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quinta-feira, 9 de junho de 2016

# anos incríveis



Reconheço que desconheço todo o repertório de Joe Cocker, britânico do blues e do rock´n roll que há pouco tempo morreu.

Mas uma música eu bem conheço -- e ela me é suficiente para dizer que conhecia Joe Cocker.

"With a Little Help from Friends", a canção que explodiu o domingo mais hippie da história, para mim -- que lá esteve apenas em sonhos e viagens surreais -- sempre foi mais do que a grande canção daquele terceiro dia em Woodstock.

Afinal, ela é a eterna música que abre o segundo maior seriado de todos os tempos (depois, claro, deste aqui...).

Falo de "Anos Incríveis", que chegou nas telas da TV brasileira logo no início dos anos 90.

Ele tratava das angústias, das dores, das dúvidas, das desilusões, das conquistas, das paixões, das alegrias e, principalmente, da família e dos amigos de um guri de quase 13 anos -- idade essa que, com o andar das temporadas, ia aumentando, assim como ia envelhecendo quem assistia.

Kevin -- o guri -- e a sua trupe viviam no agitado EUA do final dos anos 60, época em que o mundo entrava numa roda lisérgica de cultura e contracultura, liberdade e repressão, sexo e canhões, drogas, paz, torturas e amor.

Eu -- um guri -- vivia com minha trupe numa outra realidade de tempo e espaço, mas num mesmo momento em que tudo começava a acontecer, a ter forma, a ter cheiro, a ter gostos e desgostos.

A vida, pois, já começava a não ser tão doce.

Kevin e eu, tolos como sói acontecer para mancebos naquela fase, víamos tudo com os olhos de pirraça -- em matéria de olhar as coisas éramos, pois, quase como Capitus e os seus "olhos de ressaca".

Movíamos sob a contestação intransigente da vida em casa e a discussão absoluta com pais e irmãos.

O pai deixava de ser o máximo herói para se ter os superamigos do colégio; a mãe, tinha seu amor roubado pela certeza absoluta da eterna paixão pela menina da sala do lado ou da cantina do recreio; e as irmãs, figuras marginalizadas de uma intratabilidade que se pensava obviamente obrigatória.

Eram assim as certezas de quem saía para o mundo e que tinha no lar uma montanha-russa de amor e ódio, de respeito e revolta, de ninho e túmulo.

E na série da TV quem estava ali era eu, e não Kevin, na ilusão de que a semelhança dos casos e dos diálogos com a própria realidade era exclusividade minha, algo bem típico de quem nesta idade crê que o mundo gira em torno de si, como aqui já lembramos.

Neste fim de noite revendo alguns dos episódios, miro-me na nostalgia exemplar daquele meu tempo.

E para tantas coisas -- inclusive aquelas da montanha-russa do convívio caseiro --, as lembranças são espetaculares, de momentos incríveis de uma época que se poderiam bem repetir por sei lá quantas vezes.

Agora, se por nada trocaria todo aquele tempo em que sempre tive o pai herói, a mãe guardiã e as minhas irmãs como as eternas parceiras desta vida.

Também por nada trocaria esta realidade ao lado da mulher amada e dos meus filhos.

Lá e cá, todos anos incríveis.






terça-feira, 15 de setembro de 2015

# quem volta?



Ainda não assisti, mas as críticas ao filme "Que Horas Ela Volta?" são excelentes, desde aquelas nativas até aquelas de fora, que passam a conhecer um ranço ainda quente da nossa recente história escravocrata e a ainda atual relação casa-grande e senzala da sociedade brasileira.

Claro que a versão esquizofrênica dada pela grande mídia é mero faz de conta, uma análise alienada da realidade e, pior, avessa ao que o filme propõe.

Afinal, nas palavras da Diretora, a obra "trata das regras de convivência sociais no âmbito doméstico. Essas regras separatistas, nós sabemos, não são faladas, mas estão aí. Quando eu criei a Jéssica [a filha da empregada doméstica que visita a mãe em São Paulo para prestar vestibular] tão segura de si, não estava pensando em política, mas em fugir de um clichê dramatúrgico da coitadinha da filha da empregada. Mas, quando o filme ficou pronto, todos reconheceram que ele estava falando de um Brasil pós-Lula. E eu concordei. Uma personagem como a Jéssica não seria verossímil antes de seu Governo. Acho que, entre erros e acertos, houve uma melhora da autoestima do povo brasileiro. E a PEC das empregadas, sem dúvida, tem a ver com o final do filme. Acho que foi um grande passo para tirar o estigma do escravagismo e tornar a empregada doméstica uma profissional como qualquer outra.'" (v. aqui)
 
Portanto, não se trata de um conto de fadas cor-de-rosa, típico das novelas platinadas que invadem os lares brasileiros -- é, justamente, ao contrário.

E isso me lembrou de um recente fato que aqui trouxemos.

Tratava de uma matéria do "O Globo", de março deste ano, sobre uma empresa que presta serviços de consultoria para o "uso" de empregadas domésticas, criando um curso para melhor domesticar as serviçais dos brancos lares (v. aqui).

Sim, é mais uma espécie deste negócio horrendo chamado "coaching", no caso pret-à-porter aos desejos felinos da "patroas".

Na reportagem, outra amostra de ser vivo que bem tipifica o perfil daqueles que "são contra tudo isso que está aí" (v. aqui e aqui) e que perambula nas ruas com a sua cara-de-pau pintada e a irretocável fantasia de "brasileiro".

Eis a entrevista:
 
----- Por que você criou este curso?
Porque eu passei um ano e meio trabalhando em casa e quase enlouqueci com as empregadas.

----- Como assim?
Senti que elas perderam a noção do limite. Teve uma que eu pedi para chegar às 7h30 e botar a mesa do café. Ela disse para mim:  ‘Eu não! Imagina se vou botar mesa de café para madame!’. Essa falta de limite foi muito lembrada também na pesquisa que fiz.
 
----- O Brasil é um do únicos países do mundo em que ainda é comum ter uma empregada doméstica sempre por perto para te servir, que dorme num quartinho dos fundos…
Sim, tenho uma amiga que mora fora e fica chocada com isso. Mas é muito cultural, né? As condições no Brasil não favorecem a vida sem as empregadas, no exterior você vê mil eletrodomésticos que facilitam a vida, comidas pré-prontas. Aqui não tem muito isso. 
 
----- Quais as falhas mais comuns citadas na pesquisa?
Alguns exemplos: empregada que pendura o pano de prato no ombro; a que fala muito ao celular e depois diz que não deu tempo de passar toda a roupa; a que se recusa a usar touca e uniforme; e as que ficam falando das tragédias do bairro onde moram. Muitas têm vergonha de usar uniforme de doméstica na rua. Eu não entendo isso. É um símbolo de status. As empregadas de novela usam. A roupa mostra que ela tem um emprego bacana, que a patroa se preocupa com o seu visual.
 

Uma gente sem noção e que não (se) enxerga.
 
 
 
 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

# odisseia viva


Rever ou reler aquilo que já revimos ou relemos inúmeras vezes geralmente tem um motivo para além do simples prazer de novas visões ou leituras.

No meu caso, ter revisto "2001: uma Odisseia no Espaço" – a obra máxima do maior cineasta de todos, Stanley Kubrick  foi pelo seu lançamento em blu-ray e toda a tecnologia de som e cores que a nova mídia oferece.

Já havia visto em VHS, em DVD, na TV e, quando da morte de Kubrick, na tela do cinema, em sessão especial oferecida pela Cinemateca de Curitiba  e, desde já confesso, essa última experiência continua sendo a melhor, pelo simbolismo do momento, pela macrointensidade da tela e do som e pelo ambiente sempre especial de uma sala de cinema.

Já assisti meio dormindo, meio com a obrigação de cinéfilo, um tanto quanto ébrio, com ares de estudioso do cinema, pouco empolgado, muito animado, enfim, a incursão por "2001" tem sido bastante variada, a provocar, porém, sempre a reação de se viajar para além da imaginação, e a cada vez por caminhos diferentes.

E, ontem, mais uma vez, o filme foi um desbunde para os olhos.

Afinal, é justamente este o maior fim da obra proposta por Kubrick: criar uma experiência visual que se desviasse do campo das palavras e penetrasse diretamente no subconsciente com um teor emocional e filosófico.

Kubrick insistiu, sempre, em não colocar legendas exegéticas para o filme, tão-pouco roteiros explicativos – negava-os, peremptoriamente. 

Para ele, o filme projetava-se para ser uma experiência subjetiva, intensa, que atingisse o espectador num nível profundo de consciência, exatamente como a música faz  não por acaso, imagem e som formam um único e inseparável meio para olhos e ouvidos. 

Assim, cada um está livre para especular e viajar como quiser sobre o sentido filosófico e alegórico do filme, o que provoca calafrios em muita gente que não suporta ter que desbravar este campo sem a muleta de uma sinopse comentada, a compreensão explícita do roteiro ou as placas anunciativas dos diálogos óbvios, redondos e fechados.

É cinema, é arte e é uma baita forma de deixar a mente pulsar, de abrir as portas.

2001... não é apenas sobre máquinas e inteligência.

É sobre a humanidade e a afeição.

2001... não é uma simples viagem pelo espaço.

É uma odisseia para dentro de você.


Afinal, qual evolução?

domingo, 9 de março de 2014

# malfazendo-se


Denso, complexo, completo.
 
“Breaking Bad” é um exemplo impecável da televisão como forma de arte, distante do propósito chauvinista de poder ou de império do lixo cultural alienante que costumam caracterizá-la.
 
E, desde já, um filme em bem longa-metragem. 

Pois é, encare-o assim, como um filme com aproximadamente 50 horas de duração, repartido em 63 capítulos de singular brilhantismo – é cinema, meus caros, a sétima arte em estado puro (e bruto).
 
Atores e atrizes esplêndidos, em torno de um protagonista (Bryan Cranston) cuja atuação, sem exagero, talvez seja a melhor que vi de alguém na vida – e esta opinião não é só minha, v. aqui a carta aberta de Anthony Hopkins sobre Bryan e a série –, não são os únicos detalhes desta obra-prima. 

É que o modo como "Breaking Bad" trata o ritmo da trama constitui um dos elementos cruciais da sua genialidade: recua quando você acha tudo irretroativo, avança em momentos para bricolagem do telespectador, talha caminhos para que juntemos os cacos, abre reticências para que finalmente pontuemos e se farta de flashbacks ou flashforwards de forma fabulosa.
 
Estilizada visualmente, com um fascinante jogo de cores e intensas rimas visuais com simbolismos propostos cirurgicamente, uma fotografia esplêndida que emerge cada situação em brilhos ou trevas e mergulha cada personagem em luzes ou sombras, criativos truques de câmera e vertiginosas capturas de cenas com locações que arrombam a retina – quase tudo acontece em Albuquerque (Novo México, EUA), local que, efetivamente, também é um personagem –, embebidos em um primoroso design de som e em composições de uma trilha sonora irritantemente primorosa que cola em segundos na alma de tudo o que mostra. 

E mais.
 
Sem perder o fôlego, um roteiro fechado no qual todas as ações e direções têm uma justificativa, com pontas muito bem conjugadas, arcos de enredo milimetricamente arranjados e diálogos arrebatadores e que vão direto ao osso, apresentados por figuras construídas para serem humanamente possíveis, sempre a dizer o que precisa se dizer ou a não dizer o que merece eloquentes silêncios.
 
Há negrura, azedume, ternura e vingança. 

Há orgulho e preconceito. 

Há dependência e redenção. 

Há desespero e solidão. 

Há tensão aguda e risos sinistros. 

Há uma angústia avassaladora ao fim de cada capítulo.

E há um alívio viciante a cada recomeço.

Enfim, tudo faz desta saga psíquica do genial e fosco professor de química Walter White – e do seu alter-ego Heisenberg, cuja intensa ambiguidade faz corar Mr. Hyde e Dr. Jekyll – um trabalho absolutamente irrepreensível. 
 
Assista.
 
E não porque "Breaking Bad" recheia-se de todos estes atributos tecnicamente perfeitos.
 
Assista, simplesmente, porque é um sublime entretenimento.
 


"Ezequiel 25,17" (ou, breaking bad)



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

# um capitão na terra do nunca


Acabo de assistir "Capitão Phillips" – ótimo, com um Tom Hankgenial , sobre o ataque de piratas somalis a um navio mercante estadunindense.

Mais do que tratar de um tema pouco debatido, o filme é uma lição de globalização, sem pieguice ou moralismo barato.

E também não traz apenas aquela ideia mundialmente concebida que os povos de lá tem das terras de cá  e em especial da terra do Tio Sam , pois vai além e subverte o maniqueísmo excludente que faz nos separar dos "outros".

É verdade, não são meros pescadores os piratas somalis, embora assim se apresentem no encontro com o Capitão; porém, é uma fome o que os move em direção ao sonho americano da bonança e da prosperidade "A América! A América!", festejam assim que avistam a trêmula bandeira do navio, para eles o pendão da esperança.

Da miséria que os une aos templos do capital, a globalização não dá as prometidas oportunidades para todos. 

E separa, e divide, e nos afasta dos "outros" – pois é, parece que a nossa bússola não lhes pertence, não lhes cabe.

Mas, caricaturalmente, aproxima todos num desejo insólito: "Tvs, carros, roupas!?", é isso que os piratas somalis imaginam ter na carga do gigante navio. Mas não. "Só comida...", adverte o timoneiro. 

Ciente da absoluta pobreza naquele território africano, vendo as indigentes condições sócio-político-econômicas daquela gente e imaginando a submissão humana de uma população inteira aos desvarios sanguinários e totalitários de uma meia-dúzia de "escolhidos", não soa estranho assistir ao filme com certa pena dos quatro piratas, tresloucados naquela aventura inglória.

Mesmo que distante da pompa e das circunstâncias dos livros infanto-juvenis.

E mesmo que de perna de pau, olho de vidro, barba ruiva, gancho de mão e papagaio no ombro só lhes restem mesmo a cara de mau.

Caras frágeis, famélicas e falquejadas de mais quatro reféns do mundo. 

No mapa, a verdadeira "Terra do Nunca"



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

# sapos me mordam


fds E, lá fora, vê-se a chuva de 600 bilhões de dólares.
fds Deste último (e já decadente?) império, nada original: simplesmente imita-se o que as potências do Antigo Oriente, Roma e os grandes países coloniais-navegadores (Portugal, Espanha, Inglaterra e Holanda) outrora fizeram, liquidando a sua moeda para (tentar) liquidar a sua gigantesca dívida, que só a interna atinge os estratosféricos 14 trilhões de dólares, cujas cifras nem mais o Tio Patinhas -- muito menos o Tio Sam -- suporta.
fdsComo? Para reduzir a proporção de "ouro" (valor) na cunhagem ("valorização") das moedas, fabricam dinheiro e despejam na praça milhares de milhões de dólares, dólares e mais dólares, a fazer dessa espécie meras notas de um "Banco Imobiliário".
fds Tudo falso, absolutamente falso -- como, a propósito, é bem o american way of life.
fds E os EUA exportam inflação para o mundo inteiro, para reduzir sua gigantesca dívida, pagando os credores com dólares desvalorizados.
fds Mais do que isso, o dólar depreciado faz crescer as exportações norte-americanas e prejudica as nações que exportam para os EUA, cuja predatória prática muito bem remonta à depressão mundial dos anos 30.
fds E, ainda, além de desestabilizar o câmbio e o comércio, o tsunami de moeda estadunidense invade os mercados emergentes, na busca do fácil dinheiro dos viciados cassinos financeiros, cujo efemeridade dos "investimentos" detonam as economias domésticas.
fds Diante de todo o cenário, a chuva de dinheiro certamente se confunde com aquela chuva que dramatiza o final do filme "Magnólia".
fds Afinal, lá e cá fazem todo o sentido.


 
 
 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

# cinema, ja mein herr!


Reza a lenda que, certa feita, Carlos V (Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, no séc. XVI), ao discorrer sobre as línguas faladas aos arredores, disse mais ou menos assim: "o italiano é para se falar com os amigos; o francês, com a mulher amada; o alemão, com os soldados; o latim, com Deus; e o húngaro com o diabo".

Lembrei-me desta frase ao assistir o belíssimo filme "A Fita Branca", outro da grande safra do cinema alemão deste nascente século.

Mas, diferentemente do que sustentou aquele imperador, tudo no filme soa muito bem, inclusive o som dos diálogos, num suave alemão.

Após a grande (e já longínqua) fase do "expressionismo", eis que o cinema germânico parece ter alcançado um dos seus melhores momentos, ao menos em termos de audiência e de proposta cinematográfica que se faz chegar até nós, pequenos e esquecidos consumidores da sétima arte.

E, numa rapidíssima retrospectiva, não me furto a indicar 10 filmes absolutamente imperdíveis, cujos nomes e anos seguem abaixo, em ordem de apresentação do mosaico (e não de minha preferência).

Diminua a pipoca, não dispense fosfato, ajeite o encosto, relaxe o cinto e... Gute Fahrt!
 
E melhor: você não precisará se sentir recebendo ordens ou chamados militares.

Afinal, o cinema transcende e relativiza qualquer língua.
 



fdsf1 - "A Vida dos Outros" (2006).
fdsf2 - "Corra Lola, Corra" (1999).
fdsf3 - "A Fita Branca" (2009)
fdsf4 - "Adeus, Lênin" (2004).
fdsf5 - "Os Falsários" (2008).
fdsf6 - "O Complexo Baader-Meinhoff" (2008).
fdsf7 - "Edukators (2004).
fdsf8 - "A Queda - os Últimos Dias de Hitler" (2004).
fdsf9 - "A Onda" (2008).
fdsf10- "Do Outro Lado" (2007).
fdsf

 

sexta-feira, 23 de abril de 2010

# quanto pesam os nossos valores?


"(...) e a gente monta uma central de sequestro... e não é pelo dinheiro, não... é pra gente acabar com tudo que é filho da puta que rouba do Estado."

É com esta frase que o sempre polêmico e provocador cineasta Sergio Bianchi encerra o seu perturbador filme "Quanto Vale ou é por Quilo?", o qual só agora pude (re)ver.

O filme traça um paralelo entre o modelo escravocrata da época imperial e o atual modelo capitalista neoliberal, muitos políticos e tantas ONGs e tantos filantropos: lá e cá, a vontade de lucrar em cima dos miseráveis continua.

O dinheiro que os governos investem nas ONGs que trabalham com filantropia seria suficiente para ajudar na satisfação das necessidades básicas e no desenvolvimento de milhares de famílias carentes. Mas nem metade chega em seu destino -- e os dados apresentado no filme são alarmantes. Vão para onde? Claro, para o deleite de repugnantes políticos e biltres empresários do showbusiness filantropo.

Não se quer, claro, generalizar e achar que todas as ONGs são um poço de más intenções, hipocrisia, corrupção e lavagem de dinheiro. Não! Não!

Quer-se, apenas, mostrar que há muita coisa errada nisso tudo, em especial sob dois aspectos (afora, claro, a questão dos crimes cometidos pelas quadrilhas de políticos e empresários): (i) o fato de a elite achar que merece estátuas ou indulgências eternas por apenas cumprir o seu dever humanitário, cívico e (de classe) social, e (ii) o fato de a sociedade em geral achar que a transferência de responsabilidade do interesse público para o privado é a solução.

E aqui está a grande questão, pois a "ajuda" (a solidariedade, a fraternidade...), torna-se "mercadoria", uma postura positiva para a obtenção de retorno e recursos, a sublinhar a farsa da "responsabilidade social", de um "terceiro setor", de um "capitalismo domesticado".

Trata-se, na verdade, de um sistema que tão-somente incorpora novas indústrias para gerenciar a miséria e os miseráveis, a tornar intocável a ideia neoliberalista das bravatas e cantilenas privatistas que culmina na "ongzação" do Estado (v. aqui).

O filme-documentário trata, assim, destes mercados do assistencialismo e do voluntarismo e da disputa competitiva pela pobreza alheia. Mas mostra ainda mais do que isso.

Mostra os outros tentáculos desta sociedade do espetáculo do consumo, desta sociedade que cria necessidades desnecessárias como único meio de inserção social -- “o que vale é ter liberdade para consumir, essa é a verdadeira funcionalidade da democracia", clama um dos personagens do filme.

Mostra, enfim, a grande chaga pública, o maior dos crimes e cuja hediondez é flagrante: aqueles cometidos pelas máfias que fulminam o Estado brasileiro -- le Cose nostre (v. aqui) --, as quais, dentre outros crimes, desviam e roubam dinheiro público, como no caso da ideia de inclusão digital que ilegítima e ilegalmente beneficia uma ONG mercantil (e os políticos coligados) que superfatura a compra de computadores de terceira linha e ainda se utiliza de funcionários pobres ("laranjas") para abrir contas paralelas que mais-ou-menos esquentem o dinheiro sujo.

Mesmo que a frase final do filme (e que abre essa bula) não mereça defesa e não seja o caminho correto -- vez que o pretendido "progresso" não pode exigir tamanha desordem (v. aqui) e que, sob a ótica cristã ou da Lei, o mal (e o ilegal) não deva ser perseguido e respondido com o mal (e o ilegal) --, essa ideia robinhoodiana e essa pulsante vontade de uma divinal justiça por mãos próprias terrenas sempre atiçam o debate que faz discutir a justiça e o Direito em nosso Estado.

Aquela frase final assusta, mas nos faz pensar.

E para isso basta que saiamos dos nossos castelinhos e da nossa "cegueira branca" (v. aqui).

fds

quarta-feira, 21 de abril de 2010

# invidia


fdsNão sei se pelo meu passado de atleta, não sei se pelo presente de profunda e máxima indignação às diferenças e injustiças sociais, não sei se pelo incógnito futuro. Não sei, talvez, se por ainda não conseguir minimamente compreender o que é o racismo e o que foi apartheid racial.
fdsA verdade é que "Invictus" -- o último grande filme de Clint Eastwood, e que na verdade simplesmente mostra a primeira grande estratégia cívico-humanitária do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, logo que sai da prisão e é eleito para comandar o país na sua reumanização --, além de quase causar-me lágrimas, causou-me uma grande inveja, a inveja sadia, do bem. A inveja invejável, não invejosa.
fdsSó não sei se pelo jogador, líder e capitão da seleção nacional de rúgbi, ou se pelo presidente, certamente um dos grandes homens da história da Terra. Mas acho que foi pelo primeiro.
fdsSim, o segundo pareceu-me divino, ininvejável para alguém de carne-e-osso como eu.


fds

terça-feira, 20 de outubro de 2009

# música d'alma


E eis que, somente agora, estréia no Brasil o excelente e multipremiado filme "Fados", do cineasta espanhol Carlos Saura, cujo trailer você pode assistir abaixo.
 
Remete-me, pois sim, àquela da qual são trazidos os clássicos, vividos e saudosos versos que dizem: "Coimbra tem mais encanto / Na hora da despedida / E as lágrimas do meu pranto / São a luz que lhe dá vida".
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

# se outrora...


Claro que Manuel Zelaya não é alguém capaz de, minimamente, se comparar a Salvador Allende, a gigante torre chilena que sofreu um dos mais trágicos golpes da nuestra América Latina, um golpe que buscou acabar com o governo socialista -- o primeiro marxista na América do Sul -- que, pelo retumbante sucesso -- não obstante as enormes dificuldades --, já (re)contaminava todo um continente.

Porém, ao ver o que se passa em Honduras, a lembrança, amarga e memorável, daquele 11 de setembro de 1973 é inevitável -- como aqui já nos manifestamos. Intervenções externas para o bem -- como as diretamente impetradas pelo Brasil e pelos organismos internacionais --, felizmente não deixam mais a desgraça daquela história se repetir.

E assim, com os vídeos abaixo, você poderá ter uma noção do que poderia, se noutra época, ter ocorrido em Honduras.

Mostram o último pronunciamento de Salvador Allende, ao vivo para a Radio Magallanes, a poucos instantes da sua morte, de dentro do Palacio de La Moneda, o qual já era alvo de intensos bombardeios por parte dos golpistas (militares a mando da direita nativa e da CIA).

No discurso, Allende despedia-se do povo chileno e deixava as suas últimas lições para que não se deixasse de lutar por uma sociedade justa, igualitária e fraterna e um país soberano e livre.

 
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Seguramente ésta es la última oportunidad en que me pueda dirigir a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de radio Portales y radio Corporación.
Mis palabras no tienen amargura, sino decepción, y serán ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron... soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino que se ha auto designado, más el señor Mendoza, general rastrero... que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al gobierno, también se ha nominado director general de Carabineros.
Ante estos hechos, sólo me cabe decirle a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar!
Colocado en un trance histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que entregáramos a la conciencia digna de miles y miles de chilenos no podrá ser segada definitivamente.
Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen... ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.
Trabajadores de mi patria: Quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley y así lo hizo.
En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección. El capital foráneo, el imperialismo, unido a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara Schneider y que reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas, esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.
Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros; a la obrera que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños.
Me dirijo a los profesionales de la patria, a los profesionales patriotas, a los que hace días estuvieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clase para defender también las ventajas que una sociedad capitalista da a unos pocos.
Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron, entregaron su alegría y su espíritu de lucha.
Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos... porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando la línea férrea, destruyendo los oleoductos y los gasoductos, frente al silencio de los que tenían la obligación de proceder: estaban comprometidos. La historia los juzgará.
Seguramente radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz no llegará a ustedes. No importa, lo seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos, mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal a la lealtad de los trabajadores. El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.
 
Trabajadores de mi patria: tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición, pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, habrá una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición”.
 
 
 
 

terça-feira, 6 de outubro de 2009

# 24 frames por segundo



Em 2005 foi inaugurada a Escola Superior Sulamericana de Cinema e TV do Paraná – CINETVPR, a qual criou o 1º. Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino.
Assim, a dar continuidade a este consolidado prêmio, de 5 a 11 de Outubro, no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba/PR, acontecerá o "4° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino".
Participando do festival de 2009 estarão concorrendo 06 (seis) filmes de longa metragem nacionais e 05 (cinco) filmes de países latinos - Itália, Moçambique, México, Bolívia, Argentina. Entre os filmes de curta metragem concorrem 09 (nove) nacionais e 03 (três) espanhóis.
A grande ideia deste Festival é propiciar aos participantes e ao público em geral, momento de reflexão com espaço para ponderar sobre as obras que serão apresentadas permitindo através de palestras, oficinas, debates, seminários e encontros, ocasião pródiga para despertar a criatividade, por se considerar que a inovação na criação, e consequentemente a descoberta de novos caminhos, seja o componente primordial para a abertura do mercado. Nesse ano haverá diversas oportunidades para fortalecer essa opinião através da "Mostra Leon Hirszman" (4 filmes), da "Mostra Pietro Germi" (5 filmes), da "Mostra Eros Inteligente" (15 filmes) todas seguidas de debates e o "Seminário Chris Marker" ministrato pelo autor Robert Grelier, com apresentação de importantes obras desse ícone do documentário mundial, atividades essas que permitirão, a todos, análises críticas e criativas.
Pode-se constatar claramente o crescimento da produção paranaense de cinema ao ponto de, a partir deste ano, ser instituída no festival,a "Mostra Paranaense de Cinema", na qual concorrem 10 filmes, entre curtas e longas metragens.
Essa mostra, inclusive, contará com a participação selecionada (e já premiada) de uma grande curta-metragem, "Balada da Cruz Machado"
, com roteiro e direção do cineasta e bacharel Terence Keller, e que estreou vitoriosa no primeiro semestre deste ano. O filme? Um "mergulho em uma rua de não ir a parte alguma", que vale a pena conferir. (v. aqui)

 
fds

domingo, 13 de setembro de 2009

# ao sul da fronteira

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ffffdsSouth of the Border, eis o título do mais recente filme do cineasta Oliver Stone -- um dos mais premiados do cinema mundial, por, dentre outros, "Platoon", "Assassinos por Natureza", "Comandante" e "Nascido em 4 de Julho" --, que, na forma de documentário, (muito bem) retrata o atual momento da América Latina, liderada hoje, em muitos dos seus países, por governantes eleitos pelo povo e que promovem políticas públicas voltadas para os interesses do povo.
fffffdsEmbora também analise as conjunturas global e de outros países, com os respectivos governos de Brasil, Argentina, Equador, Bolívia, Paraguai e Cuba, o maior foco do filme é a Venezuela e seu atual comandante, Hugo Chávez, indubitavelmente um grande líder do bloco e talvez o precursor desta mais nova onda que, na verdade, muitos desejam tratar-se de o mais novo "tsunami de liberdade, igualdade e fraternidade", capaz de, como o próprio presidente venezuelano diz, "ser uma evidência concreta de que se é possível mudar o mundo e o curso da história".
fffffdsAbaixo você pode assistir ao trailer do filme e ter uma noção do porque dele ter sido tão aplaudido no recente Festival de Veneza, o terceiro maior festival de cinema do mundo.


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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

# la (dolce?) vita amara


Nos últimos dias assisti a dois grandes e bravos filmes: "Linha de Passe", dirigido por Walter Salles, e "O Banheiro do Papa" (El Baño del Papa), co-produção uruguaia, brasileira e francesa.

Em 24 frames por segundo, ambos nos mostram a (sobre)vida real na qual a grande e imensa maioria da população sobrevive, e não surreal, desfrutada pelos "eleitos" que vivem encastelados.

O primeiro, ambientado na periferia de São Paulo, revela uma família na qual a mãe, grávida, e seus 4 filhos, lutam contra o destino e o cotidiano para levar uma vida digna e decente (e ética e cristã), ainda que à mercê das provações e das tentações que, ao entorno, a vida indigna, indecente e criminosa é capaz de oferecer.

Um colírio para os olhos daqueles infames que pensam que o pobre é um marginal em potencial, que o ser humano é uma merda ou que todo homem tem o seu preço.

O segundo, menos triste e ulceroso -- mais ainda assim triste, ulceroso e, tal qual o outro, muito otimista --, traz um fantástico ator uruguaio e uma inusitada e verídica situação: a iminente visita de Sua Santidade à microcidade de Melo, na fronteira do Uruguai com o Brasil.

Pontualmente marcado por sutis observações sobre a sociedade, o capitalismo e a mídia, o filme, sem quaisquer intenções de dar um lição de moral, faz-nos pensar e refletir sobre as necessidades básicas humanas, os seus sonhos e as suas esperanças.



domingo, 9 de agosto de 2009

# bigode maldito: a mídia hoje e o glauber ontem



Por que será que só agora, 40 anos depois, a grande mídia nacional resolveu destruir José Sarney?

Por que nunca o fez antes?

Por que jamais divulgou a história desta peste que jamais pensou o (e no) Brasil e, pior, que na modernidade foi o maior responsável para o Maranhão ser um dos lugares mais pobres do país?

Elementar meus caros.


É que agora ele -- como todo o PMDB -- aparenta ser um promotor do Governo Lula e da eleição de Dilma em 2010, relativamente importante haja vista o seu poder partidário e regional no cenáro político; portanto, a "descoberta" é pura conveniência e hipocrisia, grande desespero e deslavado interesse demo-tucano apoiado pela grande mídia.


Isso, evidentemente, não significa que se deva esconder o que foi e o que fez esse homem, que está no cenário público-político, juntamente com sua famiglia, desde o início do século passado.

Inclusive parte nascente dessa tragédica trajetória pública do clã Sarney pode ser muito bem vista numa preciosa curtíssima-metragem de Glauber Rocha, "Maranhão 66", que originalmente fora encomendada pelo próprio José Sarney -- por intermédio da família Barreto, que incauta (ou não) indicou o jovem Glauber para fazer o filme -- em sua posse no governo daquele Estado nordestino, em 1966, mas que não fora utilizado para esse mesmo fim, por motivos que, assistindo o filme abaixo, são óbvios...

Por sinal, Glauber baseou-se neste infame homem da política nacional e maranhense -- hoje Senador pelo Amapá (?!) -- para criar o personagem Porfírio Diaz, protagonista do filme "Terra em Transe" e que foi interpretado pelo grandioso Paulo Autran.


"Terra em Transe" 

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sábado, 16 de maio de 2009

# filósofo do samba


fdsfApós (injustificáveis) quase dois anos, finalmente assisti ao filme "Noel, o Poeta da Paixão". E achei ótimo -- muito diferente, já se diga, do (injustificavelmente) sonso filme "Vinícius"... --, digno daqueles que conseguem, ainda que minimamente, reproduzir para a arte do cinema a arte de um dos maiores gênios da música mundial, morto aos 26 anos e com uma obra plural e eterna.
fdsfNão apenas a vida do Noel -- que por si só já comportaria uma minissérie --, o filme consegue pinçar tudo o que girava em torno do Noel naquele Rio de Janeiro dos anos 30.
fdsfSim, cenas da constante (e inigualável) boemia carioca, cenas dos cabarés&zonas -- que tinham ar e cheiro das Óperas de Viena -- e cenas bucólicas dos morros e das praias, tudo envolto ao medúsico, hipnótico&contagiante ritmo (e letra, e melodia) da maior e melhor música já inventada neste planeta: o samba.
fdsfMas samba, samba! Daqueles compostos, musicados e cantados por aquela gente fina, por aquela nata que o filme mostra -- infelizmente não com os devidos detalhes, haja vista a dimensão de todos na história e os singelos 90 minutos da película... --, em grupos, em parcerias e amizades que de tão surreais parecem fantasiadas: Noel, Ismael Silva, Cartola, Wilson Batista, Geraldo Pereira, Vadico, Mário Lago, Aracy de Almeita, Francisco Alves, Almirante, Mário Reis...
fdsfHá o retrato de um momento mágico da nossa cultura: os anos 30, 40 e 50, que mostram uma cidade maravilhosa da onde se pode concluir que o samba não vinha do morro nem da cidade -- como mostra a tese de doutoramento defendida na USP por José Adriano Fenerick (v. aqui) --, e onde a cultura do povo era uma cultura rica, e a cultura rica era a cultura do povo. Enfim, uma simbiose fenomenal.
fdsfDe propalada e notória feiúra externa, Noel -- o qual trocou os bancos da Faculdade de Medicina pelos bancos dos botequins (e das praças e das ruas) do Rio -- encantava pelo carisma, pela poesia, pela genialidade, pela generosidade e pelo romantismo, que a bela cena final do filme muito bem retrata: Noel e Papagaio -- o seu melhor amigo, interpretado pelo grande Wilson das Neves --, a tocar e a cantar, respectivamente, "Último Desejo", uma das suas obras-primas (v. abaixo).
fdsfEnfim, consegue o filme (bem) fazer relembrar um dos nossos maiores beethovens, mozarts e bachs, e, principalmente, mostrar o quão curta é a vida que iremos (ou queremos) seguir e o tanto quanto nela se é possível fazer, de bom, plural e eterno.
fdsfE se soubesse eu escrever lágrimas, escreveria mais.
dsf
fds
 
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

# a grande imprensa nua


fAlguns amigos indagam-me sobre os documentários indiretamente citados que demonstram o que quer a grande mídia, como fiel escudeira da elite e dos "donos do poder".
 
fIndico, por hora, dois, ambos disponíveis na rede pelo youtube.com e produzidos, respectivamente, pelas Agências de Cinema da Irlanda e da Inglaterra:
 
f- "A Revolução Não Será Televisionada" (The Revolution Will Not Be Televised, 2003), sobre o Golpe na Venezuela, no terceiro ano do Governo Chávez, co-comandado pela maior rede de televisão venezuelana e que durou apenas 2 dias (v. aqui); e,
 
f- "Muito Além do Cidadão Kane" (Beyond Citizen Kane, 1993), sobre a importância da maior rede de televisão brasileira na manutenção do Golpe da Direita que tirou Jango e o seu grupo político do poder e que durou longos 20 anos (v. aqui).
 
fAh, e querem saber o por que do Governo Requião ser diariamente defenestrado no Paraná pela grande imprensa?

Veja aqui, em cifras.


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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

# breu branco


Por que foi que cegamos,
Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão,
Queres que te diga o que penso, Diz,
Penso que não cegamos, penso que estamos cegos,
Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.

(Diálogo final, entre o médico e a sua esposa)

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fdsfdsNão substitui e não é tão bom quanto o livro, claro.

fdsfdsMas, mesmo assim, é imperdível a adaptação cinematográfica de Fernando Meirelles da obra-prima do escritor português José Saramago, "Ensaio sobre a Cegueira" -- a qual só consegui assistir nesta madrugada, em DVD --, que cria o conceito e a fábula da "cegueira branca" para explicar a nosotros o que se passa neste mundo do pensamento único, onde o "ter" vale mais que o "ser" e onde a acumulação e o consumo privado, luxurioso, hedonista e esbanjacionista tornam-se a quinta-essência da humanidade.

fdsfdsA desenvolver uma forma de patologia moral e espiritual, os "homens" e as "mulheres" -- que na obra não têm nomes próprios -- manifestam-na, de repente, como uma espécie de cegueira, mas não porque deixam de ver para mergulhar na escuridão, mas, sim, porque produz uma estranha cegueira branca, uma luz que os cega e que, por isso, ainda que possam olhar, já nada mais conseguem ver.

fdsfdsÉ uma cegueira branca, que não é física, mas que lhes corrói a alma. É uma cegueira social, uma cegueira para a fome, para a exclusão, para a subvida a que alguns homens submetem outros como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se a intangibilidade e a maximização da propriedade privada fosse um atributo divino e natural, e não um mito.

fdsfdsE veio a calhar o momento no qual o filme foi às telas; inclusive, na entrevista após a sua avant première, Saramago pontificou, ao ser ouvido sobre o vínculo entre o tema de seu romance e a crise financeira do capitalismo que assola o mundo rico: "Marx nunca teve tanta razão como agora, mas as piores consequências ainda não se manifestaram: sempre estamos mais ou menos cegos, sobretudo, para o fundamental".

fdsfdsE, assim, fico na esperança de pelo mundo afora haver tantas e tantas "mulheres do médico" que permitam conduzir tantos de nós por um caminho que combata a hipocrisia beata que admite como natural ou normal este sistema que privilegia meia-dúzia de abençoados.

fdsfdsQue as várias "mulheres do médico" que por aí existem, portanto, permitam-nos sempre enxergar o que é fundamental nesta vida: a igualdade, a coletividade, a solidariedade e a justiça social e econômica, em atitudes e sentimentos cristão-marxistas que nos façam definitivamente sepultar a ideia do escritor -- típica de um humanista, comunista e ateu (mas, como diz, "não tolo!") -- esposada na obra pela voz do "médico", ao dizer no final que "[é] desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade".
fdsfds

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

# aqui já não é caso de ficção


fdsfds Alguns amigos perguntam-me o que significa o título da nossa série "Antifahrenheit 451"; aqui respondo-lhes.
fdsfds Em 1953, Ray Douglas Bradbury publicou uma das mais célebres obras de ficção científica do séc. XX, intitulada "Fahrenheit 451" -- que uma década depois virou filme, dirigido por Truffaut -- e que fez tornar essa expressão-título uma referência para tudo aquilo que se deseja apagar, obscurecer, negar ou tergiversar -- o cineasta americano Michael Moore, por exemplo, intitulou o seu documentário sobre as mentiras expostas e as verdades escondidas nos atentados de onze de setembro com o título "Fahrenheit 9/11".
fdsfds A (breve) idéia da obra e do nome? Um futuro (distante?) no qual todos os livros são proibidos, todas as opiniões próprias são consideradas heréticas e todas as idéias ou pensamentos críticos e dissidentes são exterminados. Na obra, o protagonista trabalha como um queimador de livro ("bombeiro", segundo o livro) e o número "451", assim, refere-se à temperatura, em graus Fahrenheit, na qual o papel incendeia.
fdsfds Hoje, tal personagem é representado pela grande mídia nativa, que insiste numa ideologia neoliberal, numa sociedade do "pensamento único" e num modelo conservador, patriarcal e reacionário de Estado.
fdsfds Numa imprensa que, em nome (ou na pessoa) dos "donos do poder" (Raymundo Faoro), queima a realidade e as mudanças políticas, sociais e econômicas promovidas por governos vanguardistas e comprometidos unicamente com o interesse público e popular, de forma a evitar que toda uma população tome conhecimento do que acontece nestes admiráveis mundos novos, conforme Aldous Huxley intitulou outro clássico da literatura de ficção científica.
fdsfds


 

domingo, 14 de dezembro de 2008

# o golpe no chile: uma trilogia única


Simplesmente espetacular, emocionante e arrepiante.

Neste final de semana concentrei-me em ficar mais de 7 horas à frente da tv para, enfim, assistir ao documentário tido por muitos -- e, doravante, por mim também -- como um dos melhores documentários políticos já realizados: "A Batalha do Chile", de Patrício Guzmán, concluído em 1979 após quase 10 anos de meticuloso trabalho.

Trata-se de um registro impecável, com uma análise absurdamente próxima e completa do que foram os quase 3 anos do governo de Salvador Allende como presidente do Chile, eleito pelo povo após a união de toda a esquerda chilena -- era a "Unidade Popular", com os partidos socialista e comunista, entre outros -- e que se traduziu no primeiro país do mundo a caminhar ao socialismo pela via democrática, já aqui entendida em sua mais ampla acepção -- e não apenas no "sufrágio universal" --, vez que atende aos verdadeiros interesses público e do povo, a exemplo do que hoje já acontece na Venezuela, na Bolívia, no Equador e, no prélio, no Paraguai.

Allende, com lealdade à Constituição e, maiormente, inteligência, amor, coragem e vontade, levou o Chile a transformações jamais vista em um país sul-americano, a cuidar de temas e problemas difíceis e complexos pelos quais todo o povo -- salvo as elites burguesa e política, claro... -- esperava já há 500 anos, adotando medidas inéditas para o lado de cá abaixo do Equador, em especial ligadas às nacionalizações dos recursos naturais (em especial o cobre), ao apoio irrestrito (mas, claro, condicional) ao processo de construção do "poder popular", com as ocupações de fábricas e latifúndios, e à construção da participação direta através de assembléias locais e regionais.

Porém, a insurreição da burguesia nacional e do capitalismo estadunidense -- raivosos desde a vitória de Allende nas urnas, em 1970 -- com múltiplas e cruéis ações de sabotagem, lideradas financeiramente pela CIA, politicamente pela mídia e postas em prática por um Congresso Nacional que tinha maioria conservadora e da direita, conseguiu, não obstante o esforço das classes populares, literalmente paralisar o Estado, levando ao Golpe Militar e à morte de Salvador Allende (v. aqui, como lembrança aos 35 anos da sua morte). Em suma, tudo muito parecido com o que aconteceu por aqui, no Golpe Militar de 64, com exceção ao fato de que João Goulart, ao contrário do que Allende fez e do que Leonel Brizola queria fazer, não resistiu e se acovardou.

Sobre o filme, especificamente, o cineasta foi além dos temas espetaculares, filmando desde assembléias de fábricas, passando por trabalhadores do campo, moradores de bairros construindo um abastecimento alternativo, até militantes de direita, as manifestações da burguesia nacional e os projetos de intervenção articulados pelos EUA. Mostra, enfim, a luta de um homem e de um povo para se livrar das amarras históricas e selvagens que, com toda a injustiça, relegavam à pobreza e à miséria toda uma explorada população, em espúrio privilégio de uma elite burguesa burra, arrogante e reacionária.

São 3 partes: o "Poder Popular", a "Insurreição da Burguesia" e o "Golpe de Estado", além de uma quarta parte, repleta de especiais, inclusive com um mini-documentário, de 1 hora, sobre as últimas horas de Salvador Allende dentro do Palácio de La Moneda (aqui um trailer).

E, como prévia, ouça, aqui, o último e arrepiante discurso de Allende, feito à "Rádio Magallanes", de Santiago do Chile, concomitante aos bombardeios e minutos antes da invasão promovidos pelos militares em nome da burguesia nacional e do capitalismo estadunidense. Outrossim, transcrevo-o aqui, para uma leitura reflexiva e contagiante que muito vale:fd

“Seguramente ésta es la última oportunidad en que me pueda dirigir a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de radio Portales y radio Corporación.
Mis palabras no tienen amargura, sino decepción, y serán ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron... soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino que se ha auto designado, más el señor Mendoza, general rastrero... que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al gobierno, también se ha nominado director general de Carabineros.
Ante estos hechos, sólo me cabe decirle a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar!
Colocado en un trance histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que entregáramos a la conciencia digna de miles y miles de chilenos no podrá ser segada definitivamente.
Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen... ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.
Trabajadores de mi patria: Quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley y así lo hizo.
En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección.
El capital foráneo, el imperialismo, unido a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara Schneider y que reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas, esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir
defendiendo sus granjerías y sus privilegios.
Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros; a la obrera que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños.
Me dirijo a los profesionales de la patria, a los profesionales patriotas, a los que hace días estuvieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clase para defender también las ventajas que una sociedad capitalista da a unos pocos.
Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron, entregaron su alegría y su espíritu de lucha.
Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos... porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente en los atentados terroristas,
volando los puentes, cortando la línea férrea, destruyendo los oleoductos y los gasoductos, frente al silencio de los que tenían la obligación de proceder: estaban comprometidos. La historia los juzgará.
Seguramente radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz no llegará a ustedes. No importa, lo seguirán oyendo.
Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos, mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal a la lealtad de los trabajadores. El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.
Trabajadores de mi patria: tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición, pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.
¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, habrá una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición”.