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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

# só resta uma certeza



A tragédia da morte é sempre trágica porque é uma tragédia.

Cristão talvez fajuto, não consigo imaginar uma morte sequer que não se qualifique como trágica.

Não consigo, pois, deixar de encarar o fato como um ato de foice a ceifar a vida – e nele, neste fatídico fato, foi-se a seiva elaborada da vida.

É lógico que o inesperado, o acaso, o infortúnio, o funesto da morte abrupta espanta e tonteia.

Mas como admitir uma hierarquia entre o desespero do acidente fatal, a angústia da contínua e crescente perda e a extrema dor da última despedida, como assim pungia um de meus maiores amigos cuja querida mãe velava nesta quinta-feira?

Logo, a mim o que enlouquece é a loucura de que aquela pessoa – "de repente, não mais que de repente", poetizaria Vinícius – não estará mais contigo, não estará mais ali, junto, ao lado, ao longe, ao muito longe, enfim, fisicamente presente podendo ser abraçada, tocada, beijada, vista e ouvida a qualquer momento, numa visita ou num telefone qualquer.

Custa-me muito querer entender tudo isso – e olha que não faltam conversas, reflexões, aulas e exemplos dos mais variados tipos, formas e gostos acerca desta ideia, como aqui  aqui já tratei.

Já pensei, vejam só, que o ideal seria nascermos com esta certeza: prazo de validade tatuado na bochecha.

E assim, como velas, íamos aos poucos apagando, apagando, apagando... mas logo penso no caos prático disto, afora, claro, toda a filosofia religiosa que se propõe a garantir um sentido disso tudo aqui e que, então, passaria a não ter significado e valor algum.

Portanto confesso ainda não aceitar o fato de ser "a única certeza da vida". 
Nem a desculpa sobre a tal "ordem natural das coisas" é capaz de sensibilizar-me quando o caso envolve os nossos velhos. Tão-pouco a tese do "destino divino" me conforta para as excepcionais situações.

Insisto, assim, em ser pragmático num assunto que nunca se encaixará no pragmatismo.

É, portanto, um problema de estrutura e método, e ao mesmo tempo de especulação do ser, cuja associação não consigo compreender, tal qual nas cartesianas "meditações metafísicas".

Ou, então, ideia assente nos pontos de vista da "vontade" e da "representação", nos quais Schopenhauer pretendia defender a tese da indestrutibilidade da nossa essência. 


Para o filósofo alemão, a preocupação com tão breve espaço de tempo – com este "intermezzo momentâneo", com esta “mediação de um sonho efêmero de vida” –  e com este apego à vida é irracional e cega.

Eu, porém, insisto em não admitir porque não me imagino aceitando, como num passe de lógica, nunca mais viver com as pessoas que tanto amamos, as quais, num qualquer segundo seguinte, se vão como um "sopro", diria Oscar.

Calma, lá nos céus da vida eterna haverá o definitivo (re)encontro... não, não, a minha fé, ainda que hesitante, assegura a vida eterna – a Vida –, mas não que vou ter com as pessoas amadas, viventes comigo aqui na efemeridade deste plano.

Até, quem sabe, realmente trate-se de ser mais ou menos espiritualizado, mais ou menos teológico, católico e cristão.

Mas, para além, também se trata de não aguentar não se acabar em prantos para o fato de que todas essas pessoas que tão íntima e intensamente convivemos passarão a não mais existir.

Ora, ora, por que então amamos tanto e tanto estes seres que nasceram e viveram conosco?

É por isso que às vezes gostaria mesmo de ter nascido filho de chocadeira.

Para depois viver no eterno celibato de um monge ermitão.


Sozinho, como uma vela.



quinta-feira, 30 de junho de 2016

# nascentes e poentes


A distância provoca-nos sempre a refletir.

E se é comum lamentarmos que não estamos vendo as nossas crianças crescerem, máximo lamento acomete também para quando não estamos vendo os nossos pais envelhecerem.

Pode ser profundo isso, pode ser uma filosofia de araque ou pode ser apenas reflexo da incompatibilidade da relação espaço-tempo a que me submeto.

Como a física proíbe a presença real de corpos materialmente distantes, não notamos que o tempo para as nossas crianças e para os nossos pais incumbe-se de transformá-los em novos corpos, crescidos e recolhidos, agigantados e enrugados, numa dinâmica natural que desobedece a ordem que tanto gostaríamos.

E por não querermos ver este tempo passar, inconscientemente nos escondemos dos seus marcadores, dos seus símbolos, dos seus sinais.

Porém, à surdina, eles fazem questão de chegar, como se quisessem nos fazer ouvir o uivo pungente dos seus incansáveis passos.

E, de repente, a vasculhar por um armário à procura de um livro esquecido, vejo-me na mão com uma ampulheta e brinco de ver o tempo.

Cuco, de pulso, de parede, da torre, da igreja, em todos esses você pode até conseguir despistar o avanço a galope dos segundos e esquecer.

Entretanto, do escorrimento arenal da ampulheta não se escapa, cuja marca da passagem do tempo é de clara e destemida tirania.

Ali, sem filtros, é a vida que corre, que escorre, implacável e intransigente como uma onda sísmica do mar.

Por isso, ao olhar para as fotos expostas sobre a bancada do escritório, hei de confessar: para não ver este tempo correr, recolheria toda a areia do mundo.

Com ela, montaria um nababesco e indefectível castelo onde viveríamos para sempre – e onde seríamos as múmias mais felizes da Terra.

Porém, se com as nossas crianças o curso é promitente, repleto de expectativas, com múltiplos sabores e num retilíneo movimento para o alto e para avante, com nossos pais é tudo mais cru e mais cruel, pois a progressão geométrica da velocidade da parábola em queda livre é cruciante.

Pois é, as nossas crianças vêm, os nossos pais vão... é o vir e o ir, desoladamente inconjugáveis, como aqui e aqui esboçamos.

E me pergunto: afinal, quantas vidas serão precisas para viver tudo o que necessitamos viver com algumas pessoas que tanto amamos, antes delas crescerem e antes delas se despedirem?

Não sei, mas posto que me fio na ideia de uma só, estilhaço-me na realidade.

E ela escancara o quão rápido tudo está a passar.



quarta-feira, 10 de junho de 2015

# playmobil



E ontem tivemos a notícia da morte do pai dos playmobils (v. aqui).

Lendo-a lembro do menino que em mim se foi, trazendo agora da memória os tantos anos em que meu universo misturava-se naqueles míticos bonequinhos de plástico.

Eu era índio, médico, pirata, pedreiro, xerife, bombeiro, mágico.

Eu era todos, e por tantas longas tardes neles eu materializa as amizades invisíveis que sempre criei.

Enfrentei tropas montadas, prendi bandidos, salvei vidas, descobri tesouros e da cartola tirava todos os meus sonhos que diziam ser impossíveis.

Era a época de tudo simples: ali, bastava trocar o figurino ou a personagem do enredo para então mudar toda a realidade, e ali viajava por velhos oestes, mares, circos e hospitais.

Não via o tempo passar, e numa grande e vazia sala daquela casa passava horas construindo meus mundos, peça a peça, sob a lógica arquitetada por um piá de 6 anos e os olhos de um bigode adulto.

Mas o tempo passa.

E a cada dia mais rápido, vai levando as nossas vidas.

Como levou a do pai dos playmobils, cujo momento merece-me um certo luto.

Afinal, a perda do pai de grandes amigos é sempre muito triste.

Por isso, na próxima viagem à Curitiba levarei meus pequenos filhos a tiracolo na visita que farei às caixas onde todos repousam, num dos armários dos quartos da casa onde cresci – e levarei meu pai junto, é claro.

Como talvez poucos deles ainda me reconheçam  ah, a minha voz e os meus cabelos... –, é pelo fiel grito do meu pai – que desde então nada mudou– que um a um será chamado para então podermos apertar àquelas plastificadas mãozinhas em gancho como nosso sinal de pesar e de acolhida.

Bem, sinceramente já não sei quantos deles lá restarão.

Mas sei que muito do que mim resta ainda está guardado entre eles, na forma de saudade dos longos anos da minha querida infância.



Alguns dos meus visíveis amigos de infância



domingo, 24 de agosto de 2014

# rebenquear

 
 
Dizem que se morre de saudades.
 
No meu caso, acho que prefiro morrer a sentir saudade.
 
Provavelmente alguém já disse isso, se não disse, é porque nunca a sentiu.
 
Sentir a saudade dói porque não cura nem com a sua ausência: não existe "não-saudade" como medida terapêutica.
 
Isso porque nunca não se tem saudade, não importa o tempo em que se fique junto.
 
E não se enganem: a convivência é cruel porque ilude, porque fantasia uma eternidade que não dura senão aqueles momentos, sempre breves, sempre intensos.
 
E quando menos se espera, há a separação, há a distância, e tudo volta à normalidade de alguém sempre rebenqueado das saudades.
 
Saudades, pois, que não podem ser medidas, nem repostas.
 
Para o que só há respostas na arte dos finitos reencontros – e, por isso, a saudade pode sim ser tocada, afinal, a cada momento antes das partidas pegamos, abraçamos, beijamos e tateamos quem vai nos deixar.
 
Até que para ela voltamos, e dela somos inescapáveis.
 
É esta a dimensão absurda da saudade.
 
Que açoita, açoita, açoita, açoita.
 
E nunca para.
 
 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

# despedida do tempo


Duas premissas um tanto quanto óbvias: um cão não é um ser humano e dezesseis anos não são dezesseis semanas. Isso posto, porém, não imaginaria que pudesse vir a duvidar disso.

É que num destes insólitos fatos corriqueiros da vida, enquanto hoje eu cavava uma cova para no quintal da minha antiga casa enterrar o cachorro da família, na memória carregava aqueles dois temas – cães e tempo.

E chamar as coisas pelo que elas são provoca, por isso, uns mal-entendidos.

Embora tenha desmedida racionalidade no trato com os animais de estimação, hei de confessar que a perda deles, estimados no cotidiano, superestimados na dedicação, faz o nome dado soar meio estranho.

Soa menos racional, soa menos "animal" – a morte, meus caros, não soa natural e, por isso, um cão tão velho é por vezes menos um bicho envelhecido de estimação e mais um estimado membro antigo da família.

São quase como aqueles tios-avôs, enrugados, de bengala, que já andam pouco, que já pouco vivem, mas que sempre estão por ali, nos eventos, nas festividades, calados num canto na expectativa da morte lhes chegar.

E vendo a cena que preparava para o nosso cão, impossível não me lembrar do tempo.

De pá e enxada à mão, pés descalços já cobertos de terra e grama, não via apenas o buraco dos meus gestos de cavar ir aumentando.

Ali, na minha memória daquele quintal, templo da minha infância, via aumentar o drama de ver os anos voarem.

E, ao contrário do que se diz, era eu – e não o cão – quem ali sentia o tempo multiplicado por sete.

Era eu um cão engarrafado numa ampulheta em queda livre, em gravidade sétupla, sobra indefectível da inflação cósmica que nos consome.

Via, perdido na minha máquina do tempo, toda a vida de criança naquele espaço, como criança também foi aquele pequeno cachorro quando naquela nossa casa nasceu.

Hoje, para enterrado e enterrador, a vida adulta passou e passa a passos largos, inexoravelmente largos – e a única criança era a que ali estava ao meu lado, abraçada em lágrimas às minhas pernas.

Era Gabriela, minha afilhada, num choro de quem dava incompreensível adeus pela primeira vez na vida.

Ali, lembrei que por vezes um cão pode valer por um ser humano, e que dezesseis anos podem parecer não mais do que dezesseis semanas.

E o tempo, assim, vai se despedindo da gente.