terça-feira, 18 de setembro de 2018

# o horror e a carrocinha



Em 2016, às vésperas das eleições dos EUA que deram a vitória ao tio Donald contra a Madame Clinton, o filósofo Slavoj Zizek disse que entre ambos os horrores, eleger o magnata do showbiz seria menos horrendo (v. aqui).

Os seus argumentos? Era necessário pôr fim à ideia de que "não fazer nada"  e com isso aprofundar o fracasso da política e da sociedade  seria pior do que eleger alguém com o "risco" disso, mesmo com as promessas de mudança à direita e eticamente desmoralizantes.

De modo frio e calculista, Zizek dizia que, menos do que apoiar um ser desprezível como Trump, a ideia era se emancipar da política protecionista, elitista e bélica daqueles democratas e que tanto mal continuariam fazendo ao povo estadunidense (e ao mundo), e para isso o candidato republicano seria um "mal menor".

Ainda, entendia o filósofo que o modus operandi deste grupo de "republicanos" liderados por Trump, por mais repulsivo que fosse  como, por exemplo, suas ideias xenófobas e seus preconceitos , passaria longe de se traduzir em medidas totalitárias ou restritivas à liberdade do povo americano. 

Bem, vamos à nossa realidade.

Urbi et orbi falamos: as semelhanças que há entre Jair (PSL), a mula-sem-cabeça dos patos amarelos, e o Donald são as mesmas que há entre uma mexerica e um alfaiate.

Afora todas as diferenças e distâncias entre ambos que já apresentamos (v. aqui), os riscos que se colocavam à eleição do outsider à presidência dos EUA, em termos de perigo e ameaça à democracia, não poderiam se comparar àqueles existentes com o ex-milico e projeto de fantoche da autocracia, uma vez que a complexa trama de instituições políticas e sociais norte-americanas – conquanto bem se saiba como funcionam e a quem atendem – não poderiam ser superadas por rompantes de um boitatá qualquer.

Ocorre que no Brasil pós-golpe confirmou-se que tudo é possível, tudo é meio mambembe, tudo parece movediço ou suscetível de cambalhotas, gritos e viradas de mesa antidemocráticas.

No caso agora em destaque, esse Jair claramente se apresenta como uma ilha mobral rodeada de jagunços verde-oliva por todos os lados e que não exitam em assumir publicamente os limites das suas vontades: um governo à força e uma gestão à fórceps que não cora em propagandear um "autogolpe".

E Jair não esconde este seu gosto e, por não saber e nem entender bolhufas fora da cartilha comportamental da Idade Média que defende, se submeterá in totum à "agenda pinochetiana" imposta pela trupe que lhe afiança a candidatura: fundamentalismo de mercado com repressão social.

Assim, afora o despenhadeiro econômico para o qual seremos empurrados, conforme o funesto modelo colono-neoliberal que será implementado no Brasil sob a batuta do jogador de casino Paulo Guedes e sua gangue, a realpolitik será ditada com as mãos de ferro e nada invisíveis da galera do Vice Mourão, uma espécie de superlativo daquele juiz paranaense, porém mais sincero e autoritário e que troca gravata por coturnos e caneta por canhões.

Em suma, deve restar claro aos incautos e vacilantes brasileiros: votar nesta turma toda não significa apenas flertar com o poder das forças armadas, mas assumir que no horizonte não se titubeará em colocar as forças armadas no poder, as quais tirarão do quepe competências e atributos para pôr "ordem e progresso" no país, e dar luz, voz e formalidade a um regime que oficialmente desprezará o estado de direito e a soberania popular, o que dará lugar a uma tragédia absoluta.

Portanto, se na leitura de Zizek o horror de Trump seria menor do que com Hillary, por aqui não se pode cogitar tal comparação: seja qual for o adversário do mitológico candidato do PSL, a sua desgraça não alcança nenhum outro concorrente.

A mexerica Jair, portanto, nem nisso se aproxima do falastrão prêt-à-porter yankee.

Afinal, no nosso caso, o sujeito e sua trupe galopam montados sobre alvoroçadas cadelas no cio. 

Aquelas, de nome fascismo.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

# fiat lux


Uma das versões de um conto da mitologia grega narra Zeus, injuriado com Prometeu – porque esse roubara o fogo dos deuses para dar aos homens , mandando entregar a Pandora, a primeira mulher e cujo único defeito era a curiosidade, uma perigosa caixa contendo todos os males do mundo, com uma única recomendação: nunca abrir.

Mas é claro que lá pelas tantas ela acabou abrindo, fazendo com que saísse todas as desgraças mundanas: pecados, doenças, vícios etc.

Eis a "caixa de Pandora".

Aproprio-me da lenda a fim de lembrar a frase que talvez simbolizará para a história as eleições de 2018, proferida pelo grande brasileiro Ciro Gomes: "é preciso pôr o Ministério Público e o Judiciário de volta nas suas caixinhas".

É claro que não se pode ver em ambos a fonte de todos os males, nem tão-pouco considerá-los uma desgraça e si.

O problema, portanto, está no papel que hoje inventaram ter e nas funções que se adonaram, bem representados, por exemplo, no modus operandi da "Lava Jato" e na frase de um dos ministros do STF: "iremos refundar a República!".

"Iremos" quem, cara-pálida?

Sem qualquer mandato e sem a menor atribuição para tal este dueto, crê-se ungido pela água batismal do Rio Jordão e insiste em desenhar um Estado e um Direito à la carte para diretamente resolver os desígnios político-eleitorais de um povo, como fruto do descrédito do Legislativo e da acefalia do Executivo pós-golpe.

Assim, se no Brasil houve o voto censitário, aberto, bipartidário, de cabresto, por procuração, por testemunha... agora há o "voto tabelado", aquele que depende da moral, da convicção ou do gosto de meia dúzia de cidadãos concursados ou togados, os quais acusam, desculpam, soltam e prendem em estrita observância ao calendário e às campanhas eleitorais.

E esta lógica que depende do apetite da dupla revolucionária tupiniquim avacalha o pleito e torna absolutamente anormal o já desgastado processo democrático brasileiro – e desta vez como nunca antes na história pós-ditadura, pois agora se vê manipulado o
 sistema representativo de democracia não apenas pelo processo econômico ("dinheiro"), mas também pelo processo judicial ("caneta"). 

Desde a sua cogitação, manifestei-me contra a tal da "ficha limpa", um dos braços-fins de atuação do consórcio travestido de bastião refundador da República, como se fosse um poder constituinte moderador.

Ora, a quem cabe definir quem pode ou não ser eleito, respeitando-se a ordem constitucional, é o povo soberano.

A ele cabe, nas urnas, vetar ou não alguém, e não um regramento judicial pouco objetivo e baseado em ações e decisões que funcionam na base da conveniência.

O que deve ficar claro é que não é a meninada do Ministério Público, tão-pouco os iluminados da Idade Média do Judiciário que devem definir quem pode ou não pode ser candidato, como se competentes para fazer uma "triagem" de quem a população pode gostar ou não.

Ao se tentar sopesar os princípios constitucionais, a diretriz da moralidade não pode sobrepor-se à soberania popular que, embora não-absoluta, não pode admitir restrições injustificáveis ao direito político fundamental de elegibilidade como a que fora estabelecida em tal lei 
 que, vejam só, nasce de iniciativa popular.

É ao povo que cabe errar e acertar, confiar ou duvidar, se animar ou se frustrar, nos limites que a lei imporá às propagandas e às verdades das candidaturas postas. E é a partir dessas escolhas feitas que o povo irá se iludir, se arrepender e se orgulhar. 


Se o povo quer eleger seus betos richas, seus platelmintos ou seus facínoras e caricaturas de adoração, ele tem todo esse direito, não sendo legítimo submeter o ato de eleger alguém às plumas e paetês de uma caneta jurisdicional lastreada em processos mal-acabados e inacabados  lembre-se que no Brasil "segunda instância" não significa "trânsito em julgado"  e que culmina na invasão de espaços de cidadania e, insista-se, na moralização do voto.

E cabe à sociedade, neste contexto, dedicar-se para que esta sua gente saiba os porquês das suas escolhas e as consequências delas, aprendendo com isso e reconhecendo a formação das suas visões de mundo e do processo ideológico que lhe dá sustentação e que carece de explicação. 

Afinal, lembremos com Chomsky: "a população em geral não sabe o que está acontecendo e nem sequer sabem que não sabe".

Logo, cabe a sociedade, por meio de um processo educacional amplo e transformador (v. aqui) e mediante um sistema de comunicação efetivamente público, tal qual prescreve a Constituição, ensinar e informar à população as relações de causa e consequência, a verdade de atos e fatos e os interesses e os prejuízos em jogo. 

Cabe dar os instrumentos necessários para que a população compreenda porque escolhe fulanos e não beltranos; cabe fazer refletir sobre como funcionam as coisas, sobre os donos do poder e sobre a luta de classes, o eterno motor da história.

E não restringir ainda mais o modelo representativo, na base de uma "pré-seleção" feita pelo Poder Judiciário que bloqueia a democracia em nome de uma construção pseudomoralizadora da política, como se possível fosse querer a perfeição ou encontrar em candidatos a quadratura do círculo.

Pior, ao lado da tal "ficha limpa" vê-se medidas espalhafatosas de um Ministério Público associado aos holofotes midiáticos, cujas ações são cronometricamente estabelecidas vis-à-vis ao processo eleitoral, mais uma vez judicializando-se a política. 

E por isso, tão importante quanto devolver o MP e o Judiciários para as suas respectivas caixas de atribuições e competências, é a necessidade de recrudescer e criar mecanismos efetivos de controle das suas ações fora-da-caixa, evitando que continuem a transitar num mundo marvel de superpoderes.

Uma das medidas mais notáveis estaria na modificação da composição, funções e razões de ser do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público, instituições criadas em 2004, mas que, apesar dos propósitos constitucionais ("controle da atuação administrativa e financeira" da respectiva instituição-poder e "cumprimento dos deveres funcionais" dos respectivos agentes políticos"), ainda não dispõem dos "dentes" necessários para fazer valer as suas existências, ainda amarradas no formalismo, no corporativismo e na atuação em pontos marginais das vidas ministerial e judicial.

Outras, como mandatos fixos para membros das cortes superiores, nova metodologia dos "quintos" constitucionais e alterações em aspectos das Leis Orgânicas da Magistratura e do Ministério Público, como relacionadas às sanções e ao ingresso de seus membros, são também bem-vindas.

Ademais, é por essas veredas que também se tem a ideia de transformação de um Direito que dialogue com a heresia e a utopia para a reconstrução de uma nova matriz prático-metodológica, de modo a não perpetuar a mediocridade sufocante encarnada nos "homens da lei".

E, com ela, o advento de uma nova cultura jurídica que aproxime a justiça da cidadania e da democracia.


Sem a degeneração moral e intelectual de magistrados (v. aqui) e promotores (v. aqui) que atuam medusicamente atraídos pelos holofotes da mídia e do poder, agora verdadeiramente conscientes e responsabilizados pelos seus papéis num ambiente limitado e sustentado pelo estado democrático de direito.

Sem as relações feudais que envolvem os grandes escritórios de advocacia e os membros do sistema judiciário, agora desmercantilizando o método e o resultado das ações judiciais.


Sem a ação e a produção interpretativa que se afasta do quadro e do espírito normativos, agora repotencializando os ideais impessoal e democrático dos marcos jurídicos.


Sem a deficiência conveniente do Poder Judiciário que se sustenta na lentidão de um processo medieval e na distância de um sistema nobilíssimo, agora reformando a prática e o palco de aplicação do Direito.


Sem os véus e salamaleques que registram a formação enciclopédica e escolástica de seus fidalgos em regra ignorantes, insensíveis, neutros como um sabão em pó e que vivem a léguas da conjuntura e da história nacional, agora revelando a realidade brasileira nos bancos das faculdades, pluralizando-as radicalmente, de modo a formar cabeças verdadeiramente conscientes e independentes.


Sem o oco dos imperativos constitucionais de papéis que criam sombras de direitos fundamentais e amarras heterogêneas de realização, agora reconstruindo alternativas ao Direito, com novos conceitos e atores (e movimentos) sociais capazes de produzir novas fontes para a própria libertação sob a perspectiva dos grandes e intocáveis conflitos nacionais.


A onipotência institucional, o estelionato corporativo, a picaretagem científica, a midiatização funcional e a insipidez e o distanciamento social são os grandes enfrentamentos perante os quais a comunidade política, para a reconstrução do Estado Democrático de Direito e a realização da Justiça, não pode tergiversar.


Portanto, além de transformar, é necessário trazer MP e Judiciário para as suas caixas republicanas e assim apagar seus males e fogos, nesta espécie de "sexto círculo" do Inferno dantesco no qual a nossa sociedade está a queimar, já que esta parece insistir na heresia de não reconhecer naquelas autoridades políticas a figura de deuses. 

Deuses, porém, que não sabem que fora da política e de uma democracia viva e emancipadora inexiste salvação civilizacional.

E luz.


P. S. Pandora, ao ver o erro que cometera e crendo que tudo estaria consumado, decide por reabrir a sua caixa para então perceber que no fundo dela havia, vejam só, a "esperança"... esta que seria um prolongamento do suplício, segundo Nietzsche, ou um hábito da alma bem-aventurada, como queria Santo Agostinho?


terça-feira, 17 de julho de 2018

# a unicórnio



Se um platelminto, além de nada palatável para os holofotes da vênus platinada e o bom-mocismo da massa isenta de plantão, deve derreter tão-logo seja exposto à luz do sol (ou não, v. aqui), outro personagem precisa entrar na história.

Sim, eis que desiberna e surge pelo Brasil  como um cometa que de quatro em quatro anos aparece dizendo trazer a boa-nova  Fada Verde, a nossa Madre Tereza da Amazônia, a gloriosa Marina Silva.

Dantes uma eco-fundamentalista xiita e hoje o proto-objeto de consumo da turma que faz dela a evolução da espécie (a)política, Marina anuncia, como sempre, “ser-contra-tudo-isso-que-aí-está”.

E para múltiplos delírios da plateia, ela chega toda mitológica, com um sorriso franciscano e ares de um dócil mico-leão dourado.

Se antes Marina saiu do PT (e do Governo) para não entrar na história, a cada momento eleitoral ela assim faz: salta do alto da montanha para dar rasantes cheios de sabedoria e, com a força dos ventos uivantes, é carregada para junto sabe-se bem de quem e do quê.

Eternamente raivosa pelo fato de Lula tê-la preterido como candidata presidencial de 2010, Marina entrega-se de corpo e alma à tarefa de sempre ressurgir do nada, ressair do ostracismo e resplandecer para as luzes globais como "a" candidata  mesmo que isso signifique, como em 2014, perder no seu próprio quintal, o Acre.

Sabe-se, claro, que no Brasil os "verdes" nunca federam e nem cheiraram o orgânico sabor de um partido ideológico e independente.

Mesmo assim, Marina há anos debandou do PV e criou um novo partido, uma REDE que pesca indecisos, andróginos e pirilampos da política alternativa e sem cor – atributos ignorados, claro, quando quis escancaradamente apoiar Aécio Neves na última eleição.

Ora, nestes nossos tempos, tipos como os ex-verdes olorizam-se pelo aroma prosecco das cheias taças que desfilam sobre as mesas e rodas de networking, sob o distintivo de se fazer algo "diferente", tal qual pregam e buzinam as pessoas-descolada-e-cansadas-e-do-bem-que-querem-fazer-política-mas-sem-dizer-que-é-política do "Agora!", como se viventes n´A Vila do M. Night Shyamalan.

E desta cepa, como indefectível fruto, brota Marina Silva como a herdeira única do trono político-episcopal.

Marina, a reboque da grande mídia, que por sua vez é a porta-voz dos grandes interesses econômicos e da ignorância da classe média, flerta com uma meta: aliar-se aos golpistas e, numa hipótese de vácuo, fulminar a centro-esquerda e assumir o atentado como um "recado divino", sendo ela, claro, a salvadora.

Marina, antes defensora de índios, boitatá e pirarucus e da política evangelista – e não da evangelização na política –, quer se tornar a maior esperança da cavalaria anti-esquerda e consigo carregar várias das políticas mais atrasadas e reacionárias do mundo político.

Marina, com o mote de sair-se bem aos olhos do povo, nega a política, pretendendo que se despolitize a política – e, assim, cai no gosto populesco com as teses do mundo privado, privatista e não-governamental, de fácil deglutição.

Marina, catapultada como a grande herdeira de um espólio mítico, acalanta os interesses de quem quer ver um holograma no comando do Estado, exibindo-se como a profética madrinha capaz de convencer a "isentolândia" de que o novo mundo chegou.

Marina, sob a cantilena da "terceira via", veste um capuz mágico para iludir que há outro caminho além da direita ou da esquerda, num blá-blá-blá turvo, volúvel e vazio.

Marina não tem visão estrutural, não tem disposição para transformações institucionais e não tem traços, nem atitudes e nem história para enfrentamento dos interesses dominantes.

Marina, meus caros, embora com um passado que não a faça ser de direita, é apenas mais uma destas figuras que se tornaram da direita.

Sim, depois do golpe exumado, a ex-chapeuzinho verde posa-se como capaz de “legitimar” os interesses (conservadores) daqueles que fingem não ter invadido o Planalto e assaltado o poder no processo de "impeachment".

Ocorre que o buraco é mais embaixo.

Ora, independentemente da carga trágica que carrega, votar no bloco PSDB-PMDB é votar em teses, teorias e ideologia concretas; é votar em algo fisicamente possível, em algo quântico, quantificável, possível de ser selado, registrado e carimbado, por mais que o voo seja restrito só para as primeiras classes.

Sim, no plano da política e da conformação estatal, estes partidos e suas extensões existem, as suas vontades e ações são pertinentes e coerentes com os seus interesses  e os seus interesses, por sua vez, não se escondem e nem se dissimulam na demagogia existencial.

E tudo isso porque se fala de "política", e não de religião, na qual crer no metafísico ou na fé movedora de montanhas não permite discussão sobre razões ou porquês.

E tudo isso porque se fala de "projeto político", e não de ficção científica, na qual o imaginário, o impossível e o inverossímil seriam naturais e funcionais.

Portanto, o voto tucano está numa dimensão real e humana, razão pela qual os seus ex-eleitores não precisam fugir da raia para se esconder na obnubilação alheia.

Ao contrário, votar em Marina Silva é entressonhar um mundo de fantasia.

Porém, não da fantasia utópica, horizonte de todas as ideias e ações revolucionárias e eterno destino em construção para o engrandecimento humano  é, sim, o mundo da fantasia como aquele arquétipo jungiano.

Assim, nesta miragem mais ou menos inconsciente, Marina passa a servir como uma unicórnio de Troia, a travestir os farrapos da trupe neoliberal  a mesma que atravessou a "ponte para as trevas" e chegou ao castelo Temer para dar as cartas e agora se entranhar nas candidaturas zumbis da direita brasileira –, mas com uma larga dose de "açúcar" que edulcora o caldo conservador

É então nesta fúnebre alquimia que cria uma candidata sobre-humana, a qual satisfará "indecisos" na “escolha” que serão obrigadas a fazer, fingindo .

Marina, com o seu jeito vaga-lume de ser, diz, desdiz, contradiz e rediz coisas, as mesmas coisas, a todo instante e sobre variados temas, numa metamorfose anódina e histriônica: é a favor do golpe, mas é contra os que dão o golpe; quer um Banco Central independente, e ao mesmo tempo quer a soberania econômico-financeira nacional; não aceitava, mas também não recusava, doações de empresas de bebida, de tabaco e de agrotóxicos; é contra as políticas de direitos de homossexuais, mas ao mesmo tempo é contra a discriminação de orientação sexual; não quis que o país despencasse no abismo, mas fugiu e não foi capaz de dar uma mão para segurá-lo; não é a favor e nem contra os transgênicos, nem quer e nem desquer a reforma agrária; ama piracemas e não quer odiar as grandes hidrelétricas, come puritanismo e eructa mineirinhos; apoia e desapoia as lutas no campo, enaltece e constrange o sistema financeiro, acaricia e sufoca o monopólio midiático...

Marina Silva, enfim, cai do céu para vagar numa onda espiritual que prometerá um conto de fadas sob a ideia de reino encantado e celestial que, porém, só cabe para se discutir e pensar ficção, como se uma novela fosse.

Mas dela poderão fazer justamente a mocinha, a namoradinha do gigante adormecido.

Plim-plim. 


Toda a Oropa, França & Bahia também já havia entendido o que tem de "novo" na política da nossa unicórnio

sexta-feira, 29 de junho de 2018

# um platelminto



Desde que no horizonte eleitoral de 2018 apareceu um candidato da ultradireita, neomedieval, fanfarrão, de rasa cognição e ululante despreparo chamado Jair Bolsonaro, digo: "senta que o bicho é manso!". 

Ainda que sob o risco de antecipar projeções políticas, futurologia estranha à ciência política, talvez com um certo exagero comparava as suas chances com a de um ornitorrinco de gravata e gestos histriônicos – e os argumentos eram vários

De cara, deveria ficar claro que ele não seria o esperado outsider, uma versão "doriana" que preencheu de sorrisos matinais as casas paulistas de 2016 ou do "homem laranja" daqueles sonhos yankees de dois anos atrás

Apenas a título de exemplo, senão na postura boquirrota repleta de "frases feitas (e falsas)", as semelhanças entre Jair e Donald Trump são as mesmas que há entre um esqui e uma mexerica: enquanto Trump é o clássico forasteiro ("apolítico", magnata, showman bon vivant, articulado e com fama de "gestor"), Jair não passa de um ex-militar de patente rasa que há trinta anos vive na caverna parlamentar como um tosco e folclórico deputado. 

E mais: sem nenhuma articulação política (isolado num partido escurril), sem qualquer espaço no "mercado" (absolutamente estranho à filosofia dos valores da tal livre iniciativa) e sem apoio popular de massa (está restrito a certos grupos fragmentados), seria praticamente impossível sustentar uma candidatura deste porte.

E havia ainda outras tantas razões: a sua posição ali era apenas momentânea, enquanto interessasse para a direita tradicional tê-lo como o tal bode na sala; todo o barulho em torno do seu nome era virtual, criado do teclado de navegantes ou da massa de robôs da internet; a fundação moral brasileira não era historicamente tão desesperançada (e cretina) a ponto de  ter milhões interessados em entregar a nação para alguém com um perfil assim etc. 

Ademais, para além disso, nenhum dos "motivos" que iludiam o potencial de eleitores desta candidatura sobreviveriam com o início das campanhas e dos debates. 

Afinal, no curto prazo  isto é, além da instantaneidade das redes sociais  é avassalador o poder de autodestruição de Jair ao abrir a boca e tentar falar sério sobre algo sério. 

Ao se expor à luz, fora do seu habitat, em poucos minutos se revela que não é a figura ilibada que se autoproclamava, que não é alguém diferente no universo das práticas políticas, que não tem qualquer projeto real relacionado à violência e à segurança pública, que não tem qualquer proposta adulta em saúde e educação e que não tem qualquer noção da realidade brasileira, particularmente a socioeconômica e a administrativa. 

Depois, esta fragilidade é tamanha que em segundos a grande mídia pode destruí-lo, pondo a nu a sua falta de ética na atividade parlamentar, a sua espumante ignorância e o seu pleno desconhecimento de todos os assuntos de interesse nacional... tudo, obviamente, em prol do real candidato da direita que, muito em breve, iria aparecer. 

Logo, largado no asfalto, lhe sobraria de lastro eleitoral três pequenos grupos: (i) os órfãos do regime militar, representados pelos instintos odiosos e fascista da extrema direita e pela cognição binária das "pessoas de bem", (ii) os suicidários da República, um grupo cuja ideia é pôr uma bomba que exploda o país e ver "o circo pegar fogo" e (iii) o público mais ou menos jovial que mistura a frustração de uma vida vã com a curtição pela zoação com memes, zaps e gritos de "mito", que se conforta na futebolização da política e que se identifica com a estética pop do antipoliticamente correto, sob um viés torto de "estar transgredindo" – mas que talvez não perceba que boa parte desta onda que surfa e curte é ilegal, imoral e apenas engorda a cadela sempre no cio do fascismo. 

E isso tudo somado não daria 15% de votos.

Em suma, sempre vi no Jair uma versão facebook de um Enéas fardado e desbarbado, com mais votos, menos cérebro e os mesmos quinze segundos de fama que, por todo o contexto, não o levariam a lugar algum. 

Mas acontece que estamos em meados de julho (!) e o tal cavaleiro andante da direita real que levaria à glória, entre outros, os anseios do centro liberal  não apareceu.  

Ninguém do eixo PSDB-DEM-PMDB emplacou  uma vez que os efeitos do golpe estão marcados a ferro nas suas testas e projetos , nenhum outsider nasceu com vida e, como o tempo já está curto demais para se criar um "fato" que adie as eleições, em outubro a esquerda praticamente não veria concorrência nas urnas. 

Diante disso, qual seria a saída em desespero da direita, do consórcio formado pelos "lavajatinos" e pelo "mercado" (do campo, da cidade, das finanças e do exterior), carregados pela Globo e intermediados pelos 300 de Cunha (o centrão sem pudores do Congresso e da base aliada do governo) e que não empurraram o Brasil para o caos à toa?

Elementar, meus caros.

A pauta moralista dos primeiros e os grandes interesses dos demais parecem não ter (e nem procurar) outra saída senão se segurar no sujeito-estepe que restou  e que eles mesmos pariram , já que o ódio de classe e a agenda conservadora jamais lhes permitiriam seguir uma candidatura de centro-esquerda (embora aqui tivéssemos apresentado uma pequena fenda de possibilidade).

Nesta toada, a justiça de araque nascida da Lava Jato se manteria viva e dissimulada para, entre outros propósitos, promover a sua autoridade inatacável (e truculenta)  que transfere o direito, ciência da lei, para a moral, pauta dos homens  e os anseios corporativistas da sua gente, tutelando a agenda antirrepublicana do Judiciário (STF et caterva) e do Ministério Público.

Por sua vez, a massa amarela das passeatas em louvor a Moro (outro "mito") e à "luta-contra-um-tipo-de-corrupção" também engoliria a opção que restou, tanto de forma voluntária, como de modo entubado-lobotomizado.

O primeiro grupo iria com o orgulho antilulistaanticomunista antiesquerdista na veia, refletido em qualquer ser vivo com chance de enterrar aqueles que querem impor um bolchevismo tupiniquim e deixar a nossa bandeira vermelha.

O segundo grupo seria induzido pelo conto do cabresto moderno ou pelo canto medúsico da mídia, respectivamente sob duas forças.

Pelos 300 de Cunha  as mãos do dinheiro , que comodamente levariam o nome ungido para seus fiéis currais eleitorais interioranos, afinal, se trata de uma legião de mercenários transitando em partidos fisiológicos que desembarcaria em qualquer campanha conservadora que mais frutos rendesse  são as perspectivas do poder em jogo , sempre a misturar religião e benesses com a política de ocasião.

E, principalmente, por ela, as Organizações Globo  a voz do dinheiro , que tudo topa para manter seu monopólio, a qual promoveria país afora a "não campanha" mais acampada possível, assentada sobre um terreno sempre fértil aos históricos interesses que defende, fantasiando-se de "isenta" e abrindo caminho para o Minoasinus sair do seu labirinto e ocupar a cabeça dos "neutros" de plantão.

E o "mercado"? 

Ora, ele sempre só quer grana, é claro. 

E mais, nestes tempos de rentismo, refluxos sociais e recolonização, ele está ainda mais longe de qualquer apreço por democracia e de querer um Presidente real.

Ao contrário, quer alguém fraco, parvo e sabujo para pôr no bolso – e é este exatamente o caso, como se ao candidato dissesse: "dá-me a economia e dar-te-ei a glória".

E a glória viria a galope, na corrida quadrúpede de um cavalo a ser montado pelos cavaleiros de Chicago.

Ou seja, almeja-se concretizado o revival de uma versão pinochetiana de Estado.

Nele, permite-se ao capital financeiro e às grandes corporações (especialmente internacionais) darem incondicionalmente as cartas e livremente se ocuparem deste mix de massa falida com faroeste que se tornou o país, enquanto a "presidência" tutela costumes e comportamentos, sob pautas esdrúxulas e medievas.

Nele, submetem a nação a um longo pesadelo cuja realidade conjugará versões redivivas de fascismo e neoliberalismo, enterrando os propósitos de soberania, desenvolvimento e estado democrático de direito.

Portanto, a poucos meses do registro de candidaturas à Justiça Eleitoral e do início da propaganda eleitoral nas ruas e na internet, parece que do lado de lá somente resta uma peça no tabuleiro.

E esta peça poderá reunir ungulados, múmias, motosserras, coxas, crentes, cretinos, olavos, otários, imberbes, arianos, bandalhos, biltres, yankees, youtubers, tucanos-marinhos e todo o country club nacional, numa diabólica aliança para conjurar o campo progressista e o que nos resta de sanidade e democracia.

Eis o ponto a que chegamos, senhoras e senhores: estaria a esquerda disputando o destino do Brasil com um platelminto?

Bem, no creo en brujas, pero...


sexta-feira, 20 de abril de 2018

# milhões de palavras





Uma das imagens mais icônicas do golpe e do ambiente tirânico do sistema de justiça que desintegra o estado brasileiro e nos mantém atolados no abismo social.

Uma das imagens definitivas para ilustrar do que toda essa gente que deu corpo e asas ao processo de ruptura democrática é feita: vilania, soberba, desprezo e ignorância.

Trata-se de Leonardo Boff, senhoras e senhores, um dos cinco maiores brasileiros vivos (v. aqui), sentado com sua bengala à portaria da Polícia Federal em Curitiba, enquanto aguardava o aviso de uma beócia togada que iria proibi-lo de visitar seu amigo-irmão.

Que tristeza, minha gente.




sexta-feira, 13 de abril de 2018

# lava de chumbo



Esses dias deparei-me com um texto escrito por Osho, de quem acho nunca ter ouvido falar.

Fala de solidão, de solitude e do singular momento a sós...

Descobri este tal "vazio" vagando pela Europa, no meu particular camino santiagués, em profundos setenta e tal dias a rodar da Ibéria às profundezas do Leste, da Escandinávia aos confins do Adriático, com o centro do velho mundo como eixo e a busca do meu novo centro como meta.

Peregrino, senti ultrapassar os limites da "solitude" de Osho; lá, uma solidão sem fim abria espaço para tudo e, perigosa, levava à torrente intensa de ideias, teses, dogmas e sentimentos que faziam aprofundar ainda mais num espaço sem fim.

Tem-se uma verdade: como nunca se pode, são nestas situações que nos pervertermos para abrir os olhos e (se) ver, e (se) enxergar, e (se) reparar. 

E se intocável, vagueava até tatear numa realidade cada vez mais clara, num cheiro cego de quem ali só escutava o buraco meio misantropo de línguas que vinham a toda hora diferentes: o húngaro do diabo, o polonês da wodka, o inglês do pravda, o embrulho do croata, o grito da sicília e o sueco de um mundo que um dia há de vir – e que assim seja (amém...).

Sê!, adverte.

E deixa-me notar algo de muito errado no ar.

Ar rarefeito, sublinhe-se.

E que aspirado por quem não era, traz o arrebatador efeito de compreender que a ordem das nossas coisas merece um novo arranjo.

Merece a desordem para ser reconstruída à imagem e à semelhança de tudo o que é mais justo neste nonsense mar que permanece dividido, diluído, morto.

Antes da solidão, enquanto ainda se está apenas sozinho, embrulha-se num estômago de inquietações que se faz sentir sem mentir, que se sente permitir levar-se adiante como se aquilo tudo não fosse com você, e como se dissimular para todo o exército que se forma diante do espelho fosse a resoluta salvação.

Não, não te resolve.

Não, você não consegue não se ver.

E mais.

As emas que em volta emanam e borbulham aos borbotões, reclusas com suas cabeças mergulhadas em outro planeta, não te podem convencer de que a ótica é outra, de que o-seu-ponto-de-vista-não-tem-a-vista-verídica e de que as viscosas e grossas vistas de quem finge não querer ver compõem o melhor remédio da terra.

E, naquele infindo tempo de isolação, você simplesmente percebe que lá atrás dele e de todas as sete cores daquela turva imensidão está, enfim, o pote de colírio.

Mas, sem calma, não se permita o mínimo resfôlego.

É que a sina solitária finge-se para não se mostrar que ali se está só no começo.

Sempre, sempre no começo, a te levar só para eternos recomeços que te fazem sempre querer voltar ao zero, à vala vazia, àquela avara estaca do status quo ante, ao estado que te mantém no falso estado que te alivia para te alienar na pureza da inércia, do cômodo, do morno engodo vomitado pelas letras cartesianas da lei, da moral e dos bons costumes que por toda a vida te desencaminharam.

Esta é a promessa, esta é a jura da existência.

E por isso o privilégio por encontrar a gota d´água da cola mágica que sempre prometeram jamais existir.

Sim, sozinho e na poética vágada da solidão, se descobre melhor o mundo.

Único, como um álbum de figurinhas que de criança quase desisti: custoso, incerto, demorado e difícil, mas que completei e que para sempre ficará comigo guardado.

Como ficarão, espero, as lições aprendidas daquela minha silenciosa peregrinação.

Todas bem emaranhadas, apreendidas no labirinto da alma.