes rastejavam pelos porões urbanos e que agora buscam ali seus 140 caracteres de fama, ou como um divã onde ácaros e anêmonas despejam seus recalques e frustrações.

Ou então, e muito mais perigoso, o tal do facebook, uma máquina de destruição social em massa e o maior big brother orwelliano jamais imaginado do planeta Terra

O que leva a massa a desabrochar seus sentimentos, vidas e vontades, tudo e a todo instante, em rede mundial, na busca de ver e ser visto  eis, então, a princípio, a cultura do grande irmão, trazendo seres que rompem continuamente a sua privacidade, os seus dados, a sua alma.

Só porque você encontrou aquele sujeito que nem se lembrava, lá da quarta série, acha bacana? Ou somente porque você é fã daquele seu amigo superbacana acha interessante derramar algumas palavras ali, na tela, bacana? Ou será que toda essa gente se engana ou então finge que não vê?

Ora, para que me interessa saber o que fulanos, beltranos e cicranos fazem das suas vidas? 

E o que dizer do “perfil” que cada um oferece: gosto de ler nietzsche, sou parda e simpática, tenho aracnofobia e uso pasta dental crest menthol extra-light, como produtos etiquetados postos em vitrine para consumo ou deleite?

As pessoas têm amigos e relacionamentos que permitem e velam por tal abertura, por tais (re)conhecimentos, por tais intimidades recíprocas... agora, fazer desse clubinho uma vitrine humana, que nos fazem reféns diários de novos contatos, de um encarniçado networking e de mais números entre parêntesis é certamente execrável. 

E, então, eis que surge o maior caos, o caos social, que vai sim, rechear-se de demagogia, de hipocrisia, de superficialidade, de mecanização das relações. 

E como piora, se degrada e não tem fim o poço da falta de razão com que se apresentam, à toa, atochadas numa casca de noz que representa um universo da falta de noção.

Ou, pior ainda, da sobra de vaidade, de auto-estima, de "autoemesia".

Neste terremoto civilizacional das tais redes sociais, como, pior ainda, o instagram, um contingente incrível que se tatua online para tentar tatear a própria realidade – e até estes dias, acreditem, a onda era o selfie after sex.

E assim avoluma, avulta, vaza e entope cada carótida das teias nervosas da rede uma imensa gente com os seus auto-retratos, seus pós-retratos ou os retratos autônomos das suas vidas que vivem de descartes, do que se tem que fazer ou ter e do que está out ou in, conforme as bancas de revista e as coca-colas da vida anunciam e dita a "modernidade líquida" de Bauman.

O "nada" adquire poderes sobrenaturais: o ar respirado, a comida engolida, o visto dos olhos, tudo se motiva para entrar na esfera do público, para o público, pelo público  e até os pêlos tornam-se públicos.

A exposição é gratuita, é ordinária, é vazia e é cheia de uma futilidade que assombra, em versões digitais e sociais da mais rasteira lenda narcisista. 

Ora, intriga-me saber o quê e como se enxergam estas pessoas, que no mais simples, cotidiano e mesmo íntimo ato da vida fazem máxima questão de, num quase ato de extrema-unção, colocarem-se à mostra para o fim abençoado da plateia.

Uma "vitrine humana", desnecessária e sem sentido, como aqui já falamos, numa época em que a moda era outra passarela.

Vê-se espelhos pra cá, poses pra cá, pratos acolá, abraços com micos, emas e estátuas vivas, tudo é visto, selado, registrado, carimbado e explicitamente disposto se quiser voar para a boca e olhos de todos, para consumo mundial, vinte e quatro horas no ar.

É a vida à la carte, a vida em pedaços, a vida fatiada e servida nas suas melhores partes, num banquete enfetichezado.

Eis a máxima: “o que não está postado no mundo da redes sociais não está no mundo”, prega esta gente com os seus luxuriantes frames, quadros e quadrantes, na profunda patologia do barulho e da irrelevância do tudo.

Ou, como diria o filósofo Guy Debord e a sua "sociedade do espetáculo", o hiperreal é onde está a verdade.

E isso tudo aliena, enfastia, engana e finge-se natural, fruto de uma geração que se empanturra com uma curtição alheia, acrítica, aviltada, atabalhoada, sofrida, sôfrega, quase sonâmbula, típica de quem anda está perdido na caverna platônica.

Não sei, talvez essa gente toda esteja afundada após mergulhar na entorpecida imagem refletida na lagoa.


Ou, então, no vácuo da psyché pobre e vazia que faz cada um "ser" somente naquele ato ou naquele objeto fotografado e espalhado para o mundo.


Para assim seguirem, etiquetados e diariamente presos num estranho processo que faz corar qualquer iluminista do séc. XVIII.

Até que, um dia, enfim uma maioria perceba do que é feita esta árvore da vida  e mais, de que os seus envenenados frutos nunca recompensaram.

E aí voltaremos a sentir, a pensar, a dialogar.

Voltaremos a ser.



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

# o fim de um tabu



Núcleo justificante da picaretagem dessa "intervenção" do bando vampiresco, a violência no Rio tem boa parte das suas amarras no narcotráfico, ainda que hoje ele esteja se especializando em outras áreas, mais lucrativas.

Por isso urge enfrentar a fundo e debater a sério a questão das "drogas", definitivamente uma das pautas estruturantes do nosso presente e futuro social.

Que fique claro: deixá-las às sombras e à escuridão, rotineiramente fabricadas, trazidas e montada pelos esgotos das cidades, habitualmente distribuída e comercializada por ratos, corvos e bandidos e invariavelmente consumida a doses industriais em todas as festas, campings e circos da Oropa, França & Bahia, é de uma insensatez sem tamanho.

Os estudos, as pesquisas, os dados, os dossiês, os astros, as bulas, os espelhos, os evangelhos, os orixás, tudo aponta para a irracionalidade da sua proibição.

Como aquiaqui, aqui e aqui já enfatizamos, há muita base e respaldo científico (interdisciplinar e multinacional) para afirmar que, jamais desprezando os seus múltiplos malefícios, a maconha não pode receber um tratamento diferente daquele dispensado às outras maiores "drogas sociais" (álcool e cigarro), ainda mais prejudiciais e viciogênicas – eis aqui, um documentário definitivo deste tema.

Ora, não são poucos os estudos científicos das Ciências Sociais que concluem: a criminalidade nos nossos morros e periferias exsurgem, em sua quase unanimidade, pela cotidiana guerra a envolver "chefões", a "polícia" e a "comunidade", a revelar o fascínio e a submissão que esta tem diante dos primeiros  haja vista as recompensas e a pressão que recebem , eis, pois, a difícil equação e estéril solução para que a segunda (ou, diga-se, o "Estado") não se subjugue à corrupção dos primeiros e não se desfaleça diante do medo da segunda.

Ora, não são poucos os estudos científicos da Economia que concluem: um mercado fechado, com oferta escassa e demanda latente, com o mais absoluto dos entraves mercantis a "proibição" na sua comercialização , traz como consequências lógicas a supervalorização do produto, a superacumulação de lucros, a superestruturação de negócios paralelos (e, claro, ilegais) e a superexploração da mão-de-obra empregada (leia-se, aqui, a disputada empregabilidade em setores ilícitos e imorais).

Ora, não são poucos os estudos científicos da Medicina que concluem: a maconha é muito menos maléfica  porquanto causa menos dependência e afeta com muito menos dano o nosso organismo  do que o cigarro (aquele com nicotina e uma centena de componentes químicos) e o álcool (aquele responsável por um número avassalador de mortes, em especial no trânsito); e mais, atestam o seu uso terapêutico para diversas doenças, maiormente àquelas relacionadas ao sistema nervoso.

Ora, não são poucos os estudos da Psicologia que concluem: não há relação absoluta entre o uso da maconha e o uso subsequente, p. ex., da cocaína ou do crack, vez que uma ínfima parte dos usuários da erva são seduzidos e caminham para a dependência de drogas pesadas  ou seja, é falsa a "lógica" de ser uma droga de passagem; ademais, os estudos mostram que o acesso e a relação do jovem com o "proibido" estimula o contato com o mundo da criminalidade e da perversão, vez que não há meios sociais de obtê-la senão pelos meios obscuros e (mais) perigosos.

Ora, não são poucos os estudos do Direito que concluem: o direito fundamental à intimidade e à privacidade e a autodeterminação do indivíduo são espaços imune à interferência estatal  desde que não ofenda patrimônio jurídico alheio , o qual deve abdicar-se da imposição de padrões e de moralismos que não violam valores sócio-jurídicos; ademais, há flagrante ofensa ao princípio da proporcionalidade (adequação e necessidade) e, ainda, flagrante ilegitimidade na proibição da maconha, nos moldes de hoje, a partir do instante em que a sua ofensividade atine, concretamente, apenas à saúde do próprio indivíduo, não havendo lesividade a bem jurídico de terceiro.

Ora, não são poucos os estudos da Ciência Política que concluem: a questão não é de segurança pública, mas, sim, matéria de políticas sociais ligadas à saúde e à educação. Combater a droga, na forma de guerra civil, canabalizada  e malfadada, é não-política, inútil e, pior, contraproducente, que não mitiga um claro poder paralelo havido nas periferias, desestabilizando o Estado.

Ora, a História mostra que não apenas os padrões comportamentais da sociedade levam para o reconhecimento de costumes morais ou não, legais ou não, mas, principalmente, os interesses das classes dominantes do Estado, que veem ser mais ou menos interessante admitir ou não certas condutas e certos fatos; logo, e por isso, as bebidas alcóolicas e o cigarro (aquele com nicotina, benzeno, fósforo, naftalina, amônia etc.) são  e quase sempre foram  permitidas em boa parte do mundo, enquanto a maconha é criminalizada e vista como algo satânico.

A questão, pois, parece se sustentar em contas mal feitas acerca dos custos públicos da medida – e de um erro crasso na solução desta public choice, que trata o problema da maconha como questão de polícia e segurança pública, e não de saúde pública; ou, então, em aspectos metafísicos, meio dogmáticos, meio carola, tese reducionista de uma turma puritana que acha o baseado simplesmente uma coisa do capeta.

E é, se continuar a ser monopólio do crime organizado, a causar milhares de mortes todos os anos e a custar milhões em aparato e corrupção policialescos.

Mas acredito no bom senso e no progresso da Política e do Direito, com a revisão e a transformação de ideias e ideais.


Como, por exemplo, a liberação controlada, selada, carimbada, registrada e fiscalizada do cultivo e distribuição da maconha – e de modo ainda mais rigoroso do que acontece com fármacos, álcool e tabaco.

Afinal, a guerra contra o narcotráfico é uma estupidez, uma cretinice monumental.



quarta-feira, 1 de março de 2017

# trem-fantasma



E atrás do trio elétrico só não vai quem não pode pagar.

Mais uma vez o Brasil avaliza, tacitamente, um desserviço à sua gente.

A triste realidade que pouco encanta nos quentes trópicos da adorada Bahia finalmente clama e já não mais se desengana por um revigorado programa: o lampejante e autofágico fim de um modelo, um modelo até então assente nos versos de Caetano que dizia "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu".

Concomitante a todos os efeitos do (ultra)capital no (hiper)consumo que assolam a sociedade e se consolidam na "constituição cultural", em Salvador -- e urbi et orbi? -- tem-se privatizado o carnaval, a deixar que apenas uma ínfima minoria permita-se pagar, entrar e, como se pisasse em chão de esmeraldas, ir atrás de um trio elétrico, enquanto a massa fica, perifericamente, na agonia espremida e distante, d´além corda, vendo do milimétrico e abafado lado de lá a vitrine passar.

De um passado que buscou justamente oferecer ao povo quatro dias de festa e então propiciar à senzala momentos de "alegria, alegria" tal qual àqueles gozados nos salões da casa-grande, o cotidiano traz um festival de preceitos privatistas e elitistas: sim, o fim veio a galope e, enfim, parece ter transformado a máxima festa do povo em um vil mercadoria, bem ao gosto da turma bem-cheirosa conservadora.

Hoje, pode-se notar que se pratica na capital baiana um outro gênero da segregação, um apartheid social, que faz o carnaval, se visto a olhos puros, parecer um baile aristocrata, com a nobreza bem definida, alva, cuidada e protegida ao centro e os serviçais carcomendo-se pelos lados, pelo cantos e pelos subterrâneos das ruas.

Com vestimentas e cordas, escolhe-se o "bom" e o "mau", separam-se "gregos" e "troianos", segrega-se o "sangue azul" do "sangue quente", divide-se o "branco" do "preto', aponta-se erradamente o "joio" do "trigo".

Com "abadás" -- vestes para identificar o bem e o mal -- e "cordeiros" -- seres humanos que são pagos, com trocados, para juntos segurarem as "cordas" que envolvem e separam os eleitos do resto) -- pretende-se expor toda uma população que inventou, criou, fez e se apaixona à barbárie de ruas e ruelas congestionadas e inescapáveis e à selvageria de fazê-la disputar a tapas os centímetros quadrados do espaço público, uma vez que tudo (percurso) e todos (segurança) ficam reservados à fidalguia intracordas, com benesses, bar e banheiro exclusivos.

Com preços exorbitantes e convites vip, retorna-se ao tempo de suseranos e vassalos, de corte e plebe, de homens e de ratos, pois, em prol da burguesia sulino-paulista ou do mass media, alija-se o povo daquelas suas terras, das suas ruas e da sua festa.

E quem ganha com isso?

Os homens de black-tie, as "pessoas muito importantes", empresários, políticos e, não se esqueça, os músicos, os quais jogam banana e cospem os seus chicletes na cara do povo, uma vez que hipocritamente tergiversam a esfoliação praticada por aquele show business, outrora um simples "carnaval de rua".

Com urgência, antes de uma possível catástrofe urbana ou de um motim popular já saturada ou intransigentes diante da indecorosa realidade, os órgãos e as empresas estaduais precisam se movimentar.

Devem, pois, reassumir as rédeas delegadas ao mercado e promover a sequiosa regulação e reorganização dessa grande festa, pois, diante da imperiosidade e da inalienabilidade do espaço e do interesse públicos, deve-se rechaçar a usurpação e a capitalização que, infelizmente, hoje caracteriza a maior folia da terra.

Em Salvador, ao invés de trios elétricos, o que se forma é um horrendo trem-fantasma.


quarta-feira, 15 de junho de 2016

# licor de jenipapo



Sucupira é aqui, meus senhores.

Sucupira é hoje o Brasil, e que me desculpe o novelista Dias Gomes com seu "plágio" mal acabado.

Afinal, dia após dia o nosso país produz um universo dramatúrgico sem igual, com pessoas cujas atitudes são absolutamente surreais, a fazer valer a eterna frase de que a realidade é mesmo insuperável  como, talvez de modo inigualável na nossa História, naquele funesto domingo de abril, que há de ser sempre lembrado (v. aqui).

Bem, deixemos de lado os "entretantos" para partir aos "finalmentes".

Vejam este vídeo, aqui, sobre a Câmara Municipal de Campinas  atenção, não se está a falar de alguma ilhota de algum afluente da margem direita do Rio Amazonas, mas da segunda maior cidade de São Paulo  e notem a suprema semelhança dos ínclitos vereadores com o folclórico Odorico Paraguaçu.

Vejam isso aqui, sobre o direito de ser idiota em público, a rechear uma manifestação equina e bovina de um bando (ou cavalaria, ou manada, ou cáfila, ou qualquer outra coletividade irracional), e percebam a íntima identidade das suas ações com o jeitão das Irmãs Cajazeiras, dentre outras figuras de Sucupira. 

Vejam, aqui, mais um dos tantos episódios de doidice, de alienação e de estupidez avistados pelas arborizadas ruas brasileiras, os quais revelam uma gente cujo nível faria engasgar o esquisito Dirceu Borboleta, o sóbrio Nezinho do Jegue e o alucinado Zelão das Asas.

Leiam isso aqui, sobre as fofocas não fofocadas por pseudo-ouvintes que não ouviram uma inventada conversa e, a partir dela, todo o novelo interpretativo (e lunático) que metafisicamente se constrói.

Leiam aqui, sobre um jeito pouco (demasiadamente pouco) humano  eu diria, no mínimo, abominável -- de contestar e reprovar um homem público, mas que não foi levado em consideração no momento do seu próprio velório.

Leiam aqui, sobre como um picareta, perante o complacente Poder Judiciário, desdiz uma delação para de novo delatar, criando a jabuticabal "delação da desdelação", cujo modus operandi insiste em merecer o apoio do magistrado de plantão.

E mais, e mais, e mais... pois sobre toda a epopeia golpista de dinossauros, mercenários e amarelinhos,  avolumam-se notícias num ritmo delirante e que escancaram o mofo que insistem em borrifar sobre o estado brasileiro e o escracho geral de um rocambolesco enredo.

Afinal, o poço não tem fundo para serem vistos "tipos" e promovidos "atos" sempre tão surpreendentes, como se produzidos às custas inversas daquele bem-amado licor de jenipapo, agora desencadeador dos espíritos mais moralizantes (e reacionários) da sociedade.

Mas, antes de se chegar até lá, faz-se a hora de se construir não um cemitério para o afundamento dantesco  como assim queria o velho Odorico , mas um "hospício" no qual se consiga embutir toda esta gente que se cancera pelas orlas brasileiras.

Serão essas pessoas, pois, as nossas salsichas.



sábado, 11 de junho de 2016

# romantismo de calendário



Das tantas esquisitices sedimentados pelo mundo, vasto mundo, este negócio de "dia dos namorados" – como, na mesma onda, "dia" das mães, dos pais, da vó, do irmão etc. – é um dos mais estapafúrdios.

Não fosse o contagioso apelo mercantil – que insiste em se espraiar por tudo que é canto e circunstância da vida –, qual seria a razão de se fixar um "dia" para isso?

Depois dos anos dourados da nossa adolescência, os sujeitos precisam se esforçar muito, inclusive entre si, para entender e extrair algum valor disso.

E, atenção, não se está a falar de valorizar mais ou menos o negócio (!), mas, simplesmente, de desconhecê-lo, desconjurá-lo, excomungá-lo – caso fosse abusar do vernáculo diria que a coisa não se discute no "plano da validade", mas no da "existência".

Trata-se, pois, de um engodo, sem noção e reflexão, e de uma ciranda, nauseante e impúbere, sob a qual milhares de casais medusicamente rodam e se fartam, hoje ainda no alucinógeno ritmo das redes sociais.

Ou algum sentido há em mover mundos e atravessar fundos para lotar lugares ao lado de outros tantos mil pombinhos erguendo desumanos (ou demasiadamente humanos) brindes?

Ora, o amor, a paixão, a alegria, o carinho, a devoção, o tesão, a comunhão e a entrega total à vida amada festejam-se diuturnamente, no dia a dia, numa segunda-feira, num dezembro, num castelo, num sofá, num samba, num circo, no seco, no frio, na chuva, nos porres, na gripe, na cama, na praia, na varanda, na gangorra, na fila do cinema, num banquete na cozinha, num pico da neblina, num lavar-de-louças, no caminho da areia de uma praia deserta, em qualquer canto de qualquer momento, ao natural, simples, espontaneamente, comme il faut.

Tudo, pois, longe, muito longe, da regra de hábitos tabelados para uma data criada do nada e para o nada – ou para o tudo fetichizado da moda comercial e vulgar.

O que, portanto, faz o gesto plastificado, pasteurizado, pleonástico. 

E torna o momento vazio e como água em estado gasoso: incolor, inodoro e insípido

E soa, enfim, como um mugido de testemunha de presépio, na busca frenética de se cumprir à risca a agenda e os ritos contados pela narrativa das vitrines e dos vizinhos. 

Tudo bem cronometrado, datado, selado, registrado e carimbado – se quiser voar por entre as curtições mais ou menos virtuais.

Como bem-me-quer o costume, é claro.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

# anos incríveis



Reconheço que desconheço todo o repertório de Joe Cocker, britânico do blues e do rock´n roll que há pouco tempo morreu.

Mas uma música eu bem conheço -- e ela me é suficiente para dizer que conhecia Joe Cocker.

"With a Little Help from Friends", a canção que explodiu o domingo mais hippie da história, para mim -- que lá esteve apenas em sonhos e viagens surreais -- sempre foi mais do que a grande canção daquele terceiro dia em Woodstock.

Afinal, ela é a eterna música que abre o segundo maior seriado de todos os tempos (depois, claro, deste aqui...).

Falo de "Anos Incríveis", que chegou nas telas da TV brasileira logo no início dos anos 90.

Ele tratava das angústias, das dores, das dúvidas, das desilusões, das conquistas, das paixões, das alegrias e, principalmente, da família e dos amigos de um guri de quase 13 anos -- idade essa que, com o andar das temporadas, ia aumentando, assim como ia envelhecendo quem assistia.

Kevin -- o guri -- e a sua trupe viviam no agitado EUA do final dos anos 60, época em que o mundo entrava numa roda lisérgica de cultura e contracultura, liberdade e repressão, sexo e canhões, drogas, paz, torturas e amor.

Eu -- um guri -- vivia com minha trupe numa outra realidade de tempo e espaço, mas num mesmo momento em que tudo começava a acontecer, a ter forma, a ter cheiro, a ter gostos e desgostos.

A vida, pois, já começava a não ser tão doce.

Kevin e eu, tolos como sói acontecer para mancebos naquela fase, víamos tudo com os olhos de pirraça -- em matéria de olhar as coisas éramos, pois, quase como Capitus e os seus "olhos de ressaca".

Movíamos sob a contestação intransigente da vida em casa e a discussão absoluta com pais e irmãos.

O pai deixava de ser o máximo herói para se ter os superamigos do colégio; a mãe, tinha seu amor roubado pela certeza absoluta da eterna paixão pela menina da sala do lado ou da cantina do recreio; e as irmãs, figuras marginalizadas de uma intratabilidade que se pensava obviamente obrigatória.

Eram assim as certezas de quem saía para o mundo e que tinha no lar uma montanha-russa de amor e ódio, de respeito e revolta, de ninho e túmulo.

E na série da TV quem estava ali era eu, e não Kevin, na ilusão de que a semelhança dos casos e dos diálogos com a própria realidade era exclusividade minha, algo bem típico de quem nesta idade crê que o mundo gira em torno de si, como aqui já lembramos.

Neste fim de noite revendo alguns dos episódios, miro-me na nostalgia exemplar daquele meu tempo.

E para tantas coisas -- inclusive aquelas da montanha-russa do convívio caseiro --, as lembranças são espetaculares, de momentos incríveis de uma época que se poderiam bem repetir por sei lá quantas vezes.

Agora, se por nada trocaria todo aquele tempo em que sempre tive o pai herói, a mãe guardiã e as minhas irmãs como as eternas parceiras desta vida.

Também por nada trocaria esta realidade ao lado da mulher amada e dos meus filhos.

Lá e cá, todos anos incríveis.






quarta-feira, 1 de junho de 2016

# uga-uga



Não entendo de muitas coisas, muitas.

Uma delas, e a qual tem me causado uma certa angústia, é o jeito e a dinâmica desse negócio  de redes sociais, uma doente vitrine humana (v. aqui).

Talvez por não ser muito ligado à elas  tenho apenas um tímido perfil no twitter, nunca estive no ~face~ ou no ~insta~ e não uso whatsapp , acho bem estranho, por exemplo, os desenhinhos que pululam por todos os cantos, colorindo as conversas on-line constrangedoramente e que mais parece um processo de reinfantilização ou um retrocesso às cavernas.

Saramago, pouco antes de morrer, já disse isso, ao se deparar com o hábito pós-moderno da comunicação (v. aqui), e realmente parece que regredimos a ponto de, daqui a pouco, voltar a nos comunicar por “grunhidos”.

O gosto, ora, é imenso por essa nova modalidade de arte rupestre: são “carinhas com sorriso” para dizer, por exemplo, obrigado, são “palmas estaladas” para falar, simplesmente, parabéns, são “polegares para baixo” para falar não gostei... parece-me, pois, a bancarrota da comunicação escrita.

Por quê?

Dia desses dois bons amigos comentavam a loucura do “twitter” e seus pistoleiros mastodontes à caça de homo sapiens (v. aqui).

A mim, meio curumim nisso, me parece que boa parte desta mais nova ágora pós-moderna funciona mezzo como um palanque para tipos celenterados que buscam ali seus 140 caracteres de fama, mezzo como um divã para verdadeiras anêmonas despejarem seus recalques e frustrações, tudo sempre sob uma lógica funcional ausente de racionalidade e de crítica, sem corpo e sem eco, finada em si, numa tola ilusão de que podem alcançar os seus destinatários.

Em ambos os casos, mero reflexo disentérico de uma gente capenga, de quengas incapazes de construir ideias e, principalmente, de aceitar a conversa, a dialética, de querer ouvir, de saber falar e de ousar pensar, unidimensionalmente movida pelo instinto narciso de posar ou covarde de ofender.

Portanto, se não está a gritar debilmente, esta massa está despejando palavras sem pés, sem mãos, sem cabeça, sem tronco, sem nada, simplesmente pelo "prazer" de comentar, retrucar, dar pitacos sobre o que não parou segundos para refletir, num arraial de frases feitas e burras que apenas revelam para o mundo quem são (seus valores) e o que representam (seus fetiches).

Claro que não pretendo qualquer ruptura no avanço tecnológico que tão bem faz na dose certa das nossas necessidades – inclusive para aquelas que ainda nem criamos... –, como também não imagino que todo bate-papo informal deva exigir teses, ritos e uma pomposidade medieval.

Contudo, o abuso no uso dos meios virtuais e o repúdio à falta de inteligência e de decência no trato com tantos involuntários interlocutores devem merecer máxima atenção.

E, por vezes, o recuo neste campo de jogo e o pujante silêncio diante dos indesejados ataques de ratos e rampeiras que se escondem no anonimato formal ou material da internet sejam as melhores soluções.

Afinal, estricnina e antirrábica só funcionam, por ora, no mundo real.



segunda-feira, 23 de maio de 2016

# ivo viu a uva



Roda cotia, de noite, de dia, o galo cantou e a casa caiu.

E eis que a ciranda dos amarelinhos muda o tom, muda o som.

Chega de fúria? Chega de atirar o pau no gato?

O que fazer agora que restou claro porque o golpe é golpe?

Com todas as letras, com todas as vírgulas e com todos os pingos nos is, ei-lo muito bem desenhado, dissecado e destrinchado, como numa necropsia, pelo bisturi de um dos mentores do processo: Romero Jucá (PMDB), o onipresente -- v. aqui.

É o cadáver do golpe, ali, deitado, frio, nu, com as vísceras expostas ao sol do meio-dia, sob os olhos de meio mundo.

A frase que resume tudo é, francamente, pornográfica: "Enquanto ela [a Dilma] estiver lá, essa porra [a Lava-Jato] não vai parar nunca", diz Jucá -- hoje Ministro do interino Temer, foi ministro durante três meses no Governo Lula e foi sacado por suspeita de crimes (v. aqui) --, dando o veredito dele e de alguns ministros do STF.

Com a gravação telefônica -- por que nada foi feito e só agora vazada, se ela é de março? --, a arquitetura e os elementos desta ópera bufa ficam na vitrine, para vermos ali, escancarado, em todos os detalhes: 

(i) que a ideia de tirar Dilma é para interromper as investigações e estancar esse papo todo de combate à corrupção;
(ii) que o novo governo vai, num "acordão", fazer ruir a Lava-Jato;
(iii) que com auxílio da velha mídia, a pauta dos noticiários será outra;
(iv) que tem dedos do STF no arranjo golpista;
(v) que o PSDB co-liderou a tramoia e tem salvo-condutos na MPF e no Judiciário; e 
(vi) que todos eles têm muito medo do que Lula e as ruas mobilizadas são capazes.

E resta a questão: como e por onde andará aquela matilha que praguejava contra Dilma, Lula, PT e uma ideia de esquerda no poder, todos esses símbolos magnânimos do eixo do mal, aquele feito de corruptos e incompetentes e em cujo ritual está comer criancinhas?

Bem, esse negócio de vergonha, de ter vergonha na cara, é claro muito relativo.

Mas já é um tal de enfiarem a cabeça na terra ou de fingirem “não é comigo” que torna a situação ainda mais constrangedora, como aquele sujeito que solta um pum em público.

Sim, pelas ruas, pelo trabalho e pelas redes sociais, um silêncio eloquente e que rubra a face destes personagens: parece que tenho em volta um bando com as mãos amarelas.

Incrível, isso.

Afinal, jamais essa turma, mais ou menos golpista, poderia acreditar que, em onze dias, (quase) tudo viraria pó.

Pirlimpimpim, e não mais que de repente fez-se a luz.

Ou, como num Segundo Dia por Ele desenhado, tem-se o firmamento.

Só que às avessas.

E em pouco mais de uma semana, caiu o mundo na República Federativa da Ordem, do Progresso, de Deus, da Família e da Propriedade.

"Ué, a gente não estava batendo panela para acabar com a corrupção?", se perguntam. "Cadê os cavaleiros da Távola Redonda que nos levariam para o Brasil sagrado?", indagam os adoradores do faz-de-conta contado pela Vênus Platinada. "E que horas o Aécio assume?", uns mais incautos hão de querer saber.

Nada estranho, extinguiram-se os comediantes de ocasião, aquela turma que fazia chiste do momento do país, fazendo graça de ver rasgada a Constituição, como se no espelho a cara gozada não fosse a sua.

Fingiram-se de mortos, rolaram, sentaram, deram as patinhas, foram atrás das bolinhas e, bem adestrados, jamais ousaram se soltar das rédeas que os amarravam à narrativa burlesca do "impeachment".

Ô, amarelinhos... agora não cola o papel de assoviar olhando para o nada e fazer cara de tundra.

Vamos: gritem, chiem, suem, estrebuchem-se na realidade.

Encarem a situação, não queiram posar de isentões e lamentem a sério a canalhice que ajudaram a promover: sim, vocês puseram no poder o que há de mais podre no reino da política brasileira, que atua com fim em si mesmo e sob as pautas e os programas mais reacionários do planeta.

Afinal, quem mandou fantasiar o gigante para se levantar contra a ordem democrática, contra as regras do jogo de um Estado de Direito?