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quarta-feira, 16 de março de 2016

# aos berros



Estamos em novembro de 1992, na cidade de Curitiba, e se vê um Ginásio Oswaldo Cruz abarrotado para a final do campeonato juvenil de basquete.

Era mais do que um Atletiba.

Era Colégio Marista Santa Maria vs. Colégio Positivo, a maior rivalidade desportiva da capital, numa noite em que se via o "time dos livros" dar uma surra no "time das apostilas".

Tínhamos um timaço, liderados pelo gigante Fernando Sanches, o maior treinador de basquete que a terra das Araucárias já viu.

Sim, o título estava encaminhado, para frustração do elenco positivista, que lentamente sucumbia aos quase vinte pontos de vantagem do nosso escrete. 

Chega o último quarto e já no começo o inusitado: com o descuido dos dois (!) policiais que faziam a segurança, das arquibancadas lotadas surge um senhor para invadir a quadra.

Aos gritos e gestos, eu logo vejo que era o Sr. Vanderlei Barreto, carismático diretor do Positivo e pai de um grande colega adversário.

Vanderlei entra chutando tudo, indo em direção aos árbitros e, com dedo em riste, os acusando de ladrões, canalhas, vendidos e outros epítetos menos nobres. 

Ninguém conseguia segurar o astuto dirigente na sua inventada e nada santa ira. 

E mais tumultos, confusão na mesa, os jogadores avançam na arbitragem, um empurra-empurra generalizado, os treinadores quase se digladiando e, finalmente, depois de quase 10 minutos, os policiais aparecem para intervir. 

E o jogo reinicia.

E o resto é história: o Positivo vira, vence e é campeão.

Ano seguinte, vejam só, aceito o convite do Colégio Positivo, recebo uma bolsa de estudos e me transfiro para o (ex-)arquirrival, a fim de melhor aliar o esporte com o vestibular. 

Fui acusado de tudo e por todos, mas assim foi e, depois de 10 anos de Santa Maria, iniciei 1993 em outro lugar colégio.

E eis que no primeiro dia de aula, como se desembarcando na Normandia, logo que adentro ao prédio da Desembargador Mota, quem avisto, ao longe

Ele, Vanderlei Barreto.

E ele também me vê. 

E, lá do outro lado, já atravessando o pátio em minha direção, no meio daquele mar de estudantes, ele inicia, aos berros: 

- "Gava! Gavaaaa! Gavaaaaaaaa! 

E um silêncio geral e todos os olhos em minha direção.

E um grito pelo meu nome que se ouvia lá das margens do Parque São Lourenço.

E ele continuava:

Gavaaaaaaaaa! Ganhei no grito!! Ganhei no grito!! Ganhei no grito!!...".

E assim permaneceu urrando, por longos 5 minutos, para delírio da fanática plateia -- e assim fazia, sempre que me encontrava, junto com um caloroso abraço. 

Bem, agora estamos em 2016.

E desse modo, também no "grito", uma porção de calhordas e alienados, a reboque dos veículos de comunicação e súditos do grande capital, insiste na convulsão nacional, por meio da caneta de aluguel de um "caçador de marajá" de toga e de um processo de "impeachment" sem fundamento legal.

Na mão grande, sem democracia, sem voto, sem soberania e sem a autodeterminação do povo, a mesma turma de sempre quer o golpe.

A canalhice  que se tenta criar e mostrar como verdade visa, apenas, com a chegada do presidente Lula na chefia da Casa Civil, a por fim na potencial ressureição do governo Dilma.

E assim a oposição se articula para agir de modo singularmente sórdido, exatamente do tamanho do ódio que a direita sente pela ordem democrática e social vigente no país desde 2002 e, atenção, principalmente pelo enorme temor da elite sempre que nota algum "perigo". 

Ora, órfãos daquele estado para poucos e com uma estrutura institucional colonial, atuam de modo tresloucado na criação de fantoches, de factoides e de um fanatismo atroz, à revelia da lógica, do bom senso e, em especial, do direito.

Às claras, a manipulação dos fatos para deglutição da classe média alienada tenta enfiar goela abaixo o fim de um Governo eleito e das suas políticas em curso, como aquelas que se sustentam no lema "Pátria Educadora", foco crucial para a transformação do Brasil.

É, no seu estado mais puro, um teatro de sombras (v. aqui).

Para, enfim, que tudo seja resolvido na base do grito e sob os mais esdrúxulos e falsos motes: Deus, pátria, família e pedalada fiscal.

Faz-se, pois, a cavalgada do golpe.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

# lado a lado



O recente feito do Rivaldo -- sim, aquele do penta -- e do seu filho, ao disputarem juntos um jogo da 2ª divisão brasileira e fazerem os gols da vitória do seu time, não foi daqueles de apenas fazer história -- e de ser muito mais significativo do que aquele próprio penta (v. aqui).

Foi, para além, um daqueles negócios de enxaguar a retina, de lavar a alma e de revelar, mais uma vez, o que o futebol é capaz.

Eu, bem, eu não sei ao certo quando foi a última vez que joguei futebol com o meu pai.

Deve ter sido lá no ótimo campo da Chácara Lunardon, nos arredores de Colombo, região metropolitana de Curitiba, onde por anos, nas noites de terça-feira, muita gente se reuniu para jogar bola, assar carnes e trucar.

E isso faz tempo.

Mais do que o tempo, custa-me lembrar porque, infelizmente, jamais acreditamos no tempo, e neste descrédito não marcamos as nossas passagens, desleixando os pequenos grandes fatos da vida.

Afinal, não imaginamos -- ou duvidamos -- que os momentos, que quaisquer momentos, podem ser os últimos.

E numa daquelas noites de terça-feira, de um mês qualquer de um ano que já não posso imaginar, tive com meu velho a última partida de futebol.

Ele era um camisa 2 moderno e de garba elegância, um lateral direito com refinada técnica, apurada visão e, como assim deve honrar todo bom jogar nascido e criado no Sul do Brasil, daqueles que perdiam um joelho mas não perdiam uma dividida.

Carlos Aberto Torres? Não... o capita que me desculpe, mas nunca houve um lateral direito melhor que meu velho.

Recordo, como se fora hoje, do seu chute, da sua precisão nos cruzamentos e, diria Nelson Rodrigues, da sua saúde de vaca premiada que nem as doses industrias de nicotina abalavam -- às favas, a modéstia (e as advertências rotuladas pelo Ministério da Saúde).

Entre nós, a onda era sempre jogarmos juntos, burlando legitimamente os sorteios da pelada que porventura insistisse em nos separasse.

Entretanto, não tinha maré mansa: no mais das vezes saíamos discutindo, na vitória ou na derrota, e como se num divã seguíamos, até chegar em casa, bicudos e em filosóficas resenhas sobre um lateral mal batido, um toque mal feito ou um arremate mal calculado.

E toda terça-feira o espetáculo era o mesmo -- no fundo, claro, adorávamos tudo isso.

Até que tivemos uma última terça-feira.

Nela, o meu velho certamente já deveria revelar o peso da idade, da barriga, dos pulmões, dos músculos e dos tendões.

Nela, eu certamente já deveria ter crescido mais, revelando menos paciência, menos obediência e menos gosto por aqueles programas atípicos para quem, pelos olhos dos 20 anos, tinha o fetiche do mundo à disposição. 

Mas, vejam só, a graça da memória é que ela não nos costuma trazer a débâcle daquilo que sempre idealizamos.

E por isso não guardo estes últimos dias da nossa despedida dos campos.

Guardo, sim, aqueles outros momentos: nós, em grande forma, vestindo os meiões à beira do campo, amarrando nossas chuteiras pretas, trocando longos lançamentos enquanto aquecimento e, claro, jogando juntos.

Jogando e discutindo, jogando e rindo, jogando e compartilhando a existência a cada lance, a cada minuto, perto, lado a lado.

São essas algumas das imagens que melhor cuido, armazenadas como relíquias da minha história.

E são imagens como essas que um dia também ouso ver, num mesmo palco da bola, junto com Benjamin e Santiago.

Salve, o futebol.




terça-feira, 28 de julho de 2015

# aranha verde



Orgulhoso dos dias e noites a vestir rubro-negro e a acompanhar, in loco ou não, o amado clube da Baixada, tinha cá pra mim que aquela quarta-feira nada mais seria senão uma outra noite de futebol para se ver na tv, indolente, na companhia do meu também atleticano pai.

Era 1985 e eu, de muita tenra idade, tinha o futebol como o meu mundo, e assim já era capaz de entender o mundo pelos olhos de um jogo de futebol.

Entretanto, à época, a inocente infância ainda impedia de sofrer na torcida pela desgraça da equipe que ali, numa inusitada final de campeonato brasileiro,  estia verde-e-branco.

E naquela noite e naquele palco pude confirmar que estava a ver um dos grandes jogadores da minha história de futebol.

Que baita atuação, meus senhores.

Soberba, deslumbrante, de encher os olhos de um piá ainda imaculado por quaisquer dos pecados capitais que poderiam proibir de enxergar, no arquirrival, um craque de bola.

A pegar tudo -- ou quase tudo, pois um repicado chute acabou entrando --, aquele sujeito com tipo de vilão de faroeste americano tornou-se o grande responsável pelo resultado final daquele jogo.

E não no naquele, mas de tantos outros daquele torneio de 85.

Um desempenho magistral, homérico, digno de lhe valer uma placa, um busto, uma estátua, um caminhão de bombeiro só para ele -- um Alto da Glória só para ele.

Afinal, ora, não apenas "gols" deveriam merecer tais homenagens, mas também a sua antítese, pela magnânima arte, também lhes é credor.

Ali, naquele jogo, com cada vez mais coragem e competência, parecia um muro vivo, gigante, octópode.

Mais do que isso, parecia a encarnação de alguma divindade abençoada pelos supremos deuses das metas.

Por cima, por baixo, ao longe, de perto, à direita, da esquerda, pelo centro, do corner, pela frente... os milagres deslumbravam a mim e a todo o estádio que contra ele torcia.

Já era um mito, e não só na terra da futura aranha marrom.

Um mito nacional, eterno, impávido e colosso.

Num dos maiores goleiros que vi jogar, Rafael Camarota, a minha homenagem aos coxas, neste aniversário de velhinhos 30 anos daquele título cuja lembrança me foi comovidamente trazida aqui, no ultimo domingo. 



quarta-feira, 10 de junho de 2015

# playmobil



E ontem tivemos a notícia da morte do pai dos playmobils (v. aqui).

Lendo-a lembro do menino que em mim se foi, trazendo agora da memória os tantos anos em que meu universo misturava-se naqueles míticos bonequinhos de plástico.

Eu era índio, médico, pirata, pedreiro, xerife, bombeiro, mágico.

Eu era todos, e por tantas longas tardes neles eu materializa as amizades invisíveis que sempre criei.

Enfrentei tropas montadas, prendi bandidos, salvei vidas, descobri tesouros e da cartola tirava todos os meus sonhos que diziam ser impossíveis.

Era a época de tudo simples: ali, bastava trocar o figurino ou a personagem do enredo para então mudar toda a realidade, e ali viajava por velhos oestes, mares, circos e hospitais.

Não via o tempo passar, e numa grande e vazia sala daquela casa passava horas construindo meus mundos, peça a peça, sob a lógica arquitetada por um piá de 6 anos e os olhos de um bigode adulto.

Mas o tempo passa.

E a cada dia mais rápido, vai levando as nossas vidas.

Como levou a do pai dos playmobils, cujo momento merece-me um certo luto.

Afinal, a perda do pai de grandes amigos é sempre muito triste.

Por isso, na próxima viagem à Curitiba levarei meus pequenos filhos a tiracolo na visita que farei às caixas onde todos repousam, num dos armários dos quartos da casa onde cresci – e levarei meu pai junto, é claro.

Como talvez poucos deles ainda me reconheçam  ah, a minha voz e os meus cabelos... –, é pelo fiel grito do meu pai – que desde então nada mudou– que um a um será chamado para então podermos apertar àquelas plastificadas mãozinhas em gancho como nosso sinal de pesar e de acolhida.

Bem, sinceramente já não sei quantos deles lá restarão.

Mas sei que muito do que mim resta ainda está guardado entre eles, na forma de saudade dos longos anos da minha querida infância.



Alguns dos meus visíveis amigos de infância



domingo, 8 de março de 2015

# retratos molhados


Acostumado ao turbilhão de lá, não desabito do meu calmo e bom retiro.

Quando venho, já esmaga a dor da saudade do rio.

Quando vou, jazo como um velho pinheiro dolorido.

Ah, me dera cá e lá viver duplicado, e não numa presença dividida.

Sob um novo atributo da física, estar nos dois lugares ao mesmo tempo.

Ou fundi-los numa mais-que-perfeita ordem espacial.

Queria trazer o sol de julho pra cá, e levar pra lá as noites mais suaves de janeiro.

Trazer a brasilidade e levar a pontualidade, trazer o histórico e levar o bucólico, trazer um centro do mundo e levar o meu centro para o mundo.

O chopp ao mar e a onça do bar.

Mas o que mesmo queria era de novo ter junto toda a minha gente.

A mesma que nas antigas fotos agora revistas sempre parecia nunca se desgrudar.

Ora, nestas fotografias, como disse Tom, estamos sempre tão felizes...

Tira-se, daqueles momentos, tudo o que se vivia e todas as expectativas do que se tinha pra viver.

Dentre elas, a mais inocente era tentar prever o futuro e garantir a alegoria do poeta máximo curitibano: "pinheiro não se transplanta".

E por isso os frutos seriam sincronicamente colhidos e os galhos seriam diariamente podados.

Apertados no cotidiano, sem as interrupções de espaço e tempo, os laços das nossas relações jamais flertariam com o frouxo desenlace.

Entretanto, diante das pororocas da vida, hoje ainda estamos felizes, mas infelizmente longe.

E os amigos que se perdem pelas estradas, os familiares que se vão pelo destino e a parte da Casa que se copacabaniza ou que vira noiva do cowboy pra falar inglês não desmitificam -- e só qualificam -- o poder da saudade.

Por isso, neste ponto, lá e cá parecem estar em eras distintas.

E a cada avião que pego parece uma volta num tempo que jamais recuperarei.


segunda-feira, 2 de março de 2015

# sangue azul



A monarquia é um dos regimes mais toscos já inventados pelo homem.

Hoje, séc. XXI, onde ainda há é uma caricatura, uma piada.

Pior ainda é onde desde 1889 não existe, mas que mesmo assim continua a produzir seres que se acham legítimos herdeiros de um trono imperial.

E o Poder Executivo da Cidade de Curitiba, finalmente, parece querer enfrentar uma parte desta turma que se julga de sangue azul, aquela responsável pela máfia do transporte público municipal (v. aqui).

Com as manifestações de junho de 2013, cujo preâmbulo foi o péssimo e caro transporte público, à época dissemos que era preciso pôr a nu os barões que comandam o negócio (v. aqui).

Claro, pois, que no âmbito da minha aldeia falava da turma dos Gulin, embora a coisa se familiarize Brasil adentro -- no Rio, por exemplo, com o famigerada famiglia Barata (Grupo Guanabara) acontece a mesma coisa, v. aqui.

Há quarenta anos mandando nisso, esta gente curitibana sangra os cofres públicos na certeza de que, ungidos pela graça divina, nada lhes pode (e nem deve) acontecer.

E mais, convictos de que são detentores de uma espécie de honra nobiliárquica, tratam o serviço público de transportes como se fosse propriedade real deles.

E para isso mentem, escondem, versam, tergiversam, dissimulam, maquiam, tudo para não largar o osso que, por ordem dos deuses, deve ser deles.

Os rabos deste bando, vê-se, se espraiam por todos os pontos e terminais de ônibus da Cidade, criando ninhos cujos filhotes engolem, com apetite sem igual, o interesse público e os pobres usuários.

Ademais, suas garras daninhas, não contentes em ficar só com as presas das redondezas, hoje já alcançam esquemas no interior do Paraná e, até, no Distrito Federal (v. aquiaqui).

Empresas de fachada, negócios de araque, pseudorregras, ligações esquisitas e contas incontabilizáveis para, ao cabo, poder cada vez mais sugar o erário e os utentes.

E tudo isso sem que nunca e ninguém tenha feito nada de concreto para vigiar e punir.

Vejam só, não se está a falar de "capitalismo", mas de um serviço concedido pelo Estado e que não precisaria se submeter às artimanhas do sistema mercantil.

Pois, no cerne da coisa, soçobram licitações pra inglês ver, com editais mal escritos e pouco pensados -- muito apropriados à cartelização engendrada pela famiglia -- e que jamais foram capazes de mudar a ordem e a lógica do jogo.

Enfim, não dá mais para admitir que esta aristocracia fajuta de Curitiba, sob a máscara do bom-mocismo e da eficiência setorial, continue a lesar e a lucrar tanto às custas do dinheiro público e do vale-transporte do cidadão.

Que a Prefeitura, o Parlamento, o Ministério Público, a Polícia, o Xerife, o Bispo, os anjos, os vampiros, as polaquinhas e todos os cavaleiros errantes desta Cidade consigam, enfim, acabar com esta sinecura que há tantas décadas sustenta uma família.

A verdadeira sociedade curitibana agradece.

Para desgosto daquela que vive a posar de bacana pelas enfadonhas colunas sociais da city, querendo fingir honra, mérito e, claro, realeza.




terça-feira, 13 de janeiro de 2015

# uma vontade de chorar

 
 
As lágrimas são muito mais que fluidos que brotam de glândulas por meio de canais e canalículos como resposta do sistema límbico.
 
Chorar é o transpirar da alma, é enxaguar o rosto de sentimentos que nos inundam de amor (ou das tristezas do amor).
 
Hoje chorei a "despedida", aquele facão que de tempos em tempos decepa as nossas raízes para nos mandar para longe, como se capturados pelas mãos cruéis do destino (v. aqui).
 
Porém, mais do que o meu pé calejado de espinhos frente às mudanças, chorei o choro dos meus dois pequenos filhos, deixando a casa dos meus pais e o convívio com toda a família por mais de dois meses.
 
Chorei o choro que eles não choram porque ainda desconhecem a saudade.
 
Não conseguem medir a pausa daquele dia a dia com o avô, as avós, as tias e as primas.
 
E como desconhecem o tempo, parecem não sentir a falta do amanhã.
 
Vivem o hoje, e apenas embaixo do consciente é que devem guardar o cotidiano mágico de todas estas semanas -- e, lá na frente, um dia quem sabe, resgatam-no de uma memória bisbilhotada, numa roda de um churrasco de domingo já sem graça.
 
Agora, portanto, certamente estão longe de entenderem o que significa uma casa de vó, a farra do furdunço em família e a fortuna da farta felicidade com todos na velha casa, como aqui lembramos.
 
Contudo, diante destes meses todos uma coisa não tenho dúvida: do jeitinho mais ou menos silencioso deles bem compreenderam o sentido do "amor total".
 
E por isso as minhas lágrimas, que tanto demoraram pra secar.
 
Afinal, sei bem a falta que aquela casa fará na vida deles.

E a falta que eles farão a ela.



sábado, 3 de janeiro de 2015

# mas não diga nada que me viu chorando

 
 
Partir é arrancar um naco da gente.
 
E não há chegadas que preencham os buracos cavados na alma, afinal, elas vêm, cobrem com a sua viva presença, para em cada partida tudo desviver.
 
Cruel, indigna, ingrata, a partida é merecedora de todos os vitupérios em todas as línguas -- inclusive as mortas.
 
Pois ela maltrata, arde, machuca, sangra, mutila.
 
O que faz da despedida da partida parecer um mergulho numa tina efervescente de cicuta.
 
Contudo, ora, o que seriam das partidas se tratadas fossem com a boçal frieza da normalidade?
 
Ter-se-iam chegadas frias, frígidas, frívolas, trivializadas de modo a serem encaradas com o ar blasé dos hábitos conventuais.
 
E não se teria a falta de ar, a arritmia, a adrenalina e a hemorragia de tanto amor antes represado nas veias que nos fazem chorar lágrimas de felicidade a cada momento de se ver chegar.
 
Mas partir é também levar aquele naco arrancado da gente.
 
E não há melhor antídoto para aquela maldita saudade que juntar e tratar dos nossos pedaços.
 
Pedaços em forma de memórias, melodias, mimos, manuscritos e marmitas.
 
Saudades arrefecidas por aquelas pequenas coisinhas que as chegadas reabastecem cada partida.
 
Então longe, tranca-se num jardim de uma nuvem qualquer para antes lamber e depois plantar, arar e regar aquilo tudo que se carregou.
 
E sem jamais podar, espera-se que do gesto faça crescer, ao infinito do destino, pés de cada um e de cada uma que se deixa nas partidas.
 
Nas despedidas, vê-se, reenchem-se as malas de renovadas mudas de gente.
 
Pois partir parece, mas não é um adeus.
 
É apenas cultivar o amor à distância.



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

# sublimar



E dezembro chegou, e os dias se passaram, e o ano acabou.

Fiquei de escrever o último texto para o (quase) último dia do ano.

E não o fiz -- como está sempre a se dizer por aí, "não tive tempo".

Hoje, por exemplo, fui registrar o nascimento do Santiago.

No caminho, sempre com a inexpugnável pressa, refletia sozinho o quanto os pequenos grandes gestos e momentos da vida estão sendo engolidos por inteiro, a seco, sem passagem e vaporizados, como se subitamente deglutidos, um a um, por um impiedoso ente metafísico que sequer nos impede de pensar "Ôpa, peraí...".

Aos poucos, tudo vai se banalizando de tal forma -- aqui, por sinal, já tratamos de outra "banalização", a da "pobreza" -- que o momento seguinte e o que há de vir tornam-se mais importantes que os grandes acontecimentos em si, anteriores e ainda presentes -- como aqui já observamos.

O importante é a viagem de uma dúzia de dias a tal lugar, o prato ornamental de uma chef tal que num dia qualquer compramos ou as grandes peripécias globais que se regurgitam pelas redes sociais; por outro lado, atropelamos o dia a dia das grandes pequenas coisas mundanas e com as grandes pessoas de nosso mundo ou, soberbamente, deixamos tudo e todos na galeria deste espetáculo que esquecemos não ser eterno (v. aquiaqui e aqui).

E assim caminhamos na ilusão da conveniente batida perfeita, dos flashes das frias noites estrelares e do dia a dia alienado na irrealidade do outro ou do seguinte.

Por isso, no duelo com este falso e indômito cotidiano, trago o registro do nascimento do filho na bainha que empunha a defesa dos fatos e pessoas grandiosamente miúdas.

Ainda que muito particularmente, considero bacana o tal papel -- um "símbolo" -- todo formal, a indicar as duas gerações que carregam o menino que acaba de chegar, a descrever local e hora da vinda ao mundo e, claro, as letras grandes e garrafais que anunciam o seu nome e sobrenomes, os quais hão de serem levados daqui até o clássico "Aqui jaz..."

Ademais, não é apenas a mera condição jurídica da situação, ou apenas a oficial perenidade do nome dado, mas a certidão carrega o fato-símbolo de que o minúsculo ser que hoje guardamos e cultivamos em casa entra civilmente para o mundo dos homens, como o batismo é o ingresso para a cristandade do mundo cristão.

"Mas, e que mundo?", indagava ao reflexo do retrovisor do carro no trajeto ao cartório do bucólico centro desta minha cidade.

Justamente este mundo de agora, cismado por um corre-corre sem-cabeça-nem-pé, por relações pasteurizadas, por uma ultramodernização do afeto, por uma obediência senil às modas e aos modismos, por uma rotina protocolar e asséptica e, a insistência das insistências, pela liquefação do agora e pela sublimação do ontem.

Ora, não se vê nossos pequenos grandes momentos e nossas grandes pessoas como "sublimes" circunstâncias da nossa vida.

Num tempo em que o espaço se virtualizou, se esmerilhou e que de tão grande se tornou uma concha, vê-se um dia a dia (de)composto em partículas que seu suspendem pelo ar.

Vira, hoje, tudo pó.

Pó que ao final de cada ano comemoramos como cinzas de um passado que ainda mal pulsa no presente.

Pó que a cada início de ano comemoramos como poeira fecundante de um futuro que ainda nem se preparou para o passado.

Pobre de nós que insistimos em não dar valor aos nossos pequenos grandes momentos do agora.

E nem às poucas e tão grandes pessoas que conosco vivem este nosso tempo.

Feliz e sublime 2015!


Torta de Santiago, trazida por uma amada irmã 
para consolidar o primeiro pequeno grande momento do dia.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

# sabiá e o meu ser de então (fragmentos)

 
 
Não há, oh gente, nem luar e nem nada como na minha Pasárgada.
 
Lá, onde tenho a mulher que eu quero com os filhos que acolherei.
 
É que em Maracangalha, onde de chapéu de palha estou, ainda me sinto um forasteiro, um cowboy fora da minha lei, aquela em que a gente era obrigado a ser feliz.
 
Afinal, disse o conterrâneo poeta, pinheiro não se transplanta, embora o quintal em mar desta Copacabana diariamente se esmere em docemente regar as mudas que dele ali crescem.
 
E agora, neste avião que com razão corro para pegar, vejo chegar de saudade, numa realidade em que sem ela e sem eles já não mais pode ser.
 
E muito em breve como um dia vejo um berço e eu a me debruçar sobre o novo filho que virá, com o pranto a me correr num sonho lindo de morrer -- é querido, não só parece que te direi te amo, pois ainda que afobado não lembre você haverá de saber que eu sempre vou te amar, e chorar a cada ausência e presença suas.
 
E neste moinho da vida hoje triturarei toda a mesquinhez desta distância que me cobre tudo, em chumbo, e que só o coração pode entender, e derreter.
 
Vou voltar, e a solidão vai se acabar.
 
Num acalanto longe do adeus.
 
 
 
 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

# um mestre



Os EUA costumam diferenciar teacher, professor e coach.

Fernando Cruz Sanches conseguiu reunir as três categorias em uma só: um mestre.

Um ícone do esporte paranaense, para o qual fez de tudo, ele foi o melhor e o maior treinador durante os anos dourados do meu basquetebol.

E justamente na fase aguda da juventude, foi também um professor, professor lato sensu.

Dos meus doze a dezoito anos mantivemos um convívio quase diário, em treinamentos, jogos, viagens, excursões e eventos sociais; depois, os encontros eram mais esporádicos, pela distância do esporte e pelos caminhos da vida, mas sempre que ocorriam eram festivos e alegres.

Foram tantos ensinamentos, tantas aulas, tantas orientações, tantos conselhos, tantos gritos, tantos abraços com ele por aqueles anos todos...

Foram tantos campeonatos, tantos títulos, tantos prêmios, tantas convocações, tantas viagens com ele pelo Colégio Santa Maria, pelo Clube Santa Mônica e, em especial, pelas Seleções de Curitiba e do Paraná.

Fernandão me levava, me indicava, me escalava e por ele rodei o Paraná, Santa Catarina e o interior de São Paulo, jogando por tantos clubes e cidades. 

Fernandão era tanto...

Fernandão era emoção e lealdade puras.

Fernandão era um craque na beira da quadra.

Fernandão se foi.

Do meu baú, uma última foto ao seu lado, quando já aposentado fui convidado para um torneio promovido pela Federação Paranaense de Basquetebol como homenagem a ele, "Torneio Fernando Sanches", em 2003 (v. aqui). 

Destas coincidências da vida, foi meu time o campeão daquele torneio.

E então pude receber troféu e medalha de suas mãos, pela derradeira vez, tendo ela até hoje guardada com apreço. 

Aqui fica a homenagem do seu atleta, aprendiz e amigo.

Viva, Fernandão!

Do seu capitão,

Gava




quinta-feira, 17 de abril de 2014

# despedida do tempo


Duas premissas um tanto quanto óbvias: um cão não é um ser humano e dezesseis anos não são dezesseis semanas. Isso posto, porém, não imaginaria que pudesse vir a duvidar disso.

É que num destes insólitos fatos corriqueiros da vida, enquanto hoje eu cavava uma cova para no quintal da minha antiga casa enterrar o cachorro da família, na memória carregava aqueles dois temas – cães e tempo.

E chamar as coisas pelo que elas são provoca, por isso, uns mal-entendidos.

Embora tenha desmedida racionalidade no trato com os animais de estimação, hei de confessar que a perda deles, estimados no cotidiano, superestimados na dedicação, faz o nome dado soar meio estranho.

Soa menos racional, soa menos "animal" – a morte, meus caros, não soa natural e, por isso, um cão tão velho é por vezes menos um bicho envelhecido de estimação e mais um estimado membro antigo da família.

São quase como aqueles tios-avôs, enrugados, de bengala, que já andam pouco, que já pouco vivem, mas que sempre estão por ali, nos eventos, nas festividades, calados num canto na expectativa da morte lhes chegar.

E vendo a cena que preparava para o nosso cão, impossível não me lembrar do tempo.

De pá e enxada à mão, pés descalços já cobertos de terra e grama, não via apenas o buraco dos meus gestos de cavar ir aumentando.

Ali, na minha memória daquele quintal, templo da minha infância, via aumentar o drama de ver os anos voarem.

E, ao contrário do que se diz, era eu – e não o cão – quem ali sentia o tempo multiplicado por sete.

Era eu um cão engarrafado numa ampulheta em queda livre, em gravidade sétupla, sobra indefectível da inflação cósmica que nos consome.

Via, perdido na minha máquina do tempo, toda a vida de criança naquele espaço, como criança também foi aquele pequeno cachorro quando naquela nossa casa nasceu.

Hoje, para enterrado e enterrador, a vida adulta passou e passa a passos largos, inexoravelmente largos – e a única criança era a que ali estava ao meu lado, abraçada em lágrimas às minhas pernas.

Era Gabriela, minha afilhada, num choro de quem dava incompreensível adeus pela primeira vez na vida.

Ali, lembrei que por vezes um cão pode valer por um ser humano, e que dezesseis anos podem parecer não mais do que dezesseis semanas.

E o tempo, assim, vai se despedindo da gente.

domingo, 30 de junho de 2013

# um gigante

 
A minha primeira imagem de futebol também foi com a seleção brasileira, em 1982.
 
Lembro-me que, indignado, não entendia a derrota para aquele time azul e o fim da Copa para nós.
 
Arranquei-me da camisa amarelinha, flertei em desbordar o número 8 às costas e disse que nunca mais iria torcer.
 
Até que bem me recordo do meu velho Bigode, vindo até mim na garagem de nossa antiga casa em Curitiba, puxando-me pelo braço e, já comigo no colo, explicando para alguém de 6 anos o que foi aquilo tudo.
 
Dentre outras coisas, confessou-me que Sócrates não iria gostar de me ver ali, triste e sem a camisa – já largada no chão e misturada ao caldo da sujeira de uma festa que não houve.
 
E a notícia dada rapidamente me recompôs da raiva e das lágrimas.
 
Tive, ali, como parte integrante da frustração coletiva nacional, a minha primeira lição da derrota e do que para nós representa o belo e rude esporte bretão.
 
Mas não foi apenas este o retrato que guardo do meu primeiro jogo da nossa seleção.
 
Viva na memória está toda a preparação decorativa, todos os rituais, todos os quitutes, todas as garrafas de cerveja e de gasosa e toda aquela gente que sem parar chegava para o grande evento.
 
Era a Casa cheia, prenúncio e desculpa para uma grande festa, como de praxe toda família de oriundi gosta de fazer.
 
O agito, o barulho, os suspiros, os gritos, as fantasias, os risos, os comentários de toda sorte e de todo azar.
 
E eu, um minúsculo torcedor, a zanzar em frente à tv num ritmo enebriante, achava tudo aquilo o máximo.
 
E passava a achar o futebol o máximo.
 
E passava a achar o máximo ver toda aquela gente amiga e querida junto, aos berros e aos nervos.
 
Éramos uma multidão, que fazia daquela nossa sala o maior estádio do mundo.
 
E foi neste domingo, numa apoteótica amostra de um possível resgate do futebol brasileiro, que toda esta história me veio à mente.
 
Não era a Copa, mas tinha ares de um jogo que parecia querer buscar a nossa redenção como donos da bola.
 
Mas aqui, longe neste Rio de Janeiro, a casa agora era menos cheia.
 
Distante daquela minha gente, a sala já não espumava agitação, barulho, suspiros, gritos, risos e comentários.
 
Neste domingo, para ver o massacre do Brasil contra a melhor seleção do mundo, tive a companhia solitária de um minúsculo cara.
 
Um cara ainda mais minúsculo do que aquele que, em junho de 82, saracoteava do colo ao congote do meu pai.
 
E agora o colo era o meu, e ele não era simplesmente alguém que ainda não vestia uma camisa 8, que ainda não sabia o nome do nosso camisa dez, que ainda não sabia falar “Brasil”, que ainda não sabia o que é um juizfilhodaputa ou uma kaiserbock ou um grito "vâmoquevaidá" e que ainda não sabia sequer zanzar aqui, zanzar acolá...
 
Mais ainda, era alguém que, na viveza dos seus oito meses, nunca se lembrará daquele dia e do que ali se passou, tão-pouco que ali seria a sua primeira ideia visual de futebol.
 
Mas, na verdade, nada disso importou.
 
Porque este alguém, no jeito dele, conseguiu me fazer a amada companhia que precisava.
 
Neste domingo, o Benjamin foi o meu Maracanã.