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sábado, 6 de agosto de 2016

# vestindo por amor



A cada madrugada acordado, de tempo em tempo vou ao quarto para ver meus filhos dormindo.

No ninar deles, ouso imaginar os seus sonhos  e os meus também.

Mas não aqueles de dragão, reino encantado e cidades de algodão-doce repletos de personagens de quadrinhos.

Inquieta-me, pois, saber para qual time irão torcer.

Sim, talvez uma das maiores missões que todo homem tem na vida é ensinar o filho a torcer.

E, claro, a torcer pelo seu time.

Não que deva obter êxito neste encargo, mas que deve tentar, como consta na cartilha da boa pedagogia para pais do velho e rude esporte bretão.

Afinal, não há ideologia, religião ou sobremesa que importe mais que ver o seu fruto, a sua obra, a sua divina criação dividir a mesma paixão no futebol.

O trabalho, claro, é duro; no meu caso, morando longe do ninho, beira o mitológico.

Entretanto, assim vou seguindo na pessoal catequização deles, sentindo-me quase como um Padre Anchieta no desembarque pelas praias e selvas brasileiras, mas agora sozinho, sem o pelotão português  ou um furacão  na retaguarda...

Primeiro, provo-lhes diariamente que no princípio era o "vermelho" e o "preto", ao contrário do pregado pela Bíblia.

Ambos, juntos e verticalmente ligados, formam o vermelho-e-preto, a cor mais importante do planeta, que rege o mundo e que sustenta todo o cosmos – e lembro que o "verde", ao contrário do que pregam os ambientalistas, não é cor que se cheire.

Mas aqui neste Rio de Janeiro o perigo é grande, pois corro o risco dos meus filhos, confusos na identidade de tons, acabar num time nativo, maciçamente presente pelas ruas, casas, parques, praias e confins.

Bem, depois a complicada tarefa é começar a ensinar nosso hino e urros de guerra.

Embora esta segunda parte seja-lhes muito agradável – ora, toda criança que se preze gosta de berrar palavras de ordem e a esmo –, as lindas letras da camisa rubro-negra que só se veste por amor ainda saem difíceis, como quem diz sem saber muito bem o que diz.

Eles tentam, erram, desistem, tentam, erram, desistem, erram, e a cada insistência minha desiste mais do que tentam.

Começo eu a ficar meio chato, confesso.

Um terceiro momento desta saga pela torcida deles é fazê-los sentar ao meu lado e, diante da televisão, por longos minutos, ensiná-los a arte de se contorcer pelo time adorado.

Dura missão, e sei que terei trabalho para uma vida.

Mas, claro, não importa, pois o resultado poderá ser impagável.

Ora, imaginar estar ao lado de Benjamin e de Santiago e poder sentir o que há mais de trinta anos sinto quando estou com meu velho pai, na nossa Baixada ou no nosso caseiro camarote em Curitiba, valerá quantas vidas forem necessárias.

A preparação para os jogos, as idas ao estádio – inclusive do inimigo verde... , os papos preliminares, os debates com chicabons e amendoim de intervalo, as resenhas da volta, as notícias da semana, os cantos, os gols, os títulos, as rinhas, os revezes, as ressacas...

Enfim, a paixão conjunta pelo Atlético fez-me ter com meu pai esta boa parte da vida lado a lado, juntos, ligados num mesmo refrão e dividindo momentos que não teríamos se os nossos caminhos no futebol fossem diferentes.

Tivemos, na emoção de acompanhar e torcer pelo mesmo time, parte da forma da nossa relação.

E do amor que tanto nos une.



quinta-feira, 30 de junho de 2016

# nascentes e poentes


A distância provoca-nos sempre a refletir.

E se é comum lamentarmos que não estamos vendo as nossas crianças crescerem, máximo lamento acomete também para quando não estamos vendo os nossos pais envelhecerem.

Pode ser profundo isso, pode ser uma filosofia de araque ou pode ser apenas reflexo da incompatibilidade da relação espaço-tempo a que me submeto.

Como a física proíbe a presença real de corpos materialmente distantes, não notamos que o tempo para as nossas crianças e para os nossos pais incumbe-se de transformá-los em novos corpos, crescidos e recolhidos, agigantados e enrugados, numa dinâmica natural que desobedece a ordem que tanto gostaríamos.

E por não querermos ver este tempo passar, inconscientemente nos escondemos dos seus marcadores, dos seus símbolos, dos seus sinais.

Porém, à surdina, eles fazem questão de chegar, como se quisessem nos fazer ouvir o uivo pungente dos seus incansáveis passos.

E, de repente, a vasculhar por um armário à procura de um livro esquecido, vejo-me na mão com uma ampulheta e brinco de ver o tempo.

Cuco, de pulso, de parede, da torre, da igreja, em todos esses você pode até conseguir despistar o avanço a galope dos segundos e esquecer.

Entretanto, do escorrimento arenal da ampulheta não se escapa, cuja marca da passagem do tempo é de clara e destemida tirania.

Ali, sem filtros, é a vida que corre, que escorre, implacável e intransigente como uma onda sísmica do mar.

Por isso, ao olhar para as fotos expostas sobre a bancada do escritório, hei de confessar: para não ver este tempo correr, recolheria toda a areia do mundo.

Com ela, montaria um nababesco e indefectível castelo onde viveríamos para sempre – e onde seríamos as múmias mais felizes da Terra.

Porém, se com as nossas crianças o curso é promitente, repleto de expectativas, com múltiplos sabores e num retilíneo movimento para o alto e para avante, com nossos pais é tudo mais cru e mais cruel, pois a progressão geométrica da velocidade da parábola em queda livre é cruciante.

Pois é, as nossas crianças vêm, os nossos pais vão... é o vir e o ir, desoladamente inconjugáveis, como aqui e aqui esboçamos.

E me pergunto: afinal, quantas vidas serão precisas para viver tudo o que necessitamos viver com algumas pessoas que tanto amamos, antes delas crescerem e antes delas se despedirem?

Não sei, mas posto que me fio na ideia de uma só, estilhaço-me na realidade.

E ela escancara o quão rápido tudo está a passar.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

# anos incríveis



Reconheço que desconheço todo o repertório de Joe Cocker, britânico do blues e do rock´n roll que há pouco tempo morreu.

Mas uma música eu bem conheço -- e ela me é suficiente para dizer que conhecia Joe Cocker.

"With a Little Help from Friends", a canção que explodiu o domingo mais hippie da história, para mim -- que lá esteve apenas em sonhos e viagens surreais -- sempre foi mais do que a grande canção daquele terceiro dia em Woodstock.

Afinal, ela é a eterna música que abre o segundo maior seriado de todos os tempos (depois, claro, deste aqui...).

Falo de "Anos Incríveis", que chegou nas telas da TV brasileira logo no início dos anos 90.

Ele tratava das angústias, das dores, das dúvidas, das desilusões, das conquistas, das paixões, das alegrias e, principalmente, da família e dos amigos de um guri de quase 13 anos -- idade essa que, com o andar das temporadas, ia aumentando, assim como ia envelhecendo quem assistia.

Kevin -- o guri -- e a sua trupe viviam no agitado EUA do final dos anos 60, época em que o mundo entrava numa roda lisérgica de cultura e contracultura, liberdade e repressão, sexo e canhões, drogas, paz, torturas e amor.

Eu -- um guri -- vivia com minha trupe numa outra realidade de tempo e espaço, mas num mesmo momento em que tudo começava a acontecer, a ter forma, a ter cheiro, a ter gostos e desgostos.

A vida, pois, já começava a não ser tão doce.

Kevin e eu, tolos como sói acontecer para mancebos naquela fase, víamos tudo com os olhos de pirraça -- em matéria de olhar as coisas éramos, pois, quase como Capitus e os seus "olhos de ressaca".

Movíamos sob a contestação intransigente da vida em casa e a discussão absoluta com pais e irmãos.

O pai deixava de ser o máximo herói para se ter os superamigos do colégio; a mãe, tinha seu amor roubado pela certeza absoluta da eterna paixão pela menina da sala do lado ou da cantina do recreio; e as irmãs, figuras marginalizadas de uma intratabilidade que se pensava obviamente obrigatória.

Eram assim as certezas de quem saía para o mundo e que tinha no lar uma montanha-russa de amor e ódio, de respeito e revolta, de ninho e túmulo.

E na série da TV quem estava ali era eu, e não Kevin, na ilusão de que a semelhança dos casos e dos diálogos com a própria realidade era exclusividade minha, algo bem típico de quem nesta idade crê que o mundo gira em torno de si, como aqui já lembramos.

Neste fim de noite revendo alguns dos episódios, miro-me na nostalgia exemplar daquele meu tempo.

E para tantas coisas -- inclusive aquelas da montanha-russa do convívio caseiro --, as lembranças são espetaculares, de momentos incríveis de uma época que se poderiam bem repetir por sei lá quantas vezes.

Agora, se por nada trocaria todo aquele tempo em que sempre tive o pai herói, a mãe guardiã e as minhas irmãs como as eternas parceiras desta vida.

Também por nada trocaria esta realidade ao lado da mulher amada e dos meus filhos.

Lá e cá, todos anos incríveis.






sexta-feira, 31 de julho de 2015

# lado a lado



O recente feito do Rivaldo -- sim, aquele do penta -- e do seu filho, ao disputarem juntos um jogo da 2ª divisão brasileira e fazerem os gols da vitória do seu time, não foi daqueles de apenas fazer história -- e de ser muito mais significativo do que aquele próprio penta (v. aqui).

Foi, para além, um daqueles negócios de enxaguar a retina, de lavar a alma e de revelar, mais uma vez, o que o futebol é capaz.

Eu, bem, eu não sei ao certo quando foi a última vez que joguei futebol com o meu pai.

Deve ter sido lá no ótimo campo da Chácara Lunardon, nos arredores de Colombo, região metropolitana de Curitiba, onde por anos, nas noites de terça-feira, muita gente se reuniu para jogar bola, assar carnes e trucar.

E isso faz tempo.

Mais do que o tempo, custa-me lembrar porque, infelizmente, jamais acreditamos no tempo, e neste descrédito não marcamos as nossas passagens, desleixando os pequenos grandes fatos da vida.

Afinal, não imaginamos -- ou duvidamos -- que os momentos, que quaisquer momentos, podem ser os últimos.

E numa daquelas noites de terça-feira, de um mês qualquer de um ano que já não posso imaginar, tive com meu velho a última partida de futebol.

Ele era um camisa 2 moderno e de garba elegância, um lateral direito com refinada técnica, apurada visão e, como assim deve honrar todo bom jogar nascido e criado no Sul do Brasil, daqueles que perdiam um joelho mas não perdiam uma dividida.

Carlos Aberto Torres? Não... o capita que me desculpe, mas nunca houve um lateral direito melhor que meu velho.

Recordo, como se fora hoje, do seu chute, da sua precisão nos cruzamentos e, diria Nelson Rodrigues, da sua saúde de vaca premiada que nem as doses industrias de nicotina abalavam -- às favas, a modéstia (e as advertências rotuladas pelo Ministério da Saúde).

Entre nós, a onda era sempre jogarmos juntos, burlando legitimamente os sorteios da pelada que porventura insistisse em nos separasse.

Entretanto, não tinha maré mansa: no mais das vezes saíamos discutindo, na vitória ou na derrota, e como se num divã seguíamos, até chegar em casa, bicudos e em filosóficas resenhas sobre um lateral mal batido, um toque mal feito ou um arremate mal calculado.

E toda terça-feira o espetáculo era o mesmo -- no fundo, claro, adorávamos tudo isso.

Até que tivemos uma última terça-feira.

Nela, o meu velho certamente já deveria revelar o peso da idade, da barriga, dos pulmões, dos músculos e dos tendões.

Nela, eu certamente já deveria ter crescido mais, revelando menos paciência, menos obediência e menos gosto por aqueles programas atípicos para quem, pelos olhos dos 20 anos, tinha o fetiche do mundo à disposição. 

Mas, vejam só, a graça da memória é que ela não nos costuma trazer a débâcle daquilo que sempre idealizamos.

E por isso não guardo estes últimos dias da nossa despedida dos campos.

Guardo, sim, aqueles outros momentos: nós, em grande forma, vestindo os meiões à beira do campo, amarrando nossas chuteiras pretas, trocando longos lançamentos enquanto aquecimento e, claro, jogando juntos.

Jogando e discutindo, jogando e rindo, jogando e compartilhando a existência a cada lance, a cada minuto, perto, lado a lado.

São essas algumas das imagens que melhor cuido, armazenadas como relíquias da minha história.

E são imagens como essas que um dia também ouso ver, num mesmo palco da bola, junto com Benjamin e Santiago.

Salve, o futebol.




quarta-feira, 10 de junho de 2015

# playmobil



E ontem tivemos a notícia da morte do pai dos playmobils (v. aqui).

Lendo-a lembro do menino que em mim se foi, trazendo agora da memória os tantos anos em que meu universo misturava-se naqueles míticos bonequinhos de plástico.

Eu era índio, médico, pirata, pedreiro, xerife, bombeiro, mágico.

Eu era todos, e por tantas longas tardes neles eu materializa as amizades invisíveis que sempre criei.

Enfrentei tropas montadas, prendi bandidos, salvei vidas, descobri tesouros e da cartola tirava todos os meus sonhos que diziam ser impossíveis.

Era a época de tudo simples: ali, bastava trocar o figurino ou a personagem do enredo para então mudar toda a realidade, e ali viajava por velhos oestes, mares, circos e hospitais.

Não via o tempo passar, e numa grande e vazia sala daquela casa passava horas construindo meus mundos, peça a peça, sob a lógica arquitetada por um piá de 6 anos e os olhos de um bigode adulto.

Mas o tempo passa.

E a cada dia mais rápido, vai levando as nossas vidas.

Como levou a do pai dos playmobils, cujo momento merece-me um certo luto.

Afinal, a perda do pai de grandes amigos é sempre muito triste.

Por isso, na próxima viagem à Curitiba levarei meus pequenos filhos a tiracolo na visita que farei às caixas onde todos repousam, num dos armários dos quartos da casa onde cresci – e levarei meu pai junto, é claro.

Como talvez poucos deles ainda me reconheçam  ah, a minha voz e os meus cabelos... –, é pelo fiel grito do meu pai – que desde então nada mudou– que um a um será chamado para então podermos apertar àquelas plastificadas mãozinhas em gancho como nosso sinal de pesar e de acolhida.

Bem, sinceramente já não sei quantos deles lá restarão.

Mas sei que muito do que mim resta ainda está guardado entre eles, na forma de saudade dos longos anos da minha querida infância.



Alguns dos meus visíveis amigos de infância



domingo, 8 de março de 2015

# retratos molhados


Acostumado ao turbilhão de lá, não desabito do meu calmo e bom retiro.

Quando venho, já esmaga a dor da saudade do rio.

Quando vou, jazo como um velho pinheiro dolorido.

Ah, me dera cá e lá viver duplicado, e não numa presença dividida.

Sob um novo atributo da física, estar nos dois lugares ao mesmo tempo.

Ou fundi-los numa mais-que-perfeita ordem espacial.

Queria trazer o sol de julho pra cá, e levar pra lá as noites mais suaves de janeiro.

Trazer a brasilidade e levar a pontualidade, trazer o histórico e levar o bucólico, trazer um centro do mundo e levar o meu centro para o mundo.

O chopp ao mar e a onça do bar.

Mas o que mesmo queria era de novo ter junto toda a minha gente.

A mesma que nas antigas fotos agora revistas sempre parecia nunca se desgrudar.

Ora, nestas fotografias, como disse Tom, estamos sempre tão felizes...

Tira-se, daqueles momentos, tudo o que se vivia e todas as expectativas do que se tinha pra viver.

Dentre elas, a mais inocente era tentar prever o futuro e garantir a alegoria do poeta máximo curitibano: "pinheiro não se transplanta".

E por isso os frutos seriam sincronicamente colhidos e os galhos seriam diariamente podados.

Apertados no cotidiano, sem as interrupções de espaço e tempo, os laços das nossas relações jamais flertariam com o frouxo desenlace.

Entretanto, diante das pororocas da vida, hoje ainda estamos felizes, mas infelizmente longe.

E os amigos que se perdem pelas estradas, os familiares que se vão pelo destino e a parte da Casa que se copacabaniza ou que vira noiva do cowboy pra falar inglês não desmitificam -- e só qualificam -- o poder da saudade.

Por isso, neste ponto, lá e cá parecem estar em eras distintas.

E a cada avião que pego parece uma volta num tempo que jamais recuperarei.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

# encantamento

 
 
Santiago a cada manhã me encanta nesta sua tão precoce existência.
 
O seu riso, acreditem, por si compensa o aviso da falta de rima da poesia que, para explicá-lo, tento em dessiso pôr em marcha.
 
O seu olhar, não duvidem, medusicamente atrai, como aquele que te vê com a retina a esfuziar para querer traduzir o mundo todo, enquanto desde lado não vejo mais nada passar.
 
A sua fala, anotem, dispensa a ausência da inculta e bela, em grunhidos que bem entendo e me embala até a hora de mim se perder.
 
O seu despertar, não desconfiem, tem sim os festejos dos saraus em alto-mar, das noites de carnaval e do astral da boemia que por ele já nem ouso participar.
 
A sua alegria, imaginem, tem a ingênua pureza divinal e a genuína pulsão humana que diariamente me maravilha, me renova e me enche de esperança.
 
O seu amor, que hoje devoto, leva-me a crer num sonho antigo de viver.



 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

# uma vontade de chorar

 
 
As lágrimas são muito mais que fluidos que brotam de glândulas por meio de canais e canalículos como resposta do sistema límbico.
 
Chorar é o transpirar da alma, é enxaguar o rosto de sentimentos que nos inundam de amor (ou das tristezas do amor).
 
Hoje chorei a "despedida", aquele facão que de tempos em tempos decepa as nossas raízes para nos mandar para longe, como se capturados pelas mãos cruéis do destino (v. aqui).
 
Porém, mais do que o meu pé calejado de espinhos frente às mudanças, chorei o choro dos meus dois pequenos filhos, deixando a casa dos meus pais e o convívio com toda a família por mais de dois meses.
 
Chorei o choro que eles não choram porque ainda desconhecem a saudade.
 
Não conseguem medir a pausa daquele dia a dia com o avô, as avós, as tias e as primas.
 
E como desconhecem o tempo, parecem não sentir a falta do amanhã.
 
Vivem o hoje, e apenas embaixo do consciente é que devem guardar o cotidiano mágico de todas estas semanas -- e, lá na frente, um dia quem sabe, resgatam-no de uma memória bisbilhotada, numa roda de um churrasco de domingo já sem graça.
 
Agora, portanto, certamente estão longe de entenderem o que significa uma casa de vó, a farra do furdunço em família e a fortuna da farta felicidade com todos na velha casa, como aqui lembramos.
 
Contudo, diante destes meses todos uma coisa não tenho dúvida: do jeitinho mais ou menos silencioso deles bem compreenderam o sentido do "amor total".
 
E por isso as minhas lágrimas, que tanto demoraram pra secar.
 
Afinal, sei bem a falta que aquela casa fará na vida deles.

E a falta que eles farão a ela.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

# o segundo

 
Um segundo filho não muda a vida -- a vida é que muda esse segundo filho.
 
Mais serenos, mais certos, mais seguros, mais racionais.
 
Enfim, somos mais pais por conta desta nova vida.
 
Restamo-nos mais independentes, mais autorais, mais confiantes, mais convictos.
 
Tudo flui menos laboratorial e tudo acontece com mais naturalidade, inclusive os sobressaltos.
 
Sem cerimônias e sem firulas, o segundo filho te madura.
 
E te envelhece.
 
E isso te muda, para além da aparência com menos cabelos e mais rugas.
 
E te conforta no aparente alívio do futuro.
 
Afinal, a pouca lógica da nossa cronologia permite esperar que no nosso adeus o primeiro, até então único, não chorará só.
 
Ali, naquela hora -- e sempre --, vestido sob o mesmo sangue e a mesma dor, encontrará o ombro e o abraço fraternal para dividir o vazio da perda.
 
Estranho tudo isso.
 
Deslumbrados com a vida que nos apresenta, já pensamos no porvir.
 
Extasiados com o nascimento que nos chega, já ousamos imaginar o nosso fim.
 
É o ciclo da nossa breve existência.
 
 
 
 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

# heroicizar

 
 
Benjamin fará amanhã – que parece nunca chegar – dois anos.
 
Aqui, longe, nesta outra cidade deste outro Estado desta outra região do nosso mesmo país, atropelo-me na imensa solidão do areal de Copacabana para na cabeça dele tentar entrar.
 
Ele ainda pouco sabe de tudo.
 
E talvez por isso – vá saber –, ele pode imaginar o que bem quiser.
 
E por isso ardo em aflição.
 
O que será que ele imagina de mim?
 
Afinal, assim como ele acredita em dragão, dinossauro, pirata de olho-de-vidro e numa lunática esponja amarela, ele deve acreditar neste super-homem aqui.
 
No dia a dia, olha-me como se visse um ser capaz de voar, de não ter dor, de ter toda a força do mundo, de escolher sempre os melhores caminhos, de parar o trânsito, de saber sobre tudo o que não para de falar, de saltar tsunamis que arrebentam nas nossas pernas, de num toque de botão mágico fazer notas brotarem numa boca de caixa, de se esticar como borracha para chegar ao teto de tudo, de chutar uma bola e manusear esquadros como nenhum outro ser do planeta é capaz de fazer...
 
Enfim, imagina alguém mais-que-perfeito, alguém superlativo, alguém hiperbólico, alguém coletivo em si mesmo – isso, ele me vê como uma espécie de batalhão, de nuvem, de cáfila, de alcateia de um homem só.
 
E acredita em mim como um eu que não devo ser.
Na verdade, não sei o que ele gostaria que eu fosse -- e não ser o herói que ele hoje sonha talvez até me frustre.
Ensimesmo, entretanto, eu prefiro não acreditar nisso.
 
E, para continuar tentando fazer de mim este personagem mítico, não ouso abusar das fantasias.
 
Tento, originalmente, usar apenas a alma de pai.
 
 
 
 

domingo, 30 de junho de 2013

# um gigante

 
A minha primeira imagem de futebol também foi com a seleção brasileira, em 1982.
 
Lembro-me que, indignado, não entendia a derrota para aquele time azul e o fim da Copa para nós.
 
Arranquei-me da camisa amarelinha, flertei em desbordar o número 8 às costas e disse que nunca mais iria torcer.
 
Até que bem me recordo do meu velho Bigode, vindo até mim na garagem de nossa antiga casa em Curitiba, puxando-me pelo braço e, já comigo no colo, explicando para alguém de 6 anos o que foi aquilo tudo.
 
Dentre outras coisas, confessou-me que Sócrates não iria gostar de me ver ali, triste e sem a camisa – já largada no chão e misturada ao caldo da sujeira de uma festa que não houve.
 
E a notícia dada rapidamente me recompôs da raiva e das lágrimas.
 
Tive, ali, como parte integrante da frustração coletiva nacional, a minha primeira lição da derrota e do que para nós representa o belo e rude esporte bretão.
 
Mas não foi apenas este o retrato que guardo do meu primeiro jogo da nossa seleção.
 
Viva na memória está toda a preparação decorativa, todos os rituais, todos os quitutes, todas as garrafas de cerveja e de gasosa e toda aquela gente que sem parar chegava para o grande evento.
 
Era a Casa cheia, prenúncio e desculpa para uma grande festa, como de praxe toda família de oriundi gosta de fazer.
 
O agito, o barulho, os suspiros, os gritos, as fantasias, os risos, os comentários de toda sorte e de todo azar.
 
E eu, um minúsculo torcedor, a zanzar em frente à tv num ritmo enebriante, achava tudo aquilo o máximo.
 
E passava a achar o futebol o máximo.
 
E passava a achar o máximo ver toda aquela gente amiga e querida junto, aos berros e aos nervos.
 
Éramos uma multidão, que fazia daquela nossa sala o maior estádio do mundo.
 
E foi neste domingo, numa apoteótica amostra de um possível resgate do futebol brasileiro, que toda esta história me veio à mente.
 
Não era a Copa, mas tinha ares de um jogo que parecia querer buscar a nossa redenção como donos da bola.
 
Mas aqui, longe neste Rio de Janeiro, a casa agora era menos cheia.
 
Distante daquela minha gente, a sala já não espumava agitação, barulho, suspiros, gritos, risos e comentários.
 
Neste domingo, para ver o massacre do Brasil contra a melhor seleção do mundo, tive a companhia solitária de um minúsculo cara.
 
Um cara ainda mais minúsculo do que aquele que, em junho de 82, saracoteava do colo ao congote do meu pai.
 
E agora o colo era o meu, e ele não era simplesmente alguém que ainda não vestia uma camisa 8, que ainda não sabia o nome do nosso camisa dez, que ainda não sabia falar “Brasil”, que ainda não sabia o que é um juizfilhodaputa ou uma kaiserbock ou um grito "vâmoquevaidá" e que ainda não sabia sequer zanzar aqui, zanzar acolá...
 
Mais ainda, era alguém que, na viveza dos seus oito meses, nunca se lembrará daquele dia e do que ali se passou, tão-pouco que ali seria a sua primeira ideia visual de futebol.
 
Mas, na verdade, nada disso importou.
 
Porque este alguém, no jeito dele, conseguiu me fazer a amada companhia que precisava.
 
Neste domingo, o Benjamin foi o meu Maracanã.
 
 
 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

# um particular dia da criação

 
O mundo parou.
 
Por um longo instante de vários dias o mundo pareceu-me parado, suspenso.
 
Ao menos em câmera lenta, nele eu levitava.
 
E nele via a vida, e nela tudo não acontecendo, tudo em silência, tudo bisextamente congelado.
 
À mente, em movimento, vinha apenas a realidade passada, do que fomos e fizemos, e a futura, do que seremos e faremos, enquanto todo o presente insistia em permanecer em seu plano quase surreal.
 
Da conjugação entre o nosso desejo familiar-cristão-civilizacional e a sanha imperativa cromossômica, eis que se conformam os aromas de mais elevados sentimentos e matizes e os acordes de mais profundo lirismo e transcendência poética, para, assim, do dia para a noite, chegar a grande boa nova que modifica para sempre as nossas vidas.
 
Foi o nosso dia da (nossa) criação.
 
Daquele momento em diante – ainda que o nascimento pré-entreluz tenha se dado há quatro ou cinco semanas –, o que estava no plano hipotético do planejar e do querer concretizou-se na forma de um vivo projeto de microscópico ser.
 
Na verdade, nessa ainda transição de pulsante energia humana para uma ultraminúscula gente, maior que o júbilo é o caráter fantástico do acontecimento, afinal, mais difícil que conhecer a conformação físico-químico-biológica de todo este nosso desenvolvimento celular, é saber responder de qual plano viemos e do que será imaterialmente formado.
 
Sim, não será um mero mini-mim.
 
Com essa descoberta, um misto da prova genética e fabulosa de Deus, colocamos em marcha um (fiapo de) sentido que a todo instante ameaçará transformar o conjunto desgarrado – e por vezes sem nexo – de episódios a que chamamos "vida" numa narrativa, se não entendível, ao menos finalística.
 
Parece-me que é apenas de agora em diante, embora ainda com ares metafísicos, que passaremos a compreendê-la.
 
Fora dele, já começamos a ter a impressão de que tudo fora dessa nova vida dispõe do peso necessário para ser importante.
 
A nossa própria existência, inclusive, parece pulverizar-se e desatar da gravidade, tudo em prol da maravilhosa epopeia do proto-crescimento que, ao final, em seu estágio já pleno, deverá nos mostrar não sermos aquele que criamos, mas apenas nele estarmos e na vida dele nos reconhecermos.
 
Sim, esta é a razão da nossa multiplicação.
 
Neste nosso caso, saber que o amor humano – em todas as suas faces e, em especial, nas suas vindouras doses de afeto, zelo, doação, privação... – materializa-se na forma de um novo ser humano, faz-nos ter a complexa e dogmaticamente auto-explicativa certeza do divino poder da criação, pelo qual Ele, com a nossa constante contribuição, é capaz de nos deixar, em franco processo de evolução, mais humanos, demasiadamente humanos.
 
Afinal, ainda que não saibamos o que encontraremos neste nosso novo caminho, infinitamente marcado por incertezas, dúvidas e surpresas, a relação que teremos com a nova vida que estamos a gerar será, sempre, de absoluto amor e de incondicional atenção.
 
Tão certos quanto as plurimotivadas lágrimas, alegrias e emoções que doravante (não) haverei de conter.