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quinta-feira, 21 de julho de 2016

# marcha avante, terra à vista



Há ainda quem pense – talvez por pouco pensar – que o capitalismo é apenas um sistema econômico.

Não, não... vai muito além, é claro.

O filósofo alemão Walter Benjamin dizia ser quase uma seita religiosa, com seus dogmas e seus mantras, a agir de modo onisciente e divinal. 

Já Max Weber dizia ser uma construção com base em tudo, tudo, inclusive uma "ética" própria.

Depois, e em suma, Das Kapital, em toda a sua profunda complexidade e amplitude, não surgiu por acaso, por rancor ou por mera estilística.

Mas a questão não está no reticente linchamento e na vazia crítica ao sistema vigente, com resultados estéreis, insolúveis, de pouca imaginação e nula concretude.

É preciso pensar, portanto, no pós-capitalismo como algo sério, absolutamente necessário na sua factibilidade e razoável na sua realidade. 

É preciso pensar em uma construção ainda indefinida, ainda sem nome, ainda carente de desenvolvimento, mas assente em novas instituições e estruturas organizacionais, razão pela qual não se pretende retroceder às ideias que efetivamente não deram certo, como, fundamentalmente, algumas das (poucas) implementadas pelo modelo soviético, in memoriam.

É preciso pensar para não se poder admitir esta miserabilização política, econômica e social, a restar o esvaziamento institucional à mercê do regime vigente – o capitalismo –, como se a sua dinâmica, o seu processo e as suas propostas fossem intocáveis, indiscutíveis e, como ousou escrever um certo autor, estivessem assentes no fato de que esta ordem representa "o fim da história".

Na borda que protege este perverso núcleo do espírito capitalista, o Direito, por exemplo, arromba a retina com tantos dos seus mecanismos a serviço desta ordem: pacta sunt servanda, propriedade privada, tributação regressiva, criminalização do inimigo, teoria da empresa, enfim, inúmeros ranços político-sociais que não devem mais servir como incondicionais institutos deste nosso necessário novo sistema.

Mas como se esperar a mobilização política diante do próprio cenário político hoje desenhado? Como se prospectar mudança na imaginação social com o poder midiático tão avesso aos interesses nacionais?

Se a culpa pelas más notícias não é apenas do carteiro e se a culpa dos eleitos ultrapassa o déficit cívico-cultural dos representados, como incentivar à revisão de conceitos e a reconstrução de estruturas e instituições?

A verdade, entretanto, nem sempre baliza-se na ideia de, simples e inocentemente, ser "contra-tudo-isso-que-está-aí" – ou sim, a depender da demanda e do ponto de vista, e da vontade e dos reais interesses.

Que nossos orgasmos intelectuais, portanto, possam ajudar a responder isso.

E contribuir para uma nova página e para uma melhor roupagem da nossa democracia, sem maquiaduras e sem máscaras.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

# liberdade da imprensa e opinião publicada


O destaque do papel dos meios de comunicação não é novidade, claro. 

Também, não é novidade o grão-elemento que caracteriza a grande mídia: o caráter de classe da imprensa ditatorial-burguesa.

Como, enfim – e ao contrário do que muitos pensam – não é novidade que se deva promover uma constante ampliação, conquanto vigiada e fiscalizada, da liberdade de expressão (e de imprensa), que vem desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem ("a livre comunicação dos pensamentos e opiniões é um dos direitos mais preciosos do homem; cada cidadão pode por isso falar, escrever, imprimir livremente").

E é nesse ponto que devemos parar para um rápido mergulho, preliminar e superficial.

Karl Marx, a defender essa liberdade de expressão – já que ele mesmo era vítima do aristocrata governo prussiano da época –, admitia que a imprensa deveria ser uma arma de combate à opressão e à exploração e não um veículo neutro, a lembrar, em seu pequeno livro "A Liberdade de Imprensa", que "[a] função da imprensa é ser o cão-de-guarda, o denunciador incansável dos opressores, o olho onipresente e a boca onipresente do espírito do povo que guarda com ciúme sua liberdade".

Mas não por isso exterminar-se-ia a "liberdade de imprensa".

O que precisa mudar é a maneira de se enxergar essa tal "liberdade", que começa pela "destruição do jugo do capital", como propalava Lênin, ou seja, destruir o poder do capital sobre a imprensa, na medida em que, na situação vigente, tem-se em nossa sociedade um outro sinônimo para essa liberdade: a liberdade de suborno da imprensa pelos ricos, a liberdade de usar a riqueza para forjar e falsear a chamada opinião pública.

Esse jornal (essa revista, essa emissora de rádio ou tv) passa então a funcionar como uma outra mercadoria qualquer: alface, mesa, cadeira, carro, camisinha, liqüidificador... abarcam-se num mesmo lado da moeda: o lucro.

Assim, o jornal burguês é um instrumento de luta movido por idéias e interesses que estão em contraste com os seus.

Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma idéia: servir aos interesses da classe dominante, da elite burguesa e política que, ato reflexo, monta-se nos seus anunciantes.

Dê-se nome aos bois: Folha de São Paulo, Veja e toda a rede midiática das organizações Globo (TV, jornal, Época e CBN) insistentemente querem (e inventam, e fantasiam, e insistem) mostrar que tudo que foge dessa antiga, conservadora e reacionária ordem nacional (e mundial) não tem razão – e quem e o que se manifesta à esquerda disso é tingido como dinossauro, louco, sonhador ou #&@&#&@.

Hoje, como sempre, a mídia age como um partido político, disse Antonio Gramsci, um dos grandes pensadores do séc. XX, incansavelmente perseguido por Mussolini durante o fascismo italiano, até que, preso – não obstante ostentasse imunidade parlamentar – , conseguiu deixar o seu grande legado: em mais de dez anos de prisão, escreveu volumes e volumes de um trabalho que mereceu ser reunido na célebre colação "Cadernos do Cárcere".

Sob esta forma de "partido", a imprensa cumpre um papel fundamental para dar coesão ao processo de formação da sociedade civil – e criar a sociedade conservadoramente organizada, comandada por bestas abastadas.

Gramsci mostrou também que a imprensa é movida e controlada (e selada, registrada, carimbada) pelo capital privado, mas trata de assuntos públicos; assim, esses assuntos da esfera pública são tratados de uma forma privada quanto ao seu conteúdo, ao seu direcionamento, ou a maneira pela qual eles são analisados. 

Logo, com um mero exercício sinológico, denota-se que há uma inversão de papéis: a "imprensa" censura, à medida que controla e define o que é notícia e o que não é notícia, em justa composição com os seus interesses (ideológicos, financeiros etc.) e com os interesses da elite burguesa e política, a funcionar, como cunhou Gramsci, numa espécie de "intelectual orgânico da burguesia", uma vez que, infelizmente, essa mídia é sustentada por jornalistas e profissionais ("intelectuais") competentes que, medusicamente, cedem ao poder (e as delícias) do capital.

Outrossim, causa-nos bastante estranheza a maneira com a qual insistem em confundir "opinião pública" e "opinião publicada" (ou, ainda, "liberdade de imprensa" e "liberdade da imprensa ou do dono da mídia").

Deve-se exterminar essa idéia de que a "opinião pública" seria expressão do pensamento "da maioria", à medida que isso faz apenas justificar (e tornar "legítimo") os atos, as palavras e a posição dos próprios órgãos midiáticos. 

O que não se pode esquecer é que essa "opinião pública" não existe até o momento em que é "publicada" – logo, nada mais é senão mera "opinião publicada", que tenta convencer a grande massa (cinzenta ou não) do que lhes interessa e do que lhes é a verdade, uma verdade condicionada aos interesses da elite burguesa e política que, a formar um exército de bestas abastadas, promovem o recrudescimento de um conservadorismo com o único fim de manter os auto-privilégios que fazem deste país, dentre os mais ricos, o mais desigual do planeta.

A solução para tudo isso?

"Boicotem, boicotem, boicotem!", como lá atrás já bradava Gramsci.



sábado, 13 de junho de 2009

# aspas (xviii)



Karl Marx, um dos maiores gênios das ciências sócio-econômicas de todos os tempos, na sua máxima obra, "O Capital", assim vaticinou, como se Nostradamus, sobre essa situação do neoliberalismo, ápice histórico (histriônico?) do capitalismo:

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado. E esse será o caminho que levará ao comunismo".



 

quarta-feira, 8 de abril de 2009

# socialismo cristão


Diversos colegas estranharam a explícita associação feita neste título, e outros tantos parecem não ter compreendido o próprio espírito da Teologia da Libertação, exposta aqui nos últimos dias.

Bem, a Teologia da Libertação nasce na América Latina num contexto histórico muito bem definido:

(i) numa perspectiva sócio-político-econômica, com o peso das ditaduras militares, a dependência político-econômica em relação ao Primeiro Mundo e, especialmente, as graves e crescentes desigualdades sociais, com ricos cada vez mais e pobres com cada vez menos;

(ii) numa perspectiva intelectual-científica, com a análise do cenário vigente sob a ótica da teoria marxista – não obstante tendo como premissa fundamental a Palavra de Deus –, a dissecar a partir de suas entranhas o funcionamento da acumulação capitalista, expondo a nu as contradições do (neo)liberalismo econômico nos países subdesenvolvidos (concentração, pobreza e exclusão social); e,

(iii) numa perspectiva eclesial, com a tentativa da Igreja entrar em diálogo aberto com o mundo moderno (“Concílio Ecumênico Vaticano II”), com o enfrentamento às recôndidas verdades latino-americanas e os discursos sociais combativos (“II Conferência dos Bispos da América Latina e Caribe”) e com a criação das “Comunidades Eclesiais de Base” (CEB's), que passam a uma militância ativa pela transformação das estruturas sociais injustas, mediante uma leitura da realidade à luz da Palavra de Deus e a busca de soluções concretas para os problemas reais, em luta contra a dominação política e a pobreza econômica.

Assim, parte da Igreja Católica busca resgatar os ideais primitivos e verdadeiros do pensamento cristão, a consolidar a "opção preferencial pelos pobres" – conforme hoje também se prega na “Carta de Puebla” – e a desenvolver uma reflexão crítica da sociedade e dos Estados a partir da práxis libertadora dos cristãos. Neste ponto, inclusive, Juan Luis Segundo – um dos maiores teólogos latino-americanos – traz o conceito de “círculo hermenêutico”: a consciência sobre a realidade opressiva leva a uma prática libertadora, a qual alimenta uma reflexão teórica que, por sua vez, retroage sobre a realidade, renovando e aprofundando a ação social e política.

Esse conceito de “liberdade” pregado pelos teólogos da libertação não se subsume ao ir e vir, conceitos amplos da liberdade (a liberdade de). Na verdade, busca no “Livro do Êxodo” o cimento religioso e ideológico para o combate à opressão, à miséria e à desigualdade, aspectos fundamentais a serem combatidos pela real consecução da liberdade para.

Por conveniência do próprio comando vaticano, as teorias, as teses e as vontades encrostadas na “Teologia da Libertação” foram perseguidas, minadas, combatidas e ignoradas, à medida que a aliança aos donos do poder (e às elites, de maneira geral) e as benesses dela advindas eram mais convenientes; todavia, em diversos meios, os seus propósitos renascem e reerguem-se diante da imperiosa necessidade de se prosseguir no combate à miséria, à desigualdade e à exploração exacerbada do ser humano e da biodiversidade, ambas a visar à mera acumulação do capital.

Hoje, as vítimas deste individualismo espetacular, fruto do neoliberalismo criado pelo redivivo capitalismo não são menos numerosas nem menos sacrificadas do que todas aquelas vítimas que padeciam sob os regimes de exceção latino-americanos; afinal, qualquer tipo de ditadura, seja militar ou do mercado – patrocinada pelas elites, pela mídia e pelos agentes públicos conservadores e da direita –, deve ser combatida por quem se diz cristão.

No testemunho radical da cruz, Jesus Cristo descobre o rosto de Deus ao descer ao inferno do sofrimento humano, por um lado, e, por outro, ao partilhar das alegrias e sonhos da população mais pobre, indefesa e excluída. 

E nós, até quando restaremos cegos para descobrir a nossa cruel e injusta realidade, para enfim fraternizar nossas alegrias e riquezas?

Neste ponto, mais do que nunca, a Teologia da Libertação mostra-se viva e fundamental para orientar os cristãos a renovar os ideais de socialismo, igualdade e partilha, buscando sempre pautar as suas condutas na opção preferencial pelos pobres, já muito mais significativa após as mais necessárias reflexões deste período quaresmal.