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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

# que só tem o sol que a todos cobre



Por que ainda vivemos em um país com índices de desordem relativamente baixos?

Por que não vemos diuturnamente arrastões, avalanches, explosões, sangue e tsunamis de quebradeira e violência pelas praças, praias e pradarias das polis, eminentes sobreviventes dos espaços públicos das nossas cidades?

O olhar e olfato comuns, sob o senso midiático, faz acreditar que estamos todos sofrendo igual.

Mentira.

É a favela e a periferia que vivem sob o diário domínio do medo, num caos e com a selvageria aos borbotões, intrépida e incessantemente batendo às suas portas, dos dois lados: "mocinhos" e "bandidos" atiram para matar.

E, ora, aqui era para ser diferente: isso aqui era para ser muito pior.

Era para ser uma Síria em todos os lugares, uma Faixa de Gaza a todo tempo – e não apenas nas nossas Sírias e Faixas de Gaza de sempre.

Afinal, arromba a retina a brutal e catastrófica desigualdade no Brasil, uma distância medida a anos-luz entre nossos dois mundos, entre as nossas duas cidades-realidades.

Duas sentenças resumem bem este estado de coisas e nos permitem refletir os porquês: primeiro, com Noam Chomsky, quando diz que "a grande maioria da população não sabe o que está acontecendo e sequer sabe que não sabe"; depois, com Leonardo Boff, ao dizer algum tempo atrás que "se os pobres soubessem o que estão preparando para eles, não teríamos ruas suficientes para tanta luta". 

De um lado, ricos, brancos e encastelados em uma vida fidalga que vagueia por um consumo hedonista e que se desbunda na busca da maximização da boa vivência, com seus umbigos como centro de tudo.

Do outro, um contingente de pobres e pretos emputecidos com o cotidiano dantesco que margeia a miséria e que faz suar sangue em busca da mínima sobrevivência, umbilicalmente ligados ao nada periférico.

No primeiro Brasil, a nobreza goza um padrão de vida superior ao daquela parte de um planeta em que o padrão é todos terem, a gozar de uma vida cheia, com mais ou menos exageros – esta nossa elite é a máxima elite de países ricos.

No segundo, a malta estropia-se sob uma ordem social semelhante àquela dos parturidos nos bolsões onde o vazio impera e cujos padrões de desprezo e descaso são, sem exagero, simplesmente trágicos – esta nossa gente é aquela gente das regiões mais miseráveis do planeta.

Por isso repito: neste nosso Brasil, uma desigualdade tão atroz e abismal deveria produzir catarses diárias, inconsequentes e revolucionárias, ataques incondicionais e diuturnos, em todo canto e a cada minuto da madrugada.

Mas não só do outro lado, na terra feita de ninguém para "subcidadãos", no chão batido do subúrbio e sob os tetos de zinco das favelas onde tentam sobreviver contra a violência do Estado, da milícia, do narcotráfico, da sociedade... enfim, contra tudo e todos.

Por isso não falo desta luta; falo do "caos".

E não de um caos particularizado, daquele no qual está mergulhada a massa brasileira invisibilizada.

Eu falo do amplo e generalizado caos.

Sim, o Brasil seria digno de sofrer sob trevas e escuridão infindáveis (v. aqui).

Afinal, não estamos a tratar de nações uniformemente pobres, igualitariamente miseráveis; somos, ao contrário, a sétima maior economia do mundo na qual pulula uma diferença social avassaladora, uma disparidade econômica ultrajante e uma dessemelhança humana quase pecaminosa.

Em suma, falamos de polos positivo e negativo, de dignidade e indignidade, de tudo e nada convivendo juntos, lado a lado, com poucos choques, com poucos sentimentos e com pouca mescla.

E mesmo assim o Brasil de cartão-postal (ainda) não se vê em frangalhos, não é atingido pela pulsante guerra no seu interior e não revela uma revolta bélica – a não ser o de "classe" – incapaz de aceitar este nosso tradicional estado de coisas.

Bem se sabe que há espaços urbanos onde, tal qual na órbita do grande capital, vigem códigos de conduta e ética de convivência alternativos, sob o império da legalidade à la carte, à mercê de regras e instituições paralelas que fazem destas áreas nossas múltiplas sírias.

Mas, mesmo assim, fora destes outros mundos, no "centro" não se nota a descortinação do Direito.

Não se vê a ameaça constante por parte dos excluídos sobre os superincluídos, não se vê a multiplicação de Robins Hoods do bem e do mal – como aqui lembramos – e não se verifica a atuação costumeira de rebeldes sociais em busca do brioche nosso de cada dia, certamente preocupados em tentar comer as migalhas do pão que o diabo amassou.

E por quê? Por que esta bomba-relógio insiste em não explodir nuclearmente? Qual o freio inibitório desta nossa gente?

Há o argumento "policialesco", pela mais ou menos agressiva (e burra) presença da força militar no meio das comunidades pobres miseráveis, que mata para impor uma pseudo-ordem e fantasia uma ordem matando. Uma ordem que aprisiona na ilusão da liberdade e prende a torto e a direito para acabar com sonhos e vidas. Mas será que este medo é suficiente para não encorajar a rebeldia da transgressão, haja vista o que está em jogo para toda a abandonada ralé?

Depois, o argumento "religioso", pela fé divina no comportamento honesto que leva à salvação, ou "bíblico", sob a tese já anunciada no Gênesis, naquele longínquo sexto dia ("e criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou"), e com isso temos visto tudo quanto tinha feito, e com isso tem nos parecido que, apesar de tudo e de todos, é muito bom. Ora, se por um lado é muito metafísico para suportar toda a carência real de tantos milhões de cidadãos sem nada e absolutamente entregues à própria sorte nascitura; certamente, por outro lado, o estratégico papel das igrejas neopentecostais na formação psíquico-ideológica deste gente tem lhes abastecido de esperanças para a realização das suas necessidades físicas, o que lhes exige como contraprestação a cessão do corpo e da alma traduzida em obediência e ordem.

O "familiar"? Talvez, mas, não sejamos ingênuos: como os pais, os filhos e e todos os espíritos de outros exemplos intramuros haveriam de ser páreos para tudo o que se vê ao redor de luxo e luxúria?

O "pessoal" e "histórico-antropológico", ou seja, o ethos assente em proposições como a cordialidade, o adoçamento e outras raízes? Balela, eles até ajudam a esclarecer algumas coisas a partir do ofendido, mas nunca do opressor, basta ver o nosso imenso ranço e amargor de quinhentos anos da mais vil exploração.

O "prático-político", pela própria maneira que os progressistas encaram as potenciais chamas de rebelião, geralmente não participando da organização e contestando parte do repertório mais radical que se costuma adotar em manifestações e mobilizações contra a ordem vigente, e assim freiam uma real escalada do caos, unindo-se à fala conservadora? Talvez.

O "educacional" e "cultural", pela ausência de consciência da sua condição e da realidade nacional, resumida na ideia de alienação que faz deste povo incapaz de compreender a estrutura e as engrenagens da nossa sociedade e de se organizar politicamente, e a partir disse rebelar-se? Sim, mas há tantos outros sítios mundo afora com base educacional-cultural similar mas com outra resposta popular. Ademais, a grande massa não pode ver na educação, no trabalho e na vida obreira dos seus pares fontes (e pontes) para o futuro, muito provavelmente incapazes de tirá-la do chão de miséria, de assegurá-la as mais básicas necessidades e de atender ao consumismo platinado que tanto incita o desejo felino de ter para ser.

O "Estado Democrático de Direito", a "Carta Magna", os "códigos", as "consolidações" e os "comitês" de marchas, sindicatos e circos? Um pouco, um pouco, quase nada.

Mas, além, creio que isso tudo possa estar resumido numa ideia maior, absolutamente abrangente (e talvez simples): a "dominação ideológica" tão enraizada nestes trópicos, na qual o dominado não se vê nessa condição e compartilha da "visão de mundo" do dominador, sublimando a luta de classes para em grande medida fatalizar o futuro, aceitar o presente e  naturalizar o passado.

Algo que, talvez, só assim ajudasse a melhor compreender o sentido pouco notado da nossa imagem e semelhança divina.


A centelha da vida



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

# o papa (de novo)



O Papa Francisco, hoje, efetiva-se como uma das maiores e mais importantes personalidades da História.

Em sua viagem pela pobre América do Sul, a sua postura, a sua atitude e os seus discursos são próprios de quem, sim, enxerga o mundo ("a distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia, é um dever moral", destaca).

E enxerga o capitalismo ("ditadura sutil" de uma "economia que mata", diz ele).

E enxerga o papel que, diante do grande capital ("esterco do diabo"), deve ter Governos e Estados no desenvolvimento humano e na transformação social ("mudança de estruturas").

E, principalmente, enxerga as feridas que a Igreja Católica tem que abrir, cutucar, curar e fechar -- Igreja que, para ser a imagem e semelhança da doutrina e fé cristã, é inevitável estar del otro lado del rio, do lado esquerdo do peito, como a "teologia da libertação" já anunciava (e que aqui e aqui, por exemplo, sempre defendemos).

"Sejam revolucionários!", não cansa de enfatizar o Papa, como o fez na homilia na magna missa na praia de Copacabana, no encerramento da Jornada Mundial da Juventude (v. aqui). 

Agora, na Bolívia (v. aqui), ele apenas resumiu parte da grande mensagem que até agora bem resume o seu Pontificado, dita há quase um ano no "Encontro Mundial dos Movimentos Populares" (v. aqui), no qual Papa Francisco afirma que "Terra", "Teto" e "Trabalho" são direitos sagrados, e que abaixo parcialmente reproduzimos.

Viva, sempre, Jorge Bergoglio!


-- x --
"(...) Eu estou contente por estar no meio de vocês.
Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo. Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas.
Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão.
Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada.
Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!
Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos.
Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar.
Isso é meio perigoso.
Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer. (...)
Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram... têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta!
Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco.
Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.
Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. (...)
Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho.
É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é "comunista".
Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. (...)
Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.
terra. (...) A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. (...)
Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral (CDSI, 300). (...)
Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.
Em segundo lugar, teto. (...) Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! (...).
Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos.
Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana.
Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.
Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, "sobrantes".
Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.
Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas.
Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. (...)
Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais.
Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos.
É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.
Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.
Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. (...)
Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.
Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal.
A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.
Eu os acompanho de coração nesse caminho.
Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.
Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós.
É como uma bênção de humanidade." 

"E tendo feito um chicote de cordéis, lançou todos fora do templo, também os bois e ovelhas;
e espalhou o dinheiro dos cambistas, e derrubou todas as mesas" (João 2:15) 




sábado, 4 de abril de 2015

# sábado de aleluia


A missa da Vigília Pascal é o centro e o grande “sacramento” da vida cristã.

Batismo e Eucaristia – centros desta liturgia – tornam presentes e atuais os acontecimentos celebrados, comunicando-os a vida nova do Senhor Ressuscitado.

E dos ritos da vida, acompanhar a cada ano esta Santa celebração consiste em um dos momentos mais significativos e de mais profundo simbolismo para nós cristãos. 

Nesta noite, somos iluminados e atingidos pela luz de Cristo ressuscitado (“Liturgia da Luz”), fazemos memória das ações maravilhosas de Deus na história (“Liturgia da Palavra”), renovamos nossa consagração batismal (“Liturgia da Água”) e, por fim, celebramos a Santa Páscoa (“Liturgia Eucarística”). 

A Igreja escura, o altar vazio, os fiéis em silêncio, as velas todas apagadas em respeito ao Senhor morto... e logo se inicia a Santa Missa, e depois das primeiras antífonas, o primeiro momento inspirador da noite: um breve lucernário, em que se acende o Círio Pascal e, com o seu fogo, as velas carregadas por cada um de nós, sinalizando o renascimento de Jesus Cristo.

Depois, vem a Igreja a meditar nas maravilhas que o Senhor, desde o princípio dos tempos, realizou em favor do seu povo confiante na sua palavra e na sua promessa, até o momento em que é convidada para a mesa que o Senhor, com a sua morte e ressurreição, preparou para nós, fruto de todo o seu caminho de entrega e misericórdia.

E já no Evangelho da ressurreição de Jesus Cristo, devemos atenção à Galileia, o lugar da primeira chamada e onde tudo começara – Partam para a Galileia. Lá Me verão” (Mt 28, 10). 

Afinal, como anunciou o Papa Francisco na sua Homilia da Missa de hoje, "é preciso voltar à Galileia, para ver Jesus ressuscitado e para se tornar testemunha da sua ressurreição".

Ora, voltar à Galileia significa reler tudo a partir da cruz e da vitória: a pregação, os milagres, a nova comunidade, os entusiasmos e as deserções, até a traição. Reler tudo, a partir deste supremo ato de amor à vida e à nós, a partir do fim, que é um renovado início. 

Não é voltar atrás, não é nostalgia. É voltar ao genuíno ato de amor, para receber o fogo que Jesus acendeu no mundo e levá-lo a todos até aos confins da Terra: horizonte do Ressuscitado, horizonte da Igreja, horizonte de cada um de nós no desejo intenso de encontro – portanto, ponhamo-nos a caminho! 

Sim, "partir para a Galileia” significa uma coisa estupenda, significa redescobrirmos a nossa fé como fonte viva e a nossa esperança cristã como fonte a ser vivida. Significa, antes de tudo, retornar lá, àquele ponto onde a Graça de Deus tocou a todos no início do caminho. 

E em cada um de nós também há uma “Galileia”, mais existencial: a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo, que nos chama para O seguir e participar na sua missão – neste sentido, voltar à Galileia significa guardar no coração a memória viva desta chamada, quando Jesus pede-nos para recuperar a sua lembrança e os seus ensinamentos.

Hoje, nesta noite, podemos nos interrogar: qual seria a nossa Galileia? Onde está? Lembramo-nos dela? Sabemos como seguir a caminhada?

E, se não sabemos ou se andamos por estradas que nos fizeram esquecer, peçamos ao Senhor que nos ajude a redescobri-la. 

Por fim, neste bendito Sábado de Aleluia, lembremos de descer ao Santo sepulcro a fim de trazer tudo o que lá está para uma nova vida, de modo a nos salvar e a nos transformar no mais fundo de nossas almas. 

Ressuscitemos na Páscoa como pessoas salvas e libertas, com a coragem cristã de refletir sobre os nossos próprios sepulcros e de sepultar tudo o que nos distancia da vida e da verdade.



domingo, 29 de março de 2015

# sexto domingo


O Domingo de Ramos tem um tom muito melancólico.
 
É claro que a história da chegada do Senhor, arrastando uma multidão à cidade repleta de escribas, fariseus, autoridades e senhores da lei, tem a sua beleza e traz grandes lições.
 
Mas, para mim, neste fim de quaresma, é realmente uma melancolia que mais me marca com as infinitas releituras que sempre fazemos deste seu percurso, que vai da triunfal entrada em solo reacionário de Jerusalém, passa pela Santa Ceia e acaba no Dia da Paixão.
 
Afinal, carregamos esta angústia ao recordar que o mesmo Cristo que foi aclamado como Rei pelo povo neste Domingo, foi crucificado e morto na Sexta-feira, sob os pedidos de grande parte dessa mesma gente.
 
Neste Domingo, lembramos com ainda mais atenção toda esta derradeira caminhada na Terra do Senhor: a serenidade mortal no Monte das Oliveiras, o Sangue vertido com o suor, o beijo traiçoeiro de Judas, a prisão, os maus-tratos nas mãos dos soldados e dos sacerdotes, o julgamento estúpido diante de Pilatos, a condenação de Herodes, o povo a vociferar pela sua crucificação, as bofetadas, as humilhações, o calvário, o consolo das santas mulheres, o ato venerando do marginalizado na cruz, a sua conversa definitiva com o Pai, a sua morte e a sua sepultura.

Neste Domingo, o Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória.


Ele não discute, nem grita, e ninguém O ouve; pelo contrário, é sereno, tranquilo e humilde, a se apresentar com vestes pobres e aparência modesta, absolutamente ciente da divina missão a cumprir. 

E, eu, continuo sempre a me perguntar sobre tudo isso, como se já em seguida não soubesse a resposta: eis, claro, o mistério da salvação, e nele a ordem das coisas e as razões pelas quais cá estamos e para que estamos.


Hoje começa a Semana Santa, os sete dias em que o Senhor corre para a sua Paixão e até a Ressurreição da Páscoa.


Difícil, admito, aceitar isto tudo.


Mas não é difícil compreender a nossa infinita pequenez diante deste gesto, diante destas palavras e diante deste máximo sentimento de amor emanados Dele.

Ora, Ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a si – tudo meio complexo, tudo ainda pouco decifráveis para nós humanos, demasiadamente humanos (Nietzsche).


E, por isso, seria simples dizer o óbvio, como se pretendendo uma fuga deste meu espírito: tenho  a certeza de que só estaria no meio daquele gente que foi ao seu encontro neste Domingo, com ramos às mãos para louvá-lo, e não, e jamais, entre aqueles que lotavam a praça para mandar crucificá-lo, na Sexta-feira... será?


Neste santo dia de Ramos, refletir isso é prostrarmos sob o Senhor, com humildade, sobriedade e integridade, para entender o Verbo e recebermos aquele Deus incontido -- o
u que em algum lugar há de estarmos contidos.

Afinal, como Ele sempre nos ensina, com atitudes, exemplos e palavras, o Seu Reino, de fato, não é deste mundo.


E, se diariamente merecedores, tão-pouco há de ser o nosso.




 

terça-feira, 3 de março de 2015

# metafísica do recibo



Tenho a mais fundada e lógica crença na justiça divina, na justiça pós-morte, na justiça do além. 

Sim, pois qual seria o mérito e sentido desta vida, num ter e acumular incansável, senão num contraponto do ser e partilhar e pelos quais ao cabo seremos avaliado, julgados e absolvidos?

Distante da justiça de carne e osso tão mitigada pelos tribunais e, principalmente, pelos homens em geral, quero crer que no além toda essa zorra que se espraia em terra firme há de ser balanceada e recompensada.

O "princípio da capacidade contributiva" no direito fiscal, a "teoria da vulnerabilidade" no penal,  a "função social da propriedade" no civil e a "dignidade da pessoa humana" na seara constitucional são insistentemente relativizados, ignorados e aplicados de acordo com os interesses político-econômicos de um Estado que, nas suas entranhas, insiste em perpetrar o recrudescimento do status quo social e a mantença dos ideais conservadores e patrimonialistas que aprazam os "donos do poder", regentes desta nação com a força e o cajado do mercado.

Assim, conflitos armados, parecemo-nos confiantes demais no que entenderá e decidirá um juiz qualquer, no seu papel de "direito feito homem", para nos esquecer que não basta, por quaisquer que sejam os artifícios logrados para se obter êxito na decisão judicial, sermos artificialmente inocentados nas bandas daqui.

Sinceramente, será que o homem público, o homem privado ou qualquer homem tem a exata noção deste seu compromisso não apenas com a lei positiva, mas com as leis humanas, fundamentais para a sua passagem à vida eterna? Será que o agente estatal e os agentes privados se esquecem que as recompensas que trazem hoje serão cobradas num breve acerto de contas? Será que acreditam que a dinheirama ganha em todas as ilícitas (ou imorais) atividades  invariavelmente reproduzida em Disneys, carros, barcos e cofres  sairá de graça? Será que esta dinâmica iguala-se à recompensa de alguém que não danou ninguém, não meteu, direta ou indiretamente, a mão no erário e não se escondeu da vida real?

Até que ponto este mundo permitirá encontrar justiça terrena na violência do contraste entre fortuna e miséria?

Até que ponto permitiremos entender justo o conflito entre o milagre da abundância e a tragédia da fome?

Até que ponto ignoraremos o fato de a exaltação do ter e a volúpia do mostrar despertarem um sentimento de impotente desumanização em quem exalta o nada e se evola?

Até que ponto a moral e a justiça social serão derrocadas pela (in)justiça das leis e o poder econômico?

Até que advenha um Estado que, numa revolução cada vez mais utópica, puna todos, um por um, trancafiando em masmorras solitárias quem contrarie o interesse público, que desvie dos cofres públicos e que leve para si a receita de todos?

Não, não.

Desestimulo-me e, na verdade, penso que este ponto será atingido, talvez, só nos nossos respectivos leitos de morte, com um transcendental e latente temor da justiça divina, que já então ela não mais tardará e certamente não falhará.

Porém, enquanto isso, se achar que a troca compensa, tudo bem... roube, corrompa, sonegue, explore, esbanje e acumule à vontade.

Mas, lembre-se, é sempre tempo de perdão, de mea maxima culpa, de breaking good.

Afinal, creia ou não em Deus, uma hora a conta vem e isso tudo há de ser cobrado.



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

# consummatum est



Aqui muito já falamos sobre o mais novo ópio do povo.

E, por algumas vezes, já também nos debruçamos sobre religiões.

Arriscamos reuni-las para agora brevemente falar do que estrutura, in corpore, o vigente modus vivendi capitalista.

Pois bem, essa renovada configuração deontológico-dogmática parece estar exigindo dos seus seguidores, antes de tudo, a verve "ateísta".

Sim, diferentemente do que, em regra, antes acontecia – vez que tal sistema político-econômico era absolutamente preenchido pelos católicos anônimos –, os tempos pós-modernos vêm exigir da sociedade de consumo a prática e a crença ateia, ainda que desprovidos de tal rótulo, cuja confissão pouco cai bem na “sociedade”.

Como um novo tsunami comportamental (e, especialmente, sócio-antropológico), ser ateu passou a ser a única forma de, interiormente, a luxúria consumista autoexplicar-se, propondo a si mesmos uma razão dogmática que postula uma pseudoverdade universal e científica.

Nada discutem, apenas publicitam as suas crenças – e, claro, consomem.

Sem se importarem em qual contexto histórico enquadraram-se os pensamentos cartesiano e darwiniano – dentre outros racionalistas clássicos –, a sociedade do consumo – irmã siamesa daquela "do espetáculo" – busca, ao revés de qualquer fé religiosa, cientificar o seu modo de vida (e de consumo, de riqueza) com o jeito ateu de viver.

Mas tal assentamento científico é precário, volúvel e oco.

Tal jeito, nesta atual fase da história, é o american way of life, o qual, é evidente, melhor consegue atuar como porta-voz desse ideário consumista, alienante, conservador e burguês.

Esse, pois, é o campo de ultradesenvolvimento do capitalismo neoliberal, o da mercantilização de tudo, que, para se fazer bem funcionar, exige da sua gente a conformação na visão ateísta do ser.

De onde viemos?, por que somos? e para onde vamos? – perguntas cósmicas de sempre –, precisam, para tais intelectos (e para as corriqueiras práticas burguesas), ser respondidas pragmática e concretamente, posto que devidamente adaptadas ao consumo desenfreado, desigual e desumano.

Questões cruciais como liberdade, igualdade e fraternidade são, aos seus peculiares modos, tergiversadas ou obtusamente divagadas, sempre de modo a sustentar os prazeres e as posses pessoais.

Ora, como nas relações sociais presentes é flagrante a superposição do “ter” – você tem para “ser” –, a ideologia consumista e as outras formas de alienação da atualidade sobrepõem-se a qualquer crença socializante do século XIX.

Aquilo passou, e os que hoje insistem em não passá-la são considerados lunáticos e utópicos.

O materialismo histórico de Marx, causa daquela fase ateísta, sucumbe ao materialismo tout court do presente, e inverte a relação de causa-efeito: o ser ateu justifica o "ter", e passa a ser o maior justificante do consumo, da capitalização, da propriedade e da alienação.

Neste momento, o ser ateu não transcende, nada exige de ninguém (essa é a fraternité apregoada) e, sob a ode de que tudo se cria para se consumir (a liberté deles), faz da égalité mera retórica.

Portanto, é o capital consumista o novo ópio do povo.

E o ateísmo o seu conforto divinal.



 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

# sociedade e fraternidade



Melhor do que o título -- cujo termo empregado ("Fraternidade: Igreja e Sociedade"), para não ferir ou magoar todos os interesses dos conservadores e da própria Igreja Católica, foi por demais subliminar ou metalinguístico --, o mote de discussão da campanha da fraternidade é deveras apropriado: "Eu vim para servir" (Mc 10,45).
 
Capitalismo, neoliberalismo, privatizações, sociedade de consumo, desigualdade e socialismo, economia solidária, Estado, sociedade de caridade, igualdade, tudo reflete -- e tudo merece reflexão -- no pensamento e nas atitudes que se esperam de nós cristãos.

No texto-base da campanha, lê-se uma Igreja a serviço da sociedade e uma Igreja fundada à luz da doutrina social, para um debate de a partir do diálogo e da cooperação entre Igreja e sociedade que reflita sobre a dignidade humana, o bem comum e a justiça social. E como nas raízes do ideário cristão, uma Igreja que venha par servir.

Assim, retoma-se um tema -- e uma missão -- fundamental para a Igreja: o seu irrestrito engajamento político e social, com alicerce no amor, na fraternidade, na liberdade e na igualdade em nossa sociedade.

Simples assim? Não.

Embora sem ainda fazer a devida mea culpa pelo combate e boicote históricos à alternativa para o grande sistema econômico-social vigente e aos seus representantes -- como, no caso, todos aqueles que lideraram e consolidaram a "teologia da libertação" --, a Igreja Católica ajuda (e se ajuda) a reconhecer a nossa omissão diante das injustiças que causam exclusão social , fome, morte e miséria, de forma a tornar vital a relação que combina desenvolvimento, eficiência econômica, direitos fundamentais, justiça social e prudência ecológica.

Mais, busca repercutir os interesses neste universo do espetáculo, do consumo e do individualismo, que privilegia o ter e releva o ser.
 
Hoje, finalmente, temos uma campanha da fraternidade que atinge o âmago do grande problema e que nos convida a lutar para que as agruras provocadas pela economia capitalista possam, ao menos, serem minimizadas, mediante a concretização do mínimo necessário para a subsistência de cada ser humano.

A ideia, inclusive, corrobora outro lema da Campanha de uns anos atrás -- "Economia e Vida" (v. aqui) --, na qual se registrara a afirmação de Jesus: "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24), fazendo-nos propor uma escolha entre os valores cristãos e sociais -- da nossa sociedade e coletividade -- e os "valores" do capital, visto como entidade absoluta a dirigir a vida privada, egoísta e solitária.

Na história humana, marcada por ambições, explorações, injustiças e ganância, a Bíblia se volta decididamente para a defesa dos pobres. No âmbito social, a Bíblia nos mostra profetas acusando reis e gente poderosa que enriquece à custa do povo e não cuida bem daqueles a quem deveriam servir -- eis, aqui, uma incontestável relação com a atual realidade dos grandes capitalistas e de inúmeros governantes.

No âmbito comunitário e pessoal, a Bíblia fala sobre os direitos do trabalhador, ao socorro que devemos prestar aos pobres e aos dever de evitarmos a corrupção e a desonestidade e de viver a partilha no amor fraterno. Eis as palavras de João no Evangelho de Lucas (Lc 3, 11): "Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo".
 
Portanto, que Deus nos ajude a seguir perenemente este ensinamento e trilhar o mais justo caminho em busca da fraternidade, da igualdade e da verdadeira liberdade, fazendo-nos sempre lembrar que a vida, como ela é, não se concentra nos nossos castelos.



 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

# quaresma



É tempo de caminhar.

Caminhar em silêncios, em jejuns, em reflexões.

Promover a privação, a abstinência, a reclusão, a oração, os sacrifícios e a caridade.

É o período de quaresma, no qual, simbolizado na abdicação e privação de miúdas coisas e pequenos hábitos, procuramos ser mais humano e viver mais como cristão.

É tempo de peregrinar do homem velho para o homem novo, de sair do cômodo espaço neutro, de reafirmar com os nossos atos as promessas diuturnamente feitas.

É tempo de atitudes.

E ano a ano o momento quaresmal chega para que acreditemos nesta mudança, nesta renovação e no poder máximo de renascimento.

É a nossa via sacra, cujo sentido de dor, de sofrimento e de penitência bate em nossos olhos, ou em nosso interior, a toda hora em que se escancara a injustiça e o desespero alheios.

Mas não nos apeguemos ao mero sentido disso – e passemos a agir, tomando as nossas cruzes para, à luz da fé e resistindo ao desespero e às tentações, aprender a ser como Ele é.

Sim, não é fácil enfrentar um tempo cujo templo é marcado pelo mercado, por propostas estimulantes de ebrioso consumo com requintes de crueldade e esbanjamento nas quais, exclusivamente, se acredita ser

Há uma insaciável febre do inferno em fel de ter, como alter ego da autoafirmação ("espelho, espelho meu") e da vitrine social (o "meu" espelho), induzida pela força pertinaz da mídia e a sua doutrina onisciente do certo e do errado, que elitiza os comportamentos, enrijece a sociedade e exulta o individualismo.

Um apego exagerado que faz enxergar o vazio da vida, criando um fosso entre espécies de seres humanos, num abismo sem fronteiras e em nosso quintal (v. aqui).

Dividir, repartir, partilhar, comungar.

Deixemos de nos refugiar em desculpas, e na desculpabilização do conforto, que convenientemente nos alienam em redomas intocáveis e acortinadas para, então, ver sobrar paz, saúde e felicidade.

E alcancemos este sonho de mundo: uma imensa mesa, em torno da qual todos se sentarão, numa mesma altura, num mesmo propósito – e, nas palavras de Paulo, "esperança não decepciona" (Rm 5,5), deve dar sabor para a vida, coragem para a luta e determinação para vencer.

Afinal, por que será que nos custa tanto aceitar o Evangelho e entrar nesse Reino?



 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

# verdade, caminho e vida

 
 
Pelo Brasil a fé move montanhas de dinheiro, levado por um rebanho perdido no mar da ignorância e do desespero.
 
Antes, uma contestação: as igrejas neopentecostais têm uma papel importantíssimo no resgate da dignidade da nossa ralé e na recuperação dos abandonados de toda sorte – sem almejar um mais profundo juízo de valor, trata-se de um fato inegável que as qualificam nesta ordem social vigente e as credenciam a continuar os seus trabalhos.

Continuemos.


Para a lei não há milagres, afinal, o que não pode ser observado e explicado racionalmente não interessa à lei; contudo, isso não quer dizer que religião e crença não sejam importantes para a lei.


E a tênue linha que separa liberdade religiosa e laicização, de um lado, e má-fé e crime, de outro, provoca atritos e sublime discussão.


E não sejamos injustos: desde sempre a religião têm margeado por este segundo plano, a adotar inúmeros meios indignos de coletar fiéis.


Antes, nos tempos medievais, a Igreja Católica vendia terreno no céu, queimava "bruxas" e usava de toda a maldita criatividade para embutir na cabeça das pessoas que fora dela, e da submissão a ela, não havia salvação.


Mas, hoje, com a evolução social da (pós-)modernidade, bem aliada a toda a tecnologia midiática à disposição, as ideias que flertam com o absurdo, com o intragável e com o crime são sorrateiramente atacadas.


Há índia em Santa Catarina, há médiuns em Minas Gerais e, claro, há padrecos  e pastores por todos os centros e cantos deste país.


Basta, pois, correr pela rede para ver isso aqui, aqui ou aquie ter a (apriorística) certeza de que essas coisas não podem passar impunes por uma sociedade que se pretende justa e tutora da dignidade humana.


Bem, há dois artigos no Código Penal que indiretamente lidam com a exploração da fé das pessoas, catalogados no capítulo dos crimes contra a saúde pública.

O primeiro é o charlatanismo, uma espécie de mentira utilizando a crença do outro, na qual o criminoso inculca ou anuncia cura por meio secreto ou infalível.


É claro que simplesmente dizer que você pode curar alguém não é crime (se fosse, todos os médicos estariam presos); m
as dizer ou propagandear que a cura é infalível ou que você possui um meio secreto de curar as pessoas é crime.

O que se exige, pois, é que o "charlatão" saiba que ele não será capaz de curar a pessoa, que seu método não seja eficaz ou, ainda que eficaz, não gere cura garantida.

O segundo, o curandeirismo, que é diagnosticar, receitar, entregar ao consumo ou aplicar qualquer substância ou usar gestos, palavras ou qualquer outro meio de cura para tratar a doença de alguém – a
qui, o "curandeiro" efetivamente não sabe o que faz, diferente do "charlatão".

Ainda mais do que o primeiro, este segundo crime é muito complexo porque tangencia na liberdade religiosa.


A benção do padre, por exemplo, é uma forma de cura espiritual para os fiéis, como o uso das mãos é importante para os espíritas, as saudações e convenções para os muçulmanos, judeus, budistas, hindus... e até mesmo certos chás são sagrados para outros (v. aqui
 ou seja, usar gestos, palavras e meios diversos são veículos que quase todas as religiões ou seitas fazem.

Isso quer dizer que esses religiosos estão exercendo o curandeirismo? 
Não, na medida em que a Constituição protege os rituais de fé.

O limite – complicado, confesse-se – é quando esse ritual de fé passa a colocar a saúde (física, mental, social e financeira) das pessoas em perigo.


E o caso de quem pratica operações espirituais? Pode sim ser crime contra a saúde pública – tratar alguém com gestos, palavras ou, no que se encaixa, "qualquer outro meio” –, mas há quem discorde e entenda ser apenas lesão corporal, por admitir que as cirurgias mediúnicas não são similares a gesto ou palavra.


E se a pessoa está usando a prática criminosa para também tirar proveito econômico das vítimas? O "charlatão" ou "curandeiro" também comete estelionato, pois obtém, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento
.

Entretanto, de modo a manter a ordem constitucional que prevê a inviolabilidade à liberdade de consciência e de crença e que assegura, como direito fundamental, o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e a suas liturgias, são apenas nestes (extremos) casos que, com farto arcabouço probatório, o Ministério Público poderá intervir e resguardar o interesse público.

Fora isso, resta-nos a educação e a informação, pilares para o desenvolvimento intelectual, moral e, porque não, também espiritual da nossa sociedade.

Eis, pois, o caminho não metafísico da vida.



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

# eu não sou charlie



Vários dos sujeitos que produziam o panfleto intitulado "Charlie Hebdo" foram vítimas de brutal morticínio na manhã de hoje -- v. aquiaqui e aqui.

Obviamente, rechaça-se com veemência a violência, o modo máximo de censura e, pois, a atitude extrema dos muçulmanos acusados da autoria dos crimes -- ainda que paire dúvidas nisso (Al Qaeda?!), tamanho o avanço da ultradireita xenófoba e racista europeia que, disposta a tudo, muito colherá do episódio.

Absolutamente execrável, afinal, nada justifica desconsiderar o supremo direito à vida em nome seja lá de quem (e do que) for.

Nenhum dos artistas mereceu levar tiros. Ninguém, ninguém merece morrer. 

Entretanto, o que significa e quais os limites da tal "liberdade de expressão" (e "de imprensa")? 

Claro que isso conduz ao dilema sobre se há e quais seriam os limites da arte: a tipologia penal? A arquitetura social? As circunstâncias ideológicas? 

Não se irá muito à frente, contudo.

O limite aqui é o fato em si.

A que ponto os tais cartunistas satíricos, os desenhistas cômicos e os desbocados e destemidos jornalistas podem ir para alcançar a sua fama, a sua grana e a sua "liberdade"?

A que ponto qualquer um de nós pode chegar na sociedade propagando mensagens no mais baixo nível da chacota, do abjeto e, sim, do ódio, do "ódio a quem tem uma religião"?

A que ponto a religião, assente em dogmas e paixões divinais dos seres humanos, pode ser objeto do mais flagrante desrespeito e da mais profunda humilhação alheia?

Não sei se respondem a alguma ou a muitas ações judiciais, mas, quem se importa, se tais "artistas", mesmo usando palavras e desenhos que ofendiam meio mundo -- tudo em prol de uma onisciência ocidental e dos seus superiores valores --, continuavam dispondo de muita mídia e de muitos anunciantes? Sabe-se bem, esta é uma tática velha e conhecida, inclusive por aqui muito abusada.

É claro que pagar com a própria vida não tem cabimento, mas a turma do "Charlie Hebdo" -- e qualquer um -- não tem o direito de expor ao planeta afora mensagens expressas, diretas e exclamativas que soam como um "fascismo às avessas", desgraçando a fé de bilhões em prol de um fanatismo ateu.

Será que é aceitável desenhar judeus esquálidos em fila indiana a caminho de um forno de pizza?

Será que é aceitável desenhar Deus levando uma cenoura no traseiro, em tom de galhofa e com uma mensagem engraçadinha ao lado? Ou Jesus Cristo, ou Nossa Senhora, sob as mais baixas cenas e os mais vis diálogos? (v. aqui ou aqui)

Será que é aceitável desenhar Alá sendo estuprado por um camelo, com uma legenda estúpida embaixo? Ou Maomé pelado, de quatro e sob as mais torpes piadas? (v. aqui)

Será que tudo isso é aceitável sem se atropelar os direitos humanos, o direito humano à fé? 

Será que um cristão fanático ou um judeu ortodoxo também aceita isso tudo que o bando do jornal francês babaca vem criando? Finge aceitar? A que preço?

Enfim, o contexto todo torna muito complexa a reflexão e a análise, muito longe de simplismos, reducionismos e rasas conclusões.
 
Afinal, jamais se tolera ou admite uma chacina como a de hoje.

Entretanto, também já está na hora desta turma toda que não vê limites pela audiência (e expressão) repensar os seus conceitos, os seus modos e as suas ações.

Ofender quem quer que seja não pode ser tolerável -- é a ética do respeito e a consciência fundamental da responsabilidade que exigem serem lembradas.

Muito pior, ofender o que há de mais sagrado e intangível para bilhões de cristãos, muçulmanos ou judeus é inadmissível.

E também não tem graça alguma.