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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

# o fim de um tabu



Núcleo justificante da picaretagem dessa "intervenção" do bando vampiresco, a violência no Rio tem boa parte das suas amarras no narcotráfico, ainda que hoje ele esteja se especializando em outras áreas, mais lucrativas.

Por isso urge enfrentar a fundo e debater a sério a questão das "drogas", definitivamente uma das pautas estruturantes do nosso presente e futuro social.

Que fique claro: deixá-las às sombras e à escuridão, rotineiramente fabricadas, trazidas e montada pelos esgotos das cidades, habitualmente distribuída e comercializada por ratos, corvos e bandidos e invariavelmente consumida a doses industriais em todas as festas, campings e circos da Oropa, França & Bahia, é de uma insensatez sem tamanho.

Os estudos, as pesquisas, os dados, os dossiês, os astros, as bulas, os espelhos, os evangelhos, os orixás, tudo aponta para a irracionalidade da sua proibição.

Como aquiaqui, aqui e aqui já enfatizamos, há muita base e respaldo científico (interdisciplinar e multinacional) para afirmar que, jamais desprezando os seus múltiplos malefícios, a maconha não pode receber um tratamento diferente daquele dispensado às outras maiores "drogas sociais" (álcool e cigarro), ainda mais prejudiciais e viciogênicas – eis aqui, um documentário definitivo deste tema.

Ora, não são poucos os estudos científicos das Ciências Sociais que concluem: a criminalidade nos nossos morros e periferias exsurgem, em sua quase unanimidade, pela cotidiana guerra a envolver "chefões", a "polícia" e a "comunidade", a revelar o fascínio e a submissão que esta tem diante dos primeiros  haja vista as recompensas e a pressão que recebem , eis, pois, a difícil equação e estéril solução para que a segunda (ou, diga-se, o "Estado") não se subjugue à corrupção dos primeiros e não se desfaleça diante do medo da segunda.

Ora, não são poucos os estudos científicos da Economia que concluem: um mercado fechado, com oferta escassa e demanda latente, com o mais absoluto dos entraves mercantis a "proibição" na sua comercialização , traz como consequências lógicas a supervalorização do produto, a superacumulação de lucros, a superestruturação de negócios paralelos (e, claro, ilegais) e a superexploração da mão-de-obra empregada (leia-se, aqui, a disputada empregabilidade em setores ilícitos e imorais).

Ora, não são poucos os estudos científicos da Medicina que concluem: a maconha é muito menos maléfica  porquanto causa menos dependência e afeta com muito menos dano o nosso organismo  do que o cigarro (aquele com nicotina e uma centena de componentes químicos) e o álcool (aquele responsável por um número avassalador de mortes, em especial no trânsito); e mais, atestam o seu uso terapêutico para diversas doenças, maiormente àquelas relacionadas ao sistema nervoso.

Ora, não são poucos os estudos da Psicologia que concluem: não há relação absoluta entre o uso da maconha e o uso subsequente, p. ex., da cocaína ou do crack, vez que uma ínfima parte dos usuários da erva são seduzidos e caminham para a dependência de drogas pesadas  ou seja, é falsa a "lógica" de ser uma droga de passagem; ademais, os estudos mostram que o acesso e a relação do jovem com o "proibido" estimula o contato com o mundo da criminalidade e da perversão, vez que não há meios sociais de obtê-la senão pelos meios obscuros e (mais) perigosos.

Ora, não são poucos os estudos do Direito que concluem: o direito fundamental à intimidade e à privacidade e a autodeterminação do indivíduo são espaços imune à interferência estatal  desde que não ofenda patrimônio jurídico alheio , o qual deve abdicar-se da imposição de padrões e de moralismos que não violam valores sócio-jurídicos; ademais, há flagrante ofensa ao princípio da proporcionalidade (adequação e necessidade) e, ainda, flagrante ilegitimidade na proibição da maconha, nos moldes de hoje, a partir do instante em que a sua ofensividade atine, concretamente, apenas à saúde do próprio indivíduo, não havendo lesividade a bem jurídico de terceiro.

Ora, não são poucos os estudos da Ciência Política que concluem: a questão não é de segurança pública, mas, sim, matéria de políticas sociais ligadas à saúde e à educação. Combater a droga, na forma de guerra civil, canabalizada  e malfadada, é não-política, inútil e, pior, contraproducente, que não mitiga um claro poder paralelo havido nas periferias, desestabilizando o Estado.

Ora, a História mostra que não apenas os padrões comportamentais da sociedade levam para o reconhecimento de costumes morais ou não, legais ou não, mas, principalmente, os interesses das classes dominantes do Estado, que veem ser mais ou menos interessante admitir ou não certas condutas e certos fatos; logo, e por isso, as bebidas alcóolicas e o cigarro (aquele com nicotina, benzeno, fósforo, naftalina, amônia etc.) são  e quase sempre foram  permitidas em boa parte do mundo, enquanto a maconha é criminalizada e vista como algo satânico.

A questão, pois, parece se sustentar em contas mal feitas acerca dos custos públicos da medida – e de um erro crasso na solução desta public choice, que trata o problema da maconha como questão de polícia e segurança pública, e não de saúde pública; ou, então, em aspectos metafísicos, meio dogmáticos, meio carola, tese reducionista de uma turma puritana que acha o baseado simplesmente uma coisa do capeta.

E é, se continuar a ser monopólio do crime organizado, a causar milhares de mortes todos os anos e a custar milhões em aparato e corrupção policialescos.

Mas acredito no bom senso e no progresso da Política e do Direito, com a revisão e a transformação de ideias e ideais.


Como, por exemplo, a liberação controlada, selada, carimbada, registrada e fiscalizada do cultivo e distribuição da maconha – e de modo ainda mais rigoroso do que acontece com fármacos, álcool e tabaco.

Afinal, a guerra contra o narcotráfico é uma estupidez, uma cretinice monumental.



sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

# sem magia


Ninguém, absolutamente ninguém, que não queira tentar compreender uma sociedade cujos valores são tão distantes dos nossos será capaz de entender este negócio todo da medicina e dos médicos cubanos, nomeadamente este convênio entre Brasil e Cuba, intermediado pela Organização Mundial de Saúde (v. aqui, aquiaquiaqui e aqui).

A falta de vontade, aliada a uma concepção vazia (alienada) ou repleta de preconceitos, desemboca num festival de besteiras, incapaz de compreender como funciona esta missão de salvar e cuidar de vidas naquele país caribenho.

Cuba tem uma das melhores e uma das mais eficientes (relação custo-benefício) medicinas do planeta porque é independente, porque tem foco e fim no paciente e porque visa a tratar dos elementares problemas de saúde pública (v. aqui e aqui). E divulga, reparte e ganha com isso.

É independente porque construída sob alicerces republicanos, não-capitalistas e não-privados. Sem patentes, é barato custear problemas graves (v. aqui e aqui); sem a pressão dos gigantes laboratórios multinacionais, não se faz dos tratamentos uma pirotecnia, da cura um composto químico, dos pacientes uns robôs ou cobaias e da prevenção um não-assunto; sem o lobby dos grupos médicos privados, faz da saúde pública algo efetivamente de interesse público; e sem a mercantilização do negócio saúde, faz-se simplesmente medicina.

Tendo por objetivo tratar da saúde – e não ganhar dinheiro –, fazer medicina constitui um sacerdócio, uma entrega, uma oportunidade de tratar e salvar a vida das pessoas. E isso não tem dinheiro que pague, pois com a expertise de uma formação humanista, sob o ponto de vista da ética, e técnica, com ênfase na medicina familiar, os médicos cubanos não tem o preço e o custo dos médicos mundo afora, tão-pouco resultados com a mesma eficiência. Ora, como o mundo deles não gira em torno dos compromissos financeiros e pessoais, os médicos cubanos atendem, consultam, conversam, clinicam, tocam, examinam... e não resumem tudo isso a noventa segundos de questões e uma dispensa para exames laboratoriais, sempre rentáveis e de diagnóstico autodidata. Vivem, portanto, para a medicina, e não dela (v. aqui). 

E, como a maioria das doenças e das mortes por problemas de saúde advêm do cotidiano sanitário (atendimentos primários), é nele que são envidados todos os esforços, todos os estudos e toda a pouca grana que se têm. Nele e em medicina preventiva. E por isso a profusão de médicos, de ambulatórios, de postos, de clínicas e da incessante busca pela excelência no tratamento da saúde básica. E por isso os melhores índices do mundo em mortalidade infantil, desnutrição, vacinação, gestação, expectativa de vida etc. (v. aqui)

Por fim, com um contingente médico enorme (v. aqui), Cuba exporta a sua medicina com os seus médicos. E não apenas para fazer dinheiro – e então reinvestir em toda a estrutura nacional –, mas para promoção do seu jeito de fazer medicina e para cumprir o seu princípio constitucional da solidariedade ente os povos, e por isso estão onde os nativos não querem e vão para os nativos precisam.

Tudo isso sem mágica, e sem a ilusão de que esteja tudo ótimo ou de que lá seja o paraíso.

O problema está em acreditar que tudo o que se relatado, inclusive pelas organizações sociais e institucionais internacionais, seja ilusão, e que os mágicos somos nós, em nosso sistema e em nossas verdades.

Aí é pura demagogia, em especial daqueles encastelados.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

# baseado em ciências


Em vias de ser aprovada a nova lei que regulamentará a plantação, a distribuição e o consumo de maconha ("Ley de Regulación  de la Marihuana"), o Uruguai está a dar um crucial passo no controle da violência das periferias, no descaminho de milhares de jovens, na retomada de territórios apartados do Estado e, principalmente, no fim da guerra ao narcotráfico.

Absolutamente longe de se intentar qualquer apologia ao uso, não há qualquer justificativa razoável e minimamente técnico-científica para que continuemos a renegar a erva às sombras e à escuridão, rotineiramente trazida e montada pelos esgotos das cidades, habitualmente distribuída e comercializada por ratos, corvos e bandidos, e invariavelmente consumida a doses industriais em todas as festas, campings e circos da Oropa, França & Bahia.


Os estudos, as pesquisas, os dados, os dossiês, os astros, as bulas, os espelhos, os evangelhos, os orixás, tudo aponta para a irracionalidade da medida da sua proibição.


Claro que ela não dá tanto lucro quanto as drogas químicas, as patentes farmacêuticas (v. aqui), o transporte público viário (v. aqui) e os pedágios nas estradas brasileiras – refiro-me àquelas rodovias cujos contratos de concessão foram firmados antes de 2003, na época neolibelô, já que depois disso as regras e os preços ajustados foram absolutamente diferentes (v. aqui) –, porém, ainda assim, nos moldes de hoje, traficar cannabis constitui um negócio fabuloso para a criminalidade, e péssimo para o Estado e a sociedade.

Como aqui, aqui e aqui já enfatizamos, há muita base e inteiro respaldo das ciências biológicas, sociais, econômicas e jus-criminais para afirmar que, jamais desprezando os seus múltiplos malefícios, a maconha não pode receber um tratamento diferente daquele dispensado às outras maiores drogas sociais (álcool e cigarro), ainda mais prejudiciais e viciogênicas.

A questão, pois, parece se sustentar em contas mal feitas acerca dos custos públicos da medida – e de um erro crasso na solução desta public choice, que trata o problema da maconha como questão de polícia e segurança pública, e não de saúde pública; ou, então, em aspectos metafísicos, meio dogmáticos, meio carola, tese reducionista de uma turma puritana que acha o baseado simplesmente uma coisa do capeta.

E é, se continuar a ser monopólio do crime organizado, a causar milhares de mortes todos os anos e a custar milhões em aparato e corrupção policialescos.

Mas acredito no bom senso e no progresso da Política.


E que a liberação controlada, selada, carimbada, registrada e fiscalizada do cultivo e distribuição da maconha pelo Estado uruguaio (e de modo ainda mais rigoroso do que acontece com fármacos, destilados e tabaco) é uma prévia do que virá, muito em breve, a acontecer América Latina afora.

Além do jeito desprendido de lidar com o poder e o dinheiro, o presidente Pepe Mujica passa assim a ser também exemplo na forma independente, altiva e eficaz que encontrou para enfrentar os narcotraficantes.

Afinal, a guerra contra eles já foi perdida há muito tempo.


O vídeo-bomba que liquida o narcotráfico no Uruguay



sábado, 6 de julho de 2013

# aspas (xxxix)

 

A reportagem da revista "Isto É" desta semana, fundamental e esclarecedora para que todos entendam do problema e das razões que levaram o Governo Federal a tomar as recentes medidas, em parte absolutamente certas e pontuais – e méritos totais ao muito bom Min. Alexandre Padilha –, para enfrentar a questão da saúde pública Brasil afora, nomeadamente a falta de médicos e de cuidados à saúde básica da população, e que tanto desgostou a corporação nativa.
 
Nesta didática matéria está o verdadeiro jornalismo: noticiar o fato, colocar os problemas existentes e as soluções apresentadas e ouvir as partes envolvidas, sem fazer juízo de valor. E assim passamos a ter esperança que de que nem tudo no jornalismo advindo da grande mídia está perdido, e a certeza de que o corporativismo – seja de que classe for, no caso a médica – é mesmo uma praga.

Abaixo, a manchete da boa reportagem, que pode ser lida aqui:

   "O Brasil tem metade dos médicos que precisa.
   Conheça o retrato dramático da saúde pública no Brasil e saiba por que o programa do governo de importação de médicos pode ajudar a resolver esse flagelo".



 

terça-feira, 6 de abril de 2010

# as reservas do possível, do razoável e do justo

f
dsE finalmente (e definitivamente) o Superior Tribunal de Justiça (STJ) debruça-se sobre a questão da saúde e o desafio de ponderar demandas individuais e coletivas (v. aqui).
fdsNão é de hoje que a Justiça se tornou refúgio dos que necessitam de medicamentos ou de algum procedimento não oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS); porém, não é de hoje também que há uma máfia a envolver laboratórios, médicos, advogados e laranjas cuja fim é lesar o erário e apropriar-se de dinheiro público (e mesmo privado) -- sobre o grande tema, v. aqui.
fdsSim, a saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado, cuja prescrição constitucional arrombou as portas dos tribunais para a tal "judicialização da saúde".
fdsTodavia, como dinheiro público não dá em árvore, exsurge a questão: privilegiar o individual ou o coletivo? De um lado, a participação do Judiciário significa a fiscalização de eventuais violações por parte do Estado na atenção à saúde. Mas, de outro, o excesso de ordens judiciais pode inviabilizar a universalidade da saúde, um dos fundamentos do SUS.
fdsO senador Tião Viana (PT/AC) milita contra a judicialização da saúde. Segundo dados divulgados pelo senador, haveria no Brasil um movimento financeiro da ordem de R$ 680 milhões em compras de medicamentos decididas por ordens judiciais. Ele chama de “temerosa” a tendência de se substituir um pensamento técnico e político de gestão da saúde pela decisão de um juiz.
fdsJá neste ponto, um dos ministros do STJ, Teori Albino Zavascki, bem afirma que não existe um direito subjetivo constitucional de acesso universal, gratuito, incondicional e a qualquer custo a todo e qualquer meio de proteção à saúde, que o direito à saúde não deve ser entendido “como direito a estar sempre saudável”, mas, sim, como o direito “a um sistema de proteção à saúde que dá oportunidades iguais para as pessoas alcançarem os mais altos níveis de saúde possíveis”.
fdsPor seu turno, outro ministro do STJ, Luiz Fux, afirmou que, sendo comprovado que o indivíduo sofre de determinada doença, necessitando de determinado medicamento para tratá-la, o remédio deve ser fornecido, de modo a atender ao princípio maior, que é a garantia à vida digna, mas que, antes, deve-se preciso investigar a condição do doente.
fdsE como um caso prático e recente decidido pelo STJ, o ministro Benedito Gonçalves advertiu que as ações ajuizadas contra os entes públicos, para obrigá-los indiscriminadamente a fornecer medicamento de alto custo, devem ser analisadas com muita prudência. Na ação, um paciente de Minas Gerais havia ingressado na Justiça para garantir o recebimento de uma droga nova para o tratamento de psoríase, prescrita por um médico conveniado ao SUS. O pedido foi negado porque se entendeu não haver direito líquido e certo do paciente, já que o SUS oferecia outros medicamentos para o tratamento, e, ainda, não haveria comprovação de melhores resultados com o novo remédio.
fdsO ministro Benedito Gonçalves observou que, ao ingressar na esfera de alçada da Administração Pública, o Judiciário cria problemas de toda a ordem, como o desequilíbrio de contas públicas, o comprometimento de serviços públicos, entre outros.
fdsPara ele a ideia de que o poder público tem condição de satisfazer todas as necessidades da coletividade ilimitadamente, seja na saúde ou em qualquer outro segmento, é utópica.
fdsImpulsionado pleo Judiciário, é um dos grandes passos necessários para o Brasil continuar a enfrentar o problema da supremacia do particular (e do individual) sobre a coletividade (e a sociedade).
fdsE nestas, como em várias outras áreas, este Brasil governado pelo Presidente Lula não se furta a avançar.
fds

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

# crime & castigo


fffdMuito já nos manifestamos sobre o assunto (v. aqui, aqui, aqui e aqui).
fffdE agora está quase provado.
fffdE as bestas de plantão, o que dirão com o não-fim do mundo e com o não-extermínio da raça humana?
fffdA seguir, as notícias que estavam à frente de todos, mas que a cegueira branca (ou a estupidez cretina ou a má-fé capitalista) da grande maioria impedia de enxergar: "Conselho da Europa investiga a ficção lucrativa e debate a 'pandemia inventada'" (v. aqui) e "Gripe A - a corrupção na saúde pública" (v. aqui).

--x--
fffdTodavia, mesmo diante de todas estas (quase) evidências, a grande mídia corporativa e a parcela podre da saúde pública ou privada brasileira -- que parecem financiadas pelos grandes promotores do golpe da gripe -- já pressionam e advertem o Estado para o inverno que se aproxima e que, agora garantem, a tal peste vai mesmo dizimar o resto da população sobrevivente.
fffsE o Estado, o que deve fazer?
fffsOra, não importa o que faça será, claro, jogado aos leões, afinal: (i) se realmente ignora essa farsa toda, não gasta a querida fortuna em remédios e em arsenal anti-gripe suína, mas meia dúzia de pessoas morrem do treco, ele será eternamente criticado por não ter se preparado, por não ter investido, por ter sido negligente etc.; e, por outro lado, (ii) se realmente dá ouvidos às notícias e aos reclames da mídia e das indústrias fármaco-hospitalares, e gasta uma fortuna para se precaver e combater a tal gripe suína, e ela não vem (ou vem, como bem se viu, como outra coisa qualquer que, mais ou menos sólido, não se desmanchou no ar), será eternamente criticado por ter jogado fora dinheiro público, por não ter examinado direito, por não ter sido eficiente etc.
fffdSim, é assim que o jogo funciona.

fds

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

# super size me


Após quase trinta dias envolto ininterruptamente em pantagruélicos festejos, etílicas comemorações e boêmios encontros, eis que cá estou redondo e mefítico, sinais mais que evidentes do destempero e do tempero agudo e calórico de tantos ingredientes abusados nas festas de final de ano e de férias.

Hoje, finalmente, ao subir na balança, um suspense tipicamente psicótico tomou-me conta ao ver o abrupto salto do ponteiro passar e voltar os três dígitos, por três vezes, até firmar-se muito pouco abaixo do cem.

Sim, doze doses ou dúzias de rãs a mais e então o desastre seria, na forma de praga, bíblico.

A passar por quase toda a fauna comestível, por todas as invencionices gastronômicas, por tudo que é tipo de alimento mais ou menos industrializado e por tudo que fermenta ou se destila a produzir álcool, fui destemido com os olhos, e o corpo foi imperdoável.

Cru, seco, sem gelo, sem sal, salgado, assado, gelado, mélico ou quente: a lógica catástrofe era certa e, não tardia, chegou.

Menos mal se fosse apenas por fora, percebo que por dentro a coisa parece ainda mais trágica: náuseas, tonturas, amnésias, brotoejas, lapsos respiratórios, chiliques estomacais e greves intestinais, tudo parece mostrar que a feia viola por fora bem se coaduna com o pão bolorento de dentro.

Nunca antes na minha história uma segunda-feira de início de ano mostrou-se tão feia e pesada.

E eis que agora, como se camelo, quero autopactuar que só ingerirei algo em dez dias.

Antes disso, nada.

E como sem o sol para a plena fotossíntese, viverei só de vento.

E sob muita chuva para, inerte, me fazer rolar por aí.

Curitiba será o meu molhado Saara; e eu, não me iludo, um fajuto camelus bactrianus.

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

# aspas (xxvi)



Em formal visita da Organização Mundial da Saúde (OMS) à Cuba, a Diretora-Geral Margaret Chan traz a opinião da entidade sobre o sistema de saúde cubano (v. aqui).

Muita gente cortará os pulsos, ou falará que a cúpula da OMC recebe propina do governo cubano, que a Agência Reuteurs distorce as informações porque tem lucrativa parceria com o Granma, que toda a Diretoria da entidade passou todo o tempo embriagada de rum etc.

   "(...) Chan said she toured Cuban medical facilities and came away impressed with the communist-led island's health system, which provides free care to all Cubans.
   Citing its strong health indicators on such things as life expectancy and infant mortality, she said, 'in a country of this level of economic development, to be able to achieve those very good health indices is not easy'.
   Cuba, she said, 'has the right vision and the right direction. Health is a state policy and health is seen as a right of the people'."



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

# legalizar: uma solução eficaz


fdsDiante da última bula sobre a matéria (v. aqui), diversos leitores criticam a nossa posição acerca da imprescindível discussão que o tema das drogas exige, cujo foco, à sombra da mangueira imortal, reside na pronta liberalização do seu comércio.

fdsDe primeira, brevemente rebatemos os dois argumentos mais presentes nos emails e que comumente aparecem para justificar a ordem proibicionista.
 
fds(1) Aumentar-se-ia muito os gastos em saúde publica, para curar e dar conta do "imenso" aumento no número de drogaditos. Ora, fiquem tranquilos: os gastos para tratar esses nossos doentes será muito, muito, mas muito menor do que os gastos do erário em segurança pública, especificamente no combate e na prevenção do narcotráfico e, também, do tráfico de armas, cujo imponente arsenal, na sua quase totalidade, serve para abastecer o mercado das drogas. Isso sem falar dos gastos sociais que o Estado tem, diante das tantas famílias que se veem dizimadas pelas guerras civis e pela violência urbana. Ademais, a própria (e elevadíssima) tributação a ser criada em toda a cadeia produtiva desses produtos financiariam tais despesas.
 
fds(2) Teríamos milhares de Amsterdans espalhadas pelo Brasil. Ora, nem na própria Amsterdam isso é tão amsterdam assim, basta lá conferir, sendo hoje o país da UE com os menore índices de consumo de drogas leves entre os jovens -- e tanto é verdade que diversos países europeus já caminham entre a descriminalização do uso-posse-consumo da lei portuguesa e a ultraliberalização da lei holandesa, enquanto a União Européia já estuda formas de trazer a matéria em diretivas comunitárias. Ademais, o óbvio ululante: (a) seriam impostos limites horários e geográficos para o uso -- como se faz para o cigarro e o álcool; (b) seria criada uma severa fiscalização no seu uso e na forma deste uso -- como se faz para o álcool e para o cigarro; e (c) seriam intensificados e aperfeiçoados os instrumentos para prevenção, para não uso e para o uso "com moderação" -- como urbi et orbi faz-se com o álcool e com o cigarro. Tal argumento, portanto, reveste-se de muito preconceito -- haja vista o caráter não-social destas drogas diantes das outras drogas populares (álcool e tabaco) -- e pouca ciência.

fdsConcordo, apenas, que essa liberalização do comércio lograria êxito muito mais certo se praticada em larga escala mundial, sem, portanto, as imperfeições que adviriam na hipótese de grandes centros fechados a tais produtos.
fds
 

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

# aspas (xxii)



Não resisti...

Eis o depoimento da Sra. Anna Sara Levi, epidemologista coordenadora do Hospital das Clínicas de São Paulo, a ratificar a estupidez e a cegueira branca humanas (v. aqui):

   "Trata-se de um 'estado hipocondríaco transitório' movido por um 'estresse psicossocial'. Em outros anos, a pessoa engripava e se tratava com repouso em casa e antigripal. Agora, ela vai para o hospital ver se os sintomas que tem não são da pandemia.
   Não é injustificada a presença das pessoas em um pronto-socorro movimentado como este: algum problema de saúde elas têm. Afinal, estamos no inverno, quando aumenta o número de doenças respiratórias. Mas a grande maioria apresenta quadro leve e podem se tratar em casa de seus resfriados e gripes. (...)
   Quando se descobriu o vírus HIV nos anos 80, criou-se uma neurose. Foi a mesma coisa com um surto de febre amarela no final de 2007, com gente morrendo porque tomou duas vezes a vacina em curto período de tempo. Agora é a vez da gripe tipo A fazer qualquer espirro parecer uma contaminação".



 

sábado, 1 de agosto de 2009

# aspas (xxi)



No "Vi o Mundo", do jornalista Luiz Carlos Azenha (v. aqui), uma das certas conclusões acerca da (atual) maior "praga" da humanidade, que está a disseminar o "terror" e a "morte".

É esse o tipo do jornalismo, a refletir do (e no) comportamento da população, que desgraça o mundo.

E prometo ter sido a última manifestação sobre a tal gripe -- salvo, claro, daqui a um ou dois meses, quando tudo tiver acabado e todos os parvos apavorados de plantão já estiverem calminhos, calminhos, momento que merecerá um sonoro: "E daí?"...
 

   "Na vida real -- que jamais aparece no fato jornalístico --, o que está acontecendo hoje é que NINGUÉM está informando objetivamente sobre coisa alguma, pela suficiente razão de que TODOS estão informando DEMAIS... sobre NADA.
   Por exemplo: quantos morreram no mundo, ontem, por efeitos da desnutrição crônica? Taí. Ninguém informou 'fato' algum sobre isso. Então... tudo se passa como se não tivesse morrido ninguém, ontem, por efeitos da desnutrição crônica... 'porque' ninguém desenhou o infográfico das mortes por efeito da desnutrição crônica, nem nenhum jornalismo 'informou' sobre esse fato.
   Estamos presos na arapuca 'jornalística': vez que TODOS falaram DEMAIS sobre a gripe, criou-se uma situação na qual ou TODOS continuam falando sempre sobre o mesmo 'nada' (o que dá ao NADA status de 'FATO'!) ou TODOS terão COMPROVADO que TODOS falam DEMAIS sobre assuntos TOTALMENTE sem importância alguma. "
 
 
 
 
 

quarta-feira, 18 de março de 2009

# eram 32 dentes...


No "blog do Macuco" (v. aqui), dispõe-se um dado estatístico triste e alarmante: só 40% da população usa escova de dente.

Sim, é verdade. Segundo uma pesquisa do Ministério da Saúde, mais da metade da população brasileira não usa escova de dente, número este (in)justificável pela falta de condições financeiras e de instrução da população. Acredite, se quiser...
 
Assim, enquanto no Brasil o "mercado" oferece escovas de dente grande, média, mini, da Minie, azul, roxa, de bolinha, de oncinha, com cerdas moles ou de plumas ou com vibrador, e cremes dentais de methol, de frutas silvestres, de pistache, verde-uva, superbranco, super-super branco, power-extra branco e outros, em Cuba, por outro lado, os mercadinhos (privados ou estatais) oferecem escovas e pastas magnificamente simples e eficientes, mas ao alcance de todos, pois o Estado ensina, exige e cuida do seu uso.
 
Sim, em Cuba, o ato de escovar os dentes e não tê-los podres não é privilégio de classe social.
 
Lá, há décadas, tem-se níveis de excelência em praticamente todos os dados relativos à saúde da população. Mas, coitada, não consegue oferecer a sua gente uma escova elétrica com cerdas de pelo de urso ou uma pasta com sabor de tâmaras maduras, veja só...
 
Sim, são por estas e outras que Cuba é destratada e menoscabada pelos idiotas de plantão que, sentados cada qual em seu barril, insistem nas maravilhas que o "mercado" pode proporcionar e nas agruras de uma vida sem um enorme corredor de supermercado com centenas de pastas e escovas para escolher.

O Estado? Ora, o Estado só nos atrapalha, só quer o nosso mal, o nosso sangue, a nossa alma! Vade retro! "Nos deixem sós!", brada a elite branca nacional.
 
Todavia, esquecem que apenas poucos brasileiros permitem-se essa freedom to choose, essa que é a maior cantilena neoliberal e que também vem refletida na pesquisa em comento, cuja realidade, estupidamente esquecida pela nossa burguesia, jamais a deixará a sós e em paz.


 

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

# sessão dupla: o gênio e o império


Nesta encamada terça-feira -- causada por uma febril gripe que, como um direto no queixo, me derrubou --, usei a tarde para assistir a dois documentários há tempos na estante: "Cartola" e "Sicko - $.O.$. Saúde", ambos excelentes.
 
O primeiro simplesmente brilhante, menos pelo filme, mas sim pela figura que representa este ícone da cultura nacional.

Ainda que com uma direção titubeante, consegue mostrar Cartola (e o samba, os seus mestres e a imortal Mangueira) a nu, sem eufemismo e com choques que traduzem melhor ainda a vida, num passado pouco remoto, dos grandes gênios da nossa maior música.

Um lindo espetáculo.

O segundo, de Michael Moore ("Fahrenheit 11/9" e "Tiros em Columbine"), mostra às claras o podre sistema de saúde "pública" estadunidense, a comparar o quão desumano é este capitalizado modelo, em especial quando comparado como o humano, ainda que pobre, sistema socializado vigente em boa parte do mundo, como, mostra ele, no Canadá, na França e... em Cuba! (ainda que, neste caso, com um certo exagero, quase ufanista...).
 
Em síntese, revela, em mais outro aspecto, como se resume o american way of life: cada um por si e o mercado por todos, num sistema de socialização dos custos e riscos e máxima privatização dos lucros.

Uma ignominiosa nojeira.


 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

# robin hood às avessas


Evidentemente, a intervenção direta do estado – econômica, fiscal, social etc. – é o único modelo factível e eficaz para o combate à desigualdade.

Isso não é novidade. Nunca foi.

Os países hoje hegemônicos quando dividiam essa qualificação com antigos impérios assim faziam. E hoje não se arrependem.

Mas no Brasil, claro, tem que ser diferente. E particularmente vamos à CPMF, pois, o que era suspeita, confirmou-se.

Sim, o fim da CPMF não produziu a alardeada redução de preços para os consumidores. Ao contrário do que bradava o núcleo da imprensa golpista (Globo, Veja, Estadão e Folha) – como eco dos seus financiadores da "tropa" da elite branca e direitista – e a oposição, os preços permaneceram os mesmos e, ipso facto, apenas fizeram aumentar o lucro das indústrias e empresas.

Em um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), capitaneado pelo Prof. Marcos Cintra, fez-se um cruzamento entre o impacto do fim da cobrança da alíquota de 0,38% sobre as movimentações financeiras com a inflação medida em 42 setores da economia. Resultado: não houve ganhos para o consumidor e a extinção da CPMF não causou qualquer impacto positivo na economia do País. Pelo contrário. Os cálculos realizados mostram uma inflação crescente nos preços desses setores pesquisados.

Logo – e isso já sabíamos –, os únicos beneficiados com o fim da CPMF foram as empresas e os grandes conglomerados econômicos, que tanto lutaram pela derrubada do tributo e que hoje podem comemorar o aumento de suas margens de lucro.

Enfim, deste único tributo ao qual ninguém que se enquadrasse na condição de sujeito passivo escapava – desagradando a todos os capitalistas –, duas conclusões óbvias podem ser tiradas: o que contribuía para o financiamento da saúde, da previdência e da assistência social, agora, é do lucro privado.

E, o que antes era para rastrear e punir a ação de sonegadores, agora ajuda a escondê-los.