terça-feira, 8 de abril de 2014

# atleticania (xiv)


Teto retrátil, mármore nas pias dos lavatórios, ultra-led 3d na fachada, cadeiras com assento reflex, sistema de som acústico surround, jogadores que falam outras línguas ou técnicos que falam a língua do pê...

Eis o sentido da vida para o mandatário do Atlético, o tal Petraglia.

O rubro-negro não sofreu a desclassificação do maior campeonato do planeta (v. aqui) ontem, para o hipossuficiente e rarefeito time boliviano.

Não sou de chorar leite derramado, mas o Atlético mostrou para o que vinha desde que Petraglia, por birra, orgulho e preconceito, desmantelou e jogou no lixo toda uma estrutura construída, ainda que por muito acaso, em 2013.

E não estou falando aqui de uma "laranja mecânica", de um "carrossel húngaro", de super-heróis ou de grandes ídolos da humanidade, cujo desarranjo para ir à grande Europa ou aos petrodólares seria inevitável; tão-pouco me refiro a algumas espécies raras, deslumbrantes e que solucionariam todos os nossos problemas de time, como aqui já dissemos.

Acontece que Petraglia, por razões absolutamente vãs, resolveu, numa manhã qualquer, ao olhar para o espelho, o espelho dele, que aquilo tudo deveria ruir.

E dispensou Vágner Mancini e Moraci Santanna do comando técnico – e que ótimo trabalho faziam! , e mandou o experiente Luiz Alberto às favas 
– e que outro zagueiro há no elenco além do bravo Manoel? , e fez pouco caso do Bruno Silva – e que falta nos fez um volante! , e desdenhou do Éverton – e quem correu e jogou no nosso meio-campo? – e tripudiou em cima de Paulo Baier, escolhido o melhor armador do Brasileirão de 2013 e grão-responsável por fazer Marcelo e Éderson jogar o que jogaram.

Tínhamos, pois, um esqueleto, fora e dentro de campo.

Mas não, Petraglia preferiu especular, sempre pensando em negócios aparentes antes de pensar no futebol, e sempre achando feio o que não era dele ou da ideia dele.

E aí trouxe este Calma Cocada, o sujeito espanhol sem a mínima noção do que deve fazer e que se diz treinador – na verdade um empresário e intermediário da vinda da seleção da Espanha para o nosso CT, na Copa – , e aí disseminou o factóide Adriano, e aí inventou uns dois ou três gringos, e aí flertou com uma meia dúzia de pestes bubônicas, e aí fez jogar uma trupe que há anos não nos serve...

Ora, repitamos: de um time que entra em campo – como titulares por toda a Libertadores – com Suéliton, Cleberson, João Paulo e Mirabaje, se espera o quê (v. aqui)?

De um time que se (in)digna a colocar em jogo múmias como Dráusio, Bruno Mendes, 
Paulinho, Coutinho, Fran Mérida e outras coisas desse naipe, o que se deve esperar?

De um time que arrisca queimar uma grande safra, não enxergando que os ótimos Marcos Guilherme, Mosquito e Nathan, com seus 18 anos, não podem resolver agora a nossa vida, se imagina o quê?

E isso nada tem a ver com o fato de que continuamos querendo (e bendizendo) o nosso grandioso Joaquim Américo, o belo CT do Caju e um honroso histórico contábil-financeiro.

Porque, na verdade, isto não se dissocia do fato de que o Atlético precisa é rever os seus conceitos, precisa voltar a trabalhar com o futebol e pelo futebol e precisa parar de ser tratado de acordo com os rompantes histéricos e histriônicos do seu mandatário.

Sim, ele deve parar de achar que deslumbra a nossa gente rubro-negra com penduricalhos, objetos brilhantes e coisinhas que fazem barulho.


Afinal, ainda que Petraglia pense ser um pajé, nós não somos índios.