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quarta-feira, 20 de abril de 2016

# e assim caminha a humanidade (xxiv)



Enquanto isso, pelas conversas que me cercam, uma interlocutora comenta ao vento:

- “Ah, será que não vamos aprender nunca... Ah, será que vamos ficar repetindo esses erros...”.

Fingindo não ser obra da sua banda, eis que ela e tantos outros, após assistirem o show de horrores de uma Câmara de Deputados sem filtros e imaginando o resultado disso nas páginas da nossa História, de repente se insurgem sem ao menos corar, fazendo-se de avestruzes diante do caos e numa desfaçatez que ojeriza.

Ora, essa massa que desde o fim das eleições de 2014 tem ajudado a desestabilizar a nossa democracia precisa agora ter a coragem mínima de assumir, sem floreios, que o reflexo daquele escárnio de domingo tem a sua "cara".

Sim, é com estes pares que vós têm andado, e por isso vos digo quem sois neste contexto: são todos discípulos do eixo Cunha e Temer, exatamente como se assumia naquelas grandes faixas que circulavam pelo Brasil, revelando nas manifestações haver "milhões" dele.

No meio encastelado das minhas relações sociais, não há silvícolas, mendigos ou adultos inocentes que possam se permitir debruçar sobre o véu da alienação ou da ignorância como desculpas para o lado errado e esfarrapado em que há meses se plantaram, defendendo a "correção" do voto popular como se fossem enviados divinos.

E que, agora, tentam se metamorfosear, talvez convencidos não pelos acadêmicos ou pelos blogs sujos, mas pela avalanche da mídia internacional que escancara o golpe e estampa o escândalo de um país-picadeiro.

Eis, assim, o "respeitável público" que, doravante, com a mudança da pauta midiática, o acorrentamento dos órgãos de controle e o engavetamento da Lava-Jato, aplaudirá o "fim" da corrupção.

Desta "ilha" em que me cerco para não sucumbir a agressões, deboches e insinuações dissimuladas -- sim, o bovino raciocínio fácil, médio, curto e acrítico ataca com a ira medieval os hereges que teimam em não queimar na fogueira do pensamento único --, um blend de altivez, destemor e reflexão é a munição que carrego, sob a serenidade do alívio de saber onde sempre estive neste processo de flagrante ruptura da ordem constitucional.

Nesta trincheira, no dia a dia coabito com poucos engajados na consciência deste nosso estado de coisas, enquanto nas paredes observo os retratos atuais que nos inspiram na defesa do óbvio.

Óbvio que surge, agora, na ladainha que muitos dos irresponsáveis passam a murmurar, como se pudesse ser crível: “putz, foi mal, a gente não achava que era golpe e que iria dar nisso...”.

No ideal cristão arrependimento e perdão devem caminhar juntos.

Mas teimo e, triste, hesito em dar as minhas mãos.

Afinal, o esbulho fascista praticado e depois avalizado por esta gente ficará por um bom tempo entalado como um nó em nossa garganta.



quinta-feira, 12 de março de 2015

# e assim caminha a humanidade (xxiii)



Enquanto isso, num dos bons e sérios blogs que existem por aí, expõe-se uma reportagem do "O Globo" de hoje, sobre uma empresa que presta serviços de consultoria para o "uso" de empregadas domésticas, criando um curso para melhor domesticar as serviçais dos brancos lares (v. aqui).

Sim, é mais uma espécie deste negócio horrendo que hoje existe chamado "coaching", no caso pret-à-porter aos desejos felinos da "patroas".

Na reportagem, mais uma -- a enésima... -- amostra de ser vivo que bem tipifica o perfil daqueles que "são contra tudo isso que está aí" (v. aqui e aqui), e que, neste domingo, certamente estará nas ruas com a sua cara-de-pau e a irretocável fantasia de "brasileira":
 
-- Por que você criou este curso?
Porque eu passei um ano e meio trabalhando em casa e quase enlouqueci com as empregadas.

-- Como assim?
Senti que elas perderam a noção do limite. Teve uma que eu pedi para chegar às 7h30 e botar a mesa do café. Ela disse para mim:  ‘Eu não! Imagina se vou botar mesa de café para madame!’. Essa falta de limite foi muito lembrada também na pesquisa que fiz.
 
-- O Brasil é um do únicos países do mundo em que ainda é comum ter uma empregada doméstica sempre por perto para te servir, que dorme num quartinho dos fundos…
Sim, tenho uma amiga que mora fora e fica chocada com isso. Mas é muito cultural, né? As condições no Brasil não favorecem a vida sem as empregadas, no exterior você vê mil eletrodomésticos que facilitam a vida, comidas pré-prontas. Aqui não tem muito isso. 
 
-- Quais as falhas mais comuns citadas na pesquisa?
Alguns exemplos: empregada que pendura o pano de prato no ombro; a que fala muito ao celular e depois diz que não deu tempo de passar toda a roupa; a que se recusa a usar touca e uniforme; e as que ficam falando das tragédias do bairro onde moram. Muitas têm vergonha de usar uniforme de doméstica na rua. Eu não entendo isso. É um símbolo de status. As empregadas de novela usam. A roupa mostra que ela tem um emprego bacana, que a patroa se preocupa com o seu visual.
 
 E, como aqui, esta gente ainda quer se levar a sério...



 

domingo, 9 de novembro de 2014

# e assim caminha a humanidade (xxii)



Enquanto isso, num festivo e agradável churrasco, o anfitrião inoportunamente fuça num dos gadgets à mão e saca a piada que virtualmente recebe:

- "Se não passar no ENEM, faz um neném que Bolsa Família você tem...".

Alguns poucos deram uma risada meio amarela, outros não ouviram, e ele insistia em repetir o dichote.

E insiste de novo.

E, pela quarta e última vez, insiste.

Não percebe, portanto, que o chiste, além de sem-vergonha, padece de absoluto preconceito, ignorância e, claro, ódio.

"Sem-vergonha" porque monta rima pobre de marré, marré, marré, inapta para qualquer ambiente com cidadãos absolutamente capazes e com trinta e dois dentes.

"Preconceito" que advém da "ignorância" sobre a existência, as razões, o funcionamento, os condicionantes e os reflexos da brava ação (ENEM) e do excelente programa (Bolsa Família) do Governo Federal, ambos já discutidos aqui e aqui.

E "ódio" porque este sentimento, afinal, costuma escorrer no canto da verborragia da elite nativa, como típico instinto da luta de castas -- v. aqui.

Mas tudo isso, claro, pode ser encarado como exagero ou falta de esportividade de minha parte ao não entender ou desgostar do gracejo social.

Sim, aquelas convenientes reticências ou a útil conotação que residualmente os piadistas se socorrem são capazes de fingir levar o caso na mera, doce e cândida brincadeira.

Para ao cabo inverter o lado criticável e sem graça da mesa.



sexta-feira, 21 de junho de 2013

# e assim caminha a humanidade (xxi)


Enquanto isso, num despretensioso café expresso com um amigo, ele me conta mais uma da “turma das passeatas”, destes caras pintadas 2.0, versão hi-tech, que, ingênuos, empurram o cavalo troiano do golpe.

Falava da reunião de umas 30 pessoas que tratavam de organizar a primeira “manifestação” (sic) em uma pequena cidade fluminense. Era um microcosmos deste negócio todo.

Para o encontro, o grupo convidou o irmão do meu amigo para documentá-la, na qualidade de jornalista.

E assim seguiu a conversa entre os jovens, na íntegra, sem exageros:

- Então!? Sobre o que vamos protestar? – grita um, abrindo a pauta.

- Pois é, sobre o quê? – todos, em uníssono, emendam.

Ao fundo, por alguns minutos, só grilos e toques de SMS...

- Galera, pô, a gente precisa saber sobre o que vamos gritar e escrever! – esbraveja o líder.

- É!!! O que vamos reivindicar?! Senão não dá, né!! – diz outro, meio preocupado, meio revoltoso.

- Hein, a gente podia falar sobre o preço do ônibus mesmo... – define o organizador, limpando o suor com a manga da sua camisa polo da marca do jacaré.

E a resposta vem na hora, todos juntos vibrando: “Isso!”, “Boa!”, “Fechado!”, "Legal, vou por no Face!"

- É! E fica até mais fácil, já que tá todo mundo falando nisso, né!! – resume o mais gordinho, largando o canudo do milk-shake.

- Então pronto... Ei, mas tem um problema galera! – adverte um deles.

- Qual? – emenda a guria, enquanto fuçava no i-phone.

- Alguém sabe o preço da passagem?

Silêncio geral.

E vai todo mundo com seus smartphones, no Google, procurar saber.

- Parece que é R$ 2,50... Não, acho que não... Peraí... É, é, aqui, R$ 2,65! – diz um, meio sem segurança.

- Não, é R$ 2,50 mesmo! – fala um deles, com a bandeira do brasil simetricamente amarrada no pescoço.

- Cara, mas de que ônibus vocês estão falando?  – confessa um, na lata, pouco antenado.

- Hein, tá errado, tô vendo aqui, achei... é R$ 2,70! – diz outro, com ar de arqueólogo.

Diante da confusão, o líder da tal blusa do jacaré se irrita:

- Hei! Atenção! Assim não dá! A gente precisa saber certo pra escrever nos cartazes, porra! Senão vai sair preços diferentes e vai ficar estranho, parece que a gente não sabe do que ´tá falando!

Outro minuto de silêncio.

E todos caem no riso.



sábado, 2 de outubro de 2010

# e assim caminha a humanidade (xx)

fds Enquanto isso, num despretensioso fim de noite, coloca-se à mesa o tema trabalho, em especial três das suas subtemáticas: a sociologia, a economia e o direito do trabalho.
fds Excelente e profunda discussão, até que o colega de gravata amarela, gel gasto e pose, com ares pseudocientíficos – que tentavam camuflar os interesses realmente defendidos – sai do obsequioso silêncio e dispara, crente em estar abafando:
fds - “Hein, mas a iniciativa privada não é que é contra a redução da jornada, mas... veja, tem aí as negociações coletivas, bem capazes de regular isso... o problema é que isso ai aumentar o custo geral do trabalho e dos produtos, vai estancar investimentos e o crescimento e vai diminuir postos de trabalho, pois os empresários irão trocar gente por máquina...”
fds E segue aquela cantilena típica de quem está del otro lado del rio, para então finalizar, com pompa e circunstância:
fds - “Na Europa, berço de tudo isso (sic), mesmo o países que foram para esse caminho tiveram que rever a redução de jornada, pois não deu certo”. E ali, naquele ambiente, só se passa a ouvir o peculiar sibilo de grilos e cigarras, até que o agudo e contínuo som é interrompido por uma nova conversa. Mas agora já sobre a Larissa Riquelme.
fds Ora, ora, não adianta: a grande solução que essa turma tem para os problemas relacionados ao Trabalho sempre se concentram sob a ótica do capital (e da sua acumulação e multiplicação), razão pela qual a ideia de redução da jornada (e de qualquer outra que atenda ao trabalho e ao trabalhador) é vista como uma praga.
fds “Modelos liberais de contratação”, “diminuição de encargos sociais”, “negociações coletivas”, “ultraqualificação”, blá-blá-blá... nada que verdadeiramente esteja no cerne do problema. E, diante das tantas questões que à matéria relacionam-se, voltemos ao tópico em tela, microcondição para a evolução do quadro sócio-laboral.
fds Sabe-se bem que as razões pelas quais há resistência dos empresários em aceitá-la são de dois matizes, econômicos e ideológicos. Não generalizaremos, apenas refletiremos a regra.
fds O capital sempre (e sempre) busca reduzir o custo da força de trabalho ao mínimo, além de manter o controle sobre as condições de oferta, de contratação e de remuneração.
fds Hoje, e sempre (e sempre), quer-se utilizar o trabalhador com o maior tempo e o menor custo possível; assiste-se a um processo de intensificação de plano de metas&objetivos, da exigência por maximização das qualificações profissionais e de pressão e assédio que precariza o trabalho e prejudica, física e moralmente, o trabalho. Logo, só por uma questão de saúde pública, a redução já se mostraria imprescindível.
fds Com a terceira revolução industrial, que aqui tardiamente chegou, as indústrias – como nunca antes na história deste país – obtiveram ganhos de produtividade incríveis, mas que não foram redistribuídos para a sociedade, bem diferente do que ocorreu na Europa – e é aqui que o caro colega tanto se enganou, a merecer o solitário eco das felizes cigarras, pois é menos verdade o que afirmou.
fds No Velho Mundo, as políticas de redução da jornada de trabalho iniciaram-se no final do século XIX – especialmente como consequência do ideário socialista, utópico e científico, e das manifestações populares – e foram até o início dos últimos anos 80, com a chegada do neoliberalismo, cujo modelo foi o paraíso corporativo e o martírio dos trabalhadores.
fds Desde então, apesar da concentrada e ativa ação sindical-operário-popular, setores empresariais aliados com governos de centro-direita têm conseguido sim alterar as leis nacionais e incluir regras que admitam a ampliação da jornada via negociações coletivas – como exaltou o colega porta-voz industrial; porém, o que esquece (ou não sabe), é que esses países europeus que passam a admitir a majoração da jornada, mui diferente daqui, afora já disporem de um welfare state – em crise, mas ainda capaz de (re)distribuir os dividendos sociais –, já conformam uma jornada de trabalho bem inferior, que costuma não passar das 38 horas semanais.
fds Aqui, portanto, já no mesmo ritmo feliz e cantante das cigarras que embalava aquela conversa, uma medida como esta, de reduzir a jornada, apenas visa a contribuir, continuamente, para que todas as formigas também tenham a condição de gozar e cantar a vida, com justo lazer e com certo trabalho.
fds

domingo, 6 de junho de 2010

# e assim caminha a humanidade (xix)


Enquanto isso, neste domingo, durante um festivo casamento, dentre tantos familiares que revejo, eis que vem a mim um da velha guarda, parente colateral de primos de 2º grau e herdeiro por tabela de antigo dono de grande empreiteira nativa.

Vendo aquele sósia de Cid Moreira se aproximar, peço ao garçom outro uísque cuja dose, de pronto, já bebo pela metade.

E ele chega. E sabendo da minha atuação profissional -- por recentes reuniões em sede estatal a envolver os seus pares --, inicia a pauta, com aquela voz de "Mister M":

- "E agooora, meu caro? Precisamos mesmo mudar aquele decreto, não há condições técnicas para o mercado, a construção civil pesada necessita... e blá-blá-blá-blá...".

- "Pois é.", digo eu, pouco empolgado e dando outro grande gole do destilado escocês. "Mas há controvérsias...", emendo provocativamente.

- "Que nada!!!", começa a se exaltar. "Aquele Roberto Requião (e, como se deixasse de ser Cid para ser locutor de turfe, passa a disparar adjetivos muito pouco cordiais ao ex-Governador do Estado)".

- "Há controvérsias...", interrompo-o novamente, já esvaziando o meu copo.

- "Pare! Pare! Este Requião acabou com a vida do meu cunhado! Hoje você digita o nome dele [do cunhado] no Google e aparece milhares de respostas que o mostra envolvido com prisão, com formação de quadrilha, com fraude a licitação, com máfia das empreiteiras, que ele isso, que ele aquilo etc.! Eu quero que ele (e mostra-se muito criativo ao bradar nada louváveis desejos) e que ele vá (e não poupa lugares pouco nobres de destino)".

E depois de longos minutos de intransigente defesa das peripécias empreiteiras do cunhado e cia, o nosso Cid já percebe que eu não estava mais ali. Sim, no meio da história eu já havia saído para repor o meu uísque. Meus ouvidos o desejavam, eles queriam um anestésico. E eu, um tempo.

Caro leitor, cara leitora, vai evento, vem evento, e vocês percebem que as ideias e o caminhar dessa turma são sempre os mesmos, mais ou menos insólitos.

Em suma, a ira do nosso Cid centrava-se no fato de, há algum tempo, o ex-Governador do Estado, Roberto Requião, ter acionado a Polícia do Paraná -- e, por sua vez, o Ministério Público e, logo, o Poder Judiciário -- para investigar (e prender, como foi o caso) várias pessoas que comandavam um grande e sólido esquema de cartel, fraude e superfaturamento nas licitações públicas de obras.
Como há séculos tal prática -- que tanto enriqueceu meia-dúzia de famiglias paranaenses -- nunca mereceu a mais firme e intransigente reprimenda estatal, a notícia "desagradou" muita gente.

Dentre eles o nosso Cid, que parece ter ficado desapontado com o desmantelamento das quadrilhas e suas empreiteiras -- ao menos algumas delas, cujas provas processuais assim permitiram -- e ter achado injusto prender cautelarmente algumas das pessoas -- dentre elas o seu cunhado (v. aqui) -- que agiram contra a lei, contra a moral e contra o nosso dinheiro.

Mas que ele não perca por esperar. Afinal, se realmente vingar este novo Brasil, as novas gerações ainda têm muito a pagar pelos crimes & pecados dos seus culpados antecedentes.

E, no final das contas, juro que eté pensei em voltar para terminar aquela conversa.

Sim, iria sugerir ao Cid que consultasse o seu "príncipe negro da magia" para que explicasse para nós como destruir da face da Terra todas as informações armazenadas pelo Google ou, talvez, como construir uma "bingueira" da felicidade invisível, infalível a quaisquer investigações policiais. Ah esse Mister M...


domingo, 2 de maio de 2010

# e assim caminha a humanidade (xviii)


fdsEnquanto isso, no fraternal churrasco deste sábado à noite, um dos grandes amigos dispara e lança quatro pedras, uma atrás da outra, sem pestanejar e já com o peculiar tom provocativo (e de quem ignora a essência do discurso):
fds - “Olha bem... é o seguinte: um tio meu foi pra Cuba e disse que deixou sem querer cair umas moedas no chão e a turma em volta se jogou no chão e ficou brigando para pegá-las... [e insistiu com mais um ou outro conto da carochinha]... Cara, não adianta, o mundo é capitalista... [e seguiu a falar como se estivesse a defender um dogma, uma religião]... Hein, vocês sabem: a Dilma é uma bandida... [longa sequência de impropérios e de bestiais criações]... Pois olha, eu não quero com ela de (sic) presidente ver fechada as nossas televisões... ver aquilo que tem na Venezuela, acabar com as tv's e só ter televisão do Estado... [e repete aquela cantilena típica de quem propaga as ideias e os ideais dos seus quatro evangelistas: Globo, Veja, Folha e Estadão].
fds Como uma (quase) ilha rodeada de grandes amigos conservadores, de direita ou reacionários por (quase) todos os lados, procuro não insistir em discussões filosófico-político-econômicas. Mas vou ainda além, pois busco abster-me de nelas entrar, para não ver desgastado os sentimentos de amizade e de afeto. Mas, a cada dia, abstrair é cada vez mais difícil, tamanha a “cegueira branca” que adoece tantos.
fds E naquele monólogo acima descreve-se uma dessas ultimas tentações, no qual o interlocutor quer convencer, a mim e aos correligionários em volta, essas quatro coisas: a primeira, de que o inferno latino-americano chama-se democracia; a segunda, de que o mundo é assim mesmo, gigante e capitalista pela própria natureza, e que nada podemos fazer, senão sucumbir às suas inverdades, injustiças e ilegitimidades; a terceira, de que Dilma Rousseff -- candidata do Governo Lula à sucessão presidencial -- come criancinha; e, a quarta, de que a nossa Constituição não deve e não pode valer muita coisa e que, portanto, é ridículo o fato de o Estado, via Poder Executivo, ter a prerrogativa de outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para as emissoras de rádio e televisão
fds Vamos por parte, como diria Jack, the Ripper.
fds-- x --fds
fds Segundo uma recente pesquisa do Ministério da Saúde, mais da metade da população brasileira não usa escova de dentes, número este (in)justificado pela falta de condições financeiras e de instrução da população (v. aqui).
fds Assim, enquanto no Brasil o "mercado" oferece escovas de dente grande, média, mini, da Minie, azul, roxa, de bolinha, de oncinha, com cerdas moles, duras ou de plumas, com vibrador, com massageador etc. e cremes dentais de menthol, de frutas silvestres, de pistache, verde-uva, superbranco, super-super branco, super-power-extra branco etc., em Cuba, por outro lado, os mercadinhos, privados ou estatais, oferecem escovas e pastas magnificamente simples e sem grandes opcionais, mas absolutamente eficientes e ao alcance de todos, pois o Estado ensina, exige e cuida do seu uso correto e universal.
fds Sim, em Cuba, o ato de escovar os dentes e não tê-los (ou tê-los podres) não é privilégio de classe social.
fds Lá, há décadas, tem-se níveis de excelência em praticamente todos os dados relativos à saúde da população -- e quem diz é a Organização Mundial da Saúde e a ONU. Mas, coitada, não consegue oferecer a sua gente uma escova elétrica com cerdas de pelo de urso ou uma pasta com sabor de tâmaras maduras, veja só...
fds Sim, são por essas e outras que Cuba é destratada e menoscabada pelos idiotas de plantão que, sentados cada qual em seu barril, insistem nas maravilhas que o "mercado" pode proporcionar e nas agruras de uma vida sem um enorme corredor de supermercado com centenas de pastas e escovas para escolher. O Estado? Ora, o Estado só nos atrapalha, só quer o nosso mal, o nosso sangue, a nossa alma! Vade retro! "Deixem-nos sós!", brada a elite branca nacional.
fds Todavia, essa nossa turma esquece que apenas poucos brasileiros permitem-se essa freedom to choose, essa que é a maior ladainha neoliberal e que também vem refletida na pesquisa em comento, cuja realidade, hipocritamente esquecida pela nossa burguesia, jamais a deixará a sós e em paz.
fds Definitivamente, os papagaios de plantão, que pensam com as cabeças dos grandes veículos midiáticos e só repetem o que os editorialistas dos grandes irmãos dizem, insistem na ‘forma” da democracia formal, de aparência, que tem por base aquela idealizada no liberalismo ocidental e doutrinada por Tocqueville.
fds Ignoram, portanto, o que é uma verdadeira democracia: o governo do povo, para o povo e eleito pelo povo.
fds Desconhecem o que significa um Estado que consegue oferecer a toda a sua população saúde, educação, alimentação, moradia, lazer e segurança.
fds Não percebem que mais importante que "um ou outro" poder comer picanha, poder ir para spas ou para as ilhas gregas, poder ir a shopping centers, poder comprar um carro supersônico e poder morar em palacetes, é a concretização de um estado no qual "todos" têm comida, saúde e educação exemplares, lazer gratuito, os bens de consumo necessários e um lar.
fds Desconhecem, assim, que só há justiça se cada cidadão ter atendido os direitos humanos fundamentais básicos. E isso é básico.
fds Enfim, fingem esquecer que, no Brasil, crianças, velhos e jovens se amontoam, se matam e se maltratam pelos sinaleiros, pelas favelas e pelas marquises da vida, em cujas ruas lutam não só por moedas, mas por comida, diversão e crack.
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fds Não sei que diabo faz toda essa gente achar que o capitalismo é normal ou natural. Talvez tentem defender a tese de que o espírito egoísta é da essência humana e, logo, o capitalismo --quintessência do egoísmo -- também o fosse. Mas não, não é. Ao menos para mim, para os socialistas e, claro, para os cristãos, vez que o Pai do cristianismo, Jesus Cristo, foi o maior socialista de todos, a pregar como máximas de vida a igualdade e a fraternidade.
fds Achar que o capitalismo é o fim da história, além de uma grande estupidez, faz refletir a total falta de crença no próprio ser humano (e, pois, em si mesmo), admitindo que a luta com o lado esquerdo do peito -- e com as ideias de solidariedade social, de Estado protetor e de interesse público -- sucumbirá às trevas do "darwinismo social", do "Estado predador" e do "interesse privado".
fds Sim, para a nossa burguesia o livre mercado e o desvairado consumismo conformam uma religião.
fds O consumo, pois, é o ópio dessas elites.
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fds Impressiona que, diante da inegável competência e popularidade do Governo Lula, tenha sumido boa parte de toda aquela gente que, pelos idos de 1989 a 2006, insistiam em defenestrar o cara (e a sua equipe técnico-política) que há 2 anos é considerado um dos grandes líderes mundiais e um dos grandes políticos da história.
fds Porém, como não podem ir contra o óbvio ululante e criticá-lo -- sob pena de, ao menos, serem considerados idiotas --, escondem-se no hipócrita discurso de que sempre o quiseram e o amaram, mas que, agora -- ah, agora! -- a conversa será diferente...
fds Sim, insistem em dizer que, ora pois, a Dilma é um monstro, a Dilma é uma terrorista que, como uma loba-má vestida de vermelho, come vovós e criancinhas.
fds Sim, insistem em fantasiar que um Governo Dilma será um governo de guerrilha, um governo bandido, um governo ditatorial. Sim, insistem em mentir que, com ela, não vamos mais ter a “democracia” e a “diplomacia” de Lula.
fds Ora, até podemos ter a certeza que Dilma não tem a empatia, o carisma, o jeitão e o laissez-faire do ex-sapo barbudo. Falta-lhe a teatralidade espontânea -- uma expressão quase antagônica -- e a vivacidade política do nosso presidente.
fds Porém, não é isso não que assusta a nossa classe média-alta, inclusive pela fato de ser notória a imensa capacidade e competência técnica de Dilma Roussef, a grande gestora do segundo mandato de Lula.
fds Na verdade, o que essa gente da classe média-alta teme, é a continuidade de um governo popular, populista, do povo e para o povo.
fds Na verdade, na verdade mesmo, essa nossa pequena burguesia inquieta-se é com o iminente (e certo) aprofundamento das políticas sociais, de distribuição de renda, de reforma agrária, de emprego, de (re)estatização dos setores estratégicos do país e de absoluta soberania.
fds Contra isso, vale tudo. Até dizer que Dilma é feia, boba...
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fds Esta perspectiva de (pseudo)democracia que os néscios costumam clamar nada tem a ver com a verdade do regime democrático, cujo conveniente protótipo -- vez que apenas protege e impulsiona os interesses das elites, e não os do povo –, afora outros, sustenta-se sob a falseada ideia da liberdade de imprensa, que por aqui -- e em quase todo o mundo -- funciona sob uma falso mantra. E Karl Marx, arguto defensor desta liberdade, já explicava a sua deturpada forma.
fds Marx acreditava que poderia haver liberdade de imprensa, e na sua obra “Liberdade de Imprensa” disse: “A imprensa livre é o olhar onipotente do povo, a confiança personalizada do povo nele mesmo, o vínculo articulado que une o indivíduo ao Estado e ao mundo, a cultura incorporada que transforma lutas materiais em lutas intelectuais, e idealiza suas formas brutas. É a franca confissão do povo a si mesmo (...) A imprensa livre é o espelho intelectual no qual o povo se vê, e a visão de si mesmo é a primeira condição da sabedoria.”.
fds Contudo, Marx já enxergava que a liberdade de imprensa -- tal qual o tal Estado liberal ocidental -- poderia ser usada de forma desastrosa por pessoas mal intencionadas: “essas pessoas fazem uso da linguagem para mentir, a mente para intrigar, as mãos para roubar, os pés para desertar”.
fds Portanto, um dos problemas dessa visão reducionista que marca o liberalismo, seccionando a esfera político-institucional do resto da formação social, é que vai buscar a resposta no lugar errado. Saber se um país é democrático é saber se sua sociedade é democrática. O sistema político é uma parte dela e deveria estar em função não de si mesmo, mas de criar uma sociedade democrática.
fds Mas o pior desses critérios é tentar fazer passar que imprensa privada é critério de democracia. Imprensa mercantil -- fundada, pois, na propriedade privada, na empresa privada -- significa a subordinação do jornalismo a critérios mercantis e comerciais, ou seja, lucro e custo-benefício a ser financiado por um dos agentes sociais mais importantes: as grandes empresas, o que faz com que a chamada imprensa “livre” seja, ao contrário, uma imprensa refém (e catalisadora) dos setores mais ricos e dominantes da sociedade, vinculada e dependente dos seus interesses.
fds Portanto, essa chamada imprensa “livre” passa a representar as vontades do mercado, daqueles que anunciam nos veículos produzidos por essas empresas, que são mercadorias, que transformam as noticias e os artigos que publicam em mercadorias e insturmentos de cooptação.
fds São então “livres” de quê? Do controle social, da transparência do seu financiamento, da construção democrática da opinião pública. Prisioneiros do mercado, dos anúncios, das agências de publicidade, das grandes empresas privadas, do dinheiro.
fds Uma imprensa livre, democrática, transparente, não pode ser uma imprensa privada, isto é, mercantil. Tem que ser uma imprensa pública, de propriedade social e não privada (e familiar, como é o caso das empresas jornalísticas brasileiras).
fds Neste aspecto, a grande verdade do regime democrático vem exigir uma democratização dos meios de comunicação, cujo monopólio em mãos de grupos capitalistas hiper-concentrados, os mais prepotentes de toda sua classe, é incompatível com qualquer justiça eleitoral ou soberania democrática real.
fds Mais do que isso, vem exigir, no plano constitucional brasileiro, que os meios de comunicação atendam aos seguintes princípios: preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; e, respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.
fds Em suma, exige-se que a imprensa mercantil cumpra o seu papel (e que tenha uma função) social. Se não o cumprir ou não o tiver, é passível de não ver renovada a concessão pública para funcionamento. Simples assim.
fds Porém, na “diabólica” Venezuela, só por muito mais do que isso não se renovou a concessão da “rede globo” local: provou-se que a tal rede de televisão (RCTV) foi a principal aliada dos golpistas que sequestraram Hugo Chávez e que tentaram, impedindo a sua posse depois de eleito, em abril de 2002, dar um frustrado Golpe de Estado.
fds No mais, a nunca suficientemente difamada Venezuela continua a ter todas as suas outras grandes redes abertas de televisão, em número quase igual ao que se tem na exemplar democracia brasileira, onde, há séculos, admite-se qualquer tipo de arranjo, golpe e jogo de poder perpetrado pelas grandes famiglias que comandam as telecomunicações nos âmbitos nacional e regional.
fds

terça-feira, 13 de abril de 2010

# e assim caminha a humanidade (xvii)


Enquanto isso, à hora do almoço, na regozijante companhia de um velho e querido amigo, eis que na saída ele se depara com um conhecido de longa jornada -- cujo filho inclusive comigo estudou --, o qual pertence a uma rica família e à velha classe dos adêvogados.

Conversa vai-e-vem, breve e tranquila, sobre a vida familiar e profissional de cada um, até que o dito cujo olha para nós e dispara, com cara de raiva:

- "... enfim, se esses governo (sic) aí não atrapalharem, o Brasil segue em frente..."

O meu grande amigo, de pronto, como se quisesse confortar o ar de revolta do seu colega, rebate:

- "Pois veja bem, não sou da área e não pertenço à classe ou viés político algum, mas, diariamente, pelas estradas e aeroportos da vida e pelo roteiro CWB-CGH-FLP que quase semanalmente faço, vejo tráfego, negócios, comércio, gente e trabalho a pulsar... e então me pergunto o que há que tanto tantos reclamam da economia do Brasil..."

O sujeito, então, não deixa por menos, e começa com aquela cantilena típica da classe média-alta brasileira, ultraconservadora e pouco inteligente:

- "Ah, mas tudo isso 'tá assim graças ao Plano Real... os resultados de hoje ocorrem por causa daquela época... e hoje 'tá essa pouca vergonha... agora tem que parar de gastar dinheiro nisso aí (?), em corrupção (?) ... e tem que dar pra iniciativa privada tocar o país, pois já que não tem condições, já que não tem capacidade... ah, se esquece completamente da infra-estrutura... fui agora para Maringá, e a estrada está um lixo, e paguei uma fortuna de pedágio... ".

Imediatamente, cessa o papo entre eles, eu não me digno a nada comentar, há os recíprocos cumprimentos e, arrivederci.

Bem, não se pode deixar de apreciar a estabilidade financeiro-monetária alcançada com as políticas do Plano Real -- criadas, lembre-se, à época de Itamar Franco; porém, acreditar que a reviravolta do Brasil, o seu crescimento, o seu desenvolvimento e as políticas de inclusão econômica, social e humana promovidas não têm os seus únicos e exclusivos méritos neste atual Governo Federal, muito à parte do que Dom FH II fez (e desfez, com a pirataria das privatizações), é ingenuidade, obtusidade córnea ou má fé cínica, como diria Eça.

Ora, é óbvio que o sujeito é mais um daqueles que assina Veja, não perde o Jornal Nacional, fascina-se com as manchetes dos jornalões e ama o vale-tudo do mercado que afundou a Europa e estremeceu os EUA, locais esses onde o Estado foi o grande salvador das respectivas pátrias.

É mais um daqueles que partidariamente -- sem o saber que assim age... -- e sem qualquer noção republicana, acredita que o mundo é o seu castelinho onde pobre e periferia são coisas que existem por culpa do Estado e onde só um governo conservador, de direita, demo-tucano, salvará.

É mais um daqueles que entendem os projetos de redistribuição de renda, de garantia de uma renda mínima, de política externa, de agricultura familair, contra a desnutrição e mortalidade infantil, contra o analfabetismo, para emprego, salário mínimo e crescimento do PIB, do PAC, do PNH, do PDE, do Mais Saúde, da Petrobrás etc. É, pois, mais um que não enxerga o novo retrato sócio-econômico -- embora ainda em construção -- do novo Brasil.

É mais um que crê em 500 anos de probidade e que corrupção, prevaricação, escatofagia e sacanagem com dinheiro público são fenômenos deste atual governo federal. Não enxerga, pois, que há apenas a explosão de parte das coisas nebulsoas, ocultas e transparentes -- as quais sempre caracterizaram o nosso país --, tornando-as, pois, visíveis à mídia e à população, para que cobremos resultados e expurguemos os picaretas do cenário político.

É mais um que não gosta (?) do "jeito" bronco de Requião, nem do "jeito" tosco de Lula, e assim prefere as polidas e poliglotas ratazanas de outrora, que esquecem do povo e do erário, exortam o modelo neoliberal e endeusam o rei-mercado.

É mais um daqueles que acredita ser sempre (e tudo) culpa do Estado, mesmo num caso, por exemplo, por ele mesmo citado, das rodovias do interior do Paraná, as quais são privatizadas, pedagiadas e péssimas. Para ele, portanto, não cabe o argumento da privataria privatista. Crê que a iniciativa privada é inimputável.

Enfim, culpá-lo e condená-lo? A princípio sim, claro. Mas, como um bom cristão, poderia ficar com Lucas (23:34): "Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem".

E muito menos o que dizem.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

# e assim caminha a humanidade (xvi)


fdsfdEnquanto isso, numa sessão de fisioterapia, aproxima-se um senhor com o já de longe percebido sotaque lusitano.
fdsfdSenta-se num dos aparelhos ao meu lado e, a se mostrar simpático, indaga-me sobre a minha cirurgia.
fdsfdTem a resposta e o meu comentário sobre a minha passagem por Coimbra etc.
fdsfdE então já vejo o seu semblante mudar. Acho estranho, mas mesmo assim vou em frente e pergunto:
fdsfd- De qual cidade o senhor é?
fdsfd- Oh meu rapaz, sou de uma cidade muito pequenina, muito perto de Lisboa, chamada [já não me recordo]. O senhor não deve conhecê-la não... excepto se, na qualidade de estudante de Coimbra, reconhecê-la numa das tantas músicas de protesto que Coimbra ajudou a fazer na época daquela 'estúpida' e 'indecente' Revolução de 25 de abril... -- e, com cara de nojo, passa a cantar trecho da música que levava o nome da sua cidade natal.
fdsfdSim, meus caros e minhas caras, o septuagenário senhor estava a querer defender os malditos anos do golpe de Antonio Salazar que, de clara inspiração fascista, conduziu Portugal pelas trevas durante quase 40 anos.
fdsfdE eu, na qualidade de ex-estudante de Coimbra, era para ele quase como um inimigo, vez que a Universidade de Coimbra fora, naqueles anos de chumbo de Portugal, o grande suporte intelectual-estudantil dos opositores ao regime e, pois, dos que promoveram a Revolução.
fdsfdSim, ele, na escrota (ou burra) visão de alguém que, direta ou indiretamente, devia se beneficiar daquele governo plutocrata -- sempre em benefício dos grandes monopólios privados nacionais -- e daquela chauvinista, racista, autoritária, reacionária e conservadora direita que controlava tudo e todos, encheu a boca para dizer que a "Revolução dos Cravos" -- que em 25 de abril de 1974 acabou com o putrefeito salazarismo -- foi estúpida e indecente.
fdsfdSim, ele não mais merecia a minha atenção.
fdsfdEle, estúpido e indecente, talvez não fosse merecedor dos cravos nos canos dos fuzis dos revolucionários portugueses.



fds

domingo, 27 de dezembro de 2009

# e assim caminha a humanidade (xv)


fd Enquanto isso, num agitado almoço de sábado pós-Natal, entre parênteses de uma longa conversa, discutia-se en passant a reviravolta na vida de uma pessoa ali conhecida de todos, a qual acabara de sair da bancarrota pessoal-financeira-empresarial e, dentre outras coisas, convertera-se discípulo de algumas dessas igrejas evangélicas neopentecostais.
fds E assim, após dar breves detalhes da nova vida do dito cujo, o mais experiente interlocutor da roda conclui:
fd - E agora, passada a gravíssima turbulência, parece que uma grande e antiga propriedade que possuía poderá ser finalmente regularizada. Porém, vejam só, ao invés de dar um jeito de vendê-la e ficar com o dinheiro, ele me disse que deixará toda ela como "parte" de pagamento para os tantos credores que ainda tem...
fd - Que bacana! - emendei, achando o gesto sensato, óbvio, legal, ético e natural... hã?!
fd Não!! Eis que, em uníssono, o interlocutor e, principalmente, as outras seis pessoas da roda, com caras, gestos, risos e gargalhadas, inapelavelmente acusam-me de... bem, de...
fds Ora, na verdade, a não-articulação de um raciocínio econômico-jurídico-moral por parte deles -- cujas monossilábicas e onomatopéicas palavras, sem sentido, aliavam-se às suas continuadas caras, gestos, risos e garagalhadas --, se não parecendo dar constrangida razão ao singelo comentário que fiz, buscava acusar-me de alguma coisa do tipo "ah, ele não entende disso...".
fd Ora, na minha lógica ético-jurídica, o devedor ter conseguido uma solução para pagar os seus credores pareceu ser uma atitude, no mínimo, bacana. E moral.
fd Mas para os outros que ali estavam, não.

fds

terça-feira, 20 de outubro de 2009

# e assim caminha a humanidade (xiv)


Enquanto isso, numa interminável (e produtiva) sessão clínica de recuperação cirúrgica, dá-se início ao festival de bestas&asnos brados, protagonizados por muitos dos presentes naquela (quase) ampla sala, cada qual a seu momento e por vezes todos juntos e misturados:

- A solução pra esse negócio no Rio é subir e matar todo mundo! É o único jeito! Um bando de vagabundo!

- Tá certo!! Essa gurizada toda que fica se vendendo pro tráfico! Não presta! Ao invés de estudar e trabalhar ficam ali na grana fácil das drogas! Não tem jeito!

- É!!!! Põe tudo num paredão! E a família que pague a bala!! (sempre vem essas frases feitas e de impacto, sempre tolas e às vezes inéditas para alguns).

- Claro! E tem que matar essa turminha toda que fica aí a enrolar um baseado e a consumir! Eles é que compram!!

- Sem dúvida! Quem consome e quem vende deve pagar! E tem que queimar todas aquela favelada (sic)!!

- Sim!! Não tem jeito mesmo! Essa bandidagem, cambada de vagabundos! E esses riquinhos! Essas luluzinhas e esses bolinhas!!

- É, não tem jeito esse povo! Esses políticos todos canalhas!! Só resta mesmo alugar este país!! (outra daquelas frases, sem nexo...)

- Bravo! Bravo! Bravo! (uivos e aplausos em uníssono)

- Iupi! Iehhhh! Uau! (onomatopeias múltiplas).

Pasmo. A estupidez quase generalizada -- afinal outras duas pessoas também fingem não compreender a língua que ali se falava e quedam-se silentes -- dessa (grande) fatia da população é mesmo incrivelmente avassaladora, pois parece levar de arrasto toda a gente, que não pensa e só tem (pre)conceitos.

Na verdade, tem-se do tema que uma (re-)regulação do assunto já se faz inevitável e imprescindível -- à sombra da mangueira imortal, pelo menos por duas vezes, já nos manifestamos em duas bulas: "Terras de Souza Cruz" (v. aqui) e "Cannabis, uma erva natural" (v. aqui). 

Já passa, portanto, da hora de um estudo sério e profundo do Estado acerca da liberalização de algumas das drogas -- ao menos aquelas correlatas ao fumo, sendo que aquele --, cujo papel seria interventor e, claro, fiscalizador.

Afinal, eis este o mal maior que impera na violência urbana das nossas grandes cidades: nenhum negócio do mundo -- talvez, apenas, ser concessionária de rodovias estaduais ou ter qualquer monopólio privado -- oferece tantos lucros como o comércio de drogas. E os mais recentes números da Secretaria de Segurança Pública do Paraná revelam: cerca de 95% dos assassinatos cometidos na cidade tem relação direta com o tráfico de drogas, seja pela disputa do ponto de venda, seja por dívidas deixadas por usuários (v. aqui).

Assim, se não pela ética humana e pela moral cristã -- bem menos presentes neste mundo pós-moderno --, por que cargas d'água um jovem da periferia, mal educado, mal impressionado, mal aconselhado e mal rodeado, não arriscaria alguns anos na cadeia por um mundo de carrões, fantasias e mulheres -- tal qual o filhinho bacana de um papai corrupto ou sonegador --, o qual só a grana do narcotráfico seria capaz de lhe propiciar?

Comigo tenho a certeza de que uma nova legislação liberalizante é a única saída para um país que, pelo menos ao que parece, não está preocupado em querer alterar os paradigmas da sociedade e os fundamentos político-econômicos que a regem, como assim fazem aqueles Estados que não querem o sistema capitalista como o seu marco criador e redentor.
fds

terça-feira, 15 de setembro de 2009

# e assim caminha a humanidade (xiii)


fdfdfdfdEnquanto isso, em São Paulo, onde morrem famílias inteiras em desmoronamentos quando chove, onde se matam os rios para abrir espaço para avenidas marginais que desmatam e não resolvem o problema do engarrafamento, onde na periferia e no interior não há creches, hospitais e escolas que prestem e onde a segurança pública é (bem) pior do que a do Rio de Janeiro (mas bem menos divulgada...), eis as duas manchetes da capa da Folha de São Paulo de hoje (v. aqui):
fdfdfdfd- "Após varrição, Kassab reduz coleta de lixo. Os garis prometem parar".
fdfdfdfd- "Hermès aterrissa no Brasil".
fdfdfdfdOu seja, a cidade passa a ter um sistema de coleta de lixo pior -- e onde você acha que ela será reduzida e mais afetada? --, mas terá uma loja de gravatas de 100 dólares -- e a quem você acha que isso interessa e mais deslumbra?
fdfdfdfdE com essas dicotomias, essas diferenças e essas disparidades que o Brasil mostra-se ainda, firme e forte, como o país mais desigual do mundo.
fd


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

# e assim caminha a humanidade (xii)


fdsEnquanto isso, num luxuoso consultório médico situado num luxuoso bairro da capital, uma amada senhora conversa com a pomposa médica:
fds- "Mas e como está o tratamento dessa doença em Cuba? Ouvi falar que ...."
fds- "Não, não!" - interrompe a médica. "Esqueça! Cuba está muito atrasada, parou no tempo... [anacoluto] ... Vim agora de um Congresso na Europa... [anacoluto] ... O sistema de saúde de Cuba já não é lá essas coisas..."
fdsE, depois de dar este vil (e desbalizado) parecer técnico sobre o sistema de saúde cubano, finalmente decide responder à pergunta:
fds- "Ah, e no Brasil já temos tratamentos idênticos para a doença."
fdsOra, ora, sei bem amigo leitor que eu deveria desconsiderar tal opinião, bem como fingir-me de surdo ao ouvir tamanha bobagem. "Pai, perdoa-a, ela não sabe o que fala" (Lc, 23:33-34), devia eu pensar.
fdsAfinal, qual seria o peso (e a autoridade moral e a envergadura ética) que uma mulher que cobra quase R$ 400,00 por consulta teria para falar de um país pobre cujo sistema de saúde, absolutamente gratuito, é exemplo mundial de como tratar do dinheiro público e de como ser humano, demasiado humano?
fdsMas não. Ao saber do diálogo, não pude deixar de observar que "atrasada" (e recalcada) é uma mulher que, cega, acredita no dinheiro privado como a solução da lavoura (e da medicina).
fdsNão pude, ainda, deixar de observar que "parada no tempo" é ela, que ainda crê nos meios de comunicação tradicionais (e golpistas) como senhores da verdade, e não os enxerga como mentirosos a serviço dos donos do poder.
fdsNão pude, enfim, deixar de observar que, na verdade, "não é lá essas coisas" o mundinho que vive, surreal, elitista, encasteslado e do qual levará uma dívida eterna.
fdsAfinal, afora os tantos documentos assinados pelas várias organizações internacionais que tratam da saúde pelo mundo (ONU, OMS, UNICEF...) e que, no geral, muito bem avaliam os dados e o sistema de saúde em Cuba, seria conveniente que assistisse ao recente documentário estadunidense "Sicko - $.O.$. Saúde", para ver que saúde pública ideal não se faz com muito dinheiro ou tecnologia, mas com base em muita eficiência e, principalmente, igualdade e fraternidade.
fds


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

# e assim caminha a humanidade (xi)


fdsEnquanto isso, a poucas horas, numa mesa de bar com três colegas já nervosos, um deles dispara:
fds- "Essa bolsa-família é uma vergonha! Onde já se viu... o Governo fica sustentando toda essa gente... no Nordeste ninguém mais quer trabalhar, pois agora fica com o dinheiro da bolsa... isso tudo é um absurdo!".
fdsE eis que outro complementa, com o enfadonho e mesquinho adágio:
fds- "... Claro, tem que ensinar a pescar e não dar o peixe!".
fdsPara eles -- bem como para a maior parte da nossa elite conservadora, aristocrática e "branca" --, consiste num absurdo que nas periferias, nos matos e nos sertões deste Brasil, não haja mais gente querendo trabalhar, um dia inteiro, para ganhar o direito a uma refeição e o dinheiro para a refeição dos seus familiares.
fdsAinda pior, pensam eles, é não haver mais senhoras e moças pobres que topem desempenhar papel assemelhado de escrava em casas de tantas senhoras ou de homens carpindo de sol à lua como vassalos dos latifúndios de tantos senhores.
fdsRealmente, Lula decidiu que nenhum brasileiro morreria mais de fome. Com a barriga vazia ninguém consegue pescar. Vendo mulher e filhos com as barrigas vazias, ninguém tem cabeça para pescar. Essa é a verdade. E essa é a verdade construída pelo atual Governo Federal, a qual é a viga de sustentação de três fundamentais políticas públicas para os beneficiários, as quais elevarão a um nível de sustentabilidade esse vital mecanismo condicional de transferência de recursos: microcrédito, agricultura familiar e cursos técnicos profissionalizantes
fdsE agora os vejo silenciosos e pensativos. Esses colegas parecem evoluir. E já se assemelham com aquele avestruz de outrora (v. aqui).



terça-feira, 27 de janeiro de 2009

# e assim caminha a humanidade (x)


fdsfdsEnquanto isso, num domingo de churrasco, entre dois amados senhores, um deles diz:
fdsfds- "(...) por que veja, há de se ter o máximo respeito por aqueles que criaram fortunas e que construíram esses imperíos... são verdadeiras, incríveis e magnâminas proezas".
fdsfdsMomento quando o outro acrescenta:
fdsfds- "Claro, deve-se louvar aqueles que criaram essas fortunas, que dão emprego a tantos milhares de trabalhadores... e que não quebram, diferente de tantos pequenos (...)".
fdsfdsA respeitar e a aprender com os cabelos brancos da experiente e vívida vida, mas também a exigir respeito pelos anos de estudos da história e das ciências da sociologia, da filosofia e da economia, lembro-lhe que o fim do capitalismo é bastante claro: a monopolização de bens e serviços, pela acumulação infinita do capital -- o "lucro" --, que fortalece a exploração do trabalhador e inviabiliza o próprio desenvolvimento do... mercado (já aqui entendido como a reunião de uma pluralidade de agentes que vendem o produto de seu próprio trabalho e que ficam com a sua mais-valia, e não uma instância que mediatiza as relações entre os homens, que intermedeia o trabalho e cria a necessidade de toda produção humana adquirir a forma de mercadoria, com a famosa equação de Marx: D-M-D').
fdsfdsNeste sistema político-econômico-social não cabe uma pluralidade de competidores, pois o que se estabelece são agentes que dominam o mercado de forma concentrada e, se não com exclusividade, oligopolizada, mediante cartéis -- é o capitalismo de monopólios, sobrenome que já é indissociável do nome. Este sistema cria a exploração do trabalho como mendaz mote a uma bem-aventurada criação de empregos, que demagogicamente apenas legitima a mais controvertida criação humana: a propriedade privada dos meios de produção, que faz tantos milhões estarem à mercê de tão poucos.
fdsfdsOutrossim, afora essas questões que regem de per si o sistema capitalista, não se pode olvidar que a regra comportamental destes pequenos magnatas do capitalismo paranaense está intimamente ligada à corrupção, em espúrias associações com os poderes públicos instalados.
fdsfdsLogo, não há qualquer mérito na divinização de aristocratas famílias de sangue azul e bolsos verdes, pois o que houve -- e o que há... -- é tão-somente um reflexo da exploração absurda que tais famílias promoveram sobre os seus trabalhadores, da corrupção espúria e criminosa que tais empresários promoveram com agentes públicos sobre o Estado e, como lhe cabe, da estrangulação nefasta que este barões do capital e da sociedade promoveram sobre o mercado, expurgando competidores, amealhando outros e, principalmente, destruindo a maioria.
fdsfdsEnfim, deveria fazê-los lembrar que são estas raízes que ainda nos fazem ser uma sociedade frágil, pobre e subdesenvolvida, pois, enquanto não destronarmos os tantos reis que aqui desmandam, acabando com os mitos e desvendando as verdades que cercaram a construção dos impérios financeiros dessa gente, continuaremos a ser uma república eternamente formada por suseranos de um lado e homens cordiais de outro.