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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

# aspas (xliii)


Boaventura de Souza Santos -- cientista social de escol, professor catedrático da Universidade de Coimbra e coordenador do "Projeto Alice" (v. aqui) --, a respeito da candidatura da Gandhi de saias, a nossa Madre Marina da Amazônia (v. aqui):


Marina Silva é um 'instrumento' da direita brasileira, que entendeu ser muito difícil voltar ao poder diretamente por meio de uma disputa ideológica entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.
A direita descobriu, muito rapidamente, que Aécio Neves não é de forma nenhuma uma alternativa, porque faria uma disputa ideológica entre esquerda e direita.
As forças que sempre governaram o Brasil viram que era mais fácil chegar ao poder sem fazer essa disputa ideológica, utilizando uma terceira pessoa, que combina em sua ambiguidade alguns elementos de esquerda, não pelo que diz hoje, mas pelo que foi.
Tem que usar um desvio e o desvio necessário é buscar alguém que tem um perfil de esquerda para depois instrumentalizá-la. Marina Silva é, neste momento, esse instrumento. É, portanto, um desvio a que a direita é forçada para conquistar o poder.
Para nós, que viemos da Europa, basta quando vem aquela frase mágica da independência do Banco Central... É a grande marca do modelo neoliberal.
Tive o cuidado de ver o programa da Marina Silva e, obviamente, uma das coisas que diz o programa de política externa é, no fundo, voltar ao tradicional alinhamento do Brasil com os Estados Unidos.  
É só saber ler seu programa. As perspectivas são as políticas neoliberais.
Penso que essa fulguração de Marina atingiu seu máximo. As pessoas começam a ver os riscos por trás de uma política nova que, afinal, é bastante velha; a ver a fragilidade da Marina com as oscilações perante aqueles que controlam sua campanha e que lhe dão apoio.
Continua a haver uma esperança de que, no segundo mandato, a presidente Dilma vá fazer o que se espera de um governo do PT.
Ao passo que da Marina Silva, francamente, não há nada a esperar. 


terça-feira, 11 de março de 2014

# desassossego


Assombra a Europa e o Norte global, em geral, um sentimento de exaustão política e intelectual que traduz em uma incapacidade de enfrentar, de modo minimamente inovador, os desafios da justiça social, econômica, ambiental, cultural e histórica que interpelam o mundo (desenvolvido e em desenvolvimento) nas primeiras décadas do séc. XXI.

Razão pela qual é do Sul de onde se espera, na sua imensa diversidade, a proficuidade de planos e propostas, de modo a se assumir como o mais promissor ente inotrópico global e o mais fértil campo de inovação política, econômica e social.

E sob estas inquietações surgiu o projeto "Alice" (v. aqui), comando pelo Prof. Boaventura de Souza Santos, da Universidade de Coimbra, e financiado pelo Conselho Europeu para Investigação, com o fim de pensar, discutir e propor alternativas institucionais, políticas e econômicas para estes nossos novos (e necessariamente novos) tempos – na esteira, inclusive, do que está a propor o Prof. Carlos Sávio Teixeira, no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFF.

Deste projeto de ideias, colhe-se no programa os ensaios denominados "Aprendizagens Globais - Conversas do Mundo", cujo propósito é, literalmente, rodar o planeta com o objetivo de (re)pensar todo este estado das coisas para desenvolver novos paradigmas teóricos e políticos de transformação social.

Deles, trago a conversa do Prof. Boaventura com o Gov. Tarso Genro, um dos importantes "intelectuais orgânicos" do Brasil – ao menos no sentido de altitude de voo (Prefeito, Governador e Ministro de Estado) –, na qual se percebe, claramente, que na hora em que a porca torce o rabo o buraco é mais embaixo.

E, mais uma vez, não obstante as diversas ideias em construção no Rio Grande do Sul, basta querer ver para reparar a quantos anos-luz o Partido dos Trabalhadores (PT) está de promover uma revolução institucional, de construir reformas políticas, econômicas e sociais que efetivamente rompam com as lógicas do cruel sistema vigente.

Como também restam absolutamente claras as profundas dificuldades da práxis acompanhar o discurso teórico e as soluções acadêmicas, apresentadas com mais ou menos profusão, com mais ou menos criatividade, com mais ou menos praticidade mundo afora.

Ao cabo, Tarso Genro dignifica seus altos cargos ocupados e a sua intelectualidade "um político satisfeito é um político medíocre", ensina ele , mas vê dificuldades em suportar as indagações acerca de uma conjuntura perfeitamente estraçalhada por Boaventura.

E nestas lições de um desassossego coletivo, o nosso Brasil ainda parece muito sossegado.


theo̱ría & práxi̱


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

# uma roda que funcione


fdsfdsJá antigo, mas ainda excelente e que muito vem a calhar, é o texto do Professor Boaventura de Souza Santos, da Universidade de Coimbra, cujo título "Reinventar a Democracia" é quase auto-explicativo: v. aqui.

 

terça-feira, 15 de setembro de 2009

# à esquerda, uni-vos!


Neste pseudoembate que o PIG já começa a criar para desgastar os candidatos (mais ou menos) vermelhos na sucessão de Lula -- a envolver Dilma Roussef, Ciro Gomes e Marina Silva --, o que a esquerda tem que saber -- e perceber -- é que, como bem lembra Boaventura de Souza Santos, ela não pode correr o risco de se dividir ao ponto de não poder unir-se no principal: impedir a eleição de um governo de direita.

Antes disso, portanto, devem os dois primeiros candidatos -- vez que Marina e o seu PV parecem medusicamente seduzidos pela (neo)direita e pelos demo-tucanos -- lutarem para que, de um ou do outro modo, mantenha-se a irretornável continuidade das ideias que fazem sobrepor a solidariedade social ao "darwinismo social", o Estado protetor ao "Estado predador" e o interesse público ao "interesse privado".
 

segunda-feira, 16 de março de 2009

# aspas (x)



Do excepcional espaço virtual "Carta Maior", Boaventura de Souza Santos -- Professor da Universidade de Coimbra, em Portugal -- traz um brilhante resumo do pensamento mundano atual (v. aqui, na íntegra):

   "Há anos me intriga a facilidade com que nas sociedades européias e da América do Norte se criam consensos. Refiro-me a consensos dominantes, perfilados pelos principais partidos políticos e pela grande maioria dos editorialistas e comentaristas dos grandes meios de comunicação social. São tanto mais intrigantes quanto ocorrem sobretudo em sociedades onde supostamente a democracia está mais consolidada e onde, por isso, a concorrência de ideias e de ideologias se esperaria mais livre e intensa. Por exemplo, nos últimos trinta anos vigorou o consenso de que o Estado é o problema, e o mercado, a solução; que a atividade econômica é tanto mais eficiente quanto mais desregulada; que os mercados livres e globais são sempre de preferir ao protecionismo; que nacionalizar é anátema, e privatizar e liberalizar é a norma.
   Mais intrigante é a facilidade com que, de um momento para o outro, se muda o conteúdo do consenso e se passa do domínio de uma ideia ao de outra totalmente oposta. Nos últimos meses assistimos a uma dessas mudanças. De repente, o Estado voltou a ser a solução, e o mercado, o problema; a globalização foi posta em causa; a nacionalização de importantes unidades econômicas, de anátema passou a ser a salvação. Mais intrigante ainda é o fato de serem as mesmas pessoas e instituições a defenderem hoje o contrário do que defendiam ontem, e de aparentemente o fazerem sem a mínima consciência de contradição.
   (...)
   Para o Fórum Econômico Mundial e, portanto, para o novo consenso dominante, rapidamente instalado, é crucial que a crise seja definida como crise do neoliberalismo, e não como crise do capitalismo, ou seja, como crise de um certo tipo de capitalismo, e não como crise de um modelo de desenvolvimento social que, nos seus fundamentos, gera crises regulares, o empobrecimento da maioria das populações dele dependentes e a destruição do meio ambiente. É igualmente importante que as soluções sejam da iniciativa das elites políticas e econômicas, tenham um carácter tecno-burocrático, e não político, e sobretudo que os cidadãos sejam afastados de qualquer participação efetiva nas decisões que os afetam e se resignem a “partilhar o sacrifício” que cabe a todos, tanto aos detentores de grandes fortunas como aos desempregados ou reformados com a pensão mínima.
   A terapêutica proposta pelo Fórum Social Mundial , e por tantos milhões de pessoas cuja voz continuará a não ser ouvida, impõe que a solução da crise seja política e civilizacional, e não confiada aos que, tendo produzido a crise, estão apostados em continuar a beneficiar da falsa solução que para ela propõem. O Estado deverá certamente ser parte da solução, mas só depois de profundamente democratizado e livre dos lóbis e da corrupção que hoje o controlam.
   Urge uma revolução cidadã que, assente numa sábia combinação entre democracia representativa e democracia participativa, permita criar mecanismos efectivos de controlo democrático, tanto da política como da economia. É necessária uma nova ordem global solidária que crie condições para uma redução sustentável das emissões de carbono até 2016, data em que, segundo os estudos da ONU, o aquecimento global, ao ritmo actual, será irreversível e se transformará numa ameaça para a espécie humana. (...) É necessário que a luta pela igualdade entre países e no interior de cada país seja finalmente uma prioridade absoluta.
   Para isso, é necessário que o mercado volte a ser servo, já que como senhor se revelou terrível".