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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

# a nova escola: uma revolução



Alguém, um dia, em algum lugar, resolveu fixar um conteúdo programático para ser ensinado nos bancos das escolas do mundo, vasto mundo.

Assim, por toda Oropa, França & Bahia, foi estabelecida uma ordem pedagógico-educacional que, se tinha, hoje não tem qualquer fundamento – a não ser, claro, pelo lógica em si de todo o "sistema", coisa que o velho Marx, com a tese da alienação, já debulhou.

Nesta (des)ordem, cujo sistema de ensino é fruto da escola prussiana de treinar milicos para a guerra, lá do séx. XIX, o mal é manifesto: corrompe-se a energia, trava-se a criatividade e se fulmina a vitalidade de mentes jovens e abertas para o mundo. 


E neste caminho de idiotização robótica do ser humano infanto-juvenil, as ricas contracorrentes são marcadas como símbolos de mera rebeldia, de franca alucinação ou de bruxaria.

São aquelas que encorpam a "educação proibida", a qual pretende desacentuar a escola como "agência seletiva" do mercado e fortalecer a educação como função democratizante da sociedade, não obstante a reprodução social que, fruto de capitais econômicos e culturais absolutamente díspares, sustenta uma cruel desigualdade.

Primeiro, o que se tem em grande parte dos nossos jardins de infância é uma "brincadeira".

São, em regra, galpões pintadinhos de galinhas azuis que num estilo pré-fordista tentam sossegar os nossos pequenos leões, funcionando com um circo baldio no qual palhaços, focas e motoqueiras do globo da morte formam uma massa absolutamente estéril para o que se dispõe.

É, pois, a fantástica loja de depositar crianças que, sob o fanático espírito mercantil da sua líder (a tal "tia-chefe"), promete aos respeitáveis pais um grande espetáculo – mas, sim senhor, ao final entrega apenas a marmelada.

Depois, nos colégios, o que se ensina é um escárnio.

Pior, o que não se ensina é de uma flagrante insensatez, pois tudo vem condensado em saberes enlatados, mímicas da moda e ventriloquismos deterministas que esvaziam o ser humano.

Nas grades curriculares, disparates: em Matemática, passa-se todo um Ensino Médio apresentando (e se estudando) números complexos, polinômios, matrizes, equações de enésimo grau, e por aí vai; em Biologia, é um tal de classes de protozoários pra cá, conteúdo de caules pra lá, mitocôndrias acolá; em Química e Física, se insiste no aprofundamento de cadeias orgânicas, cinética, termologia, fluidostática e de tantos cálculos e fórmulas claramente bizarros e desprezíveis...

E nada, nada disso se aprende, pois não tem aplicação alguma, não tem qualquer importância e não subsiste no universo dos objetivos e na realidade cotidiana dos jovens, futuros adultos e potenciais profissionais.

Pelo contrário, só aguça ainda mais a ojeriza à escola e ao estudo, torna tudo mecanizado e frio e só inibe ainda mais o desenvolvimento mental e humano dos jovens.

E ainda mais grave do que (tentar) ensinar isto tudo, é passar à margem de tantas outras matérias e de tantos outros temas de importância e significado ímpares.

O foco, pois, tinha que ser outro: Filosofia, Política e Teologia, sacrossantas áreas do pensamento.

Porém, essas são apresentadas com desdém, sem padrão e sem a relevância devida.

Esquece-se que são disciplinas cruciais para a compreensão da sociedade e para o (auto)conhecimento, absolutamente vitais para o estímulo à reflexão e para tornar os adolescentes pensadores do que se professa em sala e do que se faz pelo mundo.

Mas, como mal lecionadas, mal trabalhadas e mal conformadas no calendário pedagógico, estes cânones do ideário intelectual moderno são, se tanto, servidos como fast-food, para insossa ingestão (e digestão) dos jovens, então totalmente descomprometidos com as causas e os ingredientes das ciências em jogo.

Além disso, outros tantos esforços tinham que estar concentrados na Língua Portuguesa (a última flor do lácio), nas Línguas Espanhola (uma pátria grande) e Inglesa (o esperanto do mundo pós-moderno global), na Lógica e na Matemática, na História, na Geografia e nas Artes.

Ainda, duas matérias criadas pelo regime militar deviam ser reincorporadas à grade juvenil, evidentemente pelo avesso daquele imposto ditatorialmente: "Educação, Moral e Cívica" e "Organização Social e Política Brasileira", as quais muito contribuiriam para a reformação e reconstrução cidadã de nossos jovens, hoje distantes do mínimo ideal cívico, ético e republicano e da mínima compreensão social e política do Brasil.

Também, uma estrutura de ensino com foco na vocacionalização e a redução do total de disciplinas  fragmentadas, com uma grade que ofereça o mínimo de disciplinas obrigatórias e autonomia para o aluno (e a família) preencherem sozinhos o restante do tempo – já alargado, como no Atlântico Norte – com cursos e matérias optativos em áreas diversas do conhecimento e da cultura.

E, com isso, auxiliar no desabrochamento das "virtudes" de cada um, identificando os talentos vivos e alimentando os sonhos reais de cada jovem.

Mais, a inclusão no conteúdo programático de todo o Ensino Médio de estudos e práticas que apresentem as principais atividades, ofícios e profissões e com elas se relacionem.

Afinal, é aqui, e com o curso de matérias que provoquem a reflexão e o raciocínio dos jovens sobre a vida profissional, que se melhor preparará o caminho e o terreno para as escolhas futuras 
– não será, pois, com este ensino de hoje e as suas toscas aulas de decoração, repetição e ruminação que um adolescente melhor será encaminhado à Medicina, à Música, à Engenharia ou às Ciências Humanas.

Ou há alguma dúvida de que tudo isso é muito melhor, mais importante e mais útil que anos e anos numa carteira ouvindo sobre sistema respiratório de crustáceos, sobre tabela de Linus Pauling, sobre circuitos elétricos e sobre logaritmos?

Mas, é claro, para isso a premissa é mudar o conteúdo das provas de ingresso à universidade e, claro, o próprio fim do fim do ensino colegial: o  "vestibular".

Ora, se mantivermos este sistema em que apenas se ensina 
– ou se dá máxima importância à – tabela periódica, estrutura do caule e equações de terceiro grau, o aluno certamente entrará num faculdade, mas não vai ter parado um momento sequer para refletir e pensar sobre as questões fundamentais da vida.

Por fim, talvez o essencial: a escola em tempo integral, como na maior parte do mundo civilizado ocorre. A transformação do "tempo" para os nossos jovens será o caminho para uma nova vida.

Aqui, portanto, a grande importância e o preponderante papel do Estado, particularmente no plano federal, como principal e renovado meio para se apresentar e cobrar real conhecimento 
– cultural, crítico, valorativo, reflexivo e imaginativo , num terreno que prepare a maior mudança de sempre,  um novo paradigma de educação e de escola: a "Pátria Educadora", como uma dia pretendeu o governo brasileiro (v. aqui).

Portanto, afora base e princípio familiares, será apenas por meio de um Ensino Médio inovador, criativo, alternativo, analítico, participativo e ecoante que conseguiremos ver a mínima transformação na cabeça dos nossos jovens 
– ter-se-ia, pois, uma educação que liberte, a "pedagogia da libertação" que pregava o gigante Paulo Freire.

E essa, pois, seria a nossa pequena revolução.

Caso contrário, abdicando-se de uma real e verdadeira educação, teremos nossa juventude continuamente refém do enciclopedismo vazio de uma escola mercantil e das teses e verdades propagadas pela tv e pelas redes sociais e sob o cabresto do sistema vigente.

Afinal, o que se quer é uma educação que nos ajude a pensar, e
 não uma que nos adestre para obedecer.


You say you want a revolution...


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

# pela luz dos olhos deles



Se tantos tentam ser o pai que queriam ter tido, no espelho dos meus filhos tento ser um pouco daquele que tive.

E se por missão paterna este é o meu modelo, a própria paternidade me faz ver também um outro modelo.

O modelo do amor pleno, do amor incondicional, do amor maternal.

Pois é, ser pai me faz regredir para poder ver a minha mãe.

É na mãe dos meus filhos que consigo transpor a minha própria mãe, e agora poder ver, com os olhos que esta terra há de comer, tudo o que tive na minha vidinha infante.

Sinceramente, não tinha a noção do tanto de amor que cabe na criação de um pequeno ser – neste meu cotidiano, passa um filme do fim dos anos 70 cujo enredo é o amor maior do mundo a mim tributado.

Agora, de perto, já não mais duvido que quase dê para pegar no tanto de sentimentos que se materializa nesta relação de mãe e filho – e, sejamos francos, da mãe para o filho.

Ora, bem miúdos parece que retribuímos tudo instintivamente, meios selvagens, numa ideia primitiva de desejos felinos (ou primatas) de saciar nossas orgânicas vontades.

E, já crescidos, lembramos que não conseguimos lembrar tudo o que, plena e insistentemente, as nossas mães faziam por nós naquela época da plena dependência.

Eis, pois, o mais incrível: as mães tem plena ciência de que toda aquela oferta não lhes garante nada, sequer a gratidão futura que se costuma ter da memória em concreto, afinal, o que passa nos primeiros trinta meses de vida fica apenas guardado num subconsciente semântico qualquer – e, convenhamos, talvez só isso explique o que de nós, filhos, virá pela frente...

Hoje, vendo o tamanho e a intensidade da atenção, da abnegação, do zelo, do carinho, do desvelo e do amor que a mãe do Benjamin e do Santiago dedica a eles faz provocar em mim um sentimento de infinda dívida.

Vendo o que hoje vejo em minha casa, em cada fim de dia, em cada fim de semana (e até o fim do mundo), fico mais do que nunca com a certeza de que serei um eterno devedor de minha mãe em seu amor total, sem medida e sem condições.

Amor de uma época da qual jamais me lembrarei.

Mas que, se não carregava na viva memória e se achava mesmo que não via, agora posso ver e mensurar o quanto de amor sob o qual vivia.

E pela luz dos olhos dos meus filhos sei, enfim, o que não sabia com meus tão poucos anos.

Neste reflexo, estou a amar um amor de já quarenta anos.


sábado, 6 de agosto de 2016

# vestindo por amor



A cada madrugada acordado, de tempo em tempo vou ao quarto para ver meus filhos dormindo.

No ninar deles, ouso imaginar os seus sonhos  e os meus também.

Mas não aqueles de dragão, reino encantado e cidades de algodão-doce repletos de personagens de quadrinhos.

Inquieta-me, pois, saber para qual time irão torcer.

Sim, talvez uma das maiores missões que todo homem tem na vida é ensinar o filho a torcer.

E, claro, a torcer pelo seu time.

Não que deva obter êxito neste encargo, mas que deve tentar, como consta na cartilha da boa pedagogia para pais do velho e rude esporte bretão.

Afinal, não há ideologia, religião ou sobremesa que importe mais que ver o seu fruto, a sua obra, a sua divina criação dividir a mesma paixão no futebol.

O trabalho, claro, é duro; no meu caso, morando longe do ninho, beira o mitológico.

Entretanto, assim vou seguindo na pessoal catequização deles, sentindo-me quase como um Padre Anchieta no desembarque pelas praias e selvas brasileiras, mas agora sozinho, sem o pelotão português  ou um furacão  na retaguarda...

Primeiro, provo-lhes diariamente que no princípio era o "vermelho" e o "preto", ao contrário do pregado pela Bíblia.

Ambos, juntos e verticalmente ligados, formam o vermelho-e-preto, a cor mais importante do planeta, que rege o mundo e que sustenta todo o cosmos – e lembro que o "verde", ao contrário do que pregam os ambientalistas, não é cor que se cheire.

Mas aqui neste Rio de Janeiro o perigo é grande, pois corro o risco dos meus filhos, confusos na identidade de tons, acabar num time nativo, maciçamente presente pelas ruas, casas, parques, praias e confins.

Bem, depois a complicada tarefa é começar a ensinar nosso hino e urros de guerra.

Embora esta segunda parte seja-lhes muito agradável – ora, toda criança que se preze gosta de berrar palavras de ordem e a esmo –, as lindas letras da camisa rubro-negra que só se veste por amor ainda saem difíceis, como quem diz sem saber muito bem o que diz.

Eles tentam, erram, desistem, tentam, erram, desistem, erram, e a cada insistência minha desiste mais do que tentam.

Começo eu a ficar meio chato, confesso.

Um terceiro momento desta saga pela torcida deles é fazê-los sentar ao meu lado e, diante da televisão, por longos minutos, ensiná-los a arte de se contorcer pelo time adorado.

Dura missão, e sei que terei trabalho para uma vida.

Mas, claro, não importa, pois o resultado poderá ser impagável.

Ora, imaginar estar ao lado de Benjamin e de Santiago e poder sentir o que há mais de trinta anos sinto quando estou com meu velho pai, na nossa Baixada ou no nosso caseiro camarote em Curitiba, valerá quantas vidas forem necessárias.

A preparação para os jogos, as idas ao estádio – inclusive do inimigo verde... , os papos preliminares, os debates com chicabons e amendoim de intervalo, as resenhas da volta, as notícias da semana, os cantos, os gols, os títulos, as rinhas, os revezes, as ressacas...

Enfim, a paixão conjunta pelo Atlético fez-me ter com meu pai esta boa parte da vida lado a lado, juntos, ligados num mesmo refrão e dividindo momentos que não teríamos se os nossos caminhos no futebol fossem diferentes.

Tivemos, na emoção de acompanhar e torcer pelo mesmo time, parte da forma da nossa relação.

E do amor que tanto nos une.



quinta-feira, 30 de junho de 2016

# nascentes e poentes


A distância provoca-nos sempre a refletir.

E se é comum lamentarmos que não estamos vendo as nossas crianças crescerem, máximo lamento acomete também para quando não estamos vendo os nossos pais envelhecerem.

Pode ser profundo isso, pode ser uma filosofia de araque ou pode ser apenas reflexo da incompatibilidade da relação espaço-tempo a que me submeto.

Como a física proíbe a presença real de corpos materialmente distantes, não notamos que o tempo para as nossas crianças e para os nossos pais incumbe-se de transformá-los em novos corpos, crescidos e recolhidos, agigantados e enrugados, numa dinâmica natural que desobedece a ordem que tanto gostaríamos.

E por não querermos ver este tempo passar, inconscientemente nos escondemos dos seus marcadores, dos seus símbolos, dos seus sinais.

Porém, à surdina, eles fazem questão de chegar, como se quisessem nos fazer ouvir o uivo pungente dos seus incansáveis passos.

E, de repente, a vasculhar por um armário à procura de um livro esquecido, vejo-me na mão com uma ampulheta e brinco de ver o tempo.

Cuco, de pulso, de parede, da torre, da igreja, em todos esses você pode até conseguir despistar o avanço a galope dos segundos e esquecer.

Entretanto, do escorrimento arenal da ampulheta não se escapa, cuja marca da passagem do tempo é de clara e destemida tirania.

Ali, sem filtros, é a vida que corre, que escorre, implacável e intransigente como uma onda sísmica do mar.

Por isso, ao olhar para as fotos expostas sobre a bancada do escritório, hei de confessar: para não ver este tempo correr, recolheria toda a areia do mundo.

Com ela, montaria um nababesco e indefectível castelo onde viveríamos para sempre – e onde seríamos as múmias mais felizes da Terra.

Porém, se com as nossas crianças o curso é promitente, repleto de expectativas, com múltiplos sabores e num retilíneo movimento para o alto e para avante, com nossos pais é tudo mais cru e mais cruel, pois a progressão geométrica da velocidade da parábola em queda livre é cruciante.

Pois é, as nossas crianças vêm, os nossos pais vão... é o vir e o ir, desoladamente inconjugáveis, como aqui e aqui esboçamos.

E me pergunto: afinal, quantas vidas serão precisas para viver tudo o que necessitamos viver com algumas pessoas que tanto amamos, antes delas crescerem e antes delas se despedirem?

Não sei, mas posto que me fio na ideia de uma só, estilhaço-me na realidade.

E ela escancara o quão rápido tudo está a passar.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

# anos incríveis



Reconheço que desconheço todo o repertório de Joe Cocker, britânico do blues e do rock´n roll que há pouco tempo morreu.

Mas uma música eu bem conheço -- e ela me é suficiente para dizer que conhecia Joe Cocker.

"With a Little Help from Friends", a canção que explodiu o domingo mais hippie da história, para mim -- que lá esteve apenas em sonhos e viagens surreais -- sempre foi mais do que a grande canção daquele terceiro dia em Woodstock.

Afinal, ela é a eterna música que abre o segundo maior seriado de todos os tempos (depois, claro, deste aqui...).

Falo de "Anos Incríveis", que chegou nas telas da TV brasileira logo no início dos anos 90.

Ele tratava das angústias, das dores, das dúvidas, das desilusões, das conquistas, das paixões, das alegrias e, principalmente, da família e dos amigos de um guri de quase 13 anos -- idade essa que, com o andar das temporadas, ia aumentando, assim como ia envelhecendo quem assistia.

Kevin -- o guri -- e a sua trupe viviam no agitado EUA do final dos anos 60, época em que o mundo entrava numa roda lisérgica de cultura e contracultura, liberdade e repressão, sexo e canhões, drogas, paz, torturas e amor.

Eu -- um guri -- vivia com minha trupe numa outra realidade de tempo e espaço, mas num mesmo momento em que tudo começava a acontecer, a ter forma, a ter cheiro, a ter gostos e desgostos.

A vida, pois, já começava a não ser tão doce.

Kevin e eu, tolos como sói acontecer para mancebos naquela fase, víamos tudo com os olhos de pirraça -- em matéria de olhar as coisas éramos, pois, quase como Capitus e os seus "olhos de ressaca".

Movíamos sob a contestação intransigente da vida em casa e a discussão absoluta com pais e irmãos.

O pai deixava de ser o máximo herói para se ter os superamigos do colégio; a mãe, tinha seu amor roubado pela certeza absoluta da eterna paixão pela menina da sala do lado ou da cantina do recreio; e as irmãs, figuras marginalizadas de uma intratabilidade que se pensava obviamente obrigatória.

Eram assim as certezas de quem saía para o mundo e que tinha no lar uma montanha-russa de amor e ódio, de respeito e revolta, de ninho e túmulo.

E na série da TV quem estava ali era eu, e não Kevin, na ilusão de que a semelhança dos casos e dos diálogos com a própria realidade era exclusividade minha, algo bem típico de quem nesta idade crê que o mundo gira em torno de si, como aqui já lembramos.

Neste fim de noite revendo alguns dos episódios, miro-me na nostalgia exemplar daquele meu tempo.

E para tantas coisas -- inclusive aquelas da montanha-russa do convívio caseiro --, as lembranças são espetaculares, de momentos incríveis de uma época que se poderiam bem repetir por sei lá quantas vezes.

Agora, se por nada trocaria todo aquele tempo em que sempre tive o pai herói, a mãe guardiã e as minhas irmãs como as eternas parceiras desta vida.

Também por nada trocaria esta realidade ao lado da mulher amada e dos meus filhos.

Lá e cá, todos anos incríveis.






sexta-feira, 31 de julho de 2015

# lado a lado



O recente feito do Rivaldo -- sim, aquele do penta -- e do seu filho, ao disputarem juntos um jogo da 2ª divisão brasileira e fazerem os gols da vitória do seu time, não foi daqueles de apenas fazer história -- e de ser muito mais significativo do que aquele próprio penta (v. aqui).

Foi, para além, um daqueles negócios de enxaguar a retina, de lavar a alma e de revelar, mais uma vez, o que o futebol é capaz.

Eu, bem, eu não sei ao certo quando foi a última vez que joguei futebol com o meu pai.

Deve ter sido lá no ótimo campo da Chácara Lunardon, nos arredores de Colombo, região metropolitana de Curitiba, onde por anos, nas noites de terça-feira, muita gente se reuniu para jogar bola, assar carnes e trucar.

E isso faz tempo.

Mais do que o tempo, custa-me lembrar porque, infelizmente, jamais acreditamos no tempo, e neste descrédito não marcamos as nossas passagens, desleixando os pequenos grandes fatos da vida.

Afinal, não imaginamos -- ou duvidamos -- que os momentos, que quaisquer momentos, podem ser os últimos.

E numa daquelas noites de terça-feira, de um mês qualquer de um ano que já não posso imaginar, tive com meu velho a última partida de futebol.

Ele era um camisa 2 moderno e de garba elegância, um lateral direito com refinada técnica, apurada visão e, como assim deve honrar todo bom jogar nascido e criado no Sul do Brasil, daqueles que perdiam um joelho mas não perdiam uma dividida.

Carlos Aberto Torres? Não... o capita que me desculpe, mas nunca houve um lateral direito melhor que meu velho.

Recordo, como se fora hoje, do seu chute, da sua precisão nos cruzamentos e, diria Nelson Rodrigues, da sua saúde de vaca premiada que nem as doses industrias de nicotina abalavam -- às favas, a modéstia (e as advertências rotuladas pelo Ministério da Saúde).

Entre nós, a onda era sempre jogarmos juntos, burlando legitimamente os sorteios da pelada que porventura insistisse em nos separasse.

Entretanto, não tinha maré mansa: no mais das vezes saíamos discutindo, na vitória ou na derrota, e como se num divã seguíamos, até chegar em casa, bicudos e em filosóficas resenhas sobre um lateral mal batido, um toque mal feito ou um arremate mal calculado.

E toda terça-feira o espetáculo era o mesmo -- no fundo, claro, adorávamos tudo isso.

Até que tivemos uma última terça-feira.

Nela, o meu velho certamente já deveria revelar o peso da idade, da barriga, dos pulmões, dos músculos e dos tendões.

Nela, eu certamente já deveria ter crescido mais, revelando menos paciência, menos obediência e menos gosto por aqueles programas atípicos para quem, pelos olhos dos 20 anos, tinha o fetiche do mundo à disposição. 

Mas, vejam só, a graça da memória é que ela não nos costuma trazer a débâcle daquilo que sempre idealizamos.

E por isso não guardo estes últimos dias da nossa despedida dos campos.

Guardo, sim, aqueles outros momentos: nós, em grande forma, vestindo os meiões à beira do campo, amarrando nossas chuteiras pretas, trocando longos lançamentos enquanto aquecimento e, claro, jogando juntos.

Jogando e discutindo, jogando e rindo, jogando e compartilhando a existência a cada lance, a cada minuto, perto, lado a lado.

São essas algumas das imagens que melhor cuido, armazenadas como relíquias da minha história.

E são imagens como essas que um dia também ouso ver, num mesmo palco da bola, junto com Benjamin e Santiago.

Salve, o futebol.




quarta-feira, 10 de junho de 2015

# playmobil



E ontem tivemos a notícia da morte do pai dos playmobils (v. aqui).

Lendo-a lembro do menino que em mim se foi, trazendo agora da memória os tantos anos em que meu universo misturava-se naqueles míticos bonequinhos de plástico.

Eu era índio, médico, pirata, pedreiro, xerife, bombeiro, mágico.

Eu era todos, e por tantas longas tardes neles eu materializa as amizades invisíveis que sempre criei.

Enfrentei tropas montadas, prendi bandidos, salvei vidas, descobri tesouros e da cartola tirava todos os meus sonhos que diziam ser impossíveis.

Era a época de tudo simples: ali, bastava trocar o figurino ou a personagem do enredo para então mudar toda a realidade, e ali viajava por velhos oestes, mares, circos e hospitais.

Não via o tempo passar, e numa grande e vazia sala daquela casa passava horas construindo meus mundos, peça a peça, sob a lógica arquitetada por um piá de 6 anos e os olhos de um bigode adulto.

Mas o tempo passa.

E a cada dia mais rápido, vai levando as nossas vidas.

Como levou a do pai dos playmobils, cujo momento merece-me um certo luto.

Afinal, a perda do pai de grandes amigos é sempre muito triste.

Por isso, na próxima viagem à Curitiba levarei meus pequenos filhos a tiracolo na visita que farei às caixas onde todos repousam, num dos armários dos quartos da casa onde cresci – e levarei meu pai junto, é claro.

Como talvez poucos deles ainda me reconheçam  ah, a minha voz e os meus cabelos... –, é pelo fiel grito do meu pai – que desde então nada mudou– que um a um será chamado para então podermos apertar àquelas plastificadas mãozinhas em gancho como nosso sinal de pesar e de acolhida.

Bem, sinceramente já não sei quantos deles lá restarão.

Mas sei que muito do que mim resta ainda está guardado entre eles, na forma de saudade dos longos anos da minha querida infância.



Alguns dos meus visíveis amigos de infância



terça-feira, 17 de março de 2015

# a família não fluida: um sólido que não se desmancha no ar

 
 
No cenário do faz-de-conta midiático – e, pois, global platinado –, parece incontornável a máxima flexibilização das relações, das uniões, dos matrimônios.
 
Nesse mundo, vasto mundo, onde tudo é efêmero e muito casamenteiro, a família ainda brevemente resiste para não se deixar fadar ao fim, ao insucesso, à vala comum das ideias e dos comportamentos descartáveis.
 
E tal modus vivendi, na esteira de tantos desafortunados garotos e garotas-propaganda, já contagia lares e casais mais desavisados e alienados, menos maduros e espiritualizados.
 
Do outro lado, não obstante os personagens e os valores em jogo, também se compreende a necessidade da grande família merecer a devida repaginação, ainda que à moda da casa, da velha casa.
 
É, sem ser contraditória, a renovação de volta para o futuro, reloaded.
 
Entretanto, ainda que nesta conjuntura, a ordem jurídico-normativa não deve permitir a fluidez permanente da “célula-mater da sociedade” – nos dizeres remotos de Rui Barbosa –, sob a pecha de se amoldar à tal dinâmica pós-moderna.
 
Com dignas exceções, no que por aí se flerta -- como em parte do Projeto de Lei nº 674/07 -- escasseiam-se verdades e sobram bolhas de sabão com temas que, embora latentes no (novo) Código Civil, são ainda muito controversas na doutrina e na jurisprudência, sendo uma temeridade catapultá-las ao ordenamento como regras do cotidiano, como regras de uma vida que ainda não é (e que nem se sabe se há de vir).
 
Amantes taciturnos, bodas relâmpagos, sexos vãos, sociedades monoafetivas, enfim, consequências possíveis que se afiguram num cúmulo de ideias, teses e vontades incapazes de, por ora, merecer o devido respaldo moral, social e jurídico.
 
Sim, compreende-se (e defende-se) a necessidade de se promover eficazmente a tutela das novas composições familiares e a dignidade da pessoa humana sexualmente irrelevante; porém, questiona-se se tal sistematização, em tais modos, efetivamente logrará melhor sorte para a coletividade e garantirá a envergadura que a consagrada instituição familiar requer.
 
Afinal, se há a necessária compreensão de que a história da família é assinalada pelas sucessivas rupturas com os acontecimentos sociais, fato é também que a mera colocação em xeque – ou, quiçá, o mero desprezo – da estruturação familiar tradicional não se sustenta por si.
 
Se por um lado o intervencionismo estatal é vital para o desenvolvimento pleno e equânime da nação, o pragmatismo de tudo se normatizar não alcança êxito nas relações civis já pautadas pela eticidade e socialidade.
 
Se por um lado o legislador brasileiro não pode fingir-se cego em relação ao que se passa na Oropa, França & Bahia e diante do que o Poder Judiciário já vem, aos poucos, reconhecendo acerca dos novos pares, por outro se exige, do próprio Parlamento, prudência e constância na valoração dos conceitos e dos princípios que regem a instituição em si, na sua forma mais singular.
 
Se por um lado rechaça-se o moralismo e o conservadorismo vadios, travestidos de onisciente, num cego ensaio daquilo que inutilmente se pretende tapar (e não tocar), por outro se deve atentar, de olhos bem abertos, para a não admissão da imoralidade e do vanguardismo tunante, desfaçando-se de moderno.
 
Assim, é neste balanço, por vezes doce, por vezes amargo, que a família caminha, como se ensimesmada numa insólita fenda temporal e incapaz de buscar nas suas origens – menos remotas, senão insustentável os dias de hoje – a sua mais concreta redenção e solidificação.
 
As relações conjugais, as relações de filiação, as relações fraternas, as relações parentais, enfim, as relações humanas consolidadas no seio familiar exigem a mais urgente reflexão, para, ato contínuo, a mais urgente prática.
 
Nesta busca, o trânsito para estas relações menos hedonistas, menos eugênicas e menos egoicas passará, certamente, pela reconstrução da ordem familiar como o mais verdadeiro lugar de amor e reverência (lar), como o mais significativo instrumento de re-humanização social.
 
Todavia, diante deste grande desafio da contemporaneidade, a garantia de êxito não perpassa pela luxúria ou gula legislativa, nem pela inveja de certos setores da sociedade civil, nem pela ira vaidosa da Igreja, nem pela preguiça judicante em estudar a fundo os casos, mas, sim, pela conscientização individual a respeito das virtudes de se formar uma família absolutamente enraizada nos eternos ideais e valores cristãos.
 
E assim, quanto menos fluida for essa presença familiar, mais sólida será a nossa sociedade, arauto fundamental para o nosso desenvolvimento cidadão, pessoal e espiritual.
 
 
 
 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

# encantamento

 
 
Santiago a cada manhã me encanta nesta sua tão precoce existência.
 
O seu riso, acreditem, por si compensa o aviso da falta de rima da poesia que, para explicá-lo, tento em dessiso pôr em marcha.
 
O seu olhar, não duvidem, medusicamente atrai, como aquele que te vê com a retina a esfuziar para querer traduzir o mundo todo, enquanto desde lado não vejo mais nada passar.
 
A sua fala, anotem, dispensa a ausência da inculta e bela, em grunhidos que bem entendo e me embala até a hora de mim se perder.
 
O seu despertar, não desconfiem, tem sim os festejos dos saraus em alto-mar, das noites de carnaval e do astral da boemia que por ele já nem ouso participar.
 
A sua alegria, imaginem, tem a ingênua pureza divinal e a genuína pulsão humana que diariamente me maravilha, me renova e me enche de esperança.
 
O seu amor, que hoje devoto, leva-me a crer num sonho antigo de viver.



 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

# uma vontade de chorar

 
 
As lágrimas são muito mais que fluidos que brotam de glândulas por meio de canais e canalículos como resposta do sistema límbico.
 
Chorar é o transpirar da alma, é enxaguar o rosto de sentimentos que nos inundam de amor (ou das tristezas do amor).
 
Hoje chorei a "despedida", aquele facão que de tempos em tempos decepa as nossas raízes para nos mandar para longe, como se capturados pelas mãos cruéis do destino (v. aqui).
 
Porém, mais do que o meu pé calejado de espinhos frente às mudanças, chorei o choro dos meus dois pequenos filhos, deixando a casa dos meus pais e o convívio com toda a família por mais de dois meses.
 
Chorei o choro que eles não choram porque ainda desconhecem a saudade.
 
Não conseguem medir a pausa daquele dia a dia com o avô, as avós, as tias e as primas.
 
E como desconhecem o tempo, parecem não sentir a falta do amanhã.
 
Vivem o hoje, e apenas embaixo do consciente é que devem guardar o cotidiano mágico de todas estas semanas -- e, lá na frente, um dia quem sabe, resgatam-no de uma memória bisbilhotada, numa roda de um churrasco de domingo já sem graça.
 
Agora, portanto, certamente estão longe de entenderem o que significa uma casa de vó, a farra do furdunço em família e a fortuna da farta felicidade com todos na velha casa, como aqui lembramos.
 
Contudo, diante destes meses todos uma coisa não tenho dúvida: do jeitinho mais ou menos silencioso deles bem compreenderam o sentido do "amor total".
 
E por isso as minhas lágrimas, que tanto demoraram pra secar.
 
Afinal, sei bem a falta que aquela casa fará na vida deles.

E a falta que eles farão a ela.



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

# sublimar



E dezembro chegou, e os dias se passaram, e o ano acabou.

Fiquei de escrever o último texto para o (quase) último dia do ano.

E não o fiz -- como está sempre a se dizer por aí, "não tive tempo".

Hoje, por exemplo, fui registrar o nascimento do Santiago.

No caminho, sempre com a inexpugnável pressa, refletia sozinho o quanto os pequenos grandes gestos e momentos da vida estão sendo engolidos por inteiro, a seco, sem passagem e vaporizados, como se subitamente deglutidos, um a um, por um impiedoso ente metafísico que sequer nos impede de pensar "Ôpa, peraí...".

Aos poucos, tudo vai se banalizando de tal forma -- aqui, por sinal, já tratamos de outra "banalização", a da "pobreza" -- que o momento seguinte e o que há de vir tornam-se mais importantes que os grandes acontecimentos em si, anteriores e ainda presentes -- como aqui já observamos.

O importante é a viagem de uma dúzia de dias a tal lugar, o prato ornamental de uma chef tal que num dia qualquer compramos ou as grandes peripécias globais que se regurgitam pelas redes sociais; por outro lado, atropelamos o dia a dia das grandes pequenas coisas mundanas e com as grandes pessoas de nosso mundo ou, soberbamente, deixamos tudo e todos na galeria deste espetáculo que esquecemos não ser eterno (v. aquiaqui e aqui).

E assim caminhamos na ilusão da conveniente batida perfeita, dos flashes das frias noites estrelares e do dia a dia alienado na irrealidade do outro ou do seguinte.

Por isso, no duelo com este falso e indômito cotidiano, trago o registro do nascimento do filho na bainha que empunha a defesa dos fatos e pessoas grandiosamente miúdas.

Ainda que muito particularmente, considero bacana o tal papel -- um "símbolo" -- todo formal, a indicar as duas gerações que carregam o menino que acaba de chegar, a descrever local e hora da vinda ao mundo e, claro, as letras grandes e garrafais que anunciam o seu nome e sobrenomes, os quais hão de serem levados daqui até o clássico "Aqui jaz..."

Ademais, não é apenas a mera condição jurídica da situação, ou apenas a oficial perenidade do nome dado, mas a certidão carrega o fato-símbolo de que o minúsculo ser que hoje guardamos e cultivamos em casa entra civilmente para o mundo dos homens, como o batismo é o ingresso para a cristandade do mundo cristão.

"Mas, e que mundo?", indagava ao reflexo do retrovisor do carro no trajeto ao cartório do bucólico centro desta minha cidade.

Justamente este mundo de agora, cismado por um corre-corre sem-cabeça-nem-pé, por relações pasteurizadas, por uma ultramodernização do afeto, por uma obediência senil às modas e aos modismos, por uma rotina protocolar e asséptica e, a insistência das insistências, pela liquefação do agora e pela sublimação do ontem.

Ora, não se vê nossos pequenos grandes momentos e nossas grandes pessoas como "sublimes" circunstâncias da nossa vida.

Num tempo em que o espaço se virtualizou, se esmerilhou e que de tão grande se tornou uma concha, vê-se um dia a dia (de)composto em partículas que seu suspendem pelo ar.

Vira, hoje, tudo pó.

Pó que ao final de cada ano comemoramos como cinzas de um passado que ainda mal pulsa no presente.

Pó que a cada início de ano comemoramos como poeira fecundante de um futuro que ainda nem se preparou para o passado.

Pobre de nós que insistimos em não dar valor aos nossos pequenos grandes momentos do agora.

E nem às poucas e tão grandes pessoas que conosco vivem este nosso tempo.

Feliz e sublime 2015!


Torta de Santiago, trazida por uma amada irmã 
para consolidar o primeiro pequeno grande momento do dia.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

# o segundo

 
Um segundo filho não muda a vida -- a vida é que muda esse segundo filho.
 
Mais serenos, mais certos, mais seguros, mais racionais.
 
Enfim, somos mais pais por conta desta nova vida.
 
Restamo-nos mais independentes, mais autorais, mais confiantes, mais convictos.
 
Tudo flui menos laboratorial e tudo acontece com mais naturalidade, inclusive os sobressaltos.
 
Sem cerimônias e sem firulas, o segundo filho te madura.
 
E te envelhece.
 
E isso te muda, para além da aparência com menos cabelos e mais rugas.
 
E te conforta no aparente alívio do futuro.
 
Afinal, a pouca lógica da nossa cronologia permite esperar que no nosso adeus o primeiro, até então único, não chorará só.
 
Ali, naquela hora -- e sempre --, vestido sob o mesmo sangue e a mesma dor, encontrará o ombro e o abraço fraternal para dividir o vazio da perda.
 
Estranho tudo isso.
 
Deslumbrados com a vida que nos apresenta, já pensamos no porvir.
 
Extasiados com o nascimento que nos chega, já ousamos imaginar o nosso fim.
 
É o ciclo da nossa breve existência.