domingo, 8 de março de 2015

# retratos molhados

 
 
Acostumado ao turbilhão de lá, não desabito do meu calmo e bom retiro.
 
Quando venho, já esmaga a dor da saudade do rio.
 
Quando vou, jazo como um velho pinheiro dolorido.
 
Ah, me dera cá e lá viver duplicado, e não numa presença dividida.

Sob um novo atributo da física, estar nos dois lugares ao mesmo tempo.

Ou fundi-los numa mais-que-perfeita ordem espacial.
 
Queria trazer o sol de julho pra cá, e levar pra lá as noites mais suaves de janeiro.
 
Trazer a brasilidade e levar a pontualidade, trazer o histórico e levar o bucólico, trazer um centro do mundo e levar o meu centro para o mundo.
 
O chopp ao mar e a onça do bar.
 
Mas o que mesmo queria era de novo ter junto toda a minha gente.
 
A mesma que nas antigas fotos agora revistas sempre parecia nunca se desgrudar.
 
Ora, nestas fotografias, como disse Tom, estamos sempre tão felizes...
 
Tira-se, daqueles momentos, tudo o que se vivia e todas as expectativas do que se tinha pra viver.
 
Dentre elas, a mais inocente era tentar prever o futuro e garantir a alegoria do poeta máximo curitibano: "pinheiro não se transplanta".
 
E por isso os frutos seriam sincronicamente colhidos e os galhos seriam diariamente podados.

Apertados no cotidiano, sem as interrupções de espaço e tempo, os laços das nossas relações jamais flertariam com o frouxo desenlace.
 
Entretanto, diante das pororocas da vida, hoje ainda estamos felizes, mas infelizmente longe.
 
E os amigos que se perdem pelas estradas, os familiares que se vão pelo destino e a parte da Casa que se copacabaniza ou que vira noiva do cowboy pra falar inglês não desmitificam -- e só qualificam -- o poder da saudade.
 
Por isso, neste ponto, lá e cá parecem estar em eras distintas.
 
E a cada avião que pego parece uma volta num tempo que jamais recuperarei.