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segunda-feira, 4 de março de 2019

# maestros, cavalos, deuses e hinchas



Quando o Club Athletico Paranaense entrar em campo hoje, na nova velha Baixada, pela Copa Libertadores da Américarecomeçará outra batalha da guerra que representa disputar o maior campeonato de futebol do planeta.

Sim, meus amigos, a peleja de logo mais será outra amostra da saga por esta Taça, que se soergue como máximo culto ao velho e rude esporte bretão.


É aqui, pela nuestra América, onde o futebol é jogado na sua essência, na sua pureza, onde maestros, corvos, deuses e hinchas desfilam juntos em epopeias dantescas: aqui é o "Inferno", meus senhores.

Aqui é onde cada esquadra vagueia conduzida por seus carontes nos reinos das sombras sul-americanas. 

Mas, atentem, o que se carrega não são reles almas mortas.

São jogadores.

São heróis, vilões, guerreiros, ídolos, múmias e até amargas ínguas na escura travessia dos mais de nove círculos em busca do céu libertador.

Ora, não me venham com a realeza das arenas belgas climatizadas.

Nem as pompas dos gramados de pastagem de vacas premiadas holandesas.

Nem as elegantes lantejoulas dos uniformes demi-sec franceses.

Nem a seda dos tronos imperiais das tribunas inglesas.

Nem o brilho comportamental dos torcedores alemães e seus canecos de vidro encervejados.

E nem toda aquela fascinação medúsica provocada pelo escrete barcelonês ou liverpooliano.

Não, meus amigos, não. 

Este nosso jogo é incapaz de ter a beleza pornográfica de todos aqueles espetáculos europeus, de ter a fleuma civilizatória do bom selvagem do velho mundo e de ter o bolo bilionário de tantos euros.

Ela tem, diria Vinícius e batucaria Baden, "qualquer coisa" além da beleza. 

Ela tem qualquer coisa de triste, que chora, que sente em cada carrinho e em cada cotovelada a saudade da Casa.


Afinal, nesta Copa tudo extraterritorial é terra inimiga, quase sem-lei, proibida para menores e tratada com tarja preta. 

E mais.

Ela tem uma beleza que, embora bata na tristeza de um molejo de amor sangrado da sobrancelha aberta e machucada, transborda em uma alegria sublime, incompatível a qualquer outra de padrão europeu. 

Aqui, meus caros, sofre-se profundamente pelas mais depauperados escretes, rasga-se e morde-se pelo mais irraciocinado dos amores.


E se chora, e se grita, e se late, e se morre, se arrebenta e se abrem as veias sulamericanas para que tudo acabe em um deleite que não se entope, que não se explica.

Porque não tentem convencer chilenos, uruguaios ou argentinos do contrário.

Ora, todos sabem que as suas cores representam uma paixão única, daquelas feitas apenas para amar e para ao final sofrer de um eterno amor. 

Como aqui, com o coração rubro-negro que confirmará, luta a luta, a alma em frangalhos de um sofrimento inacabado em infinitos noventa minutos. 

Senhores, a Copa Libertadores da América é assim: feita de paixão, feita de sangue, suor, socos e lágrimas, como em nenhum outro canto desportivo da Terra.

E hoje nada mais importa neste Reino de Bolívar, Artigas San Martín senão estar no caldeirão, em nossa trincheira, empurrando nosso time à mais outra grande vitória.

Saravá!


sábado, 6 de agosto de 2016

# vestindo por amor



A cada madrugada acordado, de tempo em tempo vou ao quarto para ver meus filhos dormindo.

No ninar deles, ouso imaginar os seus sonhos  e os meus também.

Mas não aqueles de dragão, reino encantado e cidades de algodão-doce repletos de personagens de quadrinhos.

Inquieta-me, pois, saber para qual time irão torcer.

Sim, talvez uma das maiores missões que todo homem tem na vida é ensinar o filho a torcer.

E, claro, a torcer pelo seu time.

Não que deva obter êxito neste encargo, mas que deve tentar, como consta na cartilha da boa pedagogia para pais do velho e rude esporte bretão.

Afinal, não há ideologia, religião ou sobremesa que importe mais que ver o seu fruto, a sua obra, a sua divina criação dividir a mesma paixão no futebol.

O trabalho, claro, é duro; no meu caso, morando longe do ninho, beira o mitológico.

Entretanto, assim vou seguindo na pessoal catequização deles, sentindo-me quase como um Padre Anchieta no desembarque pelas praias e selvas brasileiras, mas agora sozinho, sem o pelotão português  ou um furacão  na retaguarda...

Primeiro, provo-lhes diariamente que no princípio era o "vermelho" e o "preto", ao contrário do pregado pela Bíblia.

Ambos, juntos e verticalmente ligados, formam o vermelho-e-preto, a cor mais importante do planeta, que rege o mundo e que sustenta todo o cosmos – e lembro que o "verde", ao contrário do que pregam os ambientalistas, não é cor que se cheire.

Mas aqui neste Rio de Janeiro o perigo é grande, pois corro o risco dos meus filhos, confusos na identidade de tons, acabar num time nativo, maciçamente presente pelas ruas, casas, parques, praias e confins.

Bem, depois a complicada tarefa é começar a ensinar nosso hino e urros de guerra.

Embora esta segunda parte seja-lhes muito agradável – ora, toda criança que se preze gosta de berrar palavras de ordem e a esmo –, as lindas letras da camisa rubro-negra que só se veste por amor ainda saem difíceis, como quem diz sem saber muito bem o que diz.

Eles tentam, erram, desistem, tentam, erram, desistem, erram, e a cada insistência minha desiste mais do que tentam.

Começo eu a ficar meio chato, confesso.

Um terceiro momento desta saga pela torcida deles é fazê-los sentar ao meu lado e, diante da televisão, por longos minutos, ensiná-los a arte de se contorcer pelo time adorado.

Dura missão, e sei que terei trabalho para uma vida.

Mas, claro, não importa, pois o resultado poderá ser impagável.

Ora, imaginar estar ao lado de Benjamin e de Santiago e poder sentir o que há mais de trinta anos sinto quando estou com meu velho pai, na nossa Baixada ou no nosso caseiro camarote em Curitiba, valerá quantas vidas forem necessárias.

A preparação para os jogos, as idas ao estádio – inclusive do inimigo verde... , os papos preliminares, os debates com chicabons e amendoim de intervalo, as resenhas da volta, as notícias da semana, os cantos, os gols, os títulos, as rinhas, os revezes, as ressacas...

Enfim, a paixão conjunta pelo Atlético fez-me ter com meu pai esta boa parte da vida lado a lado, juntos, ligados num mesmo refrão e dividindo momentos que não teríamos se os nossos caminhos no futebol fossem diferentes.

Tivemos, na emoção de acompanhar e torcer pelo mesmo time, parte da forma da nossa relação.

E do amor que tanto nos une.



sábado, 11 de junho de 2016

# atleticanas (II)



Acostumado ao clima da sua terra, o Atlético alcançou neste noite uma das mais improváveis vitórias da temporada.

E, atenção, não bastasse o que se via naquele primeiro tempo tétrico contra o São Paulo – no qual perder por um gol foi lucro –, tinha no lombo um amargo tabu: há 33 anos não vencia naquela casa adversária.

A última vez?

No histórico Brasileirão de 83, vitória simples, gol de Assis – ele, ao lado do seu inseparável Washington, os meus primeiros ídolos rubro-negros (v. aqui).

Mas a neblina que baixava, o minuano que soprava e as estalactites que brotavam naquele pálido gramado do Morumbi pareciam anunciar o fim da longeva sina.

Inspirado nos cantos embotados de cimento e lágrima que recheia a selva de pedra são-paulina, a baliza atleticana era um concreto armado intransponível, parecia um corpo fechado como se preparado não no cruzamento da Ipiranga com a Av. São João, mas numa encruzilhada remota do bairro do Umbará.

Faltava, apenas, cutucar a onça tricolor, indo para o jogo, aceitando a bola e desrespeitando a lógica futebolística que ali insistia ser posta em cheque.

E aí veio a intervenção de vestiário de Paulo Autuori, que corrigiu os (seus) erros e trocou os zeros escalados de início – rodízio sem elenco é certeza de vexame, ora pois – por algo que pareceu duas dúzias: Walter e Nikão, titulares poupados que mudaram o jogo.

Com eles, e mais o fôlego etíope de Deivid e o pulmão biônico de Otávio, o Atlético passou a ser frio e calculista, virando o placar.

Uma vitória inesperada, de um time que ainda espera se encontrar.

Uma vitória, enfim, de quem conhece como ninguém o futebol on the rocks.



quarta-feira, 25 de maio de 2016

# atleticanas (I)



Arrisco no exagero temporal, mas mesmo assim não hesitarei: o Cleberson é, tal qual uma Carlsberg, provavelmente o pior zagueiro da história do Atlético.

Sempre atrasado nos lances, sempre no lugar errado na hora certa, sempre posicionado onde nunca deveria estar, nunca estacionado onde sempre deveria estar, é um descuido da física e um arremedo do raciocínio lógico.

Salta como um sussurro, corre como curupira, marca como um pinguim, balança e cai como um pacote flácido, é simplesmente um terror que se movimenta na contramão atrapalhando toda a nossa máquina de jogar futebol.

Fura, flamba, falseia, floreia, faz fumaça em qualquer mano a mano; bola na mão, mão na bola, queixo e bunda no chão, é um joão clássico para qualquer mané mirim que lhe enfrente.

Algo inadmissível para um defensor, sorri o tempo todo, num sorriso de Monalisa indecifrável como o esporte de bom moço que tenta praticar em campo.

Ele, com o sono estampado no rosto e seu jeito de boneco de posto de gasolina nos braços, tem um futebol lento, lerdo, dopado com sangue batizado que não oferece combustão alguma.

Sem vigor, sem jaça e sem força, vai de mal a pior num curto espaço de tempo – assim, cobrar-lhe qualquer noção de tempo e espaço seria até indelicado.

Ora, as suas dificuldades básicas com a bola, psicológicas com os atacantes e matemáticas com tudo que acontece dentro das quatro linhas e no universo do retângulo da grande área são comoventes.

Ao seu lado, qualquer beque sentaria e choraria, às margens do rio Água Verde que por debaixo da Baixada passa; na sua retaguarda, arqueiros como Lev Yashin se transformaria num reles aracnídeo pálido, vesgo, maneta e cansado de ver a meta arrombada.

E assim vive o nosso imberbe zagueiro: cansado, alienado, como se navegasse num mundo paralelo, lisérgico, catando conchinhas no lado de lá das nuvens enquanto a caravana adversária passa – e, dele, nem um pio se ouve.

Que mistério, afinal, ronda o clube que não se desfaz, por qualquer conto de réis, deste personagem, desejando-lhe toda a sorte do mundo e mandando-o para longe, de preferência a vinte mil léguas submarinas do CT do Caju?

Cleberson, meus caros, é uma injeção indesejada de pavor na veia que nos levará a viajar pelas trevas.



domingo, 19 de outubro de 2014

# atleticania (xix)

 
Em Curitiba, o duelo entre os maiores rubro-negros das Américas abusa do óbvio ululante.

Afinal, em casa, há milênios o Atlético joga como nunca contra o seu rival de tom carioca.

E ontem foi outra prova disso: o magro placar era para ser goleada.

A escalação de um trio mais recuado -- Marcelo, Bady e Delattorre --, de um centroavante fixo e de dois volantes marcadores deixou o time muito diferente: melhor distribuído, o que torna o time equilibrado; melhor escalado, o que faz do time suficiente em cada canto do campo; e mais empenhado, o que faz de cada disputa de bola um lance de vida ou morte.

Enfim, o Atlético está melhor.

E, apesar de tudo -- e este tudo praticamente se resume à péssima gestão do Clube, em especial no que toca à formação do time e à sobrecarga em inúmeros jovens talentos --, o Atlético não cairá junto com os coxas.

Lamentável, entretanto, ver toda uma estrutura -- e toda uma massa rubro-negra, ainda alijada da Baixada -- refém de uma péssima condução do futebol, com profissionais de bastidores absolutamente incompetentes e desconhecedores do bê-á-bá do jogo, responsáveis por contratações e dispensas terríveis sob o aspecto técnico, desprezíveis sob a ótica estratégica, asininas sob a égide financeira e duvidosas sob a ordem ética.

Se no ano passado Paulo Baier, Ederson, Marcelo e Mancini tiram leite de lhama virgem de pedra, conduzindo o Atlético ao 4º lugar e à Libertadores, este ano, por insistente culpa e intransigência lógica da Diretoria -- que praticamente impede um raio de cair no mesmo lugar --, não se pode esperar sorte maior.

E permanecer na 1º Divisão será um feito, senão broxante, quase extraordinário.


 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

# atleticania (xviii)


De longe tudo pode parecer mais bonito.

A miopia da saudade, assim, provoca-nos a imaginar, a sonhar, a delirar sobre a realidade.

Nesta noite, o Clube Atlético Paranaense finalmente voltou para a sua terra e a sua gente.

Anos e anos de punição, de sofrimento e de mal-tratos que causaram a separação mais triste e longa da história do maior clube do Paraná: a torcida e a sua casa.

Hospedados nos mais diversos campos de Curitiba e do Brasil, a torcida do Atlético perfazia-se caixeira-viajante, um saltimbanco ciganeando pelos caminhos tortuosos de espaços alheios, acenando timidamente um lenço vermelho-e-preto apenas para não perder o rumo do vento e não abafar a ideia fixa na cabeça.

Desconfortável, se amontoava para tentar acompanhar os fracos times montados.

Reinante, não largou a sua paixão em nenhuma destas mais de mil e uma noites.

E hoje tudo passou, e a torcida rubro-negra manteve-se firme na prova da sua intransponível devoção. 

Agora, o Atlético, e a sua massa fanática como a maior razão de ser, só volta a exigir respeito.

E consideração, que não significa apenas ter o melhor estádio do Brasil e a melhor gestão financeira do nosso futebol.

Mas, sim, ver dentro das quatro linhas um grande time.

Que vista a camisa rubro-negra por amor.

Que tenha o sangue forte e o vigor sem jaça.

E que tenha a qualidade digna da sua estrutura e da sua gente.

Das arquibancadas, os jogadores já sabem, não se terá um minuto sequer de silêncio.

Resta agora partir para o plano de jogo, pois a novíssima Baixada já está feita e entregue.

Adonada pelos milhões de atleticanos está grandiosa como sempre.

E como hoje.

Numa noite em que olhava Deivid mas via Franz Beckenbauer.


# aspas (xlii)


A fascinante crônica do Velho Cronista sobre a grande noite que se reinaugura logo mais.

E nada mais precisa ser dito (v. aqui).

Olhe lá, a Baixada quieta, calada feito criança culpada, não dispara um único som. Dorme um sono pesado, de concreto e ferro fundido.
Descansa, calma feito noite fria.
Tudo está quieto demais no front.
As trincheiras estão vazias, os bunkers estão desabitados, as casamatas estão desguarnecidas.
E todos nós já vimos filmes de guerra o bastante para saber que esse silêncio verborrágico, essa calada perniciosa, prenuncia um estrondo fatal e desvairado.
Na calada da noite, enquanto os santos dormem, uma multidão inteira, com pensamentos peçonhentos, ocupa as trilhas que levam ao Estádio Joaquim Américo.
E quando nos dermos conta, aquele estádio estará integralmente tomado por um povo ensandecido, com pavilhões e fardas a chacoalhar nas mãos, ecoando cânticos elevados e promissores.
Quando rebentar o primeiro disparo será como o estouro de mil manadas a correr, cascos febris castigando o concreto em galopes ligeiros.
Hoje, a imensa torcida do Clube Atlético Paranaense vai matar, com ferroadas lancinantes de fascínio, toda a saudade da sua casa.
E a massa vermelha nem vai ter tempo de chorar a emoção da volta. Mal vai pisar no concreto imaculado da Baixada e já vai ter de entoar gritos de escora e auxílio, empurrando o escrete para cima do adversário, posto que o encargo do Atlético-PR é mastodôntico: precisa impor terríveis três gols no tinhoso time do América-RN.
Quarenta mil almas serão forjadas no desespero e na aflição, curvando a cada giro do relógio. Os céticos – se é que ainda existem depois daquele embate contra o Sporting Cristal, comprado no calor das penalidades – que não apareçam por lá.
Este estádio, meus caros, não foi erguido para incrédulos. Ele foi feito para quem, à imagem dele, foi criado a ferro e fogo, a quem tem vigas no lugar de veias, a quem traz na espinha dorsal a firme convicção da virada.
Os ateus, portanto, que deixem espaço para quem segue esse time por toda parte.
Hoje, Curitiba sairá toda em romaria, gente de fé, multidão inteira, órfã de casa há mais de mil dias, que vem de pegar emprestados campos e arquibancadas Brasil afora, e que anseia em lançar mão de uma só vez sobre aquele campo que é só seu.
O Atlético-PR está voltando, enfim, para casa. E ele chega, pontual, no momento mais perfeito para o regresso: quando os estádios todos da Copa do Mundo já estão usados, frequentados, consumidos. O Joaquim Américo estreia hoje intacto. É como a joia guardada para o final, o presente que chega por último.
Obrigado aos Castelões, às Arena Manaus, às Fontes Novas, que abriram o espetáculo, mas é hora do recital principal.
Agora, todas as luzes desses holofotes curiosos estão mirando exatamente ela, a Baixada, que debuta hoje.
Morteiros vermelhos cruzarão os céus, canhões serão apontados para o centro da grama, lanças e setas viajarão pelo terreno. E o povão ensandecido encherá de cor aquele cinza e o Brasil inteiro verá que a palidez do cimento deste estádio é proposital – a matiz deste campo pertence ao povaréu nas arquibancadas, às camisas e flâmulas que tremulam incansáveis.
A Arena da Baixada hibernou por duas eternidades e agora se levanta.
E o país inteiro vai estremecer ao som dos seus rugidos.



domingo, 27 de julho de 2014

# atleticania (xvii)


Para Benjamin, uma tarde de sono ou uma saracoteada de horas por entre seus brinquedos não valem, ainda, um gol do Atlético.
 
E pelo que (não) tivemos hoje, ainda bem.
 
Promissor, sério, moderno e com os pés no chão, o técnico Doriva acabou vacilando nesta tarde de domingo, talvez empolgado com os lampejos das últimas rodadas.
 
Aberto, frágil, murcho e suicida, pensou ter nas mãos um time com jogadores capazes de enfrentar, mano a mano, o bom time e o ótimo elenco tricolor – a propósito, o que joga este Cícero, hein?
 
Com uma dupla de zaga que já provou ser uma das piores do Brasil, jamais poderia ter escalado três atacantes e entregar todo um meio-campo  efetivamente vazio de rubro-negros , para um time que, além de tudo, já anunciava que jogaria com cinco por ali.

E mais: sem um homem para tentar fazer o jogo corrido dos nossos avantes  num embate nestas circunstâncias o nosso curumim camisa 10 não se mostra solitariamente capaz –, não impúnhamos medo e nem causamos susto algum, tornando tudo mais fácil para o time carioca, que passeou.
 
Um dia desses um time acabou levando 7 por pensar assim também  só que agora os nossos alemães tricolores foram mais piedosos (e nem tão competentes).
 
E o Atlético, meus caros, levou um dos maiores bailes dos últimos anos.

Ainda bem que só o concreto cinza e gelado (v. aqui) esteve presente nesta escura tarde em Curitiba.




 

domingo, 25 de maio de 2014

# atleticania (xvi)



Minhas lembranças da saga como atleticano iniciam-se por volta de 1982 e 1983.

No primeiro ano, o título paranaense -- ainda numa época em que os torneios regionais tinham alguma importância -- e um time que enchia os olhos, ainda mais para a vista impúbere de alguém que estreava pelos campos de futebol.

Lembro-me bem daquele domingo, lá no Couto Pereira, a comemorar a conquista ao lado do meu jovem pai, numa final em que atropelamos o Colorado por uma goleada cujo placar já não me recordo, mas que tem as suas emoções devidamente guardadas na eterna memória.

Lembro-me de muitos gols, a festa rubro-negra a invadir o gramado e o início de uma relação de amor pelas cores de um clube.

Depois, em 83, a semifinal do Brasileirão contra o global e midiático Flamengo, cuja partida da volta, em Curitiba, nos foi surrupiada pelos múltiplos e históricos interesses em jogo.

Lembro-me que tínhamos praticamente o mesmo grande time do ano anterior e logo com trinta minutos do primeiro tempo o Atlético já vencia por 2 x 0 -- mas doce ilusão acreditar que nos deixariam avançar, e o jogo acabou com este mesmo escore e a nossa eliminação.

E também me lembro deste outro domingo (e como se fosse hoje), lá na garagem da casa da minha vó, a ver meu ainda jovem pai saindo para ir àquele mesmo Couto Pereira -- naquela tarde, com quase 70 mil pessoas, fez-se o maior público da história do estádio -- e me dizendo: "Hoje você não pode ir, você é muito pequeno, estará tudo muito lotado, muita confusão, mas prometo que será a última vez...". Eu, triste, num abraço de colo, devo ter lhe dito: "Tudo bem, pai... mas eles vão fazer gols, né?".

Chamar por "eles" não tinha nenhum significado subliminar para quem, mesmo sendo um infante atleticano, bem sabia do que nosso time era feito.

É que, para além daquelas lembranças todas, a minha maior recordação era mesmo "deles".

Era uma dupla que conhecia o nosso valor, que incendiava a massa rubro-negra, que nos enchia de um orgulho máximo e que de mim fizeram um grande piá atleticano.

Eram dois negros, bigodes, camisas 8 e 9, ponta-de-lança e centroavante, cérebro e artilheiro, organizador e matador.

Eram como um só, e sempre juntos eram meus nomes e meus titulares absolutos em todos os times de pelada, de botão, de meia e de bolinha.

Eram Assis e Washington.

Washington, ontem, nos deu adeus.

E com ele leva a paixão infantil de um dos meus dois primeiros ídolos no futebol.

Coincidentemente, num dia em que vencemos outro "Atletiba".

De modo convincente e festivo, a nos animar por se ver tentar resgatar a essência do jogo e de um clube  e de recuperar a máxima de que a nossa camisa só se veste por amor.. 

E assim esperamos ver muitas outras vitórias como a de hoje.

Para que também possamos ver muitas outras crianças rubro-negras criando seus novos heróis, comemorando, vibrando e torcendo por eles.

E até chorando.

Obrigado, Washington.

Obrigado, Atlético.



domingo, 18 de maio de 2014

# atleticania (xv)


Iludem-se os atleticanos por pensar que, após outro empate -- agora contra os reservas do último colocado --, o problema esteja (apenas) com o arremedo de treinador, um paraguayo que especula no nosso comando técnico.

A máxima culpa é, como se faz notório, do mandatário do clube, o Petraglia.

Aquiaqui e aqui já muito falamos disso, e agora prometemos ser a última vez que perderemos tempo com o assunto.

Petraglia é um facínora, um ególatra, um cão raivoso que detesta o dia a dia do Atlético, o futebol do Atlético e a torcida do Atlético -- mas que gosta, e muito, dos negócios do Atlético, razão pela qual não larga o osso, e não o divide com ninguém, há décadas.

Com base na meia-verdade de que foi o cavaleiro solitário na recriação do Atlético no fim dos anos 90 -- embora jamais se negue a sua importância como líder daquela histórica geração administrativa --, o fanfarrão manda-chuva hoje julga-se onipotente, onisciente e o ovo de Colombo.

Ele odeia tudo e todos, só enxerga o umbigo e só voltou ao Atlético -- como causa do rebaixamento e da péssima gestão do seu antecessor e ex-aliado -- para buscar os cifrões desta nova Baixada e a audiência desta Copa.

Ele parece escalar o time, desmontar o elenco, desagregar o sistema, espantar colaboradores....

Ele quer destruir um clube de futebol e criar uma S.A, para depois tergiversar seu "fim", como fez com a empresa da qual era sócio (v. aqui), e sair-se bem.

Ele não suporta futebol, não suporta quem adora futebol e não suporta quem suporta quem adora futebol.

Se o Atlético fosse um shopping center, para ele tanto faz. Seria até melhor, porque não sentiria o cheiro da massa.

Afinal, ele odeia o povo e tudo o que diz respeito ao povo.

E o futebol é do povo. O futebol é uma das máximas expressões culturais deste país, movimenta massas e paixões.

Petraglia desconsidera a paixão -- por ele, o Atlético seria uma nova franquia da NBA, só com consumidores, sendo tudo em torno do jogo uma "experiência" ou um simples "entretenimento". 

Petraglia abomina o vermelho e preto -- para ele é tudo cinza, inclusive porque é neste tom, no lusco-fusco do nublado que consegue os melhores negócios.

Petraglia tem ojeriza pelos gritos, pelos cantos, pelas lágrimas, pelas faixas, pelas fantasias, pela energia viva e vibrante que só um gol ao vivo causa na vida de um andrajo qualquer.

Petraglia é, pois, a cara mais triste da distopia do mundo do capital, do mundo sem alma girando em torno de cifrões. 

Mas não suficientemente contente com a ética do mercado e da política, mediante o seu isolacionismo individualista acredita que no futebol a sua ética -- nem tão-pouco a ética do futebol -- deve prevalecer.

E para isso desmonta um time, degenera uma torcida e deflagra o ódio.

Petraglia representa um outro tipo de retrocesso no futebol, à moda moderna, do "clube-supermercado", legitimado por ter reconstruído o clube após um estágio pré-falimentar, mas que hoje caminha para um estágio pós-futebol.

Petraglia quer nos enterrar, bem longe da Lapinha, sob a lápide cinza de quem está inumado em rubro-negro.

Petraglia, se lá nos anos 90 foi uma luz no fim do túnel, hoje é o nosso fundo do poço.

Há um enigma posto: decifremos o Atlético ou Petraglia nos devorará.



terça-feira, 8 de abril de 2014

# atleticania (xiv)


Teto retrátil, mármore nas pias dos lavatórios, ultra-led 3d na fachada, cadeiras com assento reflex, sistema de som acústico surround, jogadores que falam outras línguas ou técnicos que falam a língua do pê...

Eis o sentido da vida para o mandatário do Atlético, o Petraglia.

O rubro-negro não sofreu a desclassificação do maior campeonato do planeta (v. aqui) ontem, para o hipossuficiente e rarefeito time boliviano.

Não sou de chorar leite derramado, mas o Atlético mostrou para o que vinha desde que Petraglia, por birra, orgulho e preconceito, desmantelou e jogou no lixo toda uma estrutura construída, ainda que por muito acaso, em 2013.

E não estou falando aqui de uma "laranja mecânica", de um "carrossel húngaro", de super-heróis ou de grandes ídolos da humanidade, cujo desarranjo para ir à grande Europa ou aos petrodólares seria inevitável; tão-pouco me refiro a algumas espécies raras, deslumbrantes e que solucionariam todos os nossos problemas de time, como aqui já dissemos.

Acontece que Petraglia, por razões absolutamente vãs, resolveu, numa manhã qualquer, ao olhar para o espelho, o espelho dele, que aquilo tudo deveria ruir.

E dispensou Vágner Mancini e Moraci Santanna do comando técnico – e que ótimo trabalho faziam! , e mandou o experiente Luiz Alberto às favas 
– e que outro zagueiro há no elenco além do bravo Manoel? , e fez pouco caso do Bruno Silva – e que falta nos fez um volante! , e desdenhou do Éverton – e quem correu e jogou no nosso meio-campo? – e tripudiou em cima de Paulo Baier, escolhido o melhor armador do Brasileirão de 2013 e grão-responsável por fazer Marcelo e Éderson jogar o que jogaram.

Tínhamos, pois, um esqueleto, fora e dentro de campo.

Mas não, Petraglia preferiu especular, sempre pensando em negócios aparentes antes de pensar no futebol, e sempre achando feio o que não era dele ou da ideia dele.

E aí trouxe este Calma Cocada, o sujeito espanhol sem a mínima noção do que deve fazer e que se diz treinador – na verdade um empresário e intermediário da vinda da seleção da Espanha para o nosso CT, na Copa – , e aí disseminou o factóide Adriano, e aí inventou uns dois ou três gringos, e aí flertou com uma meia dúzia de pestes bubônicas, e aí fez jogar uma trupe que há anos não nos serve...

Ora, repitamos: de um time que entra em campo – como titulares por toda a Libertadores – com Suéliton, Cleberson, João Paulo e Mirabaje, se espera o quê (v. aqui)?

De um time que se (in)digna a colocar em jogo múmias como Dráusio, Bruno Mendes, 
Paulinho, Coutinho, Fran Mérida e outras coisas desse naipe, o que se deve esperar?

De um time que arrisca queimar uma grande safra, não enxergando que os ótimos Marcos Guilherme, Mosquito e Nathan, com seus 18 anos, não podem resolver agora a nossa vida, se imagina o quê?

E isso nada tem a ver com o fato de que continuamos querendo (e bendizendo) o nosso grandioso Joaquim Américo, o belo CT do Caju e um honroso histórico contábil-financeiro.

Porque, na verdade, isto não se dissocia do fato de que o Atlético precisa é rever os seus conceitos, precisa voltar a trabalhar com o futebol e pelo futebol e precisa parar de ser tratado de acordo com os rompantes histéricos e histriônicos do seu mandatário.

Sim, ele deve parar de achar que deslumbra a nossa gente rubro-negra com penduricalhos, objetos brilhantes e coisinhas que fazem barulho.


Afinal, ainda que Petraglia pense ser um pajé, nós não somos índios.



quarta-feira, 26 de março de 2014

# atleticania (xiii)


O Atlético jogará 40 dias e 40 noites e não ganhará dos argentinos do Vélez Sarsfield, poderia assim descrever um personagem bíblico.

Mas não sejamos injustos: o rubro-negro não jogou mal.

Afinal, um time que cria ao acaso e joga no lixo quatro reluzentes, absolutamente reluzentes, chances de gol, afora tantas outras menos claras, não pode assim ser criticado.

Porém, por outro lado, jamais poderá querer sair vivo da batalha assim desperdiçada, ainda mais contra um adversário tão bem selado, registrado e carimbado em Copas Libertadores da América, com bons atletas e um bom esquema.

Acontece que uma coisa é não ter jogado mal, em uma singela evolução tática – méritos, se possível, ao nosso técnico, que parou com pirofagias para tentar construir o óbvio com a mão-de-obra disponível , outra coisa é ter jogadores ruins e que sempre jogarão mal, fiéis merecedores do ocaso eterno.

E isso tudo é meio lógica, é meio matemática, e por isso não se venha querer falar em sorte.

Repitamos, pois, o que aqui e aqui dissemos: o que esperar de um time que se apresenta com Suéliton, Cleberson, Dráusio, João Paulo, Paulinho, Mirabaje e, agora, este Bruno Mendes, senão o absoluto fracasso, o nada, o zero, tudo arredondado em números nada complexos? E, para tornar tudo ainda mais caótico, numa noite em que Weverton e Éderson não estavam nada bem...

Bem, hoje, Dia Estadual do Clube Atlético Paranaense (v. aqui), é o nosso aniversário de 90 anos.

E como de polacos nosso povo curitibano também é feito, acredito que a festa não durará somente 1 dia.

Portanto, amanhã à noite, na outra partida do nosso grupo, prevejo que os bolivianos viajarão e, contra o vento peruano, não ganharão.

Será o nosso presente, de novo oferecido por aquele grande amigo, o Sr. Imponderável de Almeida (v. aqui).


domingo, 23 de março de 2014

# atleticania (xii)


Hobbes dizia que a racionalidade está a serviço das paixões – e eu, pois, entre paixão e razão, sou mesmo um inveterado apaixonado.

Enquanto um canal apresentava o maior clássico do mundo globalizado, outro transmitia o time do coração no burlesco torneio estadual.

Enquanto Real Madrid e Barcelona desfilavam os maiores jogadores do planeta, um renascido Paraná Clube  um morto-vivo que acabou como líder da primeira fase da gigante liga regional  enfrentava o Atlético e o seu time de pós-adolescentes.

Enquanto em Madrid tudo tinha as credenciais de um espetáculo de gala, em Curitiba a disputa na Vila Capanema  de torcida única e às moscas  era feia, quase marginalizada. Além disso, era mal narrada e toscamente comentada, tudo sob a névoa cinza da cidade. E, pra completar, o horroroso uniforme do Paraná, a cara sofrida dos seus atletas sem salário há meses e um técnico de cachecol num ar subtropical.

Mesmo assim, meus senhores, não tive dúvida: na tv, acompanhei o meu time.

E não pelo jogo, que pouco valia, e não pelo torneio, que nada vale, tão-pouco pelas joias em potencial que se apresentam com o manto rubro-negro, que são poucas  era, sim, pelo meu clube e seu jogo eliminatório.

É claro que o Atlético não entra num campeonato para perder; o Atlético, apenas, dá o devido valor a ele, neste caso mandando a campo uma piazada e sob outra perspectiva, fazendo desse "Ruralzão" uma simples e eficaz "peneira", uma serra pelada em busca de algum ouro bruto encravado nos treinos do CT do Caju.

O objetivo, portanto, é este  e talvez quem ainda não entenda isso é porque consegue ver algum sentido nestes jogos regionais, uma via sacra descabida e despropositada para um ideal de profissionalismo e de alto nível que o futebol exige. 

Ganhar, claro que sempre é bom, mas nesta coisa aqui o foco é outro.

Embora ter ganho de um Paraná Clube, mesmo sob as lentes de jogadores na fase juvenil da vida, seja sempre obrigação.

No final, ficou aquela sensação de que vi um filme B de terror: em um panorama trash, o mocinho mata os zumbis e sai de cena aos risos.

E, ao fundo, aquele som chocho e esganiçado de um punhado de gralhas-azuis.


sexta-feira, 14 de março de 2014

# atleticania (xi)


Não há exagero algum, meus senhores: ao lado da mulher barbada do Circo Vostok, na noite de hoje se viu uma das coisas mais feias desta vida.
 
Os noventa minutos da vitória do Atlético, fora de casa, com gol contra, contra este time do Peru, foi daquelas apresentações de circo dos horrores, daqueles eventos clandestinos proibidos para menores, daquelas imagens de esquinas escuras de centro com damas rampeiras de quinta, daquelas cenas de documentário do Discovery em que magras e decadentes hienas destroçam os restos de gnus fazendo explodir sangue e vísceras na tela da tv.

Um cenário de provocar medo.


Mas, além disso, ao empurrar ladeira abaixo um bando de borrachos, o Atlético  de novo com três das suas máximas feridas em campo e com o Calma Cocada no banco (v. aqui causou pena e fúria.
 
Pena, porque até se percebia no semblante esforçado de alguns a tentativa de tentar bater uma bola com dignidade; e fúria. porque tantos outros desprezavam o óbvio ululante exigido para uma partida de Copa Libertadores da América (v. aqui).

Ora, o que a legião de Suéliton, Cléberson, Deivid, João Paulo, Paulinho, Bruno Mendes, Éderson, Coutinho e, claro, Mirabaje, errou no jogo de hoje, em doses industriais, não é digno da nossas cores e do esporte profissional. 

Múmias paralíticas, peças frágeis, ínguas modorrentas, um amontoado inapto que, a jogar contra uma brisa seca, suave e inofensiva, parecia se esmerar para deixar tudo zero a zero. 

Um jogo em que, sem muitos esforços, um onze qualquer ganharia por meia dúzia, seguiu amargo e melancólico até o final, num deserto de lambanças, de torpeza e de ingratidão à bola, tudo sob os olhares nervosos de todos os fantasmas incas que habitam aquele estádio, o maior da América do Sul. 
 
Ainda que neste período quaresmal, qualquer, repito, qualquer time não teria piedade e misericórdia para atropelar, sem dó, aquele grupo fantasiado de jogadores, uma verdadeira trupe de lhamas virgens que entrou em campo apenas por questões de formalidade contratual e que, num misto confuso de inépcia e infortuna, não conseguia acertar dois – dois (!) – míseros lances consecutivos. 
 
Foi, meus senhores, uma vergonha, um ultraje ao futebol o que se viu na noite desta quinta-feira em Lima, capital peruana.

O rubro-negro não jogou absolutamente nada, em um jogo que só ele jogou.
 
Por isso, do jeito que foi, se minimamente justo, deveria o Atlético devolver estes três pontos.
 
Afinal, ao menos assim ficaria em paz com os deuses do futebol, que não costumam perdoar traições.