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segunda-feira, 4 de março de 2019

# maestros, cavalos, deuses e hinchas



Quando o Club Athletico Paranaense entrar em campo hoje, na nova velha Baixada, pela Copa Libertadores da Américarecomeçará outra batalha da guerra que representa disputar o maior campeonato de futebol do planeta.

Sim, meus amigos, a peleja de logo mais será outra amostra da saga por esta Taça, que se soergue como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.


É aqui, pela nuestra América, onde o futebol é jogado na sua essência, na sua pureza, onde maestros, corvos, deuses e hinchas desfilam juntos em epopeias dantescas: aqui é o "Inferno", meus senhores.

Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras sul-americanas. 

Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas.

São jogadores.

São heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do céu libertador.

Ora, não me venham com a realeza das arenas belgas climatizadas.

Nem as pompas dos gramados de pastagem de vacas premiadas holandesas.

Nem as elegantes lantejoulas dos uniformes demi-sec franceses.

Nem a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas.

Nem o brilho comportamental dos torcedores alemães e seus canecos de vidro encervejados.

E nem toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonês ou liverpooliano.

Não, meus amigos, não. 

Este nosso jogo é incapaz de ter a beleza pornográfica de todos aqueles espetáculos europeus, de ter a fleuma civilizatória do bom selvagem do velho mundo e de ter o bolo bilionário de tantos euros.

Ela tem, diria Vinícius e batucaria Baden, "qualquer coisa" além da beleza. 

Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa.


Afinal, nesta Copa tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta. 

E mais.

Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor sangrado da sobrancelha aberta e machucada, transborda em uma alegria sublime, incompatível a qualquer outra de padrão europeu. 

Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelas mais depauperados escretes, rasga-se e morde-se pelo mais irraciocinado dos amores.


E se chora, e se grita, e se late, e se morre, se arrebenta e se abrem as veias sulamericanas para que tudo acabe em um deleite que não se entope, que não se explica.

Porque não tentem convencer chilenos, uruguaios ou argentinos do contrário.

Ora, todos sabem que as suas cores representam uma paixão única, daquelas feitas apenas para amar e para ao final sofrer de um eterno amor. 

Como aqui, com o coração rubro-negro que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infinitos noventa minutos. 

Senhores, a Copa Libertadores da América é assim: feita de paixão, feita de sangue, suor, socos e lágrimas, como em nenhum outro canto desportivo da Terra.

E hoje nada mais importa neste Reino de Bolívar, Artigas San Martín senão estar no caldeirão, em nossa trincheira, empurrando nosso time à mais outra grande vitória.

Saravá!


sábado, 6 de agosto de 2016

# vestindo por amor



A cada madrugada acordado, de tempo em tempo vou ao quarto para ver meus filhos dormindo.

No ninar deles, ouso imaginar os seus sonhos  e os meus também.

Mas não aqueles de dragão, reino encantado e cidades de algodão-doce repletos de personagens de quadrinhos.

Inquieta-me, pois, saber para qual time irão torcer.

Sim, talvez uma das maiores missões que todo homem tem na vida é ensinar o filho a torcer.

E, claro, a torcer pelo seu time.

Não que deva obter êxito neste encargo, mas que deve tentar, como consta na cartilha da boa pedagogia para pais do velho e rude esporte bretão.

Afinal, não há ideologia, religião ou sobremesa que importe mais que ver o seu fruto, a sua obra, a sua divina criação dividir a mesma paixão no futebol.

O trabalho, claro, é duro; no meu caso, morando longe do ninho, beira o mitológico.

Entretanto, assim vou seguindo na pessoal catequização deles, sentindo-me quase como um Padre Anchieta no desembarque pelas praias e selvas brasileiras, mas agora sozinho, sem o pelotão português  ou um furacão  na retaguarda...

Primeiro, provo-lhes diariamente que no princípio era o "vermelho" e o "preto", ao contrário do pregado pela Bíblia.

Ambos, juntos e verticalmente ligados, formam o vermelho-e-preto, a cor mais importante do planeta, que rege o mundo e que sustenta todo o cosmos – e lembro que o "verde", ao contrário do que pregam os ambientalistas, não é cor que se cheire.

Mas aqui neste Rio de Janeiro o perigo é grande, pois corro o risco dos meus filhos, confusos na identidade de tons, acabar num time nativo, maciçamente presente pelas ruas, casas, parques, praias e confins.

Bem, depois a complicada tarefa é começar a ensinar nosso hino e urros de guerra.

Embora esta segunda parte seja-lhes muito agradável – ora, toda criança que se preze gosta de berrar palavras de ordem e a esmo –, as lindas letras da camisa rubro-negra que só se veste por amor ainda saem difíceis, como quem diz sem saber muito bem o que diz.

Eles tentam, erram, desistem, tentam, erram, desistem, erram, e a cada insistência minha desiste mais do que tentam.

Começo eu a ficar meio chato, confesso.

Um terceiro momento desta saga pela torcida deles é fazê-los sentar ao meu lado e, diante da televisão, por longos minutos, ensiná-los a arte de se contorcer pelo time adorado.

Dura missão, e sei que terei trabalho para uma vida.

Mas, claro, não importa, pois o resultado poderá ser impagável.

Ora, imaginar estar ao lado de Benjamin e de Santiago e poder sentir o que há mais de trinta anos sinto quando estou com meu velho pai, na nossa Baixada ou no nosso caseiro camarote em Curitiba, valerá quantas vidas forem necessárias.

A preparação para os jogos, as idas ao estádio – inclusive do inimigo verde... , os papos preliminares, os debates com chicabons e amendoim de intervalo, as resenhas da volta, as notícias da semana, os cantos, os gols, os títulos, as rinhas, os revezes, as ressacas...

Enfim, a paixão conjunta pelo Atlético fez-me ter com meu pai esta boa parte da vida lado a lado, juntos, ligados num mesmo refrão e dividindo momentos que não teríamos se os nossos caminhos no futebol fossem diferentes.

Tivemos, na emoção de acompanhar e torcer pelo mesmo time, parte da forma da nossa relação.

E do amor que tanto nos une.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

# hecatombe



A necropsia do futebol brasileiro, depois da reveladora noite de hoje – um outro sete a um –, é absolutamente urgente e imprescindível.

E nem entrarei no mérito do jogo que nos eliminou na primeira fase da Copa América: um primeiro tempo muito bom da seleção brasileira, um ilegal gol peruano etc.

Como aqui já dissemos – e aqui sucumbimos, num périplo pelas cinzas de Copacabana –, o velho e rude esporte bretão por nós praticado tem se mostrado, há tempos, inválido, esquálido, pálido, pouco promissor e nada alvissareiro.

A cantilena do futebol-mágico de outrora, sedimentado no inconsciente do imaginário coletivo produziu um sentimento que, de novo exemplarmente, tem nos impedido de reconhecer a necessidade de viver a pragmática realidade e de sobreviver ao nosso ego, cujo impulso parece incapaz de admitir a nossa inferioridade e, assim, inverter a nova ordem do futebol.

E por isso, e do modo ainda mais sinistro, outra humilhação histórica da seleção canarinho agora exige reflexão, mudança e avanço – e tudo imediatamente.

Se aquele julho de 2014 não bastou, e era isso que agora precisávamos para enxergar que no espelho o reflexo já não é belo, está aí, tudo feito e escancarado, sem a ilusão de vitórias circunstanciais e das conquistas de conveniência.

Hoje, falta-nos quase tudo, e vê-se claros problemas em tudo.

É emocional, é tático, é técnico, é estratégico, é organizacional, é de jeito. 

O jeitinho dos nossos treinadores é obsoleto, caricato e facilmente se desmancha no ar quando se requer a mínima rearrumação e a mais urgente reforma em campo.

A organização estratégica da nossa seleção é imoral e ordinária, típica de uma administração fechada e de fachada, mafiosa e mafiona.

A técnica e a tática do nosso futebol são reiteradamente desprezadas – tudo fica iludidamente resumido à viuvez da arte e do espírito brasileiro de se jogar futebol, na esperança eterna de que nossos poucos gênios possam salvar a pátria e que tudo o mais é coisa das ciências e de chatos tabuleiros.

E, por fim, o aspecto psicológico de nossos jogadores é alçado à quintessência, como causa e solução de todos os males, à espera da sacrossanta auto-ajuda de decoradores da alma, como se o futebol fosse o resultado aleatório de eventos comandados pelo destino e pelo coração.

Para bem além, a grande crise é estrutural, de base, de planejamento.

A decisão inicial é fácil, simples e inodora: exploda-se esta CBF – bandida e maligna – e se enterre, como lixo atômico, os seus restos.

E que só nos sobrem os restos mortais do nosso futebol.

Restos que, após os sucessivos vexames, sejam o humo da nossa potencial transformação.

Fora e dentro do campo.

Para que, assim, até 2018 salvemos não só a seleção.

Mas o futebol brasileiro, hoje de saudosa memória.



sábado, 11 de junho de 2016

# atleticanas (II)



Acostumado ao clima da sua terra, o Atlético alcançou neste noite uma das mais improváveis vitórias da temporada.

E, atenção, não bastasse o que se via naquele primeiro tempo tétrico contra o São Paulo – no qual perder por um gol foi lucro –, tinha no lombo um amargo tabu: há 33 anos não vencia naquela casa adversária.

A última vez?

No histórico Brasileirão de 83, vitória simples, gol de Assis – ele, ao lado do seu inseparável Washington, os meus primeiros ídolos rubro-negros (v. aqui).

Mas a neblina que baixava, o minuano que soprava e as estalactites que brotavam naquele pálido gramado do Morumbi pareciam anunciar o fim da longeva sina.

Inspirado nos cantos embotados de cimento e lágrima que recheia a selva de pedra são-paulina, a baliza atleticana era um concreto armado intransponível, parecia um corpo fechado como se preparado não no cruzamento da Ipiranga com a Av. São João, mas numa encruzilhada remota do bairro do Umbará.

Faltava, apenas, cutucar a onça tricolor, indo para o jogo, aceitando a bola e desrespeitando a lógica futebolística que ali insistia ser posta em cheque.

E aí veio a intervenção de vestiário de Paulo Autuori, que corrigiu os (seus) erros e trocou os zeros escalados de início – rodízio sem elenco é certeza de vexame, ora pois – por algo que pareceu duas dúzias: Walter e Nikão, titulares poupados que mudaram o jogo.

Com eles, e mais o fôlego etíope de Deivid e o pulmão biônico de Otávio, o Atlético passou a ser frio e calculista, virando o placar.

Uma vitória inesperada, de um time que ainda espera se encontrar.

Uma vitória, enfim, de quem conhece como ninguém o futebol on the rocks.



quarta-feira, 25 de maio de 2016

# atleticanas (I)



Arrisco no exagero temporal, mas mesmo assim não hesitarei: o Cleberson é, tal qual uma Carlsberg, provavelmente o pior zagueiro da história do Atlético.

Sempre atrasado nos lances, sempre no lugar errado na hora certa, sempre posicionado onde nunca deveria estar, nunca estacionado onde sempre deveria estar, é um descuido da física e um arremedo do raciocínio lógico.

Salta como um sussurro, corre como curupira, marca como um pinguim, balança e cai como um pacote flácido, é simplesmente um terror que se movimenta na contramão atrapalhando toda a nossa máquina de jogar futebol.

Fura, flamba, falseia, floreia, faz fumaça em qualquer mano a mano; bola na mão, mão na bola, queixo e bunda no chão, é um joão clássico para qualquer mané mirim que lhe enfrente.

Algo inadmissível para um defensor, sorri o tempo todo, num sorriso de Monalisa indecifrável como o esporte de bom moço que tenta praticar em campo.

Ele, com o sono estampado no rosto e seu jeito de boneco de posto de gasolina nos braços, tem um futebol lento, lerdo, dopado com sangue batizado que não oferece combustão alguma.

Sem vigor, sem jaça e sem força, vai de mal a pior num curto espaço de tempo – assim, cobrar-lhe qualquer noção de tempo e espaço seria até indelicado.

Ora, as suas dificuldades básicas com a bola, psicológicas com os atacantes e matemáticas com tudo que acontece dentro das quatro linhas e no universo do retângulo da grande área são comoventes.

Ao seu lado, qualquer beque sentaria e choraria, às margens do rio Água Verde que por debaixo da Baixada passa; na sua retaguarda, arqueiros como Lev Yashin se transformaria num reles aracnídeo pálido, vesgo, maneta e cansado de ver a meta arrombada.

E assim vive o nosso imberbe zagueiro: cansado, alienado, como se navegasse num mundo paralelo, lisérgico, catando conchinhas no lado de lá das nuvens enquanto a caravana adversária passa – e, dele, nem um pio se ouve.

Que mistério, afinal, ronda o clube que não se desfaz, por qualquer conto de réis, deste personagem, desejando-lhe toda a sorte do mundo e mandando-o para longe, de preferência a vinte mil léguas submarinas do CT do Caju?

Cleberson, meus caros, é uma injeção indesejada de pavor na veia que nos levará a viajar pelas trevas.



sexta-feira, 31 de julho de 2015

# lado a lado



O recente feito do Rivaldo -- sim, aquele do penta -- e do seu filho, ao disputarem juntos um jogo da 2ª divisão brasileira e fazerem os gols da vitória do seu time, não foi daqueles de apenas fazer história -- e de ser muito mais significativo do que aquele próprio penta (v. aqui).

Foi, para além, um daqueles negócios de enxaguar a retina, de lavar a alma e de revelar, mais uma vez, o que o futebol é capaz.

Eu, bem, eu não sei ao certo quando foi a última vez que joguei futebol com o meu pai.

Deve ter sido lá no ótimo campo da Chácara Lunardon, nos arredores de Colombo, região metropolitana de Curitiba, onde por anos, nas noites de terça-feira, muita gente se reuniu para jogar bola, assar carnes e trucar.

E isso faz tempo.

Mais do que o tempo, custa-me lembrar porque, infelizmente, jamais acreditamos no tempo, e neste descrédito não marcamos as nossas passagens, desleixando os pequenos grandes fatos da vida.

Afinal, não imaginamos -- ou duvidamos -- que os momentos, que quaisquer momentos, podem ser os últimos.

E numa daquelas noites de terça-feira, de um mês qualquer de um ano que já não posso imaginar, tive com meu velho a última partida de futebol.

Ele era um camisa 2 moderno e de garba elegância, um lateral direito com refinada técnica, apurada visão e, como assim deve honrar todo bom jogar nascido e criado no Sul do Brasil, daqueles que perdiam um joelho mas não perdiam uma dividida.

Carlos Aberto Torres? Não... o capita que me desculpe, mas nunca houve um lateral direito melhor que meu velho.

Recordo, como se fora hoje, do seu chute, da sua precisão nos cruzamentos e, diria Nelson Rodrigues, da sua saúde de vaca premiada que nem as doses industrias de nicotina abalavam -- às favas, a modéstia (e as advertências rotuladas pelo Ministério da Saúde).

Entre nós, a onda era sempre jogarmos juntos, burlando legitimamente os sorteios da pelada que porventura insistisse em nos separasse.

Entretanto, não tinha maré mansa: no mais das vezes saíamos discutindo, na vitória ou na derrota, e como se num divã seguíamos, até chegar em casa, bicudos e em filosóficas resenhas sobre um lateral mal batido, um toque mal feito ou um arremate mal calculado.

E toda terça-feira o espetáculo era o mesmo -- no fundo, claro, adorávamos tudo isso.

Até que tivemos uma última terça-feira.

Nela, o meu velho certamente já deveria revelar o peso da idade, da barriga, dos pulmões, dos músculos e dos tendões.

Nela, eu certamente já deveria ter crescido mais, revelando menos paciência, menos obediência e menos gosto por aqueles programas atípicos para quem, pelos olhos dos 20 anos, tinha o fetiche do mundo à disposição. 

Mas, vejam só, a graça da memória é que ela não nos costuma trazer a débâcle daquilo que sempre idealizamos.

E por isso não guardo estes últimos dias da nossa despedida dos campos.

Guardo, sim, aqueles outros momentos: nós, em grande forma, vestindo os meiões à beira do campo, amarrando nossas chuteiras pretas, trocando longos lançamentos enquanto aquecimento e, claro, jogando juntos.

Jogando e discutindo, jogando e rindo, jogando e compartilhando a existência a cada lance, a cada minuto, perto, lado a lado.

São essas algumas das imagens que melhor cuido, armazenadas como relíquias da minha história.

E são imagens como essas que um dia também ouso ver, num mesmo palco da bola, junto com Benjamin e Santiago.

Salve, o futebol.




terça-feira, 28 de julho de 2015

# aranha verde



Orgulhoso dos dias e noites a vestir rubro-negro e a acompanhar, in loco ou não, o amado clube da Baixada, tinha cá pra mim que aquela quarta-feira nada mais seria senão uma outra noite de futebol para se ver na tv, indolente, na companhia do meu também atleticano pai.

Era 1985 e eu, de muita tenra idade, tinha o futebol como o meu mundo, e assim já era capaz de entender o mundo pelos olhos de um jogo de futebol.

Entretanto, à época, a inocente infância ainda impedia de sofrer na torcida pela desgraça da equipe que ali, numa inusitada final de campeonato brasileiro,  estia verde-e-branco.

E naquela noite e naquele palco pude confirmar que estava a ver um dos grandes jogadores da minha história de futebol.

Que baita atuação, meus senhores.

Soberba, deslumbrante, de encher os olhos de um piá ainda imaculado por quaisquer dos pecados capitais que poderiam proibir de enxergar, no arquirrival, um craque de bola.

A pegar tudo -- ou quase tudo, pois um repicado chute acabou entrando --, aquele sujeito com tipo de vilão de faroeste americano tornou-se o grande responsável pelo resultado final daquele jogo.

E não no naquele, mas de tantos outros daquele torneio de 85.

Um desempenho magistral, homérico, digno de lhe valer uma placa, um busto, uma estátua, um caminhão de bombeiro só para ele -- um Alto da Glória só para ele.

Afinal, ora, não apenas "gols" deveriam merecer tais homenagens, mas também a sua antítese, pela magnânima arte, também lhes é credor.

Ali, naquele jogo, com cada vez mais coragem e competência, parecia um muro vivo, gigante, octópode.

Mais do que isso, parecia a encarnação de alguma divindade abençoada pelos supremos deuses das metas.

Por cima, por baixo, ao longe, de perto, à direita, da esquerda, pelo centro, do corner, pela frente... os milagres deslumbravam a mim e a todo o estádio que contra ele torcia.

Já era um mito, e não só na terra da futura aranha marrom.

Um mito nacional, eterno, impávido e colosso.

Num dos maiores goleiros que vi jogar, Rafael Camarota, a minha homenagem aos coxas, neste aniversário de velhinhos 30 anos daquele título cuja lembrança me foi comovidamente trazida aqui, no ultimo domingo. 



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

# aspas (xlii)


A fascinante crônica do Velho Cronista sobre a grande noite que se reinaugura logo mais.

E nada mais precisa ser dito (v. aqui).

Olhe lá, a Baixada quieta, calada feito criança culpada, não dispara um único som. Dorme um sono pesado, de concreto e ferro fundido.
Descansa, calma feito noite fria.
Tudo está quieto demais no front.
As trincheiras estão vazias, os bunkers estão desabitados, as casamatas estão desguarnecidas.
E todos nós já vimos filmes de guerra o bastante para saber que esse silêncio verborrágico, essa calada perniciosa, prenuncia um estrondo fatal e desvairado.
Na calada da noite, enquanto os santos dormem, uma multidão inteira, com pensamentos peçonhentos, ocupa as trilhas que levam ao Estádio Joaquim Américo.
E quando nos dermos conta, aquele estádio estará integralmente tomado por um povo ensandecido, com pavilhões e fardas a chacoalhar nas mãos, ecoando cânticos elevados e promissores.
Quando rebentar o primeiro disparo será como o estouro de mil manadas a correr, cascos febris castigando o concreto em galopes ligeiros.
Hoje, a imensa torcida do Clube Atlético Paranaense vai matar, com ferroadas lancinantes de fascínio, toda a saudade da sua casa.
E a massa vermelha nem vai ter tempo de chorar a emoção da volta. Mal vai pisar no concreto imaculado da Baixada e já vai ter de entoar gritos de escora e auxílio, empurrando o escrete para cima do adversário, posto que o encargo do Atlético-PR é mastodôntico: precisa impor terríveis três gols no tinhoso time do América-RN.
Quarenta mil almas serão forjadas no desespero e na aflição, curvando a cada giro do relógio. Os céticos – se é que ainda existem depois daquele embate contra o Sporting Cristal, comprado no calor das penalidades – que não apareçam por lá.
Este estádio, meus caros, não foi erguido para incrédulos. Ele foi feito para quem, à imagem dele, foi criado a ferro e fogo, a quem tem vigas no lugar de veias, a quem traz na espinha dorsal a firme convicção da virada.
Os ateus, portanto, que deixem espaço para quem segue esse time por toda parte.
Hoje, Curitiba sairá toda em romaria, gente de fé, multidão inteira, órfã de casa há mais de mil dias, que vem de pegar emprestados campos e arquibancadas Brasil afora, e que anseia em lançar mão de uma só vez sobre aquele campo que é só seu.
O Atlético-PR está voltando, enfim, para casa. E ele chega, pontual, no momento mais perfeito para o regresso: quando os estádios todos da Copa do Mundo já estão usados, frequentados, consumidos. O Joaquim Américo estreia hoje intacto. É como a joia guardada para o final, o presente que chega por último.
Obrigado aos Castelões, às Arena Manaus, às Fontes Novas, que abriram o espetáculo, mas é hora do recital principal.
Agora, todas as luzes desses holofotes curiosos estão mirando exatamente ela, a Baixada, que debuta hoje.
Morteiros vermelhos cruzarão os céus, canhões serão apontados para o centro da grama, lanças e setas viajarão pelo terreno. E o povão ensandecido encherá de cor aquele cinza e o Brasil inteiro verá que a palidez do cimento deste estádio é proposital – a matiz deste campo pertence ao povaréu nas arquibancadas, às camisas e flâmulas que tremulam incansáveis.
A Arena da Baixada hibernou por duas eternidades e agora se levanta.
E o país inteiro vai estremecer ao som dos seus rugidos.



quinta-feira, 12 de junho de 2014

# pátria de chuteiras


Vai começar.

Sessenta e quatro anos depois, finalmente o país deu um jeito  e se deu o direito  de ser, literalmente, o país do futebol.

O maior espetáculo da Terra na terra da sua mais ilustre gente, que fez do futebol a sua máxima expressão cultural e desta a sua maior identidade planeta afora.

Não é pouca coisa.

E o Brasil mudou, cresceu, amadureceu.

Mas nem tanto.

A partir de hoje, a cada momento em que aqueles onze caras pisarem no gramado, perfilarem-se para o hino nacional e se prepararem para a batalha que se sucederá, seremos inadvertidamente imaturos, imberbes sorvidos pela crua comoção de uma Copa do Mundo.

Sob a mais irracional paixão, seremos dominados pela emoção do velho e rude esporte bretão em seu traje de gala, com todas as pompas e circunstâncias.

Transpiraremos como nossos laterais, berraremos como nossos beques berram, xingaremos como volantes brucutus, festejaremos como festejam os avantes artilheiros e daremos suspiros tal qual nosso goleiro salvo pelo gongo da trave. 

De joelhos, uns farão figas e acenderão velas, na eterna certeza de que aquele gesto vai mudar o jogo, vai mexer a bola ou vai ser um mero vodu em face da ameaça inimiga.

De eterno e surrado suéter verde, pantufas amarelas em pés trocados e a mesma briosa bandeira engomada a tiracolo, outros manterão rituais sem qualquer sentido senão o sexto sentido da fé, do axé, da mandinga, da intuição ideológica e sem freios.

Gritos toscos, roucos, febris, frívolos, glóticos, guturais e juvenis, em uníssono, movem e unem uma família inteira, um mundo inteiro tropical e abençoado chamado Brasil.

E novamente aqui da nossa casa, em nossa casa, no nosso caminho, em nosso solo tão gentil. 

Haverá festa na cumeeira, nas ruas, nos barracos, nos bares, nas calçadas, nas praias, nas margens das ribanceiras enfeitadas com as cores da nossa gente... tudo sob um aparente mistério como sói acontecer a cada quatro anos, nesta coisa mágica que, mesmo sabendo que além de tudo engorda, acaba por nos enfeitiçar, nos engolir e nos fazer quase duzentos milhões a postos, pra frente, ao ataque e na defesa do nosso pavilhão.

Enfim, a nossa pátria, em raios fúlgidos e vívidos, em campo estará pelos próximos trinta dias.

E o mundo vai parar para nos ver em ação.

Salve, salve, a seleção!  


quarta-feira, 11 de junho de 2014

# malígrina


Depois de 2006 jurei nunca mais fazer juras de amor pelo futebol da seleção canarinho.

Aquele escrete  circense, negligente, fanfarrão e desidioso  formou as nossas "chuteiras apátridas", que provocaram traumas, ódio e lições (v. aqui).

Passou 2010 como se jamais houvesse acontecido, a ficar esquecido no tempo como ficou aquele 1990.

E cá estamos na Copa do Mundo no Brasil.

Entre tantos desgostos, misturada a tanta contrariedade e temperada com muito dissabor, aqui estamos na nossa Copa do Mundo.

Sim, vingaremos 50.

Vingaremos cada Barbosa, Ademir, Friaça, Zizinho e Jair, chuteiras da nossa pátria de 64 anos atrás; e vingaremos o nosso povo, os nossos tantos avôs que choraram aquela guerra perdida, como muito bem aqui já se escreveu. 


Cada minuto sangrado, cada lágrima largada, cada coração partido por aquela derrota será devidamente vingado agora, ao vivo e a cores.

E disso não tenho dúvidas.

Não só pelo que ocorrerá dentro das quatro linhas, mas pelo clima de festa e guerra, ideias antagônicas que bem devem preparar e temperar uma Copa do Mundo em casa e que parecem pairar no ar.

Salve, a seleção!


quinta-feira, 5 de junho de 2014

# quatro linhas e as hipotenusas


Com base em um discurso hipócrita, vazio e dissociado da realidade, os clubes de futebol estão reproduzindo, em massa, o fetiche da gestão.

E, junto com ela  e no lado oposto ao interesse maior  a babaquice está a imperar em cada setor, a elitização em cada atitude e a precarização do futebol em cada compromisso com o mercado.

Insiste-se, pois, em um clube sem o povo, sem o torcedor e sem um time  e isso, meus senhores, não é um clube de futebol: é uma mera organização.

E, pior, uma organização que não pode acreditar na fantasia do "sem fins lucrativos", pois é notória a mercantilização do negócio, que nas entranhas dos clubes beneficia, num círculo vicioso, dirigentes, empresários, patrocinadores e meia dúzia de boleiros. Ou seja, uma entidade dissimulada, uma fraude, um faz-de-conta sem final feliz.

Ora, a falácia da contabilidade azul, da gestão financeira pós-moderna e da contratualização fabulosa de tudo, além de mascarar o cotidiano sórdido de maracutaias sem fim, ocupa o espaço inamovível do campo, da bola e dos jogadores, autênticos e sacrossantos entes do velho e rude esporte bretão.

Não se prega aqui a crise, a bancarrota ou a picaretagem nos atos e nos intestinos dos clubes (v. aqui e aqui).

Mas, sim, quer-se o resgate da verdade e da razão de ser do futebol: um time e a sua torcida.

Um time que seja para a sua torcida, e não feito de jogadores escalados por interesses financeiros a mando de donos bufões e seus compromissos pessoais, por ordens televisivas ou por  convenientes intelecções técnicas.

E uma torcida que seja da sua gente, do seu povo, e não reduzida à nata social, com suas camisas oficiais de cem dólares, seus tickets a preço de ouro, suas bocarras de fast-food e seus flashs sincronizados com redes sociais e distantes do campo de futebol.

Há de se ter em vista que o nosso exemplo não pode ser os esportes profissionais estadunidenses, cujos tipos e fins são outros, intimamente ligados aos gostos, padrões e ideais ianques.

Afinal, o nosso mundo é o futebol, sobre a nossa cultura e como nosso patrimônio.

Chega de "arenas", de "balanços superpositivos", de "chuteiras coloridas", de "marketing", "pirofagia" e "malabares".

Chega de super-receitas para supérfluos times, de ingressos com valores nobiliárquicos e de menosprezo às tradições, à torcida e ao trato com a bola.

O futebol brasileiro quer times e torcidas, quer jogadores e estádios, quer, em suma, futebol.

Para o resgate da nossa própria gente e da nossa alma.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

# um certo barbosa


Chega o fim da era Barbosa.

Injustiçado, polemizado, criticado.

Jamais bajulado, fetichizado, dissimulado.

Macambúzio, hábil, corajoso e incompreendido.

Jamais arrogante, falastrão, pernóstico e desequilibrado.

Infelizmente ele se foi, e carregou com ele as censuras de todo um Brasil em suas costas.

E jamais teve consigo a glória midiática, reluzente, platinada.

Sim, chega o fim da era do grande Barbosa, o goleiro negro de 50 que chorou a falha até o fim da vida e cuja falta sempre lembramos para neste histórico momento enfim querer expurgar.

E não de outro, de prenome Joaquim, que sai da história para alívio da ordem republicana e judiciária.

A era agora é a de Júlio Cesar, goleiro de quem a nossa nova Copa vingará a tragédia da era passada  como aqui, inclusive, já muito bem se vaticinou.

E não mais a época do déspota do Império Romano, nestes tempos travestido num outro negro que só agora se vai, a disseminar vinditas e trágicas decisões, remoendo ranço e rancor.

Sim, não tenho dúvidas.

Os deuses do futebol hão de fazer do nosso Júlio a redenção daquele nosso arqueiro Barbosa.

Enquanto a Deusa Têmis ainda chorará os desatinos do outro Barbosa e seu arquétipo à imagem e semelhança do Júlio romano.


terça-feira, 20 de maio de 2014

# guilherme tell


A vida, e mais especificamente o futebol, provoca situações comoventes.

Incita incomparável emoção, faz o coração pulsar atabalhoadamente e vê correr sangue, suor e lágrimas.

Nele se veem surgir epopeias homéricas, nascer herois fabulares, criar lendas e multiplicar mitos.

Dele se fazem estátuas, dele se montam nações e dele se constroem impérios.

Hoje, terça-feira, quase meia-noite, o Vasco da Gama seguia jogando pela segunda divisão do campeonato brasileiro.

E jogava em Teresina, capital do Piauí, tudo muito árido e num clima meio de neblina, meio de guardamento.

E jogava contra o Sampaio Correa, time tradicional do Maranhão, cujo fardamento é daquelas mais excêntricas coisas que se vê no velho e rude esporte bretão.

E, não satisfeito, perdia o jogo até os 48 minutos do segundo tempo.

E levava sufoco, e agonizava, e sofria, e parecia ainda incapaz de expurgar os efeitos daquela barbárie do final do ano passado (v. aqui).

Aí, vindo do ocaso, eis que na grande área adversária raia o intrépido Guilherme Biteco, uma nova e reluzente estrela de São Januário.

E empata o jogo.

Para sair vibrando, ensandecido, despindo-se da gloriosa camisa cruz-maltina e jogando-a para o alto, em êxtase.

Atrás dele, numa euforia invejável, um time inteiro na busca impávida pelos braços do deificado artilheiro.

Ao cabo, se lançam para se amontoar no gramado, a formar uma pilha única de aliviados guerreiros.

E tudo parecia Iniesta e seus agradecidos compañeros na comemoração daquele solitário gol na final da última Copa.

O futebol é mágico, meus amigos.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

# anotem as placas (ou, "a lânguida decadência do nosso futebol")


O Brasil, com dinheiro e sem inspiração, está a praticar um futebol que pode ser considerado um dos mais feios e vazios do planeta – não disse pior, disse "feio" e "vazio".

E não falo apenas em comparação ao desbunde daquele praticado no Velho Mundo, com a reunião de astros e esquemas de máxima grandeza.

Comparo-o ao que tenho vista em nuestra América – Argentina, Colômbia, Chile e Uruguai têm suas seleções jogado mais do que nós , e nestes jogos do maior campeonato da Terra (v. aqui), cujos clubes hermanos mostram um futebol  em suas partes tática, técnica, física e mental – superior ao nosso. 

Ontem, por acaso, foi apenas mais uma prova, como também já tinha sido na terça-feira e em toda a competição latino-americana.

Com jogadores caros e de nível barato, Atlético, Flamengo e Botafogo, por exemplo, levaram um banho.

Argentinos, mexicanos e até bolivianos mostram-se muito melhor preparados, com um padrão e sistema de jogo absolutamente superiores e, até, muito mais técnica.

O condicionamento físico de Flamengo e Botafogo deu pena. Antes mesmo da metade do segundo tempo, a grande maioria sofria para caminhar, olhando a banda de mexicanos e argentinos passar. 

Culpa, claro, de um futebol brasileiro que ainda se importa com os torneios estaduais, os quais impedem uma pré-temporada e uma preparação adequada – imagine que, já no começo de um moribundo janeiro, os grandes clubes obrigam seus atletas a estarem competindo, vagando pelos campos de pelada interior adentro. Ademais, tal qual aqueles nossos criativos japoneses, lembremo-nos que, historicamente, os nossos jogadores são menos atletas do que os jogadores dos outros, 

Em termos táticos, os brasileiros são medíocres e andam sofríveis. Não há nada, nada pensado, treinado, armado, engenhado. Nenhuma alteração, nenhuma variação e nenhum ensaio. É o trivial, o básico e o bumba-meu-boi, resgatando o futebol europeu de priscas eras, baseado no chuveirinho e na correira desenfreada.

Culpa, claro, da má preparação dos nossos profissionais, do descaso com o estudo e a estratégia do jogo e das atitudes de quem ali à beira do campo pensa saber tudo – e por isso ignora o óbvio ululante  ou sabe que não pensa em nada – e por isso insiste só nas obviedades.

E, tecnicamente, o jogador brasileiro tem a cada ano piorado. Os três times eliminados desta Libertadores são apenas o corolário desta fase horrorosa dos nossos jogadores, que não conseguem trocar três ou quatro passes, que vivem de chutões e de bolas paradas e que desconhecem qualquer sentido de organização e coletividade. 

Culpa, claro, da má formação técnica, da falta de preparo nas categorias de base, da insistência em confundir "habilidade" com "técnica" e do desprezo com que sempre encaram qualquer conformação plural, ainda a pensar que resolvem tudo a hora que bem queiram e, ignorando o football association, não admitindo a nossa flagrante escassez de didis, niltons, gersons, rivelinos e zicos.

Não, o futebol brasileiro há tempos já não tem esta moral e esta profusão de individualidades geniais.

A eliminação precoce de metade dos times brasileiros no torneio, marcada por um atropelamento físico, tático e técnico dos adversários, é apenas mais uma prova disso.

Talvez esta Copa do Mundo poderá nos fazer enxergar isso em definitivo.

E do pior jeito possível.