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terça-feira, 28 de julho de 2015

# aranha verde



Orgulhoso dos dias e noites a vestir rubro-negro e a acompanhar, in loco ou não, o amado clube da Baixada, tinha cá pra mim que aquela quarta-feira nada mais seria senão uma outra noite de futebol para se ver na tv, indolente, na companhia do meu também atleticano pai.

Era 1985 e eu, de muita tenra idade, tinha o futebol como o meu mundo, e assim já era capaz de entender o mundo pelos olhos de um jogo de futebol.

Entretanto, à época, a inocente infância ainda impedia de sofrer na torcida pela desgraça da equipe que ali, numa inusitada final de campeonato brasileiro,  estia verde-e-branco.

E naquela noite e naquele palco pude confirmar que estava a ver um dos grandes jogadores da minha história de futebol.

Que baita atuação, meus senhores.

Soberba, deslumbrante, de encher os olhos de um piá ainda imaculado por quaisquer dos pecados capitais que poderiam proibir de enxergar, no arquirrival, um craque de bola.

A pegar tudo -- ou quase tudo, pois um repicado chute acabou entrando --, aquele sujeito com tipo de vilão de faroeste americano tornou-se o grande responsável pelo resultado final daquele jogo.

E não no naquele, mas de tantos outros daquele torneio de 85.

Um desempenho magistral, homérico, digno de lhe valer uma placa, um busto, uma estátua, um caminhão de bombeiro só para ele -- um Alto da Glória só para ele.

Afinal, ora, não apenas "gols" deveriam merecer tais homenagens, mas também a sua antítese, pela magnânima arte, também lhes é credor.

Ali, naquele jogo, com cada vez mais coragem e competência, parecia um muro vivo, gigante, octópode.

Mais do que isso, parecia a encarnação de alguma divindade abençoada pelos supremos deuses das metas.

Por cima, por baixo, ao longe, de perto, à direita, da esquerda, pelo centro, do corner, pela frente... os milagres deslumbravam a mim e a todo o estádio que contra ele torcia.

Já era um mito, e não só na terra da futura aranha marrom.

Um mito nacional, eterno, impávido e colosso.

Num dos maiores goleiros que vi jogar, Rafael Camarota, a minha homenagem aos coxas, neste aniversário de velhinhos 30 anos daquele título cuja lembrança me foi comovidamente trazida aqui, no ultimo domingo. 



domingo, 14 de julho de 2013

# atleticania (ii)


Já jogamos como furacão, e já jogamos vazios como o vento.
 
Já jogamos em arenas, estádios, campos e baixadas, e em pocilgas, picos e d´além mar.
 
Já jogamos com noite, sol, chuva e em casamentos de viúva, e já jogamos no frio, sem bodas e como defuntos.

Já jogamos com argentinos, uruguaios e rubro-negros da gema, e já jogamos com múmias peruanas e omeletes suburbanos.

Já jogamos com um camisa dez e mais dez, e já jogamos sem um dez e mais ninguém.

Já jogamos com crioulos cabeludos e polacos com saúde de vaca holandesa, e já jogamos com mamelucos moicanos e mulatos sem raça.

Já jogamos com joões, pedros e josés, e já jogamos só com um paulo. 

Já jogamos com um a mais e que parecia trezentos, e já jogamos com dois a menos e um goleiro de tróia. 

Já jogamos com uma posse de bola barcelonista e fora o chocolate, e já jogamos como reféns taitianos levando fumo sem dó.

Já jogamos metendo bola na trave, no travessão, na forquilha e nas canetas, e já jogamos sem chutar em gol e sem ver a cor do melão.

Já jogamos dando carrinho, dando meia-lua e dando chapéu, e já jogamos minguantes, atropelados por um caminhão.

Já jogamos batendo escanteios, faltas e pênaltis, e já jogamos só batendo o toss e as palmas.

Já jogamos tresnoitado e com bafo-de-onça, e já jogamos depois de uma hibernação polar semivirgem e sem fim.

Já jogamos com técnica, com tática, com beleza, com estrutura e com planejamento, e já jogamos sem rumo e se achando visionários.

Já jogamos valendo o corpo e a alma, e já jogamos velando a alma entregue.

Já jogamos com sangue, suor e lágrimas, e já jogamos só com as lágrimas.

E nestas idas e vindas, e de um jeito ou de outro, para o resultado desta nossa atual relação com os coxas podem dar o nome que quiserem.

Eu chamo de “freguesia”.

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

# coxos


Desta vez sem choro, lá, e sem risos, cá, os coxas caíram, de novo, para a Segunda Divisão.
Mais do que a tristeza e a irritação, lá, e a alegria e a escárnio, cá, pelo rebaixamento, ficou o sentimento de vergonha.
Sem frustração, lá, e sem satisfação, cá, a selvageria patrocinada por bandidos travestidos de torcedores não manchou apenas a queda de um clube curitibano para a segundona.
Todos nós, lá e cá, sentimo-nos envergonhados da nossa gente curitibana.
O episódio manchou a cidade de Curitiba.

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

# cem coxas e um goleiro


Era 1985 e eu, de muita tenra idade, já era capaz de entender e saber o jogo, mas não o mundo-homem. Naquele, uma final de campeonato brasileiro, a inocente infância ainda impedia de, imaculada por quaisquer dos pecados capitais, sofrer na torcida pela desgraça da equipe que ali vestia verde-e-branco.

E eis que naquela noite e naquele palco, do primeiro ao 120° minuto da partida, pude acompanhar uma das mais espetaculares partidas feitas por um jogador em toda a minha vida.

Talvez motivado pelo recente passado em que ele esteve no amado clube, os meus olhos viam incrédulos um sujeito ter uma atuação fenomenal, deslumbrante, soberba.

A pegar tudo -- ou quase tudo, pois um estranho e despretensioso chute acabou entrando --, tornou-se o grande responsável pelo resultado final daquele jogo, cujo épico desempenho mostrava-se digno de lhe valer uma placa, um busto, uma estátua, afinal, não apenas gols deveriam merecê-los, mas a sua antítese, pela magnânima arte, também é-lhes credor.

Mais do que isso: parecia a encarnação de alguma divindade abençoada pelos supremos deuses das metas. Por cima, por baixo, ao longe, de perto, à direita, da esquerda, pelo centro, por trás, pela frente... os milagres deslumbravam a mim e a todo o estádio que contra ele torcia. Já era um mito eterno, impávido e colosso.

Num dos grandes goleiros que vi jogar, Rafael Camarota, as minhas homenagens aos coxas, neste pouco pródigo ano de centenário.
fds

quinta-feira, 4 de junho de 2009

# maria cecília e rodolfo

fds Os coxas, como peru, já haviam morrido na véspera, quando não conseguiram segurar o Internacional no primeiro jogo das semi-finais, fora de casa.
fds Porém, a sobrevida ressuscitadora que se esperava ver no jogo desta congelante noite de quarta-feira foi por água abaixo já logo na entrada da equipa verde-e-branca em campo: a camisa, em meio a tantas outras mensagens publicitárias, estampava -- certamente por quaisquer 30 moedas ou por pesada mandinga, sabe-se lá -- o curioso nome "Maria Cecília e Rodolfo".
fds Ali, exatamente ali, toda a verve e todo o ânimo que se depositava naquele time (e naquele jogo) sucumbiu a esta propaganda subliminar, que fazia de cada um dos onze jogadores meros personagens daquele mais tosco cenário urbano, marcado por uma pessoa travestida de cartaz-ambulante; afinal, como se levar a sério um time de futebol que coloca na camisa a inscrição "Maria Cecília e Rodolfo"? Era o que os gaúchos se perguntavam, enquanto entoavam: "Quanto riso, oh, quanta alegria...".
fds Achei, de cara, que se tratava de uma lembrança ao sobrenome da mais nova contratação do futebol feminino dos coxas -- sei lá, algo tipo "Orleans e Bragança"; mas não, conforme me alertava um amigo.
fds Já no início, no momento do hino nacional, a leitura dos lábios feita pela emissora de tv revelou o que o craque Marcelinho estava a falar ao invés de cantar o hino, emputecido: "Na Paraíba cabra-macho não pode ficar por aí pondo na camisa mensagenzinhas de amor" -- crente que "Maria Cecília e Rodolfo" era uma mensagem paga por dois pombinhos em alusão ao dia dos namorados que se aproxima.
fds Ainda, na tela da tv, era patente a cara desconfortável de cada jogador em não saber a quem servia enquanto oferecia o merchandising de algo chamado "Maria Cecília e Rodolfo".
fds Na hora do gol, percebeu-se claramente que a maior preocupação do gringo artilheiro não foi em comemorá-lo, mas, sim, em esconder aquela inscrição, pois, como católico fervoroso, não queria ficar expondo o nome dos deuses hindus da fé (Mae'riah Ciicil Lae) e da esperança (Roudh'Olf). Preferia ele outras três palavras: "Só Jesus Salva".
fds Depois, fiquei com a convicção de que se tratava de uma homenagem às três pessoas -- Maria, Cecília e Rodolfo, como se três magos -- que fizeram os três sorteios para definir cada um dos jogos dos coxas nas fases pregressas, contra Bahia, CSA e Ponte Preta. Afinal, foi graças ao brilhante desempenho em cada um dos sorteios que se conseguiu chegar até o jogo das semi-finais. Mas não, pensei que isso também seria demais.
fds Assim, hoje, imperada a normalidade, cabe aos coxas responderem: que diabo é (ou foi) "Maria Cecília e Rodolfo"?
fds

segunda-feira, 20 de abril de 2009

# 100 anos: as intermitências da morte


fdsfdsA família Okocha já vinha definhando, fato este notório pelo mais absoluto esquecimento a que os seus remanescentes se sujeitavam. Nada mais a motivava e nada mais a despontava. Sinceramente, parecia que nada mais a faria renascer e sobreviver, tamanho era o fugaz declínio daquela linhagem. Sim, os Okochas, um a um, iam morrendo.
fdsfdsPorém, quase nas cinzas, eis que o patriarca recebe um recado do além: a morte lhe daria uma sobrevida. Sim, numa carta a Sra. Morte dizia que daria ao Vovô Okocha a oportunidade de esperar chegar aos 100 anos, e que, se alcançado o centenário, toda a família passaria a também gozar desta quase eternidade. Era, finalmente, uma chance dada aos Okochas de se manterem vivos.
fdsfdsA condição, sine qua non, era única: não vacilar neste caminho ao centenário, devendo os Okochas passar incólumes pelos Snurfs, os gigantes azuis, e, depois, vencer o temível Ouragan na grande batalha final.
fdsfdsAlegre, toda a família Okocha não se continha na expectativa de ver no seu Vovô – com as suas longas barbas, os seus brancos cabelos e a pele já cansada pelos sofrimentos que lhe acometem desde o final do século passado – a esperança de se recriar, de reviver e de se mostrar impávida e colossal no cenário medieval. Com uma população envelhecida e oprimida, era a chance – última, talvez – dos Okochas sobreviverem e, finalmente, voltarem a conseguir duelar com os Ouragans, esta a mais tradicional família que em vermelho-e-preto domina todo território.
fdsfdsA redenção proposta pela morte conflitava com o angustiante caminho a ser perseguido pelos Okochas. Eles não poderiam vacilar. Eles tinham que estar preparados para tudo e todos. Mas a morte parecia mesmo inevitável. Eram tantos altos e baixos, tantos (efêmeros) sucessos e (inesquecíveis) insucessos que o desastre parecia iminente. La crónica de una muerte anunciada, dizia-se alhures.
fdsfdsÉ verdade que todos sonham com um mundo de eternidade absoluta. Mas, ao mesmo tempo, todos afirmam, com patética coragem, que a morte faz parte da vida. São, estes, os clichês com que todos embalamos nossas mágoas nos funerais das nossas rotinas. E assim é que os Okochas pareciam tratar daquele momento.
fdsfdsPorém, nas vésperas de enfrentar os gigantes azuis, uma surpreendente força sobrenatural parecia empurrar a família para a glória. Parecia -- sim, parecia! -- que o vento passava a agir em favor dos Okochas. Desgovernado, um quase furacão avançava em sentido contrário e parecia permitir que a família Okocha alcançasse o olimpo. Tudo parecia prosperar para tornar os Okochas imortais.
fdsfdsMas eis que chega o dia da primeira batalha. E ela foi inglória. Cambaleantes, sonsos e fracos, toda a otimista expectativa e toda a empolgante preparação rumo ao eterno centenário foram mesmo em vão. De súbito, os Okochas são esmagados e trucidados pelos Snurfs naquela que ficou conhecida como a "Grande Tarde Azul".
fdsfdsNo alto do seu trono, o Vovô Okocha chora compulsivamente, apoiado apenas em sua já gasta bengala. É a morte, que regressa sem tréguas para informar o momento fatal. A dantes incerteza do corredor da morte torna-se certa, aprazando o desaparecimento definitivo dos Okochas.
fdsfds"Tudo se converterá em pó", diz, em voz já trêmula, o velhinho que quase bem faria 100 anos, antes do instante em que finalmente vem a morrer.
fdsfdsE, no dia seguinte, ninguém dos Okochas pôde mais viver. Pelo menos até fazer duzentos anos...

 
fds

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

# os paralelos entre eugênio e evangelino


fdsEugênio e Evangelino preparavam-se para prestar o vestibular e cumprir a promessa feita no início do ano: passar na Federal.
fdsEmbora frequentassem o mesmo colégio e a mesma turma, ambos viviam paralelas realidades diferentes. Eugênio era daqueles que aprontavam. Não queria muito saber de estudar e vivia os seus 17 anos quase única e tão-somente para o prazer, a diversão e a arte, pois sempre repetia para os seus pares, que ficavam preocupados com o seu temeroso desempenho: "[a] hora que for preciso, estudarei e passarei", garantia ele.
fdsEvangelino, por sua vez, era um jovem bastante dedicado, pouco ligado ao mundo extra-classe e que sempre vivia no seu quadrado, crente que apenas um esmerado dia-a-dia seria capaz de lhe garantir o êxito final.
fdsEugênio, embora nome fácil e cintilante em todas as rodas do recreio, em pleno segundo semestre já apresentava na ficha escolar faltas, brigas, suspensões e notas vermelhas; Evangelino, ainda que meio esquecido por todos, era exemplar nos estudos, sem remendos comportamentais e com o título de aluno modelo.
fdsEugênio, sempre rodeado de amigos, não perdia uma festa na cidade, e, sempre rodeado de lindas mulheres, conseguia malandramente levar o namoro simultâneo com várias delas; Evangelino, sempre sereno, aproveitava as noites e os finais de semana para assistir tv, confortável em seu moleton.
fdsA hora do vestibular se aproximava, e os dois cada vez se mostravam mais diferentes. Eugênio, para todos em volta, era um verdadeiro carnaval de sentimentos: alegria, ódio, gozo, decepção e esperança misturavam-se a cada semana, a cada simulado que fazia e a cada noitada que tinha; Evangelino, entretanto, era um iceberg, pois das suas ações o que menos se sentia era um coração a bater, tamanha a nulidade das emoções que provocava em sua volta.
fdsChega , enfim, o último mês. Dali para a grande prova do vestibular haveria pouco mais de quatro semanas.
fdsEugênio, desesperado, convoca a todos. Chama pais, irmãos, amigos, padres, ladies e prostitutas. Pede perdão e pede ajuda. Todos riem, choram e se abraçam. Ele assegura que, nunca antes na história desta cidade, alguém haverá de se dedicar tanto quanto ele neste final. Empolgados, todos prometem irrestrito apoio nesta reta final. Todos querem auxiliá-lo a conquistar o seu merecido lugar, afinal, ele, Eugênio, era um dos líderes daqueles colégio, tinha uma formosa história lá dentro e sempre foi tido como o grande cara. A comoção foi generalizada e todos a sua volta uniram-se a ele, com um só objetivo: a sua aprovação.
fdsPara Evangelino, porém, nada mudou. Continuou ali, no lânguido trajeto colégio-casa-colégio, envolto em livros e com a fria companhia de sua irmã, do seu já débil e aleijado avô, do seu peixinho e dos animados desenhos japoneses.
fdsDomingo, dia 7, 5:00 pm. É o grande dia. Para Eugênio, serão quase duas horas de aflição, de angústia, de tensão e de tezão. Para Evangelino, um dia como outro qualquer.
Domingo, dia 7, 8:oo pm. Fim da prova. Ambos saem e já conferem o gabarito.
fdsEugênio faz as contas e vê que acerta 85%. Aprovação garantida. Êxtase total. Estoura champagne, toma litros de rum e promove o maior carnaval nas cercanias de sua casa. Vêm toda a família, os amigos, padres, ladies e prostitutas, e a festa vai quase até o sol raiar.
fdsEvangelino, a sós, também faz as suas contas. Acerta 90% da prova e tem a aprovação garantida, ficando umas quatro posições acima de Eugênio. Numa alegria reclusa e nada contagiante, vai para casa, entra, comunica a irmã, acaricia o vovô coxo, alimenta o seu peixinho e deita no sofá para então se animar com o desenho japonês que está para começar.
fdsE diante disso, realmente parece que nem no infinito as paralelas vidas de Eugênio e Evangelino encontrar-se-ão.
fds
 

sábado, 26 de abril de 2008

# mafalda (ou, sobre a mente de um coxa)


Evangelino era um garoto estranho. Estranho, branquelo e, meio corcunda, tinha um certo ar de "vovô".

Dava tudo por um saiote xadrez, daqueles escoceses chamado "kilt", pois queria impressionar a turma da Mafalda, a mais bela turma de garotas da escola e que achava o máximo aquele gosto, que fazia lembrar os grandes heróis e guerreiros celtas e tido como marca registrada da turma do Caveira, formado por uma rapaziada mais moderna e despachada.

Evangelino era também frustrado, pois sabia que na casa onde morava, as meninas jamais o visitariam, pois, além de velha e apoucada, o odor que dela saía era bastante desagradável, levando ele mesmo a duvidar se sua casa merecia o nome de pocilga...

Uma bela tarde, Mafalda e suas turmas reuníam-se para mais uma tarde de agitação na casa de Caveira quando encontraram Evangelino e o convidaram, com um certo ar de sarcasmo, para ir junto.
Sem titubear, o garoto branquelo aceitou o convite e imaginou: "Puxa, hoje vai ser uma tarde daquelas".

E, de ônibus, lá foram todos a caminho da melhor casa da cidade. Ainda que isolado das moças, o êxtase de Evangelino era tamanho que os pêlos arrepiados faziam despontar ainda mais o branco de suas coxas – e, claro, não poderia ser diferente, haja vista a desproporção de realidades mundanas existente entre ele e a turma do Caveira, da qual, pelo menos por algumas horas, ele poderia agora ver diminuída.

Chegando lá, ainda isolado e sem perspectiva de conseguir fazer parte da turma, Evangelino passeia e se deslumbra com o que vê em volta, pois a modernidade e a excelência de tudo que vinha daquele lugar e daquela turma era indescritível.

Refeito do impacto, vê ao longe a doce Mafalda e, trazendo consigo a força dos antepassados que outrora mandavam na cidade, arrisca e dela se aproxima Mafalda, pois a mesma parecia triste com o fato de ter sido ignorada por Caveira.

Sim, já há algum tempo Caveira desprezava-a, pois passou a ter os olhos voltados apenas para Raquel, um outro tipo de mulher, mais adulta, mais cosmopolita e que vivia Brasil afora, bem diferente do ar caseiro e regional – ou "jacu", segundo Huracán, amigo de Caveira – de Mafalda.

Papo cá e lá, enquanto quase toda a Casa só falava na Raquel, ficava visível que Mafalda era uma ciúme só. Achava que não merecia ser tão desprezada. Achava que não era tão pior que Raquel. Achava que toda aquela Casa tinha que lhe prestigiar. Achava que Evangelino era a pessoa certa, no lugar certo.

Mas, como não poderia fazer nada dentro da casa de Caveira, sai e vai até o portão com Evangelino, vira-se e, de repente, beija-o.

"Ele conseguiu catá-la!", brada Huracán, expiando-os pela janela. Todos riem, e acham aquilo tudo bastante caricatural. Menos Mafalda, que achou pouca graça naquilo tudo, e vai embora, no primeiro táxi que passa. Evangelino, por sua vez, tenta voltar para a Casa de Caveira, mas a turma toda despacha-o e diz: "Nos vemos por aí, mas por ora é melhor voltar para a sua pocilga...".

E assim, a pé, Evangelino quase não acredita na tarde que teve. Lembra dos aposentos da Casa de Caveira, dos banheiros, das salas, da cozinha, das comidas, da limpeza, enfim, fica deslumbrado com tudo o que viu e, por pouco tempo, viveu. Mas, infelizmente, sabe que aquela não é a sua realidade, ainda que, ao que parece, tenha conseguido voltar a viver no meio daquela gente grande, pois o Caveira lembrou que o veria "por aí" – "... mas por quanto tempo será?", pensa Evangelino.

Sozinho, já no ônibus, teme a volta à sua vida, vivida numa casa engraçada, velha e mal cheirosa.

Porém, se socorre nas lembranças que tem de Mafalda ("Ah, a Mafalda...", suspira) e fica a pensar como fará para conseguir comprar o seu "kilt"...

 

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

# cai, cai balão?

Não sonhei. Peguei a tabela e apenas calculei. E ficou fácil de prever.

Cruzeiro - amanhã - no Couto Pereira
É O JOGO DECISIVO. NÃO SERVE PRA NADA AO CRUZEIRO. TEM OBRIGAÇÃO DE VENCER. (3)

Mas daí...

Internacional - 28/10 - no Beira-Rio
INTER, LIBERTADORES, FORA DE CASA. ESQUEÇAM. (0)
Flamengo - 31/10 - na Arena Petrobrás
FLA, DESESPERO, MAIOR TIME DO BRASIL, A PROBA JUIZADA E A SÉRIA CBF NAO VÃO DEIXÁ-LO NA MÃO. E O DELEGADOZINHO CAI. (0)
Figueirense - 3/11 - no Couto PereiraRETRANCA BRABA DOS CATARINAS PRA NAO CAIR. DEZ NA DEFESA. EDMUNDO NA BANHEIRA FAZ O GOL UNICO DO JOGO. (0)

Brasiliense - 5/11 - em Taguatinga
NA BOCA DO JACARÉ, O LUIS ESTEVÃO JÁ ACERTOU COM OS DOIS BANDEIRAS. OZÉAS FAZDOIS GOLS IMPEDIDOS. LORI SANDRI CAI. (0)
Corinthians - 13/11 - no Couto Pereira
JOGO DO TITULO PARA OS PAULISTAS. GOLEADA. GALVÃO GRITA: É TETRA, É TETRA. (0)
Ponte Preta - 17/11 - no Couto Pereira
A MACACA QUER ENTRAR FINALMENTE EM UMA SUL-AMERICANA, ALGO QUE NÃO FAZ DESDE A SUA FUNDAÇÃO (SÉC. XIX). JOGO HORROSOSO. ZERO A ZERO. ALADIM LARGA A CÂMARA, PEGA A LÂMPADA, SE AGARRA NO EX-GOLEIRO JAIRO, E ASSUMEM O TIME. FAZEM TRÊS PEDIDOS. ESTE PRIMEIRO JÁ NÃO É OUVIDO PELOS PANGARÉS. (1)
Atlético-MG - 20/11 - no Mineirão
IMPOSSIVEL. 120 MIL TORCEDORES A EMPURRAR O GALO PRA LONGE DA SEGUNDONA. (0)
São Caetano - 27/11 - no Anacleto Campanella
A MALA PRETA APARECE EM SÃO CAETANO. EDILSON, MIXIRICA E DIMBA FAZEM UM GOL CADA. DESESPERO. JOEL SANTANA DIZ QUE AINDA DÁ TEMPO. (0)
Internacional - 4/12 - no Couto Pereira
O INTER JOGA O RETORNO A LIBERTADORES DA AMERICA. OS COXAS JOGAM A QUEDA PARA A SEGUNDA DIVISÃO.NERVOS À FLOR DA PELE. 50 MIL EM CAMPO. FOGOS, FAIXAS E FETICHES. FRUSTRAÇÃO. FERNANDÃO FAZ UM A ZERO. RENALDO EMPATA. O BANDEIRA ANULA. SEGUNDO TEMPO. FERNANDÃO FAZ DOIS A ZERO. TORCEDOR-VOVÔ INVADE O CAMPO. DÁ UMA BENGALADA NA CABEÇA DO CAPIXABA. A TORCIDA GRITA: "VERGONHA,VERGONHA!". RENALDO DESCONTA, NOS DESCONTOS. A TORCIDA CHORA: "COXA EU TE AMO".(0)

Com 42 pontos, os coxas estão rebaixados. Corro até Lisboa para o balcão da TAP. Não consigo vôo. Perco o glorioso dia depois do amanhã. Já reservo o pagar-pra-ver da net. O Atlético fica um pouco de lado. E, no primeiro sábado de abril, sento-me confortável, abro uma lata de cerveja e assisto CRB x Coritiba, direto de Maceió. Sim, não era um primeiro de abril.

Quo vadis, coxas?