terça-feira, 30 de outubro de 2018

# eu, eu mesmo e os outros



Tenho e sempre tive amigos e familiares dos mais variados espectros políticos  e, por conta do meu habitat e da minha criação e formação, a ampla maioria deles situados à minha direita, como assim se convencionou denominar os conservadores mais ou menos liberais, mais ou menos reacionários.

E sempre encarei isso com toda a naturalidade, pois visões de mundo dentro de quadrantes políticos não poderiam superar a sincera troca de afetos e a busca pelo aprimoramento das relações pessoais e sociais, posto que o lugar e o paradigma político e existencial que nos orientavam era o mesmo: a democracia e a dignidade da pessoa humana.

Ocorre que este 2018 trouxe um tsunami que arrancou a fantasia político-ideológica de muita gente.

E assim desnudou a real essência de muitos que, afinal de contas, nunca quiseram saber de política, de debater política, de defender e de compreender a política. 

Estes, na real, revelaram-se gostar de ideias, práticas e sujeitos que estão fora dos quadrantes da política, por uma razão bastante simples: toda a arquitetura do fascismo nega e está fora da política.

Não por outra razão, o que a candidatura eleita de Jair e sua trupe sempre ofereceu foi à revelia do diálogo, da fraternidade, da igualdade, da liberdade, do pluralismo e da harmonia social.

E em momento algum o que diz, o que pensa e o que promete se concilia com democracia e com nossos supremos valores constitucionais; pelo contrário, sempre encarnou fundamentos não civilizatórios, quase medievais e bastante autoritários, alicerçados em pontos bastante relevantes e onipresentes da sua campanha e da sua existência.

Em Como as democracias morrem, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt indicam quatro características de um governo que não se pretende democrático: o "compromisso débil com as regras do jogo", a "negação da legitimidade dos oponentes políticos", a "tolerância e o encorajamento à violência" e a "propensão a restringir as liberdades civis".

Junte-se a este conjunto o "culto à paranoia do inimigo público" e a "insensibilidade às classes mais vulneráveis e às minorias" e... voilàtudo está flagrante no ser e no viver de Jair, esta figura que, lembrou o filósofo Vladimir Safatle, parece se inspirar naqueles líderes autoritários invariavelmente representados como uma mistura de militar com barbeiro de província (v. aqui).

Mas, evidentemente, da grande "pizza" que representa os eleitores do candidato eleito do PSL tenho em meus laços familiares e de amizade tipos em diversas fatias.

Vejo nelas o voto do orgulho fascista, mas também há o voto do ódio antipetista e o voto da ordem militarista, os quais representam a maior parte da fôrma e que me merecem desprezo e desrespeito, por todos os argumentos e razões que neste e em vários espaços mais ou menos virtuais já discorri: em resumo, não se trata de política, são escolhas pré-iluministas, conceitos pré-modernos e desejos civis, sociais e morais a mim repulsivos.

Claro que, em pedaços muito menores  pelo "lugar social" que ocupo , há o voto da fé neopentecostal, o voto da ignorante desinformação e o voto esquizofrênico contra-tudo-que-está-aí, mas confesso que estes me causam culpa, remorso e uma certa aflição, cujos sentimentos exigem ainda mais conversa, atenção e participação de nossa parte.

Entretanto, nesta pizza também tem uma considerável fatia sem a cobertura escancarada destes sabores, mas com a borda recheada: é a daqueles que votaram nulo.

E se aquelas primeiras pessoas, que já há algum tempo insistem em propagar, apoiar e confirmar uma candidatura cheia de raiva, rubéola, tuberculose, anemia, espuma, armas e mentiras, são pessoas por mim esquecidas e de cuja companhia dispensei, agora não esquecerei as pessoas que, num sopro de pseudoplenitude, julgaram-se acima do bem e do mal para lavar as mãos, como se aceitando indiferente o grito desvairado da ruas: "Crucifica-o! Crucifica-o!".

Por falta de coragem, por falta de vontade ou por excesso de irracionalidade  nascido do horror psíquico a um partido político , estas pessoas, com o seu não-voto, são corresponsáveis pela eleição do Jair.

Omissas, aceitaram que um dos piores, mais caricatos e mais incompetentes políticos da história deste país fosse eleito.

Intransigentes, arrogantes e soberbas, não quiseram enxergar o movimento vivo que saltava e se balançava a um palmo dos seus narizes, crendo, ao contrário, num fantasma e se alimentando por uma falsa imagem da realidade, capaz de fazê-las compreender um Brasil entre dois "extremos".

Cegas como as personagens da fábula máxima de José Saramago e no silêncio de uma hipocrisia sórdida que acredita na "neutralidade" diante do caos, foram covardes e inconsequentes na anulação do seu voto e no simbolismo do seu discurso.

Estas pessoas, infelizmente, ajudaram a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa história, que carcome nossos direitos e garantias e tinge com tinta sombria nosso futuro, flertando na roleta-russa do "pagar para ver" o quanto de verdade haverá na quantidade de promessas que Jair há trinta anos faz.

Fingindo isenção, admitiram as trevas de um arquétipo de governo: inventado, armado, enjambrado, sem propostas concretas, sem programas sociais e sem lógica democrática.

Fingindo eximição, admitiram um modelo infausto de sociedade, baseado na precariedade, na violência oficial e objeto da conjugação pinochetiana de neoliberalismo com militarismo.

Fingindo sublimação, admitiram viver no medo de um Estado moral e no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente perigosamente medíocre e enfaticamente lunática.

E, francamente, calaram-se diante do colapso, como se produzissem uma "autoverdade" incapaz de ver e reparar no óbvio ululante, simulando assim um ar de normalidade, sem perceber estarem entorpecidas por um blend de ódio e delírio (v. aqui). 

Tristemente, não conseguiram compreender os riscos deste modelo, as ameaças deste governo e a intensidade da tragédia social que está em jogo, ousando ver com otimista descaso os seus efeitos ou como mero falastrão o seu líder. 

E aceitaram tudo isso, com recalque e à revelia do que foi exposto amiúde nas últimas semanas – inclusive por mim, em conversas, em cartas e em mensagens, sem nunca oferecerem a racionalidade como argumento e a realidade como premissa.

Temos, ao cabo, que o resultado disso é complexo fruto de uma sociedade doente e distópica, incapaz de não ver a diferença entre dois mundos, entre duas eras, entre dois tempos históricos.

Seja na ação delirante do voto em Jair, seja na omissão em ladainha do voto nulo, veem um lado ser contra a tortura, a barbárie, o preconceito, a repressão e o autoritarismo e querem comparar com um outro lado que estimula estes desvalores, a afrontar direitos e garantias fundamentais, previstas em qualquer carta mais ou menos universal de direitos humanos.

Esquecem, assim, que a ruptura democrática e a perversão social não são obras de um estúpido qualquer.

São, na verdade, obras de legitimação desta sua estupidez.

E se a história do Brasil será implacável com a escolha feita por estas pessoas, eu demorarei para superar a decepção e a traição delas às nossas histórias em particular.

Ora, de que servem aqueles abraços, aqueles brindes, aqueles porres e aqueles tantos gestos e momentos de afeto se, do lado de fora, diante do outro, os valores, a vontade e a verdade são outros?


É uma pena, enfim, ignorarem que sob tal visão fatiada de sociedade o "outro" seja uma mera circunstância.


Até porque, como outrora disse Bertolt Brecht, importar-se apenas quando nos convém costuma ser tarde demais.




terça-feira, 23 de outubro de 2018

# se isto é uma sociedade



No livro "Ravensbrück - a história do campo de concentração nazista para mulheres" ("If this a woman", no original, cujo nome tem fonte na clássica obra de Primo Levi, "Se questo è un uomo", na qual descreve suas experiências em Auschwitz), entre outras revelações, apresenta-se a grande estratégia de sobrevivência daquelas mulheres confinadas e marcadas para morrer: fecharem-se ao que estava em volta e, buscando refúgio no círculo meio mágico que criavam entre elas, assim poderem viver.

E entre si, como se pudessem esquecer a tragédia e a barbárie que se passava do lado de fora daquele cotidiano insuportável, tornavam-se capazes de conversar, lembrar, sorrir e amar.

E entre elas, imersas numa realidade de dor, medo e angústia, poderiam ao menos juntas compartilhar todo o sofrimento e terror daquela situação.

Sei bem que há léguas a nos separar, mas nestes dias em que estive em Curitiba, minha terra natal, o dia a dia foi cercado e concentrado assim, entre os meus.

Com meus pais, minhas irmãs, minhas sobrinhas e alguns queridos amigos que comungam da mesma visão de mundo, que partilham dos mesmos valores e que percebem – com os olhos que esta terra haverá de comer – o rumo trágico das coisas, tive instantes de conversas, afetos e abraços que dão o conforto e ajudam a compreender o que está a se passar com a nossa sociedade. 

Doente, débil, bestial, raivoso e irracional, o mundo lá fora passa a ser inóspito para quem insiste em não querer ler a nossa realidade como a bula de cereal matinal ou não querer ver nossas soluções sociais estampadas em para-choques de caminhão.

Em Curitiba, militância à parte, estar agarrado aos meus era como não ouvir os gritos tresloucados desta gente amarelada, as frases enlatadas de bobos da corte, os preconceitos pré-iluministas de jegues de carga, os discursos da plataforma bélica e medieval de um platelminto alado e, claro, a ladainha nula e lamentável de quem acredita ser crível reinar de cócoras sobre o muro das isenções.

Com eles e ao lado da minha mulher e dos meus filhos, conseguia não sentir o gosto ou o cheiro do ódio, do fascismo, da vingança, da infâmia, da hipocrisia, da vilania e das cavernas onde há milhares de anos tacapes e grunhidos reinavam.

Entre nós, até tocávamos nas veias e feridas abertas da nossa sociedade em cujo tecido social floresce a indigência ética e cognitiva de tantos dos nossos pares que infelizmente atravessaram a margem civilizacional, mas o toque se fazia sempre com raciocínio e argumentos dignos de um debate racional, social e plural.

Ali, vejam só, pude cantar, jantar, rezar, brindar, abraçar, chorar e fazer juras de amor à uma vida que fora dali parece que trilhará sobre a plataforma de um navio pirata em direção ao alto-mar.

E não sei nadar, não sei cozinhar, não sei cerzir, não sei fazer tantas outras coisas que o destino talvez me obrigue a saber.

Mas, ao menos durante estes poucos dias, também pude deixar de saber que, por ser um "vermelho", era considerado um inimigo cujo fim é ser objeto da faxina mais-que-perfeita que visará ao meu abate – ou, na melhor das hipóteses, ao meu abate cívico, pátrio e moral. 

Ali, naquelas tantas horas de olhos nos olhos com cada um deles, a melancolia dava espaço a esperança e o tanto de ternura não fazia esquecer da necessidade de endurecer a cada dia e em cada circunstância.

Afinal, não é possível naturalizar este nosso estado de coisas tal qual muitos estão a fazer, admitindo um caminho sórdido sob a falsa compreensão de estar em cima de um muro, como se pairando equidistante a dois extremos – é mentira, uma ilusão de isenção e neutralidade cujo preço será caro demais para aceitar tal omissão.

No abismo onde o Brasil se encontra, estamos a poucos dias de poder recuar para, sob os valores do iluminismo, as pautas civilizatórias e os ares da modernidade, tentar subir e reconstruir esta sociedade desgraçada pela desigualdade, pela recessão e pela violência.

Ou então de dar mais alguns passos que, pasmem, nos arremessarão para um nada admirável mundo novo, a reproduzir algo "tipo sociedade" que ousará misturar Idade Média com Whatsapp, que reunirá um comportamento selvagem com ideias zoófitas e que nos afundará num poço sem fim de cada vez mais desigualdade, mais recessão e mais violência.

Não sei se ainda há tempo.

Mas sei que volto para o Rio com muitas saudades daquele meu campo  e com a expectativa de não precisar dele para sobreviver.



terça-feira, 9 de outubro de 2018

# um voto e um caminho



Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
"Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago (Epígrafe).


No segundo turno das eleições presidenciais de 2018 – o ano que nunca acaba – o Brasil está frente a frente com um dilema.

E não se trata de um dilema político.

A encruzilhada em que nos metemos coloca-nos em outro plano de discussão.

Estamos, assim, frente a dois caminhos que nos levam a discutir duas eras históricas: civilização ou barbárie (v. aqui).

Por isso, não se trata da escolha de um partido, de um modelo econômico ou de uma saga ideológica ou anticorrupção.

Por isso não se está a falar simplesmente de ganhar uma eleição, nem tão-pouco significa a vitória de um fulano ou de um grupo político, posto que seus resultados transcendem um quadriênio e superam qualquer nome ou cor faccionária.

Na verdade, a escolha significa a vitória de cada um de nós que deseja viver num país livre, num país plural, num país que respire o ar da democracia, da divergência, das opções sexual, política e de fé, das ciências e das culturas.

Significa a vitória de cada um dos nossos filhos e netas que ainda não sabem o que tudo isso significa, mas que certamente não irão gostar de crescer em um país marcado pela oficialização de práticas fascistas, pela falta de alternativas, pelo medo do autoritarismo, pelo preconceito ao negro e ao nordestino, pela banalização da desigualdade, pelo desprezo ao pobre e à mulher, pela violência ao diferente e pela intransigência ao pensamento alternativo.

Significa a vitória de todos nós que formamos uma sociedade regida pelo estado democrático de direito, idealizada por uma constituição cidadã e social e calcada nos princípios da  liberdade religiosa, da liberdade econômica, da liberdade cultural e da liberdade cívica.

Significa a vitória de um Brasil como o maior Estado-nação latino-americano, como uma  potência energética surreal, como um modelo mundial de construção soberana com dimensões continentais e plurais.

Significa a vitória do ser humano contra o obscurantismo, contra a intolerância e contra as bravatas pré-iluministas e totalitárias que tanto de sangue já tingiram o planeta.

Claro que, como em todo canto do mundo, um pequeno grupo é fascista – é natural e até humano, demasiadamente humano

Mas é uma minoria, quero crer nisso.

Hoje, se 33% das pessoas aptas a votar deram seu sufrágio a Jair, é porque uma considerável parcela ainda não despertou e está amarrada à seus laços sociais ou a seus líderes religiosos ou submersa na avalanche de mentiras e notícias falsas que impedem de sair da catarse de uma rede telefônica que não dá espaço à reflexão e nem ao diálogo, sendo engolida na base de memes e pequenos vídeos, num flagrante regresso comunicacional, dignos dos grunhidos e dos litóglifos das cavernas.

Assim, nestas três semanas de debates, entrevistas e propagandas eleitorais, quero crer que a maioria do povo brasileiro – e aqui já incluo, além dos não fascistas, aqueles que no primeiro turno votaram em opções do campo democrático de outra matriz – irá reencontrar a verdade, fora da selvageria insana que mistura choque com caos e que não dá espaço para o pensamento.

Nestas três semanas restantes, a maioria do eleitores verá, quero ajudar a crer, que não há nenhuma alternativa fora da argumentação política, da civilidade e das ideias para o desenvolvimento nacional.

A maioria dos nossos cidadãos verá, quero ajudar a crer, que a candidatura do Jair, de fio a pavio, nada oferece e não dá nenhuma solução para a brutal crise econômica brasileira.

Cada um, como se revigorados de uma cegueira branca, poderá enxergar que Jair e sua gente não apresentam nenhuma resposta para os vários desafios nas áreas da educação, da saúde, do emprego, da segurança, da moradia, dos transportes, da energia, do meio ambiente, enfim, em tantas áreas que exigem a máxima atenção do Estado.

Bala, fim das cotas e servir como quintal dos EUA não são soluções para uma nação tão imensa e complexa como a brasileira.

Cadeiaescola sem partido e privatizar tudo não são propostas dignas e viáveis para um país que há poucos anos atrás chegou a ser a 5ª maior economia do mundo.

Fim do comunismocartilha antigay e perguntar tudo no posto Ipiranga não são plataformas sérias para um candidato a Presidente da República em pleno séc. XXI.

Enfim, chegamos a uma daquelas reconhecidas como "hora-chave" da história de uma nação.

O Brasil está a 21 dias de optar por qual caminho seguirá, uma escolha que terá reflexos por muitas e muitas décadas.

Nós, povo brasileiro, iremos escolher o futuro de uma sociedade moderna, plural e civilizada, sob o cotidiano da racionalidade e da fraternidade, e livre para tentar ter seus próprios anseios de prosperidade e felicidade, em cuja trajetória se apresentam múltiplas alternativas democráticas.

Ou escolher o passado de um Estado medieval, fechado e bárbaro, sob o império do terror e preso às pautas morais e às soluções fáceis que nunca resolveram nada e nem funcionaram em nenhum lugar do planeta, a consistir em uma via sem alternativas e alimentada somente pela repressão e pelo choque.

Portanto, aperte o nariz, mas não puxe a descarga para empurrar um mar de brasileiros pobres, pretos, gays e não cristãos pelo ralo da sociedade. 

Retraia os olhos e franza a teste, mas não ignore as importantes pautas que o séc. XXI nos exige, ligadas às mulheres, às famílias, aos imigrantes, aos índios, à desigualdade e ao meio ambiente.

Proteste, mas não permita que o país siga num rumo sem alternativas sérias e sem propostas concretas, à revelia do mundo moderno.

É a hora de cada um compreender o que está em jogo, ouvir os argumentos e conhecer as consequências.

O Brasil está tendo a incrível chance de escolher um voto e um caminho pela paz, pela liberdade e pela democracia.

Para isso precisamos colocar a mão na consciência e dizer um não rotundo ao ódio e a um país-beco sem saída.

Um não que apenas o nulo não irá resolver.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

# por que votamos num hitler?



É de clareza solar o resumo (e a moral) da história contido no excelente texto de Oliver Stunkel (v. aqui).

Apesar disso  e de tudo isso! , há gente que teimará em não pronunciar: ivo viu a uva.

Por isso reproduzimo-lo praticamente na íntegra e substituímos algumas palavras para tornar ainda mais óbvia a tragédia – para quem sabe-se lá como não vê ou não entende as semelhanças – que insiste em aparecer no horizonte do Brasil. 

Apenas discordo do final do texto, se usado para uma metáfora do presente: para mim, não obstante uma considerável parte da sociedade esteja lobotomizada, as pessoas não podem dizer que não sabiam ou que não perceberam quem era o sujeito e o que estava por vir, afinal, não estamos parados em 1930.

Logo, há tempo de contê-lo.

Segue-o.


***

Por que votamos em Hitler nele?

Ao longo da década de 1920 2010Adolf Hitler ele era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão, que poucas pessoas levavam a sério. 

Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia e a Liga das Nações, precursora das Nações Unidas ONU

Em 1932 2018, porém, 37% 32% dos eleitores alemães brasileiros votaram no partido de Hitler dele, a nova força política dominante no país. Em janeiro de 1933 2018, ele tornou-se chefe de governo pode se tornar presidente

Por que tantos alemães brasileiros instruídos votaram em um patético bufão que levou levará o país ao abismo? 

Em primeiro lugar, os alemães tinham brasileiros têm perdido a fé no sistema político da época. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Muitos sentiam sentem raiva das elites tradicionais, cujas políticas tinham têm causado a pior crise econômica na história do país. Buscava-se um novo rosto. Um anti-político promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores de Hitler dele ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas. 

Em segundo lugar, Hitler ele sabia como usar a mídia as redes sociais para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, Hitler ele usava um linguajar simples, espalhava fake news e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Hitler Ele era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. Cada discurso era um espetáculo uma bomba. Diferentemente dos outros políticos, ele foi recebido com aplausos de pé onde quer que fosse, empolgando as multidões. (...)

Em terceiro lugar, muitos alemães brasileiros sentiram que seu país sofria com uma crise moral e Hitler ele prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com a arte moderna e os costumes culturais progressistas que surgiram por volta de 1920 do séc. XXI, época em que as mulheres se tornavam cada vez mais independentes e a comunidade LGBT em Berlim no Brasil começava a ganhar visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem. Os conselheiros de Hitler dele eram todos homens heterossexuais brancos. As mulheres, ele argumentou, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos. Homens inseguros podiam, de vez em quando, quebrar vitrines de lojas, cujos donos eram judeus esquerdistas, para reafirmarem sua masculinidade. 

Em quarto lugar, apesar de Hitler dele fazer declarações ultrajantes – como a de que judeus sem-terras e gays deveriam ser mortos –, muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos alemães que tinham amigos gays ou judeus pobres votaram em Hitler nele, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, Hitler ele poderia ser controlado por conselheiros mais experientes ou ele logo deixaria a política. Afinal, ele precisava de partidos tradicionais para governar. 

Em quinto, Hitler ele ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte com mais frequência e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos pelos petistas bolivarianos e conspiradores comunistas. Os judeus que representavam menos de 1% da população total esquerdistas eram o bode expiatório favorito. Os alemães brasileiros "verdadeiros" não deviam se culpar por nada. Tudo foi embalado em slogans fáceis de lembrar: "Alemanha Brasil acima de tudo", "Renascimento da Alemanha""Um povo, uma nação, um líder." 

Em sexto lugar, as elites logo aderiram a Hitler ele porque ele prometeu  e implementou  um atraente regime clientelista, cleptocrata, que beneficiava grupos de interesses especiais. Os industriais ricos ganharam ganhariam contratos suculentos, que os fizeram faziam ignorar as tendências fascistas de Hitler dele.  

Em sétimo, mesmo antes da eleição de 1932 2018, falar contra Hitler ele tornou-se cada vez mais perigoso. Jovens agressivos, que apoiavam Hitler ele, ameaçavam os oponentes, limitando-se inicialmente ao abuso verbal, mas logo passando para a violência física. Muitos alemães brasileiros que não apoiavam o regime preferiam ficar calados para evitar problemas com os nazistas fascistas. (...) 

“Se soubesse que ele mataria pessoas ou invadiria outros países acabaria com a democracia, eu nunca teria votado nele”, contou-me um amigo da minha família. “Mas como você pode dizer isso, considerando que Hitler ele falou publicamente durante a campanha de enforcar criminosos judeus dar licença para matar e que nada no Brasil se resolveria com o voto?”, perguntei. “Eu achava que ele era pouco mais que um palhaço, um trapaceiro”, minha avó, cujo irmão morreu na guerra, responderia. 

De fato, uma análise mais objetiva mostra que, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os alemães brasileiros caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas da Alemanha em 1932. Brasil em 2018

Diferentemente do que se ouve hoje em dia, Hitler não era um gênio. 

Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade alemã. 

Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. 

O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os alemães porque o povo estava disposto a minimizá-lo. 

Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do partido governista estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. 

Era tarde demais.

Podcast: Ciro tem que subir no palanque<br>do Haddad


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

# civilização ou barbárie



Difícil compreender que decidir pela democracia não deveria ser uma questão de “escolha”.

Assim como apenas votar não significa que se vive uma democracia.

Ocorre que, sob o aspecto formal, o ato de votar é um símbolo da democracia.

E por isso votamos, e por isso cada um, com suas visões de mundo (ideologia) ou seus raciocínios matemáticos – o voto também costuma se medir por cálculos objetivos – escolhe seus “representantes”. 

No Brasil, não à toa, a primeira frase do art. 1º diz que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito.

Logo, não deveria se flertar com a escolha entre viver ou não numa democracia, bem como, a esta altura da humanidade, não se poderia admitir um direito a escolher entre viver em uma sociedade moderna ou medieval.

Claro, há soluções políticas e receitas programáticas para todos os gostos, mais ou menos convenientes às visões de mundo – a "ideologia"  de cada um.

Mas “remédios” não servem como pílulas homeopáticas, placebos ou mandinga.

E por isso exigem seriedade no uso terapêutico, e por isso não se brinca com eles.

Ora, não se escolhe um tarja preta para curar diarreia.

Se o desatino intestinal é incontrolável, há outros meios de curá-lo.

Pela educação, por exemplo.

Aprende-se a comer direito, a ingerir alimentos saudáveis, a beber água, a evitar frituras e comida de plástico, a ouvir sérios conselhos, a ler bons livros, entre outras tantas ações.

Mas nunca um rivotril, um coquetel radioterápico ou uma operação cardiovascular – eles não, eles nunca.

Por mais que se goste – “ah... sou fascinado por uma cirurgiazinha...”, alguém poderia dizer –, isso não se faz porque não dá certo e não funciona, como há muito tempo e por todos os cantos se sabe.

Ao menos para quem admite e quer viver em uma sociedade plural, livre, igual, fraterna e moderna, na qual a bala, o ódio, o preconceito, o racismo, a xenofobia, a misoginia e a intolerância são absolutamente inadmissíveis.

Por quê?

Porque isso deve fazer parte da nossa decência cívica, da nossa incolumidade cidadã e da nossa vivência democrática.

É evidente que há muita gente gostando e ganhando, direta e concretamente, com esta insurreição fascista e o caos.

São os facínoras, cuja viuvez dos anos de chumbo é tratada com saudosismo e orgulho e em cuja órbita social não cabe o "outro". E são os vendilhões do nosso templo republicano, mais ou menos expostos na obstinada busca argentária  e diante desse pessoal toda lógica, todo direito, toda ética e todos os valores morais são absolutamente descartáveis, sendo, pois, impossível se cogitar qualquer reflexão para que possam se convencer do contrário.

E até os entendo, como filosofaria Schopenhauer.

Mas há também muita gente se enganando com o que imagina desejar.

São os antipetistas, classe média que trabalha sob a ojeriza a um grupo político e que pelas ruas e redes do Brasil pensam estar desembarcando na Normandia, combatendo a crise, a corrupção e as coisas todas ("tudo-que-está-aí") deixadas para trás desde 2003, sublimando que o "messias" seja absolutamente incapaz de oferecer uma mísera proposta substantiva para quaisquer dos grandes problemas nacionais (desigualdade, trabalho, saúde, educação, moradia, transporte, economia, saneamento, energia, meio ambiente etc.).

E são os descuidados, batalhadores deixados de lado pelo Estado e que, além de verem limites inexpugnáveis no projeto de inserção e ascensão sociais, também passaram a acreditar no discurso da violência como combatente da violência, ignorando que sob esta lógica eles continuarão a ser "objeto" da violência, como se numa epopeia suicidária agora com a chancela oficial do Governo e o delírio das "pessoas de bem". 

Ambos, assim, acreditam estar escolhendo uma mudança e decidindo pela salvação do país.

Mas não, não estão.

Pelo contrário, estão a sustentar (e a repetir) um grave erro da nossa história, que carcome nossos direitos e garantias e tinge com tinta sombria nosso futuro.

Sem saber, acabam por vibrar e flertar com as trevas de um arquétipo de governo: inventado, armado, enjambrado, com um lado e sem viva alma.

E estão a sucumbir a isso.

Estão admitindo viver à margem da democracia, no fio da navalha do obscurantismo regido pelos interesses prostibulares de uma gente vil, com alarmantes déficits cognitivos e graves desvios éticos.

Estão, assim, a ver a imberbe construção da nossa nação vergar e se acabrunhar, de novo.

E estão a aceitar isso, num rotundo temor servil.

É, portanto, absolutamente perigoso e dramático este momento da nossa República.

E na vida há situações em que se deve firmar uma posição – se como dissera Kafka, num dos seus aforismos, que o ponto a se chegar é o ponto a partir do qual não há mais retrocesso, eis que nele chegamos.

E escolher um lado, posto que não se trata de um maniqueísmo qualquer.

E escolhendo um lado, em circunstâncias como as que hoje, de modo (sur)real, atravessa o Brasil, o convívio com o "diferente" – usarei este eufemismo – é impossível.

Não há, afinal, diálogo com o fascismo e seus adeptos.

Diante disso não há ideias, não há lógica, não há razão, não há coração, não há nada fora da ignorância e da continência.

Nem liberdade, nem direito, nem lei, nem povo, nem justiça, nem amor, nem ordem, nem progresso, nem nada.

Sendo assim, porquanto insustentável o convívio, evitarei aqueles que admitem ou passam a ser condescendentes com práticas para mim tão repugnantes como a tortura e a repressão e tão atrasadas quanto a violência e o militarismo.

Ora, acredito no Estado Social e Democrático de Direito, na Constituição e nas idéias de República e de cidadania.

Acredito nos valores da Declaração Universal dos Direitos do Homem e na construção de uma sociedade moderna, feliz e para todos.

Acredito – para não dizerem que não falei das flores – no combate aos crimes econômicos, financeiros e contra a Administração Pública (sonegação e corrupção, por exemplo), com investigação e punição independentemente do partido ou do sobrenome, como uma das medidas para tornar o país melhor e decente.

E por isso acredito que as trevas, o terror, o autoritarismo e o arbítrio de agora, em nosso quintal e a um palmo dos nossos narizes, precisam ser imediatamente controlados e repugnados, com a mais absoluta veemência.

Afinal, longe de ser papo de poesia, se hoje é com os "esquerdopatas", amanhã será com qualquer um, como exemplarmente revelou a escuridão de 1964 a 1985.

Desse modo, não posso compartilhar e estar na voluntária companhia de quem desacredita a história, de quem apoia ações ao arrepio da Carta Maior, de quem é contra a ordem democrática, de quem faz chiste e graça deste estado de coisas e de quem, apenas por ser "antipetista", admite o caos e um Brasil em cacos, a aceitar ou relevar as ofensivas bárbaras de um ser como – dê-se nome ao boi – Jair, protótipo do mau e caricato político e detentor de uma obtusidade comovente, mas que encanta seus pares ungulados.

Excetuando-se uma pequena parcela que, como em todo lugar do mundo, é realmente fascista – algo humano, demasiadamente humano – e que assim se posiciona mais ou menos dentro do armário, a convulsão nacional nasce da crença de que a corrupção é o maior problema do Brasil, numa ladainha oca e atrasada, cuja ardilosa construção visa a esconder o caráter vital da política e sublimar a "luta de classes", o grande motor das sociedades desde que a Idade Média acabou.

Ocorre que tudo se intensificou: pautas de plástico floresceram, preto acabou amarelo,  jabuti subiu em árvore, moral se tornou direito, focinho virou tomada e assim se chegou a este episódio que nauseia e nos apequena como nação  e claro que a esquerda e o PT têm culpa.

Partido esse que divirjo muito e em muitos aspectos. 

Partido esse, gize-se, que especialmente nos últimos anos antes do Golpe (2016) mereceu as minhas mais severas e pontuais críticas, como sempre expus em artigos, colunas e neste blog, justamente pelo Governo ter se afastado de seus programas e ideais, com muitos erros e desvios inexplicáveis. 

Contudo, está muito claro que agora já não se trata de PT ou de apreço por uma ou outra bandeira de pessoa, partido ou gestão, inclusive porque houve muitas opções reais neste processo eleitoral, para vários gostos e espectros. 

Há sim uma não candidatura muito clara  e, nada paradoxal, muito escura.

Há um Jair no meio do nosso caminho, homem-pedra que não titubeia em ofender e assumir a destruição das regras básicas de uma sociedade moderna e de um país democrático.

Por isso, grite-se, o que está verdadeiramente em jogo é o inabalável respeito aos princípios, aos fundamentos  e aos objetivos contidos na Constituição da República Federativa do Brasil. 


Sendo assim, minha gente, não há escolha, não cabe omissão e nem se aceita isenção.

Logo, até quem sabe outro dia, vou querer apenas a companhia, o afeto, os beijos e os abraços daqueles que partilham comigo desta mesma margem do rio.

Um rio cuja correnteza infelizmente está a levar muita gente para um outro lado, um lado triste e sombrio da nossa história.

Afinal, não mais se trata de política, modelos e cores partidárias.

Trata-se de escolher entre civilização ou barbárie.

E do desejo, lá na frente do tempo, de quando tivermos nossos netos no colo e ouvi-los a perguntar desta época, poder lhes dizer que tudo só foi um susto e um soluço.

E, com o brilho dos olhos de um velho, dizer-lhes com orgulho de que lado aqui estivemos.





terça-feira, 18 de setembro de 2018

# o horror e a carrocinha



Em 2016, às vésperas das eleições dos EUA que deram a vitória ao tio Donald contra a Madame Clinton, o filósofo Slavoj Žižek disse que, entre ambos os horrores, eleger o magnata do showbiz seria menos horrendo (v. aqui).

Os seus argumentos? Era necessário pôr fim à ideia de que "não fazer nada"  e com isso aprofundar o fracasso da política e da sociedade estadunidense  seria pior do que eleger alguém com o "risco" disso, mesmo com as promessas de mudança à direita e eticamente desmoralizantes.

De modo frio e calculista, Žižek dizia que, menos do que apoiar um ser desprezível como Trump, a ideia era se emancipar da política protecionista, elitista e bélica daqueles "democratas" e que tanto mal continuariam fazendo ao povo dos EUA (e ao mundo), e para isso o candidato republicano seria um "mal menor".

Ainda, entendia o filósofo que o modus operandi deste grupo de "republicanos" liderados por Trump, por mais repulsivo que fosse  como, por exemplo, suas ideias xenófobas e seus preconceitos de múltiplas ordens , passaria longe de se traduzir em medidas totalitárias ou restritivas à liberdade do povo americano. 

Bem, agora vamos à nossa realidade.

Urbi et orbi falamos: as semelhanças que há entre Jair (PSL), a mula-sem-cabeça dos patos amarelos, e o Donald são as mesmas que há entre uma mexerica e um alfaiate.

Afora todas as diferenças e distâncias entre ambos que já apresentamos (v. aqui), os riscos que se colocavam à eleição do outsider à presidência dos EUA, em termos de perigo e ameaça à democracia, não poderiam se comparar àqueles existentes com o ex-milico e projeto de fantoche de um "sistema antipovo", uma vez que a complexa trama de instituições políticas e sociais norte-americanas – conquanto bem se saiba como funcionam e a quem atendem – não poderiam ser superadas por rompantes de um boitatá qualquer.

Ocorre que no Brasil pós-golpe a conversa é outra, confirmando-se que tudo é possível, tudo é meio mambembe, tudo parece movediço ou suscetível de cambalhotas, gritos e viradas de mesa antidemocráticas.

No contexto ora em destaque, esse Jair francamente se apresenta como uma ilha mobral rodeada de jagunços verde-oliva por todos os lados e que não exitam em assumir publicamente os limites das suas vontades: um governo à força e uma gestão à fórceps que não cora em propagandear um "autogolpe".

E Jair não esconde este seu gosto e, por não saber e nem entender bulhufas fora da cartilha comportamental da Idade Média que defende, se submeterá in totum à "agenda pinochetiana" imposta pela trupe que lhe afiança a candidatura: fundamentalismo de mercado com repressão social.

Assim, afora o despenhadeiro econômico para o qual seremos empurrados, conforme o funesto modelo colono-neoliberal que será implementado no Brasil sob a batuta do jogador de casino Paulo Guedes e seus crupiês, a realpolitik será ditada com as mãos de ferro e nada invisíveis da galera do Vice Mourão, uma espécie de superlativo daquele juiz paranaense, porém mais sincero e autoritário e que troca gravata por coturnos e caneta por cassetetes.

Em suma, deve restar claro aos incautos e vacilantes brasileiros o seguinte: votar nesta turma toda não significa apenas flertar com o poder das forças armadas, mas assumir que no horizonte não se titubeará em colocar as forças armadas no poder, as quais tirarão do quepe competências e atributos para pôr "ordem e progresso" no país, e dar luz, voz e formalidade a um regime que oficialmente desprezará o estado de direito e a soberania popular, dando lugar a uma tragédia absoluta.

Portanto, se na leitura de Žižek o horror de Trump seria menor do que com Hillary, por aqui não se pode cogitar tal paralelo: seja qual for o adversário do mitológico candidato do PSL, a sua desgraça não alcança nenhum outro concorrente.

A mexerica Jair, portanto, nem nisso se aproxima do falastrão prêt-à-porter yankee.

Afinal, no nosso caso, o sujeito e sua trupe galopam montados sobre alvoroçadas cadelas no cio. 

Aquelas, aquelas cujo nome é fascismo.